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05-06-2008
Trinta e três anos de carreira ininterrupta. Mais de 300 canções. Repertório endossado por intérpretes como Raimundo Fagner, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Nara Leão, Gal Costa. Letrista referencial da MPB, o compositor e arquiteto Fausto Nilo faz 60 anos
Ethel de Paula
Vontade refém do
recato. Até concluir a Faculdade de Arquitetura na Universidade Federal do
Ceará, em 1970, o compositor Fausto Nilo escondeu-se insuspeitado atrás da
figura de agitador cultural, calando fundo o recôndito desejo de, ainda
estudante, escrever letras para músicas. À frente do mais efervescente
centro acadêmico de então, viu o lugar transformar-se no principal ponto de
convergência entre artistas e intelectuais, dada a sortida discoteca que
também atraiu e aproximou o chamado Pessoal do Ceará; soltou a voz nas rodas
de violão que do campus saíam para varar madrugadas no bar do Anísio, à
beira-mar; engrossou as discussões políticas e estéticas geradas no seio do
movimento estudantil; tomou assento nos bancos da Praça do Ferreira, ponto
de chegada de jornais e revistas do Sul do país; foi ''penetra'' no Clube de
Cinema de Darcy Costa, mas não ousou fazer companhia a letristas já
reconhecidos na cena local, como Augusto Pontes, Brandão e Petrúcio Maia. As
letras só sairiam da gaveta em 1971, ano em que o autor deixaria o
estado-natal. (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Casa Tudo Azul Há 60 anos, nascia o quarto dos sete filhos do casal Luís e Hilda Costa, em Quixeramobim, a 224 Km de Fortaleza. Fausto Nilo morou na casa onde nasceu Antônio Conselheiro. Entre quatro paredes, os primeiros desenhos. Do lado de fora, música troando nos alto-falantes, cinema, futebol, 'marinheiras' Fausto Nilo Costa Júnior não é filho, mas neto de Fausto Nilo. O lapso do tabelião da cidade de Quixeramobim, cometido há 60 anos, quando o quarto dos sete filhos do casal Luís e Hilda Costa nasceu, até hoje gera controvérsias familiares. ''Na época, o único Júnior da cidade era o filho do promotor de Justiça. Dizem que o empregado do cartório copiou o nome porque queria agradar, conferir importância. Mas a vida toda Fausto encarou isso como um erro de cartório. Até o dia em que descobriu que Júnior não significa filho de fulano, mas o mais novo do clã. Daí em diante, entendeu o fato como um acerto'', contou o irmão Benjamin Costa, 58. Entre os homônimos, sobraram afinidades eletivas. Em vida, o avô fez fama como o festeiro-mor da região: contratava o bumba-meu-boi, arranchava cantadores e emboladores, organizava festas nos matos e, se preciso, vencia léguas no rastro de um bom arrasta-pé regado a cachaça e cabrochas. Padeiro e comerciante de tecidos, Luís Costa, ao contrário, encarnou o tipo compenetrado. ''Hoje, quando nos reunimos, lembramos do papai como uma figura engraçada, por conta de suas reclamações, seu zelo exagerado, o modo como exigia que andássemos na linha. Ele não queria ver os filhos metidos com negócio de roda de violão, bebida ou futebol. Então, quase tudo o que fazíamos era escondido, acobertados por minha mãe, hoje com 90 anos. Quando Fausto começou a desenhar, por exemplo, ele foi contra e ela é quem ponderava: 'Meu filho, sente lá na calçada da Matriz e desenhe à vontade'. Dava corda porque também tinha pendores artísticos: o seu caderno de músicas de solteira tem as notas musicais todas desenhadinhas'', lembrou a irmã caçula, Maria das Graças Costa, 55, a Gracinha. Cúmplice, a matriarca anteviu a verve do filho. ''Hoje, minha mãe quase não tem momentos de lucidez. Mas contava sobre o espírito aventureiro de Fausto, revelado desde criança. Ele era louco por caminhão, chegava a desenhar vários tipos. Quando os carreteiros passavam com seu burros de carga, chegou a surpreendê-lo comendo paçoca com eles, super à vontade. Outra vez, foi pegá-lo já perto da estação, junto aos ciganos'', recordou a mana Selma Costa, 63. Habilidoso nos campinhos de várzea, o fujão chegou a ganhar apelido. ''Nas peladas, a meninada chamava o Fausto de Damasceno, um jogador da época, muito bom. Ele ficava todo orgulhoso'', entregou o irmão Luís Costa Filho, 58. Desempenho oposto na água. ''Até sair de Quixeramobim, aos 11 anos, Fausto não aprendeu a nadar. Nem nas férias perdia o medo e assim é até hoje. Quem ouve 'As Marinheiras', canção em que fala do rio da cidade, pode achar que nadou muito ali. Mas não. As marinheiras eram justamente os poços que se formavam quando o rio secava. Ali, as meninas tomavam banho em determinados horários e ele só brechava de longe'', emendou. Cinema sim, virou rotina. E o circo, encanto. ''Ficava na primeira fila do cine Skeff, Fausto e outros meninos. As meninas não se misturavam, sentavam nas fileiras do meio, com acompanhante. Lembro que Fausto comprava o retrato das vedetes, Dorothy Lamour era paixão platônica, e gostava de acompanhar o palhaço pelas ruas da cidade na divulgação do espetáculo. Tudo escondido de papai'', ressaltou Selma. Paródia era a especialidade das filhas de Hilda Costa, a melhor boleira da região. ''As irmãs gostavam de mangar da vizinhança, imitar um e outro, então aquilo virava atração no meio da sala-de-visitas'', riu-se Luís. Público em casa não faltava. ''Morávamos entre dois avôs, Fausto Nilo e Benjamin, parede com parede, sem separação. Ficava na rua Cônego Aureliano Mota, 210, o mesmo endereço onde Antônio Conselheiro nasceu. Era um sobrado grande, com sótão. Nas férias, os irmãos e os amigos de Fortaleza dormiam lá e era um entra-e-sai danado de madrugada, na surdina. Eles amarravam lençóis que serviam de corda para escalar o muro. Sempre havia movimento, festa'', atestou a irmã Neodêmia Costa, a Neó. Por estas e outras, não foi fácil deixar a Casa Tudo Azul, nome com o qual Luís, o