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Paixões de Cristo em tempos de penitência

05-06-2008

Paixão de Cristo do Recife

 

Montagens encaram via-crucis para se manter em cartaz na Semana Santa

Ivana Moura
Da equipe do DIARIO

   Uma paixão e muitas realidades. A representação da via-crucis de Jesus começou na Idade Média, sobreviveu aos séculos e ganhou terreno fértil em Pernambuco. Em quase todas as cidades do Estado existem encenações durante a Semana Santa. As Paixões de Cristo do Recife e de Nova Jerusalém são as de maior visibilidade. A Prefeitura de João Pessoa também apostou no poder de uma montagem desse tipo, ao ar livre e de graça. Mas condições de produção chegam a ser opostas. Enquanto a Sociedade Teatral de Fazenda Nova conseguiu vender todas as cotas de patrocínio, contabilizando cerca de R$ 2 milhões, a Paixão do Recife - a uma semana das apresentações - ainda espera por recursos. O Auto de Deus, montado pela Prefeitura de João Pessoa em parceria com o Governo da Paraíba, também sofre a falta de patrocínios, embora a prefeitura garanta a montagem, caso os recursos não sejam captados.

   O caso mais dramático é vivido pela produção da Paixão de Cristo do Recife, com elenco só de atores pernambucanos. Seu diretor e protagonista, José Pimentel, está quase entregando os pontos. E no calor da emoção chega a cogitar a possibilidade de enterrar o espetáculo no próximo ano. "Cansei de ser Dom Quixote a lutar contra moinhos de ventos. Cansei de ouvir dos empresários que nosso espetáculo é importante por seu componente social", desabafa. Mas garante que este ano a Paixão do Recife vai ser encenada de qualquer jeito. Isso pode ser traduzido em cortes. Dos R$ 225 mil conseguidos no ano passado, a produção garantiu até agora R$ 125 mil. "Estamos aguardando respostas da Chesf e da Prefeitura do Recife", comenta o produtor Paulo de Castro.

   O presidente da Fundação de Cultura de João Pessoa - Funjope -, Antônio Alcântara, também reconhece que é um sacrifício arranjar recursos das empresas. Mas como a época é propícia a muitas penitências, Alcântara aguarda as respostas de última hora. Ele acredita que a encenação é muito importante para puxar os holofotes da mídia. A montagem traz Wladimir Brichta, Christiane Torloni e Isabel Filardesno elenco.

   Até para a produção da Sociedade Teatral de Fazenda Nova, 2003 foi um ano difícil. Por isso Robson Pacheco antecipou todo o planejamento para 2004, visitou empresários e agências de publicidade de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, ainda no segundo semestre do ano passado. "Antes do Carnaval estávamos com todas as cotas fechadas". E já pensa na temporada de 2005: "O grande desafio é fazer uma mídia nacional".

   Plano de mídia é algo que a Paixão de Cristo do Recife não está contando este ano. Para colocar a via-crucis no Marco Zero, Pimentel está negociando a diminuição dos cachês. Ele abriu mão de sua parte.

    Robson Pacheco lembra que é difícil fazer cultura que dependa de patrocínio. "O histórico da Paixão de Nova Jerusalém, com mais 40 ano, agrega vantagens em relação aquelas que estão tentando se firmar".

Serviço

Auto de Deus
Quando: De 8 a 11 de abril
Onde: Praça Pedro Américo, centro de
João Pessoa
Quanto: Grátis
Paixão de Cristo do Recife
Quando: De 7 a 11 de abril, às 20h
Onde: Marco Zero, bairro do Recife
Quanto: Grátis
Paixão de Cristo de Nova Jerusalém
Quando: De 3 a 10 de abril
Onde: Teatro de Nova Jerusalém, Fazenda Nova
Quanto: R$ 30,00, R$ 35,00 e R$ 40,00

(© Pernambuco.com)


Tradição em Nova Jerusálem

Paixão de Cristo realizada pela Sociedade Teatral de Fazenda Nova chega à 37ª edição ininterrupta na cidade-teatro, maior complexo ao ar livre do mundo

Infográfico
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GEISA AGRICIO

   Existem espetáculos que atraem uma legião de fãs e tornam-se uma tradição ao longo dos anos pela magia que os envolve, pela emoção que mobilizam no público, universo onde a vanguarda artística não faz falta. A energia de como a história é contada é a protagonista no palco. Entre esses exemplos estão, ao norte, os fantásticos musicais da Broadway, e aqui, ao sul do Equador, as performáticas paixões de Cristo, momento apoteótico do teatro nacional.

   Realizada no maior teatro ao ar livre do mundo, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, que estréia nova temporada no próximo sábado, indo até o dia 10, é a mais expressiva representação da trajetória de Jesus Cristo de sua fase adulta ao calvário da crucificação, já tendo sido assistida por mais de dois milhões de espectadores, num público médio de 8 mil pessoas por noite.

