Fita com gravação de show-protesto
histórico de Gilberto Gil, realizado em 1973 no campus da Universidade de São Paulo, é
encontrada e vira CD
MARCELO RUBENS PAIVA
ARTICULISTA DA FOLHA
Em 1973, o estudante de geologia da USP
Alexandre Vanucci Leme foi morto pela repressão política. Os universitários procuraram
Gilberto Gil, que estava em São Paulo, para um show-protesto improvisado no campus.
Mais de 2.000 pessoas testemunharam um show
na Escola Politécnica da USP absolutamente diferente e histórico, gravado em uma fita
rolo original que, perdida por décadas, foi encontrada há dois meses. Com a anuência do
compositor, o registro virará CD.
Gil, recém-chegado do exílio, tocou e
falou durante três horas. Contestou suas composições antigas, mostrou os caminhos da
música brasileira e sugeriu a criação de uma nova mentalidade para combater o regime.
"Soube que encontraram a fita. Estou
entusiasmado. Lembro-me bem desse show. Sei que é uma referência. Havia uma sintonia
enorme entre nós. Eram pessoas muito envolvidas, fui me solidarizar", diz o ministro
da Cultura.
Anos antes, Caetano gritava, ao lado de Gil,
sob vaias: "Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos.
Vocês estão por fora! Que juventude é essa?!". Gil reatava com a esquerda, ou a
esquerda tinha mudado?
"O setor musical era compulsoriamente
engajado. Mas havia uma visão muito maniqueísta, a ditadura era o eixo do mal. Eu sempre
estive no centro e, nesse show, me desloquei, fui injusto com minhas canções,
criticando-as. Eu sabia do meu papel de referência da resistência, mas não assumia a
responsabilidade", diz.
O jornalista Caio Túlio Costa prepara um
livro sobre o período: "Era uma nova esquerda que nascia. Durante anos, havia uma
versão resumida do show em cassete, e as pessoas se reuniam para escutá-la. Sempre se
referiam ao show do Gil como um dos momentos emblemáticos, porque a cultura ganhava uma
nova importância".
Ary Perez era estudante da Poli e estava no
show, gravado num equipamento de rolo Akai. Foram Perez e o músico Paulo Tatit que
encontraram a fita perdida.
"Fiquei com a fita depois do show. O
equipamento era do Grupo de Teatro da Poli, do qual eu fazia parte. Tentei dá-la algumas
vezes para profissionais da música, as pessoas aceitavam e depois devolviam, porque não
tinham o aparelho. Encontrei-a numa caixa", lembra Perez.
"Os adolescentes que entravam na
faculdade não estavam a fim de pegar em armas, como a geração de 68. O Gil, antenado
com o que estava acontecendo, foi lá sabendo que queriam música de protesto, mas
começou tocando a história da música brasileira", diz.
Paulo Tatit tratou digitalmente a fita:
"Alguns trechos estavam muito bons, e outros, mastigados. Trabalhei no computador com
a fita encontrada e com uma que eu tinha. A versão da fita cassete passava de mão em
mão, o pessoal do Rumo ouvia".
"O Gil está um monstro no violão. Ele
faz violão base como ninguém, a gente tentava tirar o violão ouvindo a fita. E o papo
é revelador. A parte emocionante é quando ele, dengoso, dizia que não se lembrava de
"Cálice" (de Gilberto Gil e Chico Buarque), mas um estudante tinha a letra no
bolso", diz Tatit.
"O Gil era um ativista, promovia
reuniões, um articulador. No final do show, ele não queria sair. O empresário dele
arrastou-o pra fora, tirou meio a força. Lembro-me de o Gil falar numa linguagem cifrada.
A barra estava muito pesada. Ele fazia shows em clubes, e aquilo era bem diferente",
diz Geraldo Siqueira, liderança estudantil da época.
(© Folha de S. Paulo)
Em apresentação, Gil repudia composições
DO ARTICULISTA DA FOLHA
No show histórico que Gilberto Gil fez na
Universidade de São Paulo em 1973, que está sendo registrado em três CDs remasterizados
por Paulo Tatit, ele repudia composições antigas num surpreendente desabafo. Após tocar
"Procissão", o cantor comenta: "É o exemplo de como o novo pode ser
velho. Essa música é velha, ingênua, incorreta, faz colocações que eu não faria
hoje. O verso "só acho que ele [Jesus] se esqueceu de dizer que a gente tem de
arrumar um jeitinho de viver" é um erro meu, provocado pela falha, uma ansiedade
minha de servir, de denunciar".
