Reedição de seus poemas foi organizada pela prof. Maria Eugenia
Boaventura
RÉGIS BONVICINO
Especial para o Estado
Mário Faustino um
dos mitos secretos da poesia brasileira nasceu em 1930, em Teresina, e
morreu, num desastre aéreo, em 1962. Residiu em Belém do Pará, onde se formou
intelectualmente, e mudou-se, nos anos 50, para o Rio de Janeiro, onde faria história,
como poeta, crítico e jornalista na condição de editor da lendária página
Poesia-Experiência do Jornal do Brasil (1956/1959).
Publicou um único livro em
vida, intitulado O Homem e Sua Hora, em 1955, pela editora Livros de Portugal (RJ), que,
agora, se reedita, com organização de Maria Eugenia Boaventura, com o acréscimo dos
mesmos poemas dispersos, como nas edições anteriores, mas com outra ordenação, e
alguns inéditos, num dos lançamentos recentes mais importantes.
A organizadora optou por
deixar para outro volume, ao contrário do que fez Benedito Nunes (Poesia Completa/Poesia
Traduzida, Max Limonad, 1985), textos que Mário traduziu, o que, a meu ver, embora
empreste maior nitidez à sua produção estrito senso, retira-lhe fontes e diálogos e
lhe confere, digamos, certa parcialidade uma vez que o tradutor excedia-se e transformava
as traduções em verdadeiros originais. Há outros pequenos reparos que se podem fazer à
organização, como o de titular peças que Faustino deixou sem título, como Soneto
Marginal (ressuscitado pelo embate da ressaca). Estampa-se, neste novo volume,
um texto inédito de Nunes, A Poesia de Meu Amigo Mário, onde o excepcional ensaísta
paraense, entre outros pontos, compara a versão publicada em 1955 do poema Vida Toda
Linguagem com o seu rascunho, dado, pela primeira vez, a público em livro num jogo
fascinante de interpretação e fixação da poética faustiniana: ... Trata-se de
uma metáfora expansiva tanto do poema quanto do poeta: aquele é um todo vivo, orgânico,
produzindo-se por transfusão da vida em linguagem, ou ... a poesia como
linguagem menos discursiva possível, que apresenta em vez de representar o objeto, e a
esse título constituísse uma forma de experiência e de conhecimento da
realidade....
Vida breve, arte longa.
Relendo os poemas e refletindo sobre fatos trazidos à tona por Boaventura em sua nota
introdutória (...a constante disponibilidade para recomeçar, sem levar em conta as
dificuldades circunstanciais, e a vontade de ampliar o horizonte intelectual são a marca
do percurso faustiniano...), ocorre-me dizer que Faustino foi quase uma espécie de
Rimbaud, não só pela coincidência homossexual como pela precocidade de suas qualidades
e inovações e pela precocidade com que se desencantou da própria poesia e da atividade
crítica (muito contundente para o País, o que talvez lhe tenha retirado espaços por
aqui), buscando novas searas, como a de funcionário da ONU, por ocasião de sua morte, na
queda de um avião nos Andes peruanos.
Contrastes A
peça Prefácio, que inaugura O Homem e Sua Hora, já traz, em seu verso final, a sina de
vida breve: ... Quem fez esta manhã fê-la por ser / Um raio a fecundá-la, não
por lívida / Ausência sem pecado e fê-la ter / Em si princípio e fim: ter entre aurora
/ E meio-dia um homem e sua hora. Faustino não passou do meio-dia da existência e
assim mesmo deixou, não em extensão, um dos melhores conjuntos de poemas escrito na
segunda metade do século 20. Peças antidiscursivas mas carregadas de maestria verbal e
pensamento. Poética de contrastes, de amor e morte: ... Dize a eles que tombam /
como chuvas de sêmen sobre campos de sal / sem mancha, mas terríveis / que desçam sobre
a urna deste olvido / e engendrem rosas rubras.... O paradoxo de sêmen e sal.
É a técnica da concórdia
discor de que fala Nunes, ou seja, não representar a vida por meio de palavras mas
apresentá-la, explicitá-la em sua ambigüidade e fugacidade e, simultaneamente, em sua
concretude possível. Leia-se: ... O saltimbanco, / Mirando-se nas poças, rejubila.
/ E ressoa na flauta de anteontem / O repouso de um pântano.... Ou ainda como no
poema Mito: ... O Fazedor anula / o inferno que o refina.... Há diálogos
evidentes de Faustino com Fernando Pessoa e, no caso, também pela coincidência
homossexual, como Mário de Sá-Carneiro: ... E ninguém fere a lira e as palavras
que acordo / Marcham turvas, sem som, rumo à cova do olvido. Dodecassílabos ambos
os versos, imageticamente vinculados ao futurismo-simbolismo dos portugueses.
No presente volume,
organizado por Boaventura, as peças coletadas em Fragmentos de uma obra em progresso
(1958/1962) que são as partes do longo poema que Faustino queria escrever à base
do Orfeu, de Jorge Lima, e de Os Cantos, de Ezra Pound seu principal modelo de
atuação poética já revelam, em relação a O Homem e Sua Hora, maior
despojamento e concisão e um apuro no jogo entre arcaico e coetâneo, evidentemente sob o
impacto do movimento da poesia concreta, com o qual embora não tenha expressamente
aderido dialogou com franqueza, numa troca, que enriqueceu os dois lados. Sem abandonar o
caráter barroco de sua poesia, concordância discordante, e sua exuberância léxica,
Faustino torna-se mais seco e mais desencantado, ainda. Num fragmento que se inicia
Trabalha: / Bela cabeça... medita sobre as possibilidades e necessidade da
poesia, num Brasil que se vai industrializando, sob o pretexto de retratar uma baía e
seus movimentos de navio: ... a vela no cabo ao longe / (...) / evidente na terra
longe / promontório apontado para / o futuro de todos os homens.... Na estrofe
seguinte, aprofunda o contraste entre o presente e o passado: Sobre filões de ouro
as proas / sepultando o passado ..., para se apresentar ele mesmo poeta numa
metáfora como um pavão e afirmar: algures num jardim nalguma noite existem
/ pavões ainda / solitários passeiam / altivos param / diante do resto: um só espelho,
o resto / do mundo/ refletindo um pavão e seu absurdo. Aí está feita a denúncia,
num tom existencialista, do desencontro entre a poesia, narcísica, e a prosa do
mundo. Desencontro que, em Mário Faustino, torna-se grande, tal como em Rimbaud.
Régis Bonvicino é poeta, autor,
entre outros, de Hilo de Piedra (2002) e Lindero Nuevo Vedado
(2002)
(© O Estado de S. Paulo, 02.02.2003) |