|
05-06-2008
De volta ao Brasil depois de sete anos em Nova York, Hildebrando de Castro trata o amor com ironia em mostras simultâneas no Rio e em São Paulo Gilberto de Abreu Aos 14 anos, o pernambucano Hildebrando de Castro chegou à conclusão de que, quando crescesse, não gostaria de ser nada que pudesse aprender na escola. Dois anos depois, abandonou os estudos. Com os cabelos pintados de azul, deixou Olinda e partiu para o Rio de Janeiro, cidade em que já tinha vivido. Queria aprender com a vida. Contratado pela extinta Editora Manchete, aproveitou o talento para desenhar e foi ganhar dinheiro como programador visual. Com o advento dos computadores, Hildebrando - que não é chegado a máquinas - preferiu abandonar a profissão. Mais uma vez, se arriscou a recomeçar, desta vez como pintor.Três décadas se passaram e Hildebrando - hoje um artista plástico reconhecido nacional e internacionalmente - dá início a uma nova fase. Depois de uma temporada de sete anos em Nova York, ele decidiu voltar a viver no Brasil. Com 46 anos, ele está ao mesmo tempo em duas galerias: no Rio, na Laura Marsiaj, em Ipanema; e em São Paulo, na Casa Triângulo, de Ricardo Trevisan. - Achei que estava na hora de voltar ao Brasil e construir aqui o meu quartel-general. O momento agora é favorável para o tipo de arte que faço. Agora é definitivo - declara o artista, que se diz carioca de coração mas vive uma paixão recente por São Paulo, onde fixou residência. - Inauguro a exposição e no dia seguinte estou indo embora. Não consigo ficar mais do que três dias longe de casa, longe do ateliê - confessa Hildebrando, cujas mais recentes exposições no circuito brasileiro aconteceram na Casa Triângulo (2001), no Paço Imperial (1998), na Galeria Camargo Vilaça (1997) e no Centro Cultural Banco do Brasil (1995). Workaholic e gazeteiro nas mesmas proporções, Hildebrando passa o dia inteiro brigando para não ser dragado pela rotina doméstica. É capaz de passar o café, fazer o almoço e produzir uma obra ao mesmo tempo, sem se atrapalhar. Os trabalhos que Hildebrando apresenta simultaneamente nas exposições do Rio e de São Paulo foram feitos assim, ainda em Nova York, para uma apresentação na Faygold Gallery, de Atlanta. - Acho que os brasileiros podem gostar. São uma paródia da vida - descreve Brando, como lhe chamam os amigos. Ao todo, são quatro pinturas (das quais três são retratos) e quatro holografias de corações distribuídas pelo cubo branco de Ipanema. Os trabalhos dialogam entre si no conceito - a representação do movimento estático - e na montagem. Em um lado da parede ficam os corações, que parecem bater quando se passa diante deles. Na parede frontal, um gigantesco coração (foto acima). No lado oposto, três retratos de uma mesma mulher, a psicanalista e cantora performática Numa Ciro.