Quando um estudante grita para ele tocar
"Roda", Gilberto Gil interrompe: "É outra canção maniqueísta que
repudio. Eu estava engajado, como em "Louvação". Não as rejeito, passei por
ali. Só que hoje estou além. Ou aquém. São músicas incorretas. A realidade hoje é
outra. São idealistas, não são objetivas. Se não pode dizer a verdade hoje, não
diga".
A platéia insiste para ele cantar
"Domingo no Parque". Ele acaba cedendo. Mas, ao final, diz:
"É uma música belíssima, mas foi um equívoco a utilidade dela como instrumento de
transformação. Isso fica ineficaz de repente, não representa mais o que representou.
Continua poeticamente forte, mas enquanto instrumento politico é perecível. É nisso que
vocês, como eu, precisam estar muito atentos".
Gil até então tinha cinco LPs gravados.
Voltava de um exílio forçado. Abriu o show com uma versão de mais de 11 minutos de
"Oriente": "Vim aqui porque os meninos me pediram, sabe como é. Fiz uma
escolha de músicas para cantar seguindo um critério meio absurdo".
Ele toca sambas de Gordurinha, Caco Velho e
Germano Mathias. A platéia pede "Cálice".
Gil diz que não se lembra da letra. Alguém da platéia lhe oferece um recorte com a
letra.
Um estudante interrompe: "Posso fazer uma pergunta? A gente sabe que toda
manifestação artística existe dependendo do que tem ao redor".
Gil não concorda e diz que elas existem
independentemente de tudo. Quando o estudante é vaiado, Gil pede: "Afaste dele esse
cálice". É nesse momento que diz a frase que ficou marcada na memória dessa
geração: "Procuro pelo menos fazer o que acho que posso fazer e o que devo fazer.
Como numa corrida de obstáculo, se não dá para passar por cima, passa por baixo".
Cantando "Expresso 2222", ele
improvisa: "Tudo tem dois lados, tudo certo, tudo errado, 2222, felicidade vem
depois".
Ele canta ainda seis minutos de "Objeto
Sim, Objeto Não", pergunta quem já viu disco voador e diz que viu um na Bahia:
"Tanto faz crer ou não. Se existe, ótimo, se não existe, também".
Gil canta ainda nove minutos de "Duplo
Sentido" e encerra com rocks como "Back in Bahia", que ele chama de
"Aquele Abraço às Avessas".
(© Folha de S. Paulo)
Projeto vai recontar a história
DO ARTICULISTA DA FOLHA
Uma série de eventos, como os 30 anos do
show na USP e uma exposição de fotos, marca os festejos do chamado "Projeto
Refazendo" em outubro.
"Precisamos recontar a história como
ela merece. Começou com a remasterização da fita. A reitoria topou, o DCE [Diretório
Central dos Estudantes] da USP está participando. Eles têm uma idéia vaga, mas não
sabem que em 1973, 74 e 75 foi quando se definiu o futuro do país", diz Ary Perez.
O ano de 73 foi o auge do massacre das
organizações de esquerda. Estudantes queriam lutar pela democracia, mas não queriam
estar numa organização armada.
Na USP, sobrevivia o Conselho de Centros
Acadêmicos. Um grande grupo de militantes, chamado Grupão, denomina-se Refazendo, para
concorrer a uma eleição do DCE. Paralelamente, outros grupos, como Liberdade e Luta,
organizam-se por fora da esteira da antiga esquerda brasileira.
"O disco "Refazenda"
[lançado em 1975] era o mote. Sabíamos que estávamos criando uma coisa nova", diz
Perez. "O Gil foi inspirador. Aquela arrogância juvenil estava correta: deu certo.
Tentávamos reparar o que a esquerda velha tinha feito."
Geraldo Siqueira, ex-deputado estadual
(PT-SP) e um dos líderes do Refazendo, lembra que a USP era um oásis. "A repressão
não fechava os centros acadêmicos da USP", diz. "O capitão Ubirajara me
disse: "Vocês acham que estão muito à vontade, mas você já soltou pipa? A gente
vai dando linha e, quando a gente puxa, tem todo mundo na mão". Eles deram linha.
Só que se ferraram."
(© Folha de S. Paulo)