Espaço cultural para ensino de percussão
no Poço da Panela, a ser inaugurado domingo, já atende crianças e adolescentes das
comunidades carentes
por MARCOS TOLEDO
A noite deste domingo será marcada pela
inauguração de uma usina no bairro do Poço da Panela, à margem do Capibaribe. Mas esta
usina, por mais incrível pareça, promete não poluir o rio. Muito pelo contrário:
promete até colaborar na revitalização do mangue. E não só isso. A proposta do novo
Espaço Cultural Usina é oferecer atividades extra-escolares às crianças e adolescentes
das comunidades carentes próximas. O batizado da nova sede da instituição
ocorre a partir das 17h com a presença de padrinhos como os cantores
Silvério, Ortinho, Fábio Trummer, Rogerman, Maciel Mello, Santanna, Cannibal, Lula
Queiroga, e participação do DJ Nêgo Nu.
Quando Silvério ainda idealizava seu
projeto Casa de Farinha, pensou num espaço semelhante para oferecer oficinas na área
cultural para crianças carentes. A idéia não se concretizou pelas mãos do cantor, mas
germinou um projeto mais modesto sob a batuta do percussionista Wilson Farias (Bate o
Mancá), 27 anos, na escola estadual Padre João Barbosa, no Morro da Conceição.
Lá no morro, a partir da 1999, Wilson
passou a ministrar oficinas de percussão para os meninos da comunidade aliadas a
trabalhos de conscientização social. O trabalho despertou também o interesse de jovens
da classe média, que somavam com a criançada do morro cerca de 60 alunos. A
história estava tomando uma proporção muito grande, conta o percussionista.
A dificuldade de manter o trabalho na Escola Pe. João
Barbosa a diretoria precisava do espaço para desenvolver outro projeto, o Escola
Aberta , contudo, coincidiu com a vontade dos músicos Lula Queiroga e Felipe Cabral
de realizarem um trabalho semelhante. Lula e Felipe tinham essa idéia de fazer um
projeto social, explica Wilson. A gente já estava tocando na rua quando eles
disseram para a gente alugar uma casa.
Lula, Felipe e os demais artistas
supracitados que apadrinham o Usina já conheciam Wilson e a garotada dos desfiles dos
blocos Quanta Ladeira e Guaiamum Treloso.
Instalado na casa de número 254 da Rua
Tapacurá, Poço da Panela, o Usina abriu inscrições para as crianças da comunidade que
tivessem vontade de participar, inicialmente, da oficina de percussão de Wilson Farias. O
primeiro a se inscrever foi o estudante Rodrigo Santana, 13 anos, aluno da 4ª série da
Escola Silva Jardim, no Monteiro. Falei com Wilson, peguei uns papeizinhos e chamei
um bocado de gente, lembra.
Rodrigo, que além de estudar toma conta dos
carros de clientes do Capibar, na mesma rua (Só quando tem festa, garante),
levou os quatro irmãos e vários amigos para o Usina. Atualmente, participam cerca de
vinte jovens da comunidade, entre moças e rapazes, além dos que ainda vêm do Morro da
Conceição. A meta é trabalhar com quarenta da comunidade, movimentando-os nos
cursos da casa, almeja Wilson. Um dos pré-requisitos básicos é freqüentar a
escola assiduamente.
Após a transferência do projeto, os jovens
do morro deixaram de ter aulas todos os dias para apenas duas vezes por semana. Em
compensação, alguns dos antigos pupilos de Wilson Farias participam na nova sede como
estagiários, ajudando a formar novos percussionistas. Outros, já atuam em grupos que
acompanham artistas como Silvério e Josildo Sá.
OUTRAS ATIVIDADES Além da
percussão, o Espaço Cultural Usina se prepara para oferecer cursos de outras áreas. Um
deles, o de educação ambiental, já dá seus primeiros passos com a instrutora Altamiza
Melo, 19 anos. Ex-aluna do curso de Engenharia Ambiental da Unicap e atual formanda em
Saneamento Ambiental do Cefet, Altamiza diz que o objetivo de sua oficina é despertar nas
crianças a importância do meio-ambiente. Vamos ensiná-las a não jogar lixo no
rio e reaproveitar materiais até para obter renda. O Usina conta também com
computadores para ministrar curso de informática e, em breve, deve oferecer aulas de
capoeira, artes plásticas e fotografia.
Por tratar com crianças carentes, as
dificuldades são muitas e o projeto necessita tanto de recursos financeiros quanto de
trabalho voluntário. O cantor (e professor) Silvério Pessoa já foi contatado para
contribuir com apoio pedagógico e para coordenar a alfabetização de jovens e adultos da
comunidade. Estamos precisando também de um psicólogo e de uma psicóloga,
avisa Wilson Martins. Em sua experiência com as aulas de percussão no morro, ele revela
que o aproveitamento tem sido de cerca de 70% das crianças. Quem sai é porque tem
que trabalhar para ajudar em casa, lamenta.
Para suprir um pouco da deficiência
financeira, o Espaço Cultural Usina pretende realizar pelo menos uma festa por mês.
O dinheiro que temos só está pagando as contas, explica o percussionista.
Além da batucada deste domingo, já está programada a Serenata na Usina, com Silvério,
para o dia 15 de junho.
Batucada na Usina. Domingo, a partir das 17h, no
Espaço Cultural Usina (Rua Tapacurá, 254, Poço da Panela). Ingresso: R$10 e R$ 5
(meia). Contatos: 8821.2122/ 8821.3141/ 3268.1684
(© Jornal do Commercio-PE)