Há trabalhos para todos os gostos na
premiação do 45º Salão de Arte de Pernambuco, desde obras em cerâmica até
intervenções em paisagens
CAROL ALMEIDA
Monitoramento é a palavra chave do 45º Salão Pernambucano de
Artes Plásticas. A Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco optou este ano
por unir o útil (acompanhamento) ao agradável (o prêmio) para ceder as bolsas para os
trabalhos inscritos na área de artes plásticas. Na soma, foram 13 trabalhos premiados,
sendo um deles o roteiro de um vídeo sobre o artista plástico Ypiranga Filho e dois
ensaios, o primeiro sobre a arte contemporânea do Recife e o segundo sobre o pintor
Wellington Virgolino. Os trabalhos selecionados foram divulgados nesta última
segunda-feira e sua totalidade demonstra que a comissão julgadora decidiu alargar os
meios e fins da arte, abrindo espaço para várias expressões e suas formas de
realização.
Optamos por dar um espectro largo à seleção, oferecendo uma
extensão democrática aos projetos que seriam selecionados, explicou o artista
plástico João Câmara, um dos três membros da comissão que selecionou os projetos. Em
comum, esses trabalhos têm mesmo o fato de estarem sendo, a partir de agora, observados
de perto pela própria Fundarpe. A idéia é pioneira no Brasil: os projetos premiados
(fora os ensaios e o vídeo) receberão da secretaria uma bolsa mensal, que durará 10
meses, de R$ 1.200. Trimestralmente, um grupo da mesma Fundarpe irá acompanhar o trabalho
desenvolvido por cada projeto e, ao final da realização dos mesmos, haverá uma
avaliação e documentação do que foi feito. A exceção à essa regra fica com o
prêmio de roteiro do vídeo, que receberá de uma só vez R$ 5 mil da Fundarpe.
O Secretário de Educação e Cultura do Estado, Mozart Neves, esteve
presente na Fundarpe para a entrega dessas bolsas e aproveitou a oportunidade para, mais
uma vez, tentar linkar a cultura com sua pasta prioritária, a educação:
sugiro que os artistas premiados organizem palestras mensais nas escolas da rede
estadual. A proposta foi bem recebida pelos artistas presentes.
Entre os projetos selecionados, há pesquisas em cerâmica, instalações,
fotografias, gravuras, performances e até estudos arquitetônicos. Vários deles são
assinados pela ala mais jovem dos artistas plásticos pernambucanos. Entre eles, estão
Lourival Patriota, Rodrigo Braga e Juliana Notari. O primeiro, que ganhou um prêmio
nacional na Mostra Rio BR de Arte Contemporânea com a exposição do Mickey Feio,
elaborou um projeto em que mapeia e amplia fotograficamente a superfície do corpo humano
em até 50 vezes, fotografando 4.600 pedaços que serão unidos em um gigante
quebra-cabeça. Já Rodrigo fará uma experimentação com fotografia digital e Juliana
pretende construir uma instalação interativa com fotografias e caixas com bonecas
tatuadas.
Oriana Duarte, que participou da Bienal de São Paulo no ano passado,
elaborou aquele que possivelmente é o projeto mais distante dos moldes convencionais, a
quatro paredes, da arte. A artista, que faz parte do grupo Camelo, fará uma perfomance
que consiste, literalmente, em se jogar sobre o Rio São Francisco em um bungee-jumping
dispersando no ar 37 diferentes tipos de sementes de flores. Oriana também propõe fazer
um rapel na Pedra do Cachorro, no município de São Caetano, onde promoverá inscrições
nas rochas.
No lado mais patrimonial dos projetos, está o trabalho idealizado por
Renata Pinheiro, que ganhou a bolsa do salão com Arqueologia da Amnésia, uma
promissora pesquisa em que ela identificará futuras demolições e, assim, catalogará
vestígios e recriará relíquias desses prédios, trabalhando de certa forma para
preservar o patrimônio histórico da cidade.
Na área de gravuras, Eudes Mota apresenta um desdobramento da
instalação-jogo que ele apresentou no último salão de artes plásticas, com uma
pesquisa que recorre aos referenciais geométricos das palavras cruzadas. O artista
plástico Renato Valle, que já realiza um trabalho intenso de pesquisa documental,
trabalha dessa vez com o acervo de ex-votos de Santa Quitéria de Frexeiras, próximo a
Garanhuns. O resultado será uma exposição com desenhos e pinturas sobre essa tema.
Rosinha Campos e Maria Eulália foram premiadas com o projeto Cidades e
Palavras, que vem sendo desenvolvido há mais de um ano, no qual elas buscam conexões
entre esses dois elementos. Já o trabalho feito em cerâmica é assinado por um grupo de
seis artistas plásticos: Christina Machado, Dantas Suassuna, Joelson Gomes, José Paulo,
Maurício Silva e Rinaldo. Todos eles irão desenvolver uma pesquisa sobre as cerâmicas
dos minicípios de Camaragibe, São Lourenço da Mata, Caruaru, Bezerros e Olinda.
(© Jornal do Commercio-PE)