patriarca, batizou seu comércio, numa alusão direta ou inconsciente à feliz atmosfera doméstica. ''Quando deixou Quixeramobim por Fortaleza, aos 11 anos, mamãe fez Fausto se despedir dos parentes e amigos todos, um por um. A última cena que ele diz ter visto da janela do trem foi uma pessoa escovando os dentes do lado de fora. Chorou muito durante a viagem'', relatou Gracinha. A cada férias escolares do Liceu do Ceará, volta ao aconchego. Por vontade paterna, o primeiro varão da prole posou de menino-da-cidade-grande, maduro e ajuizado. ''Papai sempre responsabilizou o mais velho por nossas estripulias. Às vezes até castigando. Eu e Luís éramos presepeiros mesmo, saíamos para caçar, andávamos com baladeira, frequentávamos lugares mal falados e, para completar, começamos a beber cachaça. Fausto ficou sabendo disso numa de suas vindas à cidade e foi exigido que nos desse um corretivo. Chegou repreendendo, sério, cheio de moral, dizendo que a gente tinha que se ajeitar, parar de beber. No final das contas, saiu de lá bebendo mais do que nós dois juntos'', gargalhou Benjamin. Nas letras de música, fragmentos da memória infanto-juvenil. Alguns só detectados em família. ''Tem uma canção em que ele fala sobre o cavalo corta-vento, que é mais rápido do que o pensamento. Meu pai era quem cantava isso'', observou. ''Noutro verso, menciona 'o cordão colado'. Não é jogo de palavra. Isso vem de um parente nosso, doido, que entre seus delírios usava essa expressão'', afirmou Neó. Comprada pela Secretaria da Cultura do Estado, a Casa Tudo Azul dos Costa está vazia. À frente, uma placa identifica o local de nascimento do messiânico Antônio Conselheiro, fundador do arraial de Canudos. Nenhuma menção à passagem do compositor que cantou a cidade, perguntando-se, entre melancólico e jocoso: ''O que será de mim, Quixeramobim?'. Na despedida, festa no quintal que dá para o rio, roda de violão, cantoria. Música popular brasileira das primeiras décadas do século XX. Tudo muito familiar. ''Este era o repertório da extinta radiadora Voz de Cristal, que, com seus quatro mil discos de cêra, embalou nossa infância e adolescência. Quando nos revemos é como se não tivéssemos idade e os alto-falantes ainda funcionassem, tocando, o dia inteiro, Orlando Silva, Nelson Gonçalves...', suspirou Neó. A caçula arrematou: ''Hoje, moramos eu e minha mãe, na casa de eira e beira que foi de minha bisavó e tem mais de 100 anos. Fausto reformou-a, mas ainda sinto saudades da antiga''. (Ethel de Paula) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Chão da praça A amplificadora da paróquia de Santo Antônio alcovitou namoros ao sereno. ''O grande ponto de encontro da juventude de Quixeramobim sempre foi a praça central. Os rapazes nas bordas e as moças passando. Quem não era tão bom de batida de olho, mandava recados amorosos pelos alto-falantes: 'De alguém que está no banco tal para alguém que está de azul'. Fausto, que era tímido, também se utilizou desse artifício, mas nunca chegou a ser o que se pode chamar de um conquistador nato'', segredou o primo José Artur Costa, hoje professor, companheiro inseparável na cidade-natal e nos primeiros anos de Liceu do Ceará, em Fortaleza. Ávidos por informação e entretenimento, os dois não perdiam a chegada do trem à estação. ''Era o momento de pôr as mãos no mais novo número da revista O Cruzeiro e passar dias comentando as notícias do Sul do país. Sonhávamos com os anos dourados do Rio de Janeiro'', rememorou. No chão da praça, também pisavam os tipos populares, figuras que, pela excentricidade, ficaram na memória. ''Nos divertíamos muito com o Chico Caminhão, por exemplo. Era psicótico e motorista dele próprio, o primeiro oficce-boy da cidade. Só andava correndo, fazia aquele barulho do motor com a boca, metia a marcha, tudo. E quando mancava era porque o pneu estava furado. De repente, podia dar o prego, mesmo que estivesse levando as malas de alguém até a estação, aí não tinha jeito, empacava. Por fim, chegou ao cúmulo de cortar os cílios quando a Ford mudou os designers dos faróis, retirando as capinhas'', gargalhou o primo. Boêmios profissionais, Cabeleira e Serafim tornaram-se chapas de copo e violão. ''Um era todo no pano passado, sapato branco lustrado, cabelo na brilhantina e exímio dançador de gafieira. Nós aplaudíamos, adorávamos. O outro encarnava o Zé Carioca da época, falava gíria, posava de vida boa, mas, na verdade, era engraxate, louco por cinema e cantor de samba de breque. Eu e Fausto parávamos para ouvi-lo'', credenciou. Na cabeça de ambos, a mudança para Fortaleza representou o primeiro passo em direção à modernidade. Instalados no centro da cidade, moraram em trio: Fausto, José Artur e um terceiro primo, já falecido, José Wagner. ''Éramos viciados em cinema. E teve um ano que durante os meses de março e abril inteiros fomos assistir aos filmes todos os dias. Até decorarmos os diálogos e as músicas. Quando chegou o elepê, ficávamos ali na rua do Ouvidor, ouvindo na garapa. A mesada que vinha do interior era aquele dinheirinho contado. Zé Wagner é quem tinha mais discos e uma eletrola'', recordou José Artur. Aos sábados, a turma de alunos do interior, aprovados no difícil 'vestibular' do Liceu do Ceará, passava o repertório a limpo, em rodas matinais de violão. Na sala de aula, indícios da profissão futura. ''Antes de tornar-se estudante de arquitetura na Universidade Federal do Ceará, Fausto já era capaz de reproduzir um objeto ou desenhar a caricatura de uma pessoa. Fazia isso, por diversão, no Liceu'', comentou. Recomendação familiar: os mais novos deviam obediência ao mais velho. ''Acho que Fausto me enganou várias vezes, quando virava noites na faculdade com a desculpa de ficar estudando. Desconfio que eram reuniões políticas - estávamos no final dos anos 60 e ele vibrava com os protestos