Hildebrando e Numa se conheceram entre 1985 e 86, quando ela se mudou do Nordeste para o Rio. Desde então, formam uma dupla bastante entrosada. - A contribuição dele ao meu trabalho é muito grande. Tenho uma proposta estética que engloba figurino, cenário, ação. Hildebrando dá ao que faço a conotação de uma instalação, com um olhar que vem do artista plástico. Hildebrando devolve os elogios, ressaltando que trabalhar com Numa é desafiar as convenções. - Um dia, Numa tinha uma performance agendada na Academia Brasileira de Letras. O trabalho consistia em cantar à capela, com o corpo nu pintado com tinta vinílica. Ela entra em cena com o Austragésilo de Athayde na primeira fila. E ele nem percebeu que o vestido que pintei nela era falso - diverte-se. Segundo a cantora, percebeu sim: - Ao término do show, ele cochichou no meu ouvido que era uma pena não poder levar a pintura para casa. Fora dos palcos, pendurada na parede da galeria, a serviço da investigação plástica de Hildebrando, Numa Ciro continua surpreendente e misteriosa. Conforme se passa de uma pintura para outra, ela parece erguer o rosto e abrir os olhos para fitar quem a observa. É como se seu coração batesse mais forte; como aqueles do outro lado da parede. - Nessa mostra a retratei de perfil, cabisbaixa, num momento de intimidade. Ao perceber a visita do espectador, ela reage sutilmente. Hildebrando voltou com tudo de Nova York. Trouxe inclusive um dos quadros da série das barbies, aquele em que a boneca aparece vestida de noiva, amarrada na cama, descomposta por um estupro. Tão chocante quanto a tela do urso de pelúcias devorando uma criancinha, ou a imagem da enfermeira da Cruz Vermelha carregando um bebê de duas cabeças. Por ocasião da exposição do artista na Camargo Vilaça, em 1994, o crítico Frederico de Morais afirmou ser ''impossível não se deixar envolver pela beleza estranha de seus quadros''. Para ele, ''Hildebrando de Castro parece recalcar o erotismo latente em suas obras, mediante o emprego de técnicas litúrgicas de pintar (...). Se existe algo de escandaloso em sua obra não é o erotismo, mas o sentimento religioso que as anima''. Para Maria Alice Milliet, que assinou o catálogo da mostra do artista no CCBB, ''é difícil não reconhecer na obra de Hildebrando a pulsão de morte mais além do princípio do prazer''. Para ela, desde suas figuras mórbidas - de 1986 ao começo de 1994 - uma aura de morte inibe o estímulo erótico: - O espectador não sente a excitação do voyeur, mas o distanciamento de quem observa borboletas espetadas no fundo de caixas de vidro. O repertório imagético de Hildebrando de Castro é realmente bizarro. Basta dizer que ele fala da paixão tendo como símbolo corações de galinha. - Acho incrível como ninguém se surpreende ao ver dezenas de corações de galinha esturricados no palito. Quantas galinhas não tiveram de morrer para encher d'água a boca das pessoas? A arte de criar processos O apelido Brando parece refletir o atual estado de espírito do artista. Ele já não é o Hildebrando de Castro do passado, cuja vida social se dava 24 horas por dia, sete dias na semana. - Ainda tenho amigos que saem de casa na quinta-feira e só voltam no domingo. Não é mais a minha praia. Tenho idade para ser tio de muita gente - argumenta o artista, que mesmo em Nova York fazia questão de manter-se low profile. Mais calmo atualmente, ele passa o dia em função da carreira: acorda sistematicamente às nove da manhã e, depois do café, dá início aos trabalhos. Desenha, constrói cenários, compõe cenas, ilumina, fotografa, exporta a imagem para o computador - que só usa para retocar as imagens no photoshop -, imprime, reproduz na tela. Hildebrando inventa seus próprios processos. E desde cedo os faz com sucesso. Em 1985, tirou primeiro lugar no Salão Carioca de Artes Plásticas e, no ano seguinte, faturou o primeiro Prêmio no Faber Castell Exhibition, no Museu de Arte de Nuremberg. Parodiar a vida não é fácil. Dói tanto quanto a realidade. - A pintura figurativa é sobretudo realista. Para retratar o estupro da noiva, comprei da cama ao vestido. Amarrei a boneca na cabeceira da cama, rasguei sua roupa, sujei o lençol. Depois de tudo pronto, fica mais fácil para transpor a cena para a pintura. A marchand Laura Marsiaj diz que o trabalho de Hildebrando desafia qualquer noção fácil de figuração. - A sofisticação visual e a estética redutiva eliminam detalhes superficiais. Levam a um olhar conceitual frio, criando um paradoxo com o coração símbolo da paixão. A arquiteta Bel Lobo ficou tão encantada com a exposição que não resistiu e comprou um dos trabalhos. - Eu adorei. Foi a melhor exposição que já vi na Galeria da Laura depois que ela saiu do Jardim Botânico. A montagem é impactante. O conjunto de corações é muito forte, mexeu comigo emocionalmente. Mas não foi o coração o trabalho adquirido pela arquiteta, que preferiu reservar um dos retratos de Numa. - Escolhi aquele em que ela encara o espectador. Os outros retratos são bonitos, mas muito melancólicos. Preferi o mais impactante. Meu marido ficou meio reticente em relação à compra. Disse que não saberia conviver com uma pessoa tão forte como aquela todos os dias, em sua casa. Com o tempo acostumamos. (© JB Online)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004