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05-06-2008
O álbum A Foreign Sound (Universal) chega simultaneamente às lojas do Brasil e Estados Unidos na semana que vem Rio de Janeiro - Dez anos depois de Fina Estampa, álbum dedicado ao cancioneiro hispano-americano, Caetano Veloso debruça-se sobre a grande canção norte-americana do século 20, que considera a mais bonita do mundo. Com título extraído da faixa It´s Alright Ma (I´m Only Bleeding), de Bob Dylan, o álbum A Foreign Sound (Universal) chega simultaneamente às lojas do Brasil e Estados Unidos na semana que vem. "São tantos que já gravaram esse repertório, que não sei se muita gente vai dar importância a isso", desdenha Caetano. "A escolha do repertório foi difícil, porque são muitas canções de alta qualidade e fiquei com pena de deixar algumas de fora. Quem gosta de mim vai gostar daquilo, mas o disco acabou ficando longo demais. Ninguém vai ouvir inteiro." A data foi apenas coincidência, mas, na entrevista de 1.º de abril, um dia depois dos 40 anos do golpe militar, Caetano lembrou dos episódios que o levaram a ser preso e exilado e fez piada dizendo que "o dia da mentira é o dia da imprensa", referindo-se ao 1º. de abril. "Posso dizer que foi uma experiência que determinou o rumo de minha vida. Talvez não estivesse lançando disco nenhum se não tivesse havido a prisão e o exílio. Já disse isso algumas vezes. Tinha vontade de deixar de fazer música porque acho que não tenho talento suficiente para isso, mas naquele momento não tive forças para dar uma guinada no meu destino e fazer só filmes." Como se sabe, ele não compactuou com a hegemonia da esquerda que se instalou nas artes em decorrência do golpe militar. "Criou-se a idéia de que você tinha obrigação de ter um passaporte de esquerda, senão não seria aceito. O tropicalismo se insurgiu contra isso também. O tropicalismo era de centro mesmo, porque acho que a obrigação do artista é estar sempre muito acima do muro, e não em cima." Muitas vezes adiado, o disco dedicado ao repertório americano vem sendo acalentado pelo cantor desde quando morou em Londres, exilado, de 1969 a 1972. "Não tive nenhuma razão que me determinasse lançá-lo agora. A não ser que tomasse a decisão de não fazê-lo numa das várias vezes que desisti dele para sempre." Caetano coloca seu sotaque em 23 faixas que somam mais de 75 minutos, numa seleção classificada por ele de "alienígena". Tem Bob Dylan, Kurt Cobain, Irving Berlin, Duke Ellington, Cole Porter, Elvis Presley, George e Ira Gershwin, Paul Anka, Stevie Wonder, Jerome Kern, Richard Rodgers, Arthur Hamilton assinando maravilhas que "já foram cantadas pelos melhores", segundo reconhece o cantor. "Não supunha que pudesse fazer nada de relevante. Pode ser que minhas gravações suscitem algum interesse enviesado. Não espero mais do que isso", conclui. O show de lançamento chega a São Paulo no dia 14 de maio e fica na Sala São Paulo por três fins de semana. O nó do disco, segundo Caetano, é Feelings, de Morris Albert e Louis Gaste, que o cantor dedica a David Byrne. "É uma falsa canção americana feita por um brasileiro, que se tornou um standard moderno da música americana. Até o Offspring já gravou em versão meio punk rock. Eles devem achar até hoje que se trata de uma canção americana." Caetano a equipara a Cucurucucu Paloma e Recuerdos de Ypacaraí, que gravou em Fina Estampa. "São canções que saíram do fundo do subdesenvolvimento. Cantar a sério, sem paródia, como fiz, é uma superironia da superironia." Como contraponto paródico surge Carioca ("The Carioca"), canção que foi indicada para o Oscar e embalou o primeiro número de dança de Fred Astaire e Ginger Rogers no musical Voando para o Rio (1933). As referências se entrelaçam. Cry me a River, eu queria que tivesse surdo e tamborim, porque é como se fosse um samba do Monsueto, tanto a letra como a música, a idéia, o estilo." Caetano queria que o disco tivesse essas lembranças dos tratamentos de bossa nova que a música americana importante vem ganhando ao longo das décadas. "Isso é clichê. Não quis fazer isso, mas também não quis evitar. Tenho tudo a ver com isso, quis fazer o meu comentário a respeito." "Tive vontade de fazer um disco só de sambas novos meus e outro de canções sentimentais, também inéditas, por causa de recentes grandes sucessos de outros autores do gênero gravados por mim. São desejos que estão aqui dentro ainda." Ele refere-se a Sozinho, de Peninha, e Você não me Ensinou a te Esquecer, de Fernando Mendes, esta gravada por ele na trilha do filme Lisbela e o Prisioneiro, no ano passado. "Gosto de música que toca no rádio. Sou muito passivo para música. É uma coisa que você consome involuntariamente. Ao contrário de um livro ou de um quadro que você escolhe para ler ou apreciar, a música está em todo lugar, não adianta. Acho errado isso, mas é o que acontece." Sobre ser solicitado a se manifestar a respeito de tudo, Caetano disse que não se nega a revelar suas opiniões quando as tem. Não significa que tudo o que diz deva ser levado a sério. Defendeu a importância cultural do funk carioca, ratificou o desprezo pela falsa nobreza que os críticos dão ao rock ("historicamente é lixo") e apontou o ótimo Brasileirinho, de sua irmã Maria Bethânia, como o melhor disco do ano passado. Não se furtou, no final, a criticar o governo Lula. "Estou de saco cheio desse governo que é mais mantenedor do que experimentador." Sobre insinuações de que estaria em declínio criativo como compositor, demonstrou impaciência. "Estou envelhecendo, talvez os neurônios não funcionem mais", disse, bem-humorado. ( Lauro Lisboa Garcia)(© estadao.com.br)
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