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Simpático retrato de um artista

05-06-2008

Fernando Miceli/Divulgação

Marcos França se empenha com emoção para preencher as facetas do personagem-título

Simples porém eficiente, montagem sobre Antônio Maria consegue esmiuçar a riqueza do personagem

Macksen Luiz
Crítica/ Teatro

   Cronista de um estilo de vida carioca, boêmio com caráter de amante arrebatado, letrista de canções que evocam vivências, redator de humor que buscava no riso um certo ridículo, o pernambucano Antônio Maria (1921-1964), ele próprio personagem de um tempo em que o Rio e a noite se entrelaçavam numa celebração, é mostrado no palco do Teatro Maria Clara Machado na extensão desta multiplicidade. A noite é uma criança, que encerra temporada hoje, segue roteiro bastante simples de Marcos França, ainda que amplo na maneira despretensiosa com que aborda a produção e a vida de alguém tão delicado que se preocupa em identificar na filha a necessidade de ''fazê-la forte, para arcar com sua perigosa sensibilidade''.

   A montagem, de certo modo, se concentra nesta ''perigosa sensibilidade'', zona-matriz de onde surgem esses tantos Marias, que ora aprisionam numa coluna de conselhos sentimentais o patético humano, ora fazem rimas doídas para o mal de amor, ora apontam a esperança como profissão do brasileiro, esse incansável desempregado de tudo. Na captura do múltiplo, o roteiro revela o individual. Sem cronologia, conduzindo a biografia em que datas, nomes e acontecimentos se misturam no compasso das cenas, as doses de humor, melancolia, angústia e alegria do cronista de instantes, do homem de eternidades, se revelam pelas suas palavras e canções.

   Como o roteiro reflete a diversidade produtiva de Antônio Maria, a montagem aproveita as constantes sugestões do material para estabelecer a dinâmica da cena, que não cai em vazios ou monótonos interlúdios.

   A diretora Joana Lebreiro imprime uma tal agilidade à montagem que o jogo narrativo de crônicas, músicas e aspectos da vida ganha a aposta na riqueza do personagem.

   A encenadora ambienta o espetáculo na arena do teatro, com mesas e cadeiras lembrando um bar, ou melhor, remetendo à ''mesa de pista'', título da coluna que Antônio Maria manteve por anos na imprensa carioca. A cenografia é dividida com os espectadores, que se confudem com os atores, em contracena em que é possível ser servido de um drinque ou ser foco do olhar de um deles ao cantar. Não há constrangimentos ou atitudes de falsa naturalidade, o espectador se integra à cena, num relacionamento que se faz informal e sutil.

   As projeções de fotos e desenhos, às vezes um tanto precárias tecnicamente, se justificam pelo valor documental, e a direção musical de Fábio Nin acompanha a simplicidade de toda a montagem, valorizando o repertório escolhido. Algumas vezes, o espetáculo ameaça se enredar no sentimentalismo, mas o rumo é rapidamente corrigido, quebrado por um clima dramático contrastante, que repõe o quadro geral de um simpático retrato do artista.

   O trio de atores canta com competência, mas sem maiores destaques. Claudia Ventura tem presença agradável, com melhor participação nos toques de humor bem dosados que empresta às cenas em que interpreta os jingles escritos por Antonio Maria. Alexandre Dantas se mostra um pouco menos à vontade do que seu colega de cena Marcos França, que se empenha, com visível emoção e intimidade, em preencher a dezena de personagens que se distribuem pelo seu bem estruturado roteiro.

   Antônio Maria - A noite é uma criança. De Marcos França. Com Alexandre Dantas, Claudia Ventura e Marcos França. Teatro Maria Clara Machado, às 20h.. R$ 15. Último dia. O espetáculo voltará a ser encenado em junho.

(© JB Online)

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