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Fausto Nilo: Pão e poesia

05-06-2008

Fausto Nilo: 60 anos, comemorados com música e arquitetura

Trinta e três anos de carreira ininterrupta. Mais de 300 canções. Repertório endossado por intérpretes como Raimundo Fagner, Moraes Moreira, Geraldo Azevedo, Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Nara Leão, Gal Costa. Letrista referencial da MPB, o compositor e arquiteto Fausto Nilo faz 60 anos

Ethel de Paula
da Redação

   Vontade refém do recato. Até concluir a Faculdade de Arquitetura na Universidade Federal do Ceará, em 1970, o compositor Fausto Nilo escondeu-se insuspeitado atrás da figura de agitador cultural, calando fundo o recôndito desejo de, ainda estudante, escrever letras para músicas. À frente do mais efervescente centro acadêmico de então, viu o lugar transformar-se no principal ponto de convergência entre artistas e intelectuais, dada a sortida discoteca que também atraiu e aproximou o chamado Pessoal do Ceará; soltou a voz nas rodas de violão que do campus saíam para varar madrugadas no bar do Anísio, à beira-mar; engrossou as discussões políticas e estéticas geradas no seio do movimento estudantil; tomou assento nos bancos da Praça do Ferreira, ponto de chegada de jornais e revistas do Sul do país; foi ''penetra'' no Clube de Cinema de Darcy Costa, mas não ousou fazer companhia a letristas já reconhecidos na cena local, como Augusto Pontes, Brandão e Petrúcio Maia. As letras só sairiam da gaveta em 1971, ano em que o autor deixaria o estado-natal.

   Contra a timidez, amizade. ''Em Fortaleza, eu era louco para entrar no C.A. de Arquitetura. Fui levado pelo Ricardo Bezerra, compositor e arquiteto. Conheci o Fausto ali, mas ele não tinha nada a ver com música. A turma de intelectuais veteranos não me levava a sério, me achava menino, alienado. Ele, ao contrário, era respeitado, sempre teve bom papo, bagagem cultural. E nos dava abertura. Mas só consegui ter uma letra sua quando já morávamos em Brasília, o Fausto como professor da UNB e eu como aluno recém-aprovado de Arquitetura, vencedor absoluto de todos os festivais de música do campus, já decidido a fazer as malas e tentar carreira no Rio de Janeiro'', recorda o parceiro Raimundo Fagner, que entre os pertences, levou à capital carioca, não sem alguma peleja, ''Fim do Mundo'', a primeira letra gravada de Fausto Nilo. Sucesso na voz de Marília Medalha, em 1972, a canção que inaugura a parceria da dupla, até hoje em alta, estourou nacionalmente antes que ''Dorothy Lamour'', a primeira letra escrita, fosse coberta de melodia por Petrúcio Maia e registrada por Ednardo.

   ''No mesmo ano gravei 'Fim do Mundo' em compacto, 'desencantando' de vez o letrista, que passei a apresentar a todos os meus demais parceiros. Mas a parceria que me marcou foi 'Astro Vagabundo', canção que deu nome ao show antológico que fizemos no MAM e no teatro Teresa Rachel, permanecendo três meses em cartaz, feito até então inédito. Me lembro de uma boa do Fausto aí... Ele resolveu fazer o cenário e como o repertório evocava poemas do García Lorca e Guernica, usou uma tinta vermelho-sangue. Só que aquilo era altamente tóxico e os músicos correram do palco, passando mal. Inesquecível!', riu-se Fagner. Do baú do parceiro, já perdeu as contas de quantas canções ganharam o agreste de sua voz. ''Gravei mais de 50, acho. Por último, no disco com o Zeca Baleiro, Fausto é eminência parda. Foi dele a idéia de incluir uma música sobre futebol, paixão comum entre nós três. Daí lembrou do Canhoteiro, jogador maranhense revelado no América do Ceará e que depois foi para o São Paulo, fazendo fama com um estilo Garrincha, só que chutando de esquerda. Lembrou bem. Aliás, memória é o que não lhe falta. Basta ver suas letras. Todas casam passado, presente e futuro de forma original'', apontou.

   Para Fagner, o letrista cresceu com a diversidade. ''Nossa música sempre foi romântica. Fausto deu uma pirada e um salto qualitativo quando topou com Moraes Moreira, Geraldo Azevedo e Robertinho do Recife'', observou. Aconteceu no meio da década de 1970, quando o arquiteto Fausto Nilo deixou Brasília para assumir o projeto da estação Santa Cecília do metrô de São Paulo e, finda a obra, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1988, firmando-se como letrista. ''Conheci Fausto na casa de nosso amigo Afonsinho, craque do Botafogo. O fato de sermos do interior nos aproximou. Ouvimos música no alto-falante, fizemos serenatas. Somos compositores, aliás, por causa disso, não por verve literária. Nossa primeira parceria foi 'Prosando com Maria' e celebra esse clima interiorano. Coroamos a parceria quando ele participou da concepção de meu disco Bazar Brasileiro, onde gravei 'Meninas do Brasil', música que tenho a sorte de ter feito. Na turnê, aliás, fui perseguido por três meninas certas de que a canção tinha sido feita para elas. Viajavam juntas, de carona, chegando sempre na minha frente. Uma loucura. Culpa do parceiro, que tatuou a letra no imaginário brasileiro'', divertiu-se Moraes.