   Em seu 37º ano consecutivo na cidade-teatro de Fazenda Nova, Agreste do Estado, o espetáculo produzido pela Sociedade Teatral estréia este ano com poucas novidades, além da conhecida rotatividade nos papéis estrelados por atores nacionalmente famosos.

   Thiago Lacerda é o intérprete de Jesus, Luana Piovanni, sondada pela produção desde 1999, participa pela primeira vez da Paixão, como Madalena, e Vanessa Lóes vive o papel de Maria.

   “Há uma série de fatores que influenciam a escolha dos nomes de peso que integram o elenco, desde da disponibilidade de agenda dos nomes que cogitamos, até o interesse da Sociedade Teatral em associar esses atores ao espetáculo, ou seja, a repercussão da participação deles. No caso do Thiago Lacerda, um amigo em comum articulou sua vinda, que se tornou possível esse ano graças à pausa em trabalhos na TV”, explica Carlos Reis, que assina a direção do espetáculo ao lado de Lúcio Lombardi.

   O diretor conta ainda que a seleção do elenco é feita de maneira independente a cada ano e que apesar do ator Luciano Szafir, último intérprete de Cristo, ter afirmado em entrevista coletiva que atuaria novamente neste ano, a produção não costuma fechar o elenco com tamanha antecedência.

   Ao lado dos atores globais e de todo o elenco local, o corpo de figurantes reserva novidades na edição 2004. Depois do sucesso do convênio realizado no espetáculo Noite Feliz, encenado em dezembro do ano passado, a peça apresenta, como participantes especiais, os hóspedes da Pousada da Paixão, que funciona dentro da cidade-teatro.

   Outra modificação da peça é realizada na parte de efeitos especiais. O ator que interpreta o papel da consciência de Judas vai levitar até a altura da copa de uma árvore no momento em que o traidor de Jesus se enforca.

   POLÊMICA – Num momento em que o filme homônimo dirigido por Mel Gibson bate recordes de bilheteria, e continua causando polêmica na mídia, colocando o tema da Paixão de Cristo em voga, ainda não se pode prever se a repercussão do filme será positiva ou negativa para as “paixões” teatrais.

   Carlos Reis, diretor do espetáculo de Fazenda Nova acredita que o “oba-oba” do cinema não vai influenciar em nada o público da peça. “O espetáculo é encenado na réplica de Jerusalém desde 1968, ou seja, já consolidou-se como uma tradição. O público é fiel, geralmente regressa, e não seria afetado negativamente pelo filme. Assim como também não acredito que alguém se estimule a ver o espetáculo só por que viu o longa”, conclui.

(© JC Online)


Montagem do Recife tem orçamento apertado

Espetáculo do Marco Zero será feito com R$ 100 mil a menos que no ano passado. Estréia é na próxima quarta

JANAÍNA LIMA

   Novamente, José Pimentel, 71 anos, prepara-se para encarnar o Cristo e dirigir a Paixão do Recife. De novo também, além das atribuições de protagonizar e comandar a montagem, ele se debate com um problema crônico à produção desde quando ainda era encenada no Estádio do Arruda: a falta de dinheiro. Apesar do sucesso no ano passado, quando foi assistida por cerca de 100 mil pessoas, no Marco Zero, a peça não assegurou nem sequer o mesmo orçamento de 2003, que foi de R$ 225 mil. Para a temporada 2004, que começa quarta, são apenas R$ 125 mil.

   “É o oitavo ano com o pires na mão. Cansei de esperar por três horas para ser atendido por assessor. Todo mundo diz que a Paixão é um espetáculo vigoroso, importante para a cidade, mas nada muda”, desabafou Pimentel. Até o momento, patrocinam a montagem o Governo do Estado (R$ 60 mil), Sesc (R$ 15 mil) e Ala (R$ 50 mil). Hoje, o produtor Paulo de Castro tem uma reunião com representante da Chesf. A Prefeitura do Recife ainda não avisou com quanto apoiará o evento.

   O orçamento reduzido obrigou o diretor a alterar o espetáculo, que terá menos fogos de artifício e palcos menores. “Mexemos em cenários e nos fogos e ainda diminuímos ainda mais o cachê dos atores e figurantes, o que é uma indignidade”, lamenta.

   Desanimado, Pimentel cogita ser este o último ano da Paixão. “Está muito complicado. O espetáculo é gratuito, tem sucesso de público, atrai turistas, mas mesmo assim não consegue se firmar. Acho difícil demais continuar”, diz. A temporada 2004 da Paixão vai da próxima quarta-feira ao Domingo de Páscoa, sempre às 20h, no Marco Zero.

(© JC Online)

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