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 Sons e batuques da nova safra pop baiana

18/06/2003

 

 

 

 

 

Bernardo Araujo

   O que têm em comum o guitarrista e símbolo sexual preferido das estrelas da MPB, uma jovem roqueira tatuada, a percussionista de cabelo rosa mais querida da atualidade e um ex-flautista que hoje fuma charutos e faz pop com toques eletrônicos? Muitas coisas, e a primeira delas é a Bahia. Dos quatro supracitados, apenas Davi Moraes nasceu no Rio, e ele é o primeiro a dizer que a música baiana é sua principal influência:

   — Meu pai (Moraes Moreira) , Pepeu Gomes, Armandinho e outros são os músicos que me formaram — diz.

   Os outros três, Lanlan, Pitty e Lucas Santtana, são baianos até no passaporte. Embora tenham trajetórias diferentes, os quatro estão aparecendo ao mesmo tempo, lançando discos que mostram o que se faz na Bahia hoje em dia.

Banda de punk-rock foi a escola de Pitty

   A caçula da turma é Pitty, a tal cantora tatuada que, após quase 10 anos como integrante do grupo punk feminino Inkoma, está promovendo sua estréia solo, “Admirável chip novo”. Seu rock básico não remete muito (para não dizer nada) a Caetano, Gil ou Caymmi, mas quem disse que a música baiana é só isso?

   — Existe uma cena roqueira cada vez mais forte na Bahia — diz ela. — E as bandas têm uma cara própria, de rock baiano, assim como se identificam bandas gaúchas e de Brasília, por exemplo.

   Lanlan, que no fim dos anos 80 montou sua primeira banda pop, a Rabo de Saia, lembra as origens.

   — Depois do Raul Seixas, foi o Camisa de Vênus que encarou o desafio de fazer rock na Bahia, o que acabou pavimentando o caminho para muita gente — lembra ela. — Nós e outras bandas, como a Gonorréia, viemos depois deles.

   Para ela, essa pluralidade, somada à música naturalmente identificada com a Bahia — samba, axé, Caymmi — formou um movimento.

   — Não somos tão parecidos entre nós — diz Lanlan. — Pitty e eu somos mais roqueiras, enquanto Davi e Lucas são mais MPB e pop. Mas é claro que há muito em comum.

   Todos sabem do desafio que é fazer música baiana sem as características que o rótulo costuma trazer, mas Davi acha que o público já tem a mente mais aberta.

   — Sempre existiram todos os gêneros musicais na Bahia — diz ele, que lançou seu primeiro disco, “Papo macaco”, em 2002. — É claro que o axé hoje é o mais forte na cabeça das pessoas, mas a música lá sempre foi diversa.

   Para Lucas — que, assim como Lanlan e o carioca Davi, mora no Rio há anos e acompanhava cantores da MPB — a expectativa em torno dos baianos está mudando, mas ainda existe o estereótipo.

   — Ainda tem gente que ouve e fala: “Ah, mas tem isso na Bahia também?”— diz ele. — Mas não acho isso mau, até gera uma surpresa. É como no Recife, onde todo mundo acha que só vai ouvir algo no estilo da Nação Zumbi.

   Ele acha que um artista já pode tocar sua carreira sem sair de Salvador.

   — A Rebeca Matta, por exemplo, já é conhecida de muita gente e continua lá — diz ele. — O axé ainda domina tudo, especialmente em Salvador, mas existe um underground organizado, pequenas casas onde as pessoas podem tocar e um público.

   Pitty concorda, mas preferiu vir morar no Rio.

   — Para o meu som, que é rock com rock, acho que seria difícil trabalhar de lá — diz. — Precisaria de uma mídia especializada. As coisas estão crescendo lá, até acho que estamos em uma maré cheia, mas preferi vir para cá e ficar mais no centro dos acontecimentos.

Músicos não se esquecem de elogiar os amigos

   Apesar das diferenças musicais, os quatro, como bons baianos, não deixam de rasgar seda uns para os outros.

   — O caminho desbravado por bandas como o Camisa de Vênus e o Rabo de Saia está sendo aproveitado pela Pitty e pela Penélope, por exemplo — diz Lanlan. — Ainda bem.

   Davi elogia as meninas:

   — A Lanlan já levou o som dela para o trio elétrico, o palco mais democrático que existe — diz Davi. — E a Pitty tem uma pegada rock maravilhosa. Estamos formando um público, sempre um puxando o outro para cima.

(© O Globo On Line)


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