na Praça do Ferreira - ou boemia. Nós três frequentávamos o Clube Iracema, o Clube dos Diários, as boates... Isso quando os dois não eram barrados por parecerem ainda mais novos. Aconteceu várias vezes na Fascinação e lembro a noite em que Fausto e Zé Wagner foram conhecer uma nova, na Praia de Iracema. Tinha ancorado um navio, alertei que marinheiro, quando desembarca e vai se divertir, sempre arruma confusão. Eles não ligaram, me juraram voltar antes da meia-noite. Marcamos um ponto de encontro. E duas horas depois do combinado chegam os dois, brancos: tiveram que escapar da briga pela porta dos fundos'', riu-se. Hoje, quando Fausto volta a Quixeramobim para veranear, o ponto de encontro entre os primos é a barbearia do Edilson. ''Mandamos buscar a bebida, o tira-gosto e ali vamos nos atualizar. É como cabeleireiro, tudo o que acontece na cidade a gente fica sabendo'', fofocou José Artur. Entre um e outro feriado, o reencontro com parentes da mesma e de outras gerações. Oswaldo Costa Martins, o Oswaldinho, filho de Ana Maria, prima do letrista, arrepiou-se no dia em que, no meio da quermesse da festa da padroeira, Fausto reuniu-se com os mestres de boi da região. ''Ele havia trazido como convidado de Fortaleza o cineasta Maurice Capovilla. Quis mostrar as músicas do boi de Quixeramobim. E quando os mestres esqueciam as letras, Fausto relembrava. Sabe de cor cerca de 40 delas e tem planos de gravar um disco temático'', afirmou. As rodas de viola no quintal da casa do poeta também encerraram horas mágicas. ''Quando criança, havia uma pedra que ele achava parecida com um peixe, ficava horas olhando e dialogava com ela. Recentemente, pediu a um lapidário para, finalmente, esculpir o peixe. Foi um momento ritualístico, a gente assistindo, comendo carneiro e bebendo cachaça'', vibrou. (EP) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Cidades e lendas O arquiteto Fausto Nilo foi da primeira turma da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Ingressou na escola em 1965, já desenhando profissionalmente Chegou ao escritório do decorador Arialdo Pinho levado pela mãe, dona Hilda Costa, com o diploma do Curso Monitor de Desenho em punho. No local, já trabalhava o então aluno do Liceu do Ceará e colega de banco escolar, Delberg Ponce de Leon. ''Na primeira tentativa não houve como ficar, mas continuamos em contato durante as aulas. No mesmo semestre, avisei-o sobre a nova chance e ele foi contratado. Tínhamos 16 anos'', narra o parceiro de prancheta com quem o arquiteto Fausto Nilo trabalha desde então. Empolgação juvenil. A especializada biblioteca do patrão apaixonou os iniciantes, que varavam madrugadas feito traças. Empenho recompensado. Em 1965, ano de implantação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, Fausto integrou a primeira turma de aprovados. Um ano depois, Delberg passou no mesmo vestibular. A dupla-amadora colou na dupla-mestre, oferecendo-se para fazer o detalhamento de projetos arquitetônicos dos então professores Liberal de Castro e Neudson Braga. ''Fausto era um aluno que se destacava por seu interesse e habilidade. Desenhava bem e mostrava-se um debatedor equilibrado naquele espaço que acabou se tornando um centro de referência cultural e político para a cidade. Atraídos por uma discoteca sortida, estudantes, intelectuais e músicos fizeram do pátio da escola a melhor sala-de-aula que podiam ter. As árvores tratavam de protegê-los, dificultando visitas inoportunas, comuns naquele período engessado. Nós, por outro lado, garantimos uma biblioteca eclética, com títulos ligados à arte e à cultura em geral, além das assinaturas de mais de 80 títulos de revistas afins. Tudo isso favoreceu a imaginação poética, assim como o pensamento teórico da arquitetura. Não era só o risco pelo risco'', contextualiza o arquiteto Liberal de Castro. Em 1969, um ano antes de concluir o curso, a equipe de Fausto Nilo traz para o Ceará o prêmio da X Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, organizada por Francisco Matarazzo. ''A disputa de projetos foi entre escolas de arquitetura nacionais e estrangeiras. O tema dos meninos foi ''A Faculdade de Arquitetura no Campus''. Esse reconhecimento nacional marcou a vida da escola, que cinco anos depois de instalada já entrava no circuito com respaldo. Até hoje, o trabalho está exposto na biblioteca em painéis'', credencia o mestre Liberal. Entre projetos de residências, empresas e hotéis, Fausto e Delberg também lecionaram. ''Fui professor da faculdade de 1972 a 1978. Fausto ensinou de 1970 a 1974, só que os três últimos anos foram na UNB, em Brasília. Mas sempre mantive o nome dele nos projetos locais, trabalhávamos por telefone, correio, fax'', diz o parceiro. A curiosidade em relação à cidade planejada só durou até 1973. De volta a Fortaleza, Fausto não esquentou lugar, mudando-se dois anos depois para São Paulo. Não à toa. É de sua autoria o projeto arquitetônico da estação Santa Cecília do metrô paulista. ''Trata-se de uma obra subterrânea, mas com iluminação direta e ventilação. Muito interessante. Ia bem até ser arrastado para o Rio de Janeiro, passando a escrever letra de música. Mas, gradativamente, o Delberg o trouxe de volta para a arquitetura. Até que em 1988 veio para Fortaleza de vez. Hoje, é autor de alguns dos cartões postais da cidade'', comemora o ex-professor. Entre os ícones assinados pela dupla Fausto/Delberg, Praça do Ferreira e Centro Dragão do Mar saltam, literalmente, aos olhos. As mega-intervenções colecionam loas e críticas. ''O julgamento é do público, não há melhor juiz para uma obra. A aceitação pode não ser imediata e os critérios variam com o tempo. Tem mais: às vezes o projeto é feito de uma forma, mas o cliente não tem dinheiro. Quer dizer, não sou usuário, pouco saio de casa, mas a mim agrada a idéia de