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 Forró embala 'O Maior São João do Mundo'

02/06/2003

 

 

 

São João de Campina Grande  Leonardo Silva/Divulgação

 

Manifestação popular que vai até 29/6 em Campina Grande (PB) disputa o título com a de Caruaru (PE)

AUGUSTO PINHEIRO
ENVIADO ESPECIAL A CAMPINA GRANDE (PB)

   Haja fôlego! Desde sexta passada até o dia 29 de junho, o mês é de muito forró, guloseimas à base de milho e atrações culturais e folclóricas. Intitulada como "O Maior São João do Mundo", a festança junina de Campina Grande (PB), cidade com cerca de 355 mil habitantes, disputa o título de ser uma das mais populares no Nordeste com a de Caruaru (PE).

   O evento, que acontece no parque do Povo, concilia a cultura local, como o tradicional forró pé de serra, com outros estilos musicais. Além de são João (cujo dia é 24 de junho), que dá nome à festa, também são homenageados santo Antônio (13 de junho, o casamenteiro) e são Pedro (29 de junho, guardador das portas do céu, protetor dos pescadores e, às vezes, responsabilizado pelas chuvas).
Nos 30 dias de festa, cerca de 1 milhão de pessoas, entre habitantes locais e turistas, passam pelo parque do Povo. Segundo Silvestre de Almeida Filho, secretário de Desenvolvimento Econômico da prefeitura, a arredação de impostos em junho é 30% maior do que a de outros meses.

   O parque do Povo tem 42 mil metros quadrados e uma grande pirâmide no centro, onde fica o Forródromo (salão para dançar forró), que será usado para um casamento coletivo no dia 15.

   No local há uma cidade cenográfica, réplicas da primeira rua da cidade (vila Nova da Rainha) e de um sítio antigo do interior do Estado (sítio São João), 300 barracas (com comida típica, jogos e outras atividades), palco para os shows principais, tablado para as apresentações folclóricas, três "ilhas de forró" (palhoças com shows de trios regionais) e uma fogueira com 20 m de altura.

   Neste ano, cantarão no parque do Povo, entre outros, artistas como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Marinês e Chico César, que será homenageado, além de Fagner, Dominguinhos, Mestre Ambrósio, Nando Cordel e Genival Lacerda. O grupo de rock regional Cabruêra também se apresentará. Haverá ainda shows de forrozeiros de Campina Grande, como Biliu de Campina, Amazan e Edmar Miguel.

Cenário

   A cidade cenográfica conta com réplicas de três prédios históricos da cidade, em tamanho natural: a catedral, o Museu Histórico (antiga Cadeia Pública) e o cassino Eldorado, que teve seu auge durante o ciclo do algodão (de 1907 a 1972) e cujo prédio original está abandonado no centro da cidade.

   Na vila Nova da Rainha, formada por 15 casinhas coloridas e por uma capela, haverá venda de artesanato local. Entre os materiais utilizados pelos artesãos, estão a estopa (como nos bonecos), o sisal, o barro, o couro e o famoso algodão natural colorido, nas cores marrom e verde. Ao lado da vila, há um parque de diversões para a criançada.

   No tablado, destacam-se as atrações do grupo folclórico Tropeiros da Borborema, que já participou de festivais na Europa e na Coréia do Sul, e mais de 300 quadrilhas, que embalam uma profusão de cores e ritmos.

   Fora do parque do Povo, partindo da Estação Velha, há o Expresso Forroviário, trem que leva passageiros ao som de forró até o município vizinho de Galante.

   As casas de show também entram na programação de São João, como o Spazzio, que, no dia 21, apresenta Elba Ramalho e Amazan, e a Vila Forró, que nos dias 22, 24 e 29 tem atrações como Calypso e Flávio José. Biliu de Campina canta todos os dias nas duas casas. A entrada custa R$ 15.
Neste ano, parte da venda dos ingressos no Expresso Forroviário será revertida para a compra de alimentos do programa Fome Zero. O sítio São João e o parque de diversões também devem receber doações.

