Percussionista da Mestre Ambrósio lança
disco solo O Circo do Rocha! Estreando Filho de Santos 1712 2009, no qual o batuque
flerta com os bits
por JOSÉ TELES
Dez anos depois de introduzir o forró
pé-de-calçada no manguebeat, Mestre Ambrósio é hoje um todo menor do que as partes que
a compõem. A banda continua mais ativa do que nunca (este ano já foi à Rússia,
prepara-se para uma temporada nos Estados Unidos e Japão). As partes, ou seja, os cinco
integrantes, estão envolvidos em projetos paralelos, uns com concepções bem diversa da
linha musical da banda.
O mais recente desses projetos é o de Eder
O Rocha. Mais conhecido como o músico responsável pela cozinha rítmica da
Mestre Ambrósio, competente e discreto no palco, o percussionista acaba de lançar o CD O
Circo do Rocha! Estreando Filho de Santos 1712 2009 (independente).
Ao mesmo tempo em que trabalhava com o
grupo, Eder realizou várias oficinas de percussão (no Brasil e no exterior), assumiu a
direção musical da Cia. Cênica Nau de Ícaro, criou trilhas para teatro e grupos de
dança, atuou como produtor discos (no CD de Renata Rosa) e ainda lhe sobrou fôlego para
gravar um disco solo.
Há cinco anos morando em São Paulo, Eder
O Rocha esteve na semana passada no Recife, divulgando o álbum, cuja
sonoridade, ele mesmo reconhece, causará estranheza aos fãs da Mestre Ambrósio: Uma
das propostas é fugir de padrões determinados. O que a maioria da pessoas sabe de mim é
da atuação na banda, porém, tenho feito muitas coisas além disto. Trabalhei com
músicos com formações diferentes, inclusive participei, não como membro permanente, de
outros grupos, o Funk Como Le Gusta foi um desses, adianta-se nas explicações
O Rocha, agora sem a juba rastafari, que cultivava há 15 anos.
Esta abertura musical ele já demonstrava
desde o início de carreira, no final dos anos 80, quando conciliava o thrash metal da
banda Arame Farpado com os temas eruditos da Orquestra Sinfônica do Recife(com a qual
tocou por 11 anos). Vieram em seguida os ritmos populares pernambucanos, a frente o
maracatu, de baques solto e virado (ainda hoje é um dos batuqueiros do Maracatu Estrela
Brilhante, do Alto Zé do Pinho). Como se não fosse suficiente, Eder O Rocha
conta que escutou muita música de artistas como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e
Frank Zappa, sobretudo pela habilidade que estes têm de contar histórias.
Toda essa bagagem foi utilizada ao levantar
a empanada do seu circo, acrescentando-se a isto a narrativa, que tem início no Recife e
depois se universaliza. Nem mesmo o thrash ficou de fora: Na faixa Espera aflorou
a minha veia metal, assinala.
Parece complexo, porém o conceito do disco
é simples: trata-se de uma ópera moderna. O personagem principal chama-se Filho de
Santos, um garoto que busca o autoconhecimento, a sabedoria e a paz. Os coadjuvantes são
uma cigana e orixás da umbanda (Oxum, Ogum, Iemanjá, etc).
O enredo divide-se em três atos. O 1º é
mais cantado, com teclados de andamento nervoso e corinhos à Vanguarda Paulistana. No
2º, torna-se bastante percussivo. O 3º, mais lento, é uma fusão dos anteriores: tem
percussão, vozes e elementos eletrônicos: O material foi extraído das trilhas que
compus. Regravei algumas músicas com modificações. O resultado final tem muito do
técnico de som Buguinha. Como é pernambucano, trabalhou com Nação Zumbi, ele é um dos
poucos técnicos de som em São Paulo que sabe sonorizar percussão. Buguinha se envolveu
tanto no projeto que acabou sendo co-autor do disco,ressalta O Rocha.
Aproveitando as folgas da Mestre
Ambrósio, Eder arrastou as gravação por um ano. Serviu-se de vários estúdios,
principalmente o do parceiro Buguinha. Mazinho Lima (baixista da Mestre Ambrósio), Zé
Guilherme, ex-Supersoniques, o regueiro Valdi Afonjah e Simone Soul foram alguns dos
músicos que participaram do CD. Um disco que pode ser curtido no conforto do sofá (a
primeira parte é bem dançável), mas requer, conforme ressalta o autor, que não se
coloque a história em segundo plano.
Preço médio: R$ 17,90. Contatos:
terreirodiscos@uol.com.br
(© Jornal do
Commercio-PE)
Mestre
Ambrósio corre o mundo comemorando dez anos de estrada
A Mestre Ambrósio está se tornando o
projeto paralelo de Siba, Eder, Maurício, Mazinho, Cassiano e Hélder. Com a rescisão de
contrato com a Sony Music (solicitada pela banda), os seis integrantes, no intervalos de
turnês, começaram a trabalhar em projetos individuais.
Depois de cinco anos morando em São Paulo,
eles estão espalhados por três cidades: Siba e Cassiano no Recife, Mazinho em Brasília,
e os demais em São Paulo. O grupo, este continua na ativa, ao contrário do que foi
divulgado,na Internet, por um site especializado em música, quando Siba anunciou que
gravaria o disco Fuloresta do Samba, em 2002.
Com dez primaveras completadas este ano,
eles não pretendem cumprir uma agenda especial para marcar a efeméride, nem sequer disco
novo está na pauta dos ambrósios: Até temos um projeto para os dez anos da banda:
viajar o máximo possível, levando a música da gente por vários países, diz o
percussionista Eder O Rocha.
A Mestre Ambrósio bem que poderia
parafrasear o famoso slogan da Rádio Jornal do Commercio (atual Rádio Jornal) nos anos
60: Pernambuco tocando para o mundo. Esteve este ano na Rússia, Suíça,
Bélgica e França. Em julho apresenta-se no Lincoln Center, em Nova Iorque (onde também
estarão Mestre Salustiano e a Mundo Livre S.A). No mês seguinte, o grupo retorna aos
Estados Unidos, para uma inusitada temporada de 15 dias na Disneyworld, em Orlando,
Flórida: Não sabemos ainda em qual local a gente toca na Disney. O que soubemos
foi que eles estão fazendo um trabalho em cima da cultura brasileira e convidaram a
banda. O único problema que a vemos é ter cuidado para não ficar muito perto de Mickey,
que pode ser alvo de terroristas, brinca O Rocha.
Terminada a temporada em Orlando, eles nem
terão tempo de desfazer as malas. Estão com shows programados em Moscou: Não
fazemos lugares grandes.A gente toca lá em pubs, e cafés, esclarece Eder. Da
Rússia, a Mestre Ambrósio vai pela segunda vez ao Japão. O quarto CD? Talvez em
2004.(JT)
(© Jornal do
Commercio-PE)