um prédio longitudinal, que atravessa dois quarteirões. Aproveitou o que lhe foi dado, dentro da tecnologia possível'', defende Liberal. Quanto à Praça do Ferreira, simpatia pela linha arquitetônica adotada. ''A Coluna da Hora é mantida como reposição de memória do que foi extinto. Os arcos fazem a marcação da passagem de carros, numa reinterpretação nova, que passa por um refinamento intelectual. E a cacimba de 1857 está à mostra. Não é puramente racional nem emocional'', esmiuça. Assinando 13 planos-diretores municipais e um regional, que abraça todo o Maciço de Baturité, Fausto Nilo contabiliza mais de 150 obras em 30 anos de grafite. Por último, participou, com Delberg, do projeto coletivo do Centro de Feiras e Eventos, encomenda do Governo do Estado, ainda em discussão. ''Fomos convidados pelos professores Liberal de Castro e Neudson Braga para assumir, mas Fausto teve a idéia de convidar outros arquitetos e compor um poll. Fizemos mais de 50 debates públicos. Tudo isso é incomum entre a classe e foi um exemplo para o Brasil, mas acho que os arquitetos não valorizaram. Hoje, quebrou-se a linha de produção e o projeto não passa de um monte de papel'', admite Delberg, autor da idéia de avançar com a obra para o mar, outro ponto criticado entre arquitetos contrário à intervenção. Intensa, a relação profissional da dupla não tem a mesma pulsação da convivência informal. ''Não tenho sua coleção de discos, não sei suas músicas nem seu telefone celular de cor, mas Fausto é padrinho de meu segundo filho e não existe uma notícia que não dê em primeira mão para ele. No entanto, não fazemos os mesmos programas e raramente nos visitamos'', assume o amigo. Com o ex-professor, o cotidiano, via de regra, é compartilhado ao telefone. ''Sou cético, Fausto é animado. Muitas vezes quebra a cara com concursos fajutos e depois é que vem me dar razão. Meus amigos continuam sendo os da escola. Eu e Fausto já viajamos juntos, tomamos vinho no cais em Paris, olhando o entardecer, passeamos por Veneza, Barcelona. E sempre trocamos livros. Ele compôs uma bibliografia internacional, está sempre atualizado. Se bem que, em se tratando de arquitetura, os antigos podem ser os mais interessantes. Lemos Vitrúvio, arquiteto que viveu há 200 anos, como se ele fosse um companheiro'', vibra Liberal. (Ethel de Paula) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Era moderna a minha dor Xico Sá Especial para O POVO Tem
coisa mais estranha do que a nossa primeira Coca-Cola? Em língua semi-árida,
vôte, é tão indecifrável como a primeira hóstia, o primeiro beijo na
roda-gigante - um nervoso de botar os bofes! -, a primeira grande chuva, a
primeira rapariga, o primeiro arroto de cajuína, o corte na fita inaugural
do gozo mais precoce. A primeira Coca-Cola de Fausto Nilo cai bem melhor com
um rum, nos bota comovidos, furando o disco, morte morrida das nossas
Dorothys Lamour. SERVIÇO: (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) O futuro é assim Marcus Lima Especial para O POVO
A arquitetura é uma das mais complexas atividades na construção das
sociedades. Por seu caráter pluralista, cuja formação envolve aspectos
sociais, econômicos, ambientais, tecnológicos e culturais, possui a
propriedade de dissecar civilizações, expor contextos históricos e denunciar
invariavelmente as contradições, conflitos e tensões entre o público e o
privado, entre as intenções e as possibilidades. Não há nada mais revelador,
e, por mais paradoxal que possa parecer, apresenta, com o mesmo vigor, a
fragilidade ou a autenticidade dos discursos, face à materialização dos
resultados. É um constante debate entre a razão e a emoção, a técnica e a
arte, forma e função, conteúdo e continente. (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Opinião ''A primeira poesia de Fausto Nilo que me chamou atenção imediatamente foi 'Retrato Marrom'. Conheço bem as canções que têm o bar como referência. Lupiscínio, Dolores, Maísa... Mas o enfoque de Fausto é diferente, por conta das metáforas: ''Vê se estanca essa tristeza que ilumina o escuro bar / O nosso amor é um escuro bar / suspiro azul das bocas presas / Guarda o teu olhar de ave presa / Na toalha de uma mesa / Sem mirar a luz / Não há calor na luz do sol / O fim da festa é uma certeza''. Essas informações estranhas me chamaram atenção. Logo aprendi a música e comecei a tocá-la. Quando o conheci na casa de Afonsinho, já tocava. Vaidoso como é, no mínimo, pensou: 'Conquistei o Rio de Janeiro' (risos). A partir daí, o que posso dizer é que caiu na noite carioca com uma alegria pagã, cercado de más companhias. O cara desembestou, como se diz no Quixeramobim, sua cidade-natal. Por conta das farras, o namoro com a Silvia, sua atual esposa, naturalmente esfriou. E posso dizer que fui eu quem propiciou o reencontro definitivo dos dois quando os convidei para uma festa na minha casa. Cervejinha vai, violão vem, voltaram a namorar e nunca mais se separaram. Hoje, é um pacato pai de família. A letra dele que gostaria de ter feito? 