Laboratórios afirmam que pinturas da
Serra da Capivara têm 3.000 anos, e não 30 mil, como diz Niède Guidon
RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL
Eles parecem desenhos feitos por crianças,
mas foram gravados sobre a pedra por homens da caverna muitos anos atrás e criaram agora
uma controvérsia entre cientistas, ainda sem solução. Trata-se de imagens humanas
desenhadas por paleoíndios, os índios pré-históricos que habitavam o Brasil milhares
de anos antes de os portugueses por aqui chegarem.
Terão elas em torno de 3.000 anos ou mais
de 30 mil anos?
Uma equipe de pesquisadores americanos
testou amostras das pinturas e concluiu pela data mais recente. Uma equipe de
pesquisadores brasileiros decidiu pela data mais antiga.
As pinturas "antropomórficas"
-isto é, de figuras que lembram seres humanos- estão no sítio arqueológico da Toca da
Bastiana, no Parque Nacional Serra da Capivara, município de São Raimundo Nonato (PI).
Ali funciona a Fundação Museu do Homem
Americano (Fumdham), organização não-governamental criada pela arqueóloga Niède
Guidon, pioneira no estudo da região.
Guidon defende que a ocupação humana da
região tem cerca de 50 mil anos. Essa afirmação temerária foi feita pela primeira vez
à comunidade científica em 1986, em um artigo na revista britânica "Nature".
Até então se achava que o homem existia no continente americano há meros 11 mil ou 12
mil anos, vindos da Ásia sobre o mar congelado do estreito de Bering, entre Sibéria e
Alasca.
Desde então, Guidon e seus colaboradores
têm tentando demonstrar a afirmação, mas as evidências sempre foram polêmicas entre
os pesquisadores, tanto no Brasil como no exterior.
Carvão e esqueletos
As provas eram carvão de supostas fogueiras
de homens pré-históricos, ou pedras que eles teriam lascado para produzir ferramentas.
Não havia esqueletos que pudessem ser datados com precisão pela técnica tradicional de
carbono-14, ou cuja anatomia desse pistas sobre a antiguidade.
As pinturas nas paredes de pedra, por outro
lado, são uma clara prova da presença humana. Mas fazer a datação era difícil, pois
as técnicas de carbono-14 se baseiam em uma variante desse elemento químico disponível
em materiais orgânicos. Não é o caso de rochas ou de muitos pigmentos usados na pintura
de cavernas.
Só em 1989 os primeiros pigmentos -no mundo
todo- de uma pintura em caverna (ou "rupestre") tiveram sua idade determinada.
Um dos pioneiros das novas tecnologias é o americano Marvin Rowe, da Universidade Texas
A&M, Sul dos EUA.
Rowe foi convidado por Niède Guidon para
examinar uma pintura rupestre num sítio de São Raimundo Nonato, a Toca da Bastiana. Um
estudo anterior feito pelo físico da USP Shigueo Watanabe e colegas na imagem dos dois
homens tinha sugerido uma idade de 35 mil a 43 mil anos. Rowe e colegas fizeram estudos
usando técnicas diferentes, embora o objeto seja o mesmo -um depósito mineral de
calcita, carbonato de cálcio, formado ao longo dos anos sobre a imagem.
Problema de calibração
Guidon disse à Folha que o equipamento
usado por Rowe e colegas tinha problemas, algo ligado à "calibração do
aparelho". Isso teria resultado na data uma ordem de grandeza mais recente do que o
trabalho do pessoal da USP coordenado por Watanabe.
Os americanos negam categoricamente qualquer
problema com o equipamento ou com as técnicas usadas. "Eu acho que ela está
simplesmente errada. O equipamento tem se comprovado várias vezes na datação de
pinturas em rocha, assim como outros artefatos", disse em resposta.
"Marvin usou o método de
plasma-químico para isolar material orgânico que poderia ter sido incorporado na tinta
original para o seu método de datação de radiocarbono. Eu usei a cobertura da rocha
contendo oxalato de cálcio para obter uma imagem que deveria ser mais recente que a da
tinta, já que está por cima dela. Ambas as datas são consistentes, em ambos os casos eu
não acredito que houve algum problema de equipamento", declara outro autor
americano, Jon Russ, da Universidade do Estado de Arkansas.
O principal autor do estudo da USP,
Watanabe, afirma que datações são inerentemente difíceis, em razão da possibilidade
de contaminação, ou pelo tipo de amostra coletado. "Eu vou em julho para lá
coletar mais material", diz ele, atendendo a um pedido direto de Niède Guidon.
Não é só o caso da pintura polêmica, mas
também se trata de estudar novas descobertas. Segundo Guidon, já são mais de 700, quase
800 os sítios arqueológicos descobertos no Parque Nacional Serra da Capivara.
Alguns deles têm revelado não só
ferramentas de pedras, como as amplamente buscadas ossadas dos antigos habitantes. Estudos
sobre os ossos e dentes já encontrados mostrariam formas anatômicas arcaicas, indicando
uma ocupação antiga da região.
"Infelizmente, nunca conseguimos
colaboração na área de antropologia física no Brasil, por isso vamos pedir para esses
esqueletos serem estudados pelos colegas americanos", diz ela.
Os artigos contraditórios das equipes de
Watanabe e de Rowe tiveram, ambos, Niède Guidon como co-autora, já que ela era a
arqueóloga responsável pelo sítio. O de Rowe foi editado antes em uma publicação
científica ("ACS Symposium Series"). O de Watabane só seria publicado depois
no "Journal of Archaeological Science". E agora Rowe e sua colaboradora Karen
Steelman enviaram uma tréplica, ainda inédita.
(© Folha de S. Paulo)