   É bom lembrar que Campina Grande é uma cidade nordestina de clima ameno (com média anual de 22C), pois fica na serra da Borborema. Por isso, é recomendável que se leve alguns agasalhos na mala.

Parque do Povo - rua Sebastião Donato, s/nº

Augusto Pinheiro viajou a convite do Parahyba Convention & Visitors Bureau e da Prefeitura de Campina Grande

(© Folha de S. Paulo)


Expresso Forroviário carrega arrasta-pé pelo agreste paraibano

Passageiros-dançarinos seguem o balanceio do trem

DO ENVIADO ESPECIAL A CAMPINA GRANDE

   Curtir a paisagem do agreste paraibano ao som do mais legítimo forró pé de serra. É isso o que proporciona uma viagem nos trilhos pelo Expresso Forroviário, antigo Trem do Forró, uma das principais atrações do São João de Campina Grande.

   Com trios de forró em cada um dos seus oito vagões, o trem parte às 10h da Estação Velha (onde funciona atualmente o museu do Algodão) para o município de Galante, que fica a 12 km de Campina Grande. O passeio dura uma hora e meia.

   Durante o percurso, os passageiros dançam forró ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. "O balanço do trem ajuda", brinca Silvestre de Almeida Filho, secretário de Desenvolvimento Econômico do município.

   No destino final, há um arraial, com apresentação de quadrilhas e barracas de comida típica, que servem pamonha e picado de bode. O mercado público vira uma grande pista de forró, com shows de bandas. Quem quiser ter uma experiência bem regional pode passear em uma carroça de burro ou montar num jegue.

   A volta acontece às 15h, com mais forró pé de serra a bordo. Na chegada a Campina Grande, os mais animados, que ainda tiverem pique, podem continuar a arrastar os pés no parque do Povo.

   A advogada Renata Maia, 35, é frequentadora assídua do Expresso Forroviário. Viaja a bordo do trem desde o início da atração, há seis anos. "A música contagia todo mundo, não tem como ficar sentado e parado. A energia é tão grande que a gente só pára com o trem", diz.

   Ela costuma ir desacompanhada e descola um par no trem mesmo. "Não tem como ficar só. Todo ano eu arrumo um paquera, tem muitos turistas aqui." (AUGUSTO PINHEIRO)

Expresso Forroviário - Quando: 15, 21, 22, 23, 24 e 29 de junho. Horário: ida, às 10h; volta, às 15h. Preços: R$ 25 (dias 15 e 29) e R$ 30 (dias 21 a 24). Saída: Estação Velha (r. Benjamin Constant, s/nº). Locais de venda: lojas Lab Film (shopping Iguatemi e Centro) e Eventos e Marketing (r. Venâncio Neiva, 270, 1º andar, tel. 0/xx/ 83/9972-5515 e 0/xx/83/341-2908)

(© Folha de S. Paulo)


Cantor diz que ritmo vem do forrobodó e do fuzuê

DO ENVIADO ESPECIAL

   "Fique à vontade. Aqui pode fumar, beber, jogar, fazer o diabo a quatro". Foi assim que o forrozeiro Biliu de Campina, 54, recebeu a reportagem da Folha em sua casa.

   Ele é um dos mais badalados cantores do forró pé de serra, tocado com triângulo, zabumba e sanfona, e detona o que batizou de "forró eletrônico", tocado com teclado e outros instrumentos. "É um modismo descaracterizante."

   Ele conta que, quando fez um show em São Paulo, perguntaram se ele tocava forró universitário, ao que respondeu: "Já fiz Ph.D., mestrado e licenciatura".

   O "Ph.D." ensina que, antes da sanfona, o forró era tocado com rabeca e viola. "A sanfona ganhou espaço pelo timbre, pelo peso natural. É um instrumento versátil."

   Fã do paraibano Jackson do Pandeiro, Biliu pretende lançar um CD com releituras do compositor e músicas próprias. "Não tenho muitos discos. Desde o final dos anos 70 até hoje, lancei seis."
Ele transforma suas críticas em músicas, como em "Cantando Forró à Força" ("Há muita gente cantando forró à força/ mas anda dizendo que dá força pro forró") e "Travestido de Forrozeiro" ("Há muito travestido por aí de forrozeiro/Passando gato por lebre/ Querendo me tapear"), ambas do CD "Forrobodologia".