'Três Meninas do Brasil'. Mas ele também gostaria de ter feito 'Festa do Interior' (risos). Agora, vou dar o crédito: em 'Baú de Brinquedos' o verso que diz 'quando anoitece pra lá da campina' é dele. Achei engraçado, porque minha perspectiva é sempre muito urbana. E esse toque deu algo de surrealista à canção''. Abel Silva, cantor e compositor ''A primeira canção de Fausto Nilo gravada por mim foi 'Retrato Marrom', em 1977. Acho que o conheci na casa de Abel Silva, já ouvia falar dele através do Fagner, com quem gravei um compacto na década de 1970. Mais recentemente, Fausto me ajudou na seleção musical de meu CD Batuque. Encontrei-o no aeroporto de Salvador e comentei que estava gravando um disco só com músicas dos anos 30 e 40. Sei que é um pesquisador da música popular brasileira e que se interessa muito pelos compositores da época, aliás é capaz de lembrar letras inteiras de alguns deles. Então, ele me mandou algumas sugestões e duas delas acatei: 'De Papo para o Ar' e 'Teu Retrato', de Nelson Gonçalves. Gosto muito do trabalho e da postura dele como letrista. É manso e nunca foi de oferecer música''. Ney Matogrosso, cantor e compositor ''Conheci Fausto Nilo quando os nordestinos chegaram ao Rio de Janeiro, praticamente juntos, no início da década de 1970. Ele já estava ali pela CBS junto com Fagner, Robertinho do Recife, Amelinha. Mas eu não havia conseguido gravar meu primeiro disco ainda. Chegamos, como diz o Belchior, sem parentes importantes e vindos do interior. Só a mala cheia de poesia. Dormi muito de favor na casa do Fagner, do Abel Silva... Assim, nossa primeira parceria só foi acontecer em 1998, no meu disco Eu sou todos nós. Gravei 'Companheira de Alta Luz'. 'Cidades e Lendas' foi a segunda e deu nome ao meu disco por ser uma balada mística, que trata da pluralidade das cidades brasileiras, tema que me interessa. A mais recente, ainda inédita, deve entrar no meu próximo CD, estamos dando os últimos retoques por e-mail. É romântica, fala de amores perdidos, mas de uma forma fantástica, como Fausto bem sabe fazer. Gosto como ele cava o poder das palavras, distorce imagens''. Zé Ramalho, cantor e compositor ''Na época da reforma da Praça do Ferreira, começo da década de 1990, ficávamos eu e Fausto, do alto dos janelões do Clube dos Advogados, olhando a obra e conversando. Eu tinha verdadeiras aulas sobre a história de Fortaleza. Recentemente, voltamos a passear pelo Centro da cidade, aos sábados. Ficamos acompanhando a rota do mercado informal de discos, perguntando a um e outro ambulante. Antes, quando ainda existia a Francinet Discos, gastávamos horas lá dentro ouvindo música. O dono era de Quixeramobim, assim como Fausto, daí garimpava pérolas para nós. Já fomos assíduos frequentadores de bar. Mas hoje só nos reunimos às segundas-feiras, dia mais profissional para a boemia que procura uma boa conversa. Quando queremos enfiar o pé na jaca, coisa rara, o lugar para encerrar a noite é o Tocantins, onde amanhecemos cantando''. Fernando Costa, publicitário ''Na época do Bar do Anísio, na Beira Mar, point do Pessoal do Ceará, eu era considerado menino, eles não me davam bola. Começamos a frequentar os mesmos bares já no anos 80. Era Estoril, Armário, Citron. O Francis Vale teve um bar-pousada que chamávamos de Francês das Arábias, lá também via Fausto Nilo, Augusto Pontes, Rodger Rogério... Mas só viemos a ficar amigos quando o escritório dele venceu a licitação para a construção do Centro Dragão do Mar. Fausto veio com a idéia de que a obra começasse em cima, descesse aquela ladeira e ocupasse dois níveis diferentes da cidade, tipo cidade alta, cidade baixa. Fizemos viagens pela Europa visitando centros culturais e museus. Brigamos muito, eu e ele, com os gerenciadores do dinheiro do Governo, tivemos que reduzir as dimensões por falta de verba, a obra parou, disputamos com outros projetos, fizemos com o que tínhamos. A idéia original era desapropriar casas do entorno, interligar o centro com o Boris, fazer um teatro com dois mil lugares. Acharam megalomaníaco. Hoje, está pequeno. Então, aprendi com esse processo. Fausto Nilo é um grande observador da cidade e me ajudou muito na compreensão dela. Trata-se de um profissional que busca se atualizar, não teme os riscos e não foge ao debate de idéias. Representa uma atualização estética para a música e a arquitetura do Ceará''. Paulo Linhares, ex-secretário da Cultura do Estado, hoje deputado federal ''Apesar de ter sido do centro acadêmico de Arquitetura e vice-presidente do DCE em 1968, Fausto nunca pertenceu a nenhuma organização política ou partido. Sempre foi reticente, sempre refletiu muito, tinha muitas dúvidas. De qualquer forma, era querido, procurado para dizer o que pensava. Eu era do PC do B, fui presa muitas vezes. Nos casamos e viemos para Brasília em 1971, onde estou até hoje. Ficamos casados por cinco anos. Mas não mantivemos contato depois disso''. Mércia Pinto, musicista, primeira esposa de Fausto Nilo ''Em São Paulo morei na casa do Belchior. Rodger Rogério morava em frente, então por ali sempre apareciam Fausto Nilo, Brandão, Augusto Pontes. E eram grandes noitadas que tive o prazer de presenciar. Anos depois, já em Fortaleza, vim abrir ateliê em um dos galpões contíguos ao Centro Dragão Mar, projetado por Fausto. As linhas e curvas do lugar me inspiraram a pintá-lo. Fiz uma série Dragão do Mar. Na exposição, Fausto comprou uma das pinturas, que hoje está na parede de sua sala-de-visitas''. Sérgio Pinheiro, artista plástico ''Como amante da música brasileira, sempre admirei as letras inventivas do Fausto. Um dia, depois de um show que fiz em Fortaleza, no Dragão do Mar, finalmente nos conhecemos. Falei pra ele: 'Fausto, pra mim você até agora era só um nome nas capas de discos, agora sei que o nome tem rosto. Minha geração deve muito a você'. Ele agradeceu, e passamos a noite bebendo e conversando no bar do hotel em que eu estava, lembrando de canções, eu e a banda embasbacados com a verve do Fausto, um ótimo contador de histórias. Passamos a compor com certa frequência e hoje já temos mais de dez canções, incluindo as que foram gravadas no meu disco com o Fagner. Nossa parceria é muito fluente, muito fácil, tanta é a afinidade que rola entre a gente. Nos divertimos muito durante a gravação do disco aí em Fortaleza, passamos noites inesquecíveis. Uma das histórias mais hilárias do repertório do Fausto é a história do Padre Cromácio Leão, regente da euterpe de Jaboatão. Difundi tanto essa história entre os amigos por aqui, que posso dizer que o padre já é uma pequena celebridade. Perguntem ao Fausto. Abraço, ZecaB.' (N.R. Fausto