   Biliu explica que "forrobodó" significa "festa, fuzuê, fuzarca". "Foi daí que surgiu o termo "forró", não da expressão inglesa "for all", como gostam de propagar por aí."
Biliu de Campina faz shows no parque do Povo, nos dias 9, 13 e 23/6, na casa de shows Spazzio, no dia 21, e na Vila Forró, nos dias 22, 24 e 29. (AP)

(© Folha de S. Paulo)

Sítio mostra como era a vida antes dos anos 30
DO ENVIADO ESPECIAL A CAMPINA GRANDE

   Réplica de um burgo (espécie de vilarejo) comum no interior da Paraíba até a década de 30, o sítio São João fica na parte inferior do parque do Povo.

   "Aqui não tem nada de faz-de-conta. É tudo original. Os utensílios e os móveis são de época, fruto de uma pesquisa no interior e de doações", explica João Dantas, idealizador do projeto e coordenador de cultura da prefeitura.

   O burgo tem uma casa do proprietário, uma bodega (mercadinho), um depósito de "mangaio" (utensílios diversos), uma casa de farinha, uma capela e um pequeno curral. A estrutura das construções imita a taipa, método de construção em que as paredes são feitas de barro ou cal e de areia com enxaiméis e fasquias de madeira como estrutura.

   Alguns visitantes mais velhos se emocionam quando visitam o sítio. "Eles choram porque lembram alguma fase da vida deles, pegam as imagens dos santos e querem levar para casa", diz a estudante de turismo Andréia Pires, 24, que já foi monitora no local.

Roteiro

   A casa de farinha é uma das principais atrações do sítio. Lá, é possível ver pessoas fabricando a farinha de mandioca com instrumentos antigos, como roldana de madeira, prensa de tronco de aroeira (árvore da região) e forno de tijolo, e apreciar o beiju (tapioca) preparado na hora.

   Na capela, onde muitas pessoas param para rezar, há imagens de são João, são Pedro e santo Antônio. A bodega "vende" xerém de milho pilado, açúcar preto (mascavo), rosário de piabas (peixe da região), carne de charque, óleo de cheiro (antigo perfume feminino), sabão de pedra e rolo de fumo, entre outros produtos comercializados na época e ainda hoje. "O costume alimentar era outro. Como não havia geladeira, tudo era conservado com sal", diz Dantas.

   No depósito de "mangaio", Dantas explica que se guarda "tudo o que serve e o que não serve", como ferramentas, selas e "foleador" de formigas (antigo instrumento usado para matar esses insetos). O curral abriga burros, galinhas e bodes.

Música, renda e teatro

   Durante o mês de festa, o sítio terá também apresentações culturais, ao lado da casa do proprietário, com bandas de pífano, repentistas, emboladores de coco e duplas de viola. Dentro da casa, haverá a presença de uma mulher rendeira. "Queremos mostrar o que há de mais puro e regional e que mostra com mais intensidade e verdade a nossa linguagem de nordestinos", diz.

   Neste ano, a novidade será a encenação da chegada dos tropeiros a Campina Grande. Até o início do século 20, os tropeiros (viajantes mascates) levavam produtos, carregados por burros, do sertão para o litoral, e utilizavam a cidade como um ponto para abastecimento de água e de comida e para descanso. Eles são considerados os responsáveis pelo desenvolvimento da cidade.

   Na apresentação, nove atores, 16 animais e um carro de som percorrerão um trajeto que vai do museu do Algodão até o sítio São João. A estréia da apresentação será no dia 14 de junho. Segundo Dantas, cerca de 180 mil pessoas visitaram o sítio no ano passado. (AUGUSTO PINHEIRO)

Sítio São João - Funcionamento: todos os dias, das 9h às 4h. Entrada gratuita.

(© Folha de S. Paulo)


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