Nilo disse que a história do Padre Cromácio Leão é impublicável) Zeca Baleiro, cantor e compositor ''Minha aproximação com Fausto Nilo se deu de forma muito natural e espontânea. Antes do meu primeiro disco ele já me dizia que gostaria de produzir algo para mim. Brincava: 'Precisamos fazer um hit pra você'. Quando estava produzindo o disco Próximo, ele estava começando a se reunir com o Cristiano Pinho, que fez a direção musical do seu segundo CD, Casa Tudo Azul. Foi numa dessas reuniões que conheci a primeira safra de parcerias do Fausto com o Zeca Baleiro. Me apaixonei por 'Antes', mas demorei muito até pedir para gravá-la, pois imaginava que faria parte do Casa Tudo Azul. A vontade de gravar foi mais forte e resolvi, muito tímida, pedir a música a ele. Eu liguei, ele estava em Quixeramobim e disse 'sim' imediatamente. Mas 'Antes' seria a segunda letra do Fausto que eu gravaria no Próximo, pois já estava em andamento uma parceria dele com o Cristiano Pinho, 'A Ponte', que foi composta especialmente para o disco. Depois destas duas veio, então, 'O Piano'. A melodia conheci antes, na casa do Fausto, quando ainda não tinha letra. Ele abriu um baú de músicas ainda não letradas e lembro bem que fiquei encantada com o blues do Antônio José Forte. Desta vez, ele me ofereceu a música, tímido, pois já havia duas letras dele no meu disco. Ouvi a música, agora com letra, e disse sim imediatamente, pois ''O Piano'' - música e letra - é uma obra de arte. Há lirismo e contemporaneidade nos textos do Fausto. São duas características que gosto e que costumam estar presentes nas letras que escolho para cantar. É muito difícil colocar a palavra certa numa melodia e, além disto, fazer com que soe bem. Ele faz letras simples, inteligentes e boas de cantar. Como intérprete, fico feliz por conhecê-lo e ter gravado composições suas inéditas; como cearense, fico orgulhosa por sua obra''. Kátia Freitas, cantora e compositora No programa do show Cores, Nomes, no Canecão, Rio de Janeiro, em 1982, Caetano Veloso dá a seguinte declaração sobre a música ''Surpresa'', que conta com uma inusitada colaboração de Fausto Nilo: ''Ela (a canção) nasceu da seguinte maneira: João Donato foi assistir ao meu show Outras Palavras no Canecão e em seguida foi pra minha casa, eu, ele e o Guilherme Araújo. Ficamos conversando e ele pegou meu violão, na verdade ele toca piano, e começou a inventar uma melodia e a me pedir para colocar umas palavras. Eu fui dizendo essas palavras que estão aí gravadas no disco. Mas fiquei devendo a Donato completar a letra. Quando nós já estávamos no meio das gravações, Donato apareceu dizendo que a canção estava pronta. Eu disse: que canção? Aquela, daquele dia - ele disse. Como, se eu não terminei? O Fausto Nilo - disse Donato - me disse que não precisa botar mais nada, que aqueles pedacinhos que você botou já bastam. A gente grava assim do jeito que está. O Fausto Nilo, então, é também parceiro por ter concluído a música sem acrescentar uma palavra. E nós gravamos assim. Donato fez a orquestração e ficou lindíssima''. (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Retrato Marrom
Reuniões clandestinas no C.A. da Faculdade de Arquitetura da UFC, pós AI-5.
Prisão-relâmpago no sítio em Ibiúna, durante o Congresso da UNE, em 1968.
Viagens de ônibus nas chamadas Caravanas Culturais. Festas e peças no CEU (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Três meninas do Brasil Caseiro e família. Em casa, o arquiteto e compositor Fausto Nilo tem a companhia de três mulheres: a esposa Silvia e as filhas Elisa e Marina declaram afeto e contam histórias vividas no aconchego de um lar democrático Longas viagens de ônibus na esteira das Caravanas Culturais de Cláudio Pereira. Rodas de violão e festas em casas de amigos comuns, com direito à 'carona amiga' ao final das noitadas. Assim, Fausto Nilo e Silvia Parente flertaram e iniciaram o namoro, que deu em casamento, o segundo do poeta. ''Em 1981 a gente resolveu ter filho. Morávamos os dois no Rio de Janeiro, mas em casas separadas. Ele mergulhado na atividade de letrista, eu trabalhando como terapeuta ocupacional. Na época, era careta casar e começamos a morar juntos aos poucos. Quando Elisa, a primeira filha nasceu, há 21 anos, atamos de vez. Como ela mesmo escreveu em uma redação escolar, quando criança, 'casamos de coração'', derrete-se a esposa, mãe das duas filhas de Fausto. Bendito entre as mulheres. Em casa, Fausto conquistou respeito na base do diálogo aberto. ''Ele sempre foi democrático, conversa até demais. E diz que nos juntamos contra ele quando está errado. Tem um fundo de verdade. Mas é porque ele erra pouco como pai, aí a gente tem que aproveitar'', goza a mais velha, Elisa Parente Costa, 21. Sem arranhões, a relação já rendeu música, mas também choro: ''Meu pai compôs 'Pirlimpimpim' me olhando no cercadinho, aquela história do 'olho grande da menina'. Virou meu iniciador musical, claro. Mas lembro que, quando era pequena, a gente viajava de carro ouvindo uma fita cassete que ele me deu com músicas do Luís Gonzaga, Dorival Caymmi, palhaço Carequinha... Eu adorava o repertório, até que, um dia, no prédio onde morava, desci com ela para ouvir com as amigas. Elas tiraram sarro da minha cara, não conheciam nada daquilo. Subi chorando, com ódio do papai'', conta. Entre as crias, nenhuma intenção em seguir os passos do pai. Elisa é estudante de psicologia. Marina, 19, a caçula, cursa publicidade. ''Já chegamos, as duas, a fazer curso de desenho, pensando em ser arquitetas. Mas a medida em que fomos crescendo percebemos que o encanto era pelo desenho, as cores e, principalmente, pelo fato de estarmos sempre entre lápis e pincéis vendo o papai desenhar. O encanto era por ele, não pela profissão'', reflete Marina. Segundo ela, a autocrítica também é herança paterna. ''Ele sempre disse que devíamos ser abertas a críticas porque somos filhas de um compositor e um arquiteto, autor de obras públicas. Ou seja, alguns vão gostar de seu trabalho, outros não. Mas só fui realmente atinar para a sua figura pública quando os professores do cursinho me chamavam depois da aula para saber mais sobre as canções de meu pai. Ou quando os alunos do Geo vinham me perguntar se era ele mesmo quem tinha feito o colégio'', admite. (EP) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) Você se lembra... Duas
noites de fruição estética no apartamento 301 do edifício Flor da Paisagem,
coração da Aldeota. Batizado em homenagem ao morador que o projetou ainda na
década de 1970, o artefato evoca música homônima, também com assinatura
dele. Arquiteto e compositor, Fausto Nilo é autor de cerca de 400 letras de
canções registradas por mais de 100 parceiros, entre músicos e intérpretes
do cancioneiro popular nacional. Para contar sobre 60 anos de vida
completados amanhã e 33 de carreira artística, o anfitrião topou espalhar
livros e discos sobre a mesa da sala, à frente da clarabóia central que
canaliza vento. Objetos-valises, de onde saem histórias guardadas na
memória, pensamentos em formação, arroubos de imaginação. Metidos na
conversa, Glauber Rocha, Caetano Veloso, João Gilberto, Nara Leão. Thelonius
Monk, Nat King Cole, Milles Davis, Moraes Moreira, Tchaikovsky, além de
autores experts em cidade e urbanismo. (Ethel de Paula) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)Elefante & Zanzibar Escrita automática, à moda surrealista. Associação livre de idéias. Duas letras de Fausto Nilo, ''O Elefante'' e ''Zanzibar'', rendem discussões e despertam curiosidade entre internautas e leitores de jornal. No time das canções indecifráveis da MPB, ambas divertem fãs 'disléxicos', além dos próprios autores Diz-se que a expressão foi criada por Paulo Francis, ainda como jornalista de O Pasquim. Virundum seria o verbete escolhido para designar os 'assassinatos' que certos ouvintes cometem ao cantarolar letras de música. O Hino Nacional puxa o cordão dos delírios. Não sem razão. Afinal, quem, na mais tenra idade, insuflado a decorar tão pomposa composição, não tropeçou na pronúncia do tal 'Ouviram do Ipiranga'? Para ouvidos infantis ou pouco experimentados, admita-se, soava mais musical algo como 'Virundum'... E assim foi batizado o site colecionador de derrapadas musicais do tipo (www.virunduns.blogger.com.br). Confessar erros crassos, jogando na rede versões nonsense para intrincadas e imaginativas canções, vem sendo, portanto, a diversão de internautas que passaram a vida cantando troncho o que não conseguiram compreender a contento nas vozes dos intérpretes. Caso de ''O Elefante'', letra de Fausto Nilo com música de Robertinho do Recife, carro-chefe do disco Satisfação, de 1981. Ano passado, mais de 80 encafifados visitantes pelejaram para descobrir entre si qual a versão correta e o significado - implícito ou não - das mais alucinadas frases do hit que caiu nas graças do público infantil. Choveram pérolas. ''Um dos autores do hino do bloco Elefante, de Recife, morava colado ao quintal de Robertinho. Daí surgiu a homenagem e o verso 'se o oriente nasce em meu quintal'', jurou um internauta que se dizia amigo da irmã do instrumentista. Tão criativo quanto, outro desconfiou: ''Aquela parte que fala do Papa Kid não teria a ver com a visita que o Papa fez, na época, ao Brasil? Ou Papa Kid seria uma espécie de bicho-papão que papa criancinhas?'. Houve ainda quem simplesmente julgasse: ''efeito de drogas'', ''propagação de mensagens anticristãs com direito a back masking (música tocada ao contrário)', ''relação explícita entre o letrista e o judaísmo''. Pura maionese. Segundo Robertinho do Recife, hoje morando no Rio de Janeiro, a história começa com um casal de amigos estrangeiros que ele leva para conhecer a feira de artesanatos de Caruaru. Lá, o que mais chama a atenção dos turistas é um elefante esculpido na madeira. E os visitantes pedem para o anfitrião perguntar ao artesão qual a técnica que ele usava para talhar. Robertinho obedece. E tem como resposta um simples e genial enunciado: ''Não uso isso que o senhor disse de técnica não. Uso esse canivete aqui e um pedaço de pau. Aí, tudo o que não é elefante vou tirando fora''. Encantado com a prova de sabedoria popular, o artista passa a divulgá-la. ''No meu primeiro encontro com Fausto, rimos muito disso e resolvemos fazer uma música sobre elefante. Fui estimulando. Falei de um amigo chamado Papa Kid que foi lavador de elefantes no circo e andava em pleno Rio de Janeiro vestido de Jim das Selvas. O Congo Belga era um país africano que não existia mais, mas diziam que lá havia caça a elefante por causa do marfim. Também lembrei que o bloco Elefante de carnaval saía atrás lá de casa, no meu quintal. E assim ele foi reunindo referências para a letra'', contou, por telefone. A versão do amigo pernambucano faz o cearense rir. E o 'virundum' recomeça. ''Eu tinha um amigo no Rio de Janeiro, Hidelbrando, que vivia pelo Centro da cidade e colecionava causos de frequentadores assíduos como ele. Um desses era Menez, um caricaturista cearense com o qual havia se encontrado naquele dia, arrancando-lhe a história do artesão da Serra de Baturité que ao ser indagado a respeito de sua técnica saíra-se com esta: 'Pego o pedaço de madeira e corto fora tudo o que não é elefante'. O relato me encantou porque tinha tudo a ver com a frase de Picasso. Ele dizia que arte não se procura, se acha e eu contei isso para o Robertinho, que começou a reunir, a partir de então, uma série de curiosidades sobre elefantes para me mostrar'', rebateu Fausto. Segundo ele, Papa Kid, fiel parceiro de Luís Melodia, como também seu, na divertida ''Samba da Boléia'', do disco Casa Tudo Azul, simplesmente apareceu em seu apartamento no exato instante em que compunha. Por isso foi citado. ''Não sabia que tinha sido de circo e muito menos que lavava elefantes. Também nunca soube que o bloco carnavalesco Elefante, de Recife, saía do quintal de Robertinho. Mas respeito as associações do parceiro'', recuou, rindo-se. Virunduns à parte, ambos divertiram-se acompanhando o debate virtual em torno de ''O Elefante''. ''Tenho muito carinho por esta canção e fico feliz em saber que marcou uma geração, tornando-se inclusive hino de estudantes universitários em Recife. Acho que isso aconteceu justamente porque Fausto trabalha muito bem com o inconsciente em suas letras, valorizando nossas fantasias e estranhezas. Ele é o Salvador Dali da MPB. Freud adoraria tê-lo conhecido. Por mim, seria o próximo ministro da Cultura'', entusiasmou-se Robertinho. Segundo Fausto, a mais famosa parceria entre os dois, superior em termos de popularidade à inaugural ''Flor da Paisagem'', não nasceu voltada ao público infantil. ''Recebi de Robertinho uma espécie de rock-ciranda, mas quando a música ficou pronta a Polygram identificou o potencial e vendeu o peixe'', recordou. Bola dentro. Robertinho frisou que, antes de ''O Elefante'', só o palhaço Carequinha havia emplacado canções junto à criançada brasileira. ''O mais louco é que já havia feito melodias sofisticadíssimas antes, mas não era sucesso. Até que resolvi compor uma música bestinha, mongolóide. E estourou'', revelou. Ao contrário do parceiro, Fausto Nilo chutou a bola para cima. ''Estava mergulhado à época em leituras como A Obra Aberta, de Umberto Eco. Decidi experimentar a escrita automática de que falavam os surrealistas. Aquilo não é só um jogo aleatório de palavras, embora assim pareça a alguns. Trata-se de uma associação livre de idéias, mas muito bem pensada, apesar de brincalhona, por isso, até hoje, produz um estímulo na cabeça das pessoas. Essa loucura continua me interessando, como imaginação livre, mas elaborada'', observou. Técnica também experimentada em ''Zanzibar'', desta vez em parceria com Armandinho. A letra foi parar nas páginas do jornal carioca O Globo, acabando por vencer o concurso Zum de Besouro, lançado pelo colunista Artur Xexéu. Em disputa, as mais 'bizarras' ou incompreensíveis canções da MPB. O ''tricolor colar'' intrigou leitores e houve quem afirmasse que o letrista quis homenagear a Jamaica e a boina de Bob Marley, assim como as guias de umbanda. O famoso bar de Salvador frequentado pelos tropicalistas também foi citado como inspiração, além de Zimbabwe, ilha do Oceano Índico onde nascera o cantor Fredy Mercury. ''Estava em Salvador quando Armandinho me deu essa música. Voei de volta para o Rio lembrando de uma pichação recorrente nos muros da capital baiana, à época: ''Zanziblue''. Por onde passava, via isso. Depois, ainda no avião, lembrei de um filme estrelado por Dorothy Lamour, Viajando para Zanzibar. E assim a coisa foi saindo até chegar em Paracuru, como simples efeito de rima. O fato é que estourou e cheguei a receber um telefonema de congratulação do prefeito por ter contribuído com o incremento do carnaval de lá. Depois, fui convidado a fazer algo semelhante para outra localidade, mas não aceitei a encomenda. E o famoso bar baiano só surgiu anos depois. Gilberto Gil o homenageou. Não eu'', esclareceu, enfim, Fausto. (Ethel de Paula) (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) A versão original O Elefante (Robertinho do Recife e Fausto Nilo) Como criança que vai viajar Acordei cedo e vi você sonhar Uma ciranda doce pelo ar E a natureza foi se balançar A fantasia me faz delirar Que foi que eu disse? Eu cantei sem pensar É uma doidice que essa dança dá É uma doidice que essa dança dá De que país vem esse carnaval Se o oriente nasce em meu quintal Um sol mais quente brilha muito mais E um corpo quente que alegria traz Ô Papa Kid cadê meu ganzá? Do Congo-Belga que eu mandei buscar Essa guitarra grita muito mais Essa guitarra grita muito mais O elefante brinca muito mais Se uma menina vai correndo atrás Que foi que eu fiz? fui te fazer feliz Que foi que eu fiz? fui te fazer chorar Será difícil alguém pronunciar Na melodia o que essa letra dá Na fala dela, linda é Aliá Na fala dela, linda é Aliá Se a natureza não me abandonar No meu reinado você reinará Tarzan dormindo no canavial Tantor fazendo amor no bambual Como a Colúmbia fosse viajar Numa ciranda doce pelo ar Acordei cedo e vi você sonhar Como criança que vai viajar (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004) A versão tosqueira O Elefante João Quental, vencedor do concurso ''Versão Tosqueira'', do site virunduns (www.virunduns.com.br / www.virunduns.blogger.com.br) Amor criança que vai pirajá Amor descende de você sonhar Uma ciranda você penhoir E a natureza foice a balançar A fantasia de fazer girar E depois disse: eu também sei dançar É uma doidice que essa andança dá É uma doidice que essa andança dá De que país vem esse carnaval Se oriente nesse meu quintal Um som mais quente brilha muito mais O muco quente que a alegria traz O papa disse que até meu dançar O morro belga que eu mandei buscar Essa guitarra grita muito mais Essa guitarra grita muito mais Um elefante mudo é muito mais Se uma menina vai correndo atrás Que foi que eu fiz fui te fazer feliz Que foi que eu fiz fui te fazer chorar Será difícil eu me pronunciar Na melodia que essa letra dá A bala bela de tear brilhar A bala bela de tear brilhar Se a natureza não me abandonar O meu reinado você reinará E o babuíno no canavial E a onça velha lá no bambual Como a Colúmbia fosse viajar Uma ciranda você penhoir Amor descende de você sonhar Amor criança que vai pirajá (© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)
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