   ''Coisa Acesa'', outra canção da dupla, também fez jus ao nome. ''Fizemos com o violão faltando uma corda. Mas não dava para parar, música e letra chegavam juntas, instantaneamente, acesas mesmo'', recordou Moraes. Igualmente marcantes na carreira do baiano carnavalesco foram ''Bloco do Prazer'', gravada por Gal Costa, e ''Chão da Praça''. ''Fausto não acreditava que pudesse fazer letra para trio elétrico, entusiasmando a massa. Mas as músicas arrebentaram no carnaval da Bahia. Fez diferente, trouxe um lado oriental, falou de desertos, beduínos, essas histórias que ele gosta. Emplacou um novo carnaval, valorizando o frevo. E depois foram saindo outras, como 'Eu também quero beijar', minha, dele e do Pepeu, uma brincadeira deliciosa'', ilustrou. Para ambos, a encomenda do autor Dias Gomes para a abertura da telenovela Roque Santeiro soou como prova de fogo. ''Um dia antes de estrear, Dias Gomes desaprovou a música-tema e encomendou uma nossa. 'Santa Fé' foi composta da noite para o dia. De manhã gravamos e à noite já estava no ar, em pleno horário nobre da Rede Globo, dentro dos lares brasileiros'', contou.

   Entre vizinhos, surgiram as decantadas ''Chorando e Cantando'', ''Você se Lembra'' e ''Dona da minha Cabeça''. Esta última, em homenagem às esposas dos parceiros Fausto Nilo e Geraldo Azevedo. ''Morávamos no mesmo prédio na Gávea. Fausto descia com seu inseparável gravadorzinho - parecia o Juruna - e as canções iam saindo. Até hoje ele tem estas gravações caseiras, algumas inacabadas. Íamos muito na casa um do outro, tínhamos filhos da mesma idade, fazíamos festa de aniversário e, para completar, nossas mulheres chamavam-se Silvia, então quando não era um que oferecia a Silvia, era o outro, e assim as duas ficavam satisfeitas'', gozou Geraldinho. Parceiro participativo, o pernambucano é um dos poucos que tem liberdade para interferir nas letras do amigo. ''Mudo título, opino, veto certas palavras. Não canto nada que tenha a ver com morte. Fausto às vezes esquece disso, mas não se incomoda com minhas sugestões. Tanto é que temos duas inéditas em meu novo disco, uma inclusive em homenagem ao meu irmão, que faleceu em Fortaleza. ''Paraíso Agora'' foi escrita depois de um jantar na casa do Fausto, à base de vinho e jazz, quando lhe falei dessa então iminente perda'', pontuou.

BIOGRAFIA

* Fausto Nilo nasce em Quixeramobim em 4 de abril de 1944
* No final de 1955, muda-se de Quixeramobim para Fortaleza
* Em 1970, diploma-se em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Ceará. É ainda no ambiente universitário que ele inicia suas atividades de letrista
* Em 1971, Fausto muda-se para Brasília onde passa a dar aulas de arquitetura na UnB
* Volta para Fortaleza em 1973
* Em 1972, Marília Medalha grava ''Fim do Mundo''
* ''Dorothy Lamour'' é a primeira letra escrita por Fausto. Musicada por Petrúcio Maia, é gravada por Ednardo
* Entre 1975 e 1978, Fausto mora em São Paulo e Rio de Janeiro. Retorna para Fortaleza em 1988
* Em 1981, a gravadora CBS lança a coletânea Doze Letras de Sucesso, com letras de sua autoria na voz de intérpretes como Gal Costa, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Fagner, Lulu Santos e Nara Leão, entre outros
* No mesmo ano, ganha o Prêmio Playboy de Música Popular Brasileira como o melhor letrista. Também vence o Quinto Prêmio Sharp de Música, com a canção ''Pedras que Cantam'', parceria com Dominguinhos, na categoria canção popular
* Embora tenha gravado anteriormente, em um dueto com a cantora Núbia Lafayette numa coletânea intitulada Soro (CBS, 1978), somente em 1997, Fausto inicia suas atividades como intérprete e produtor de seus discos, gravando Esquinas do Deserto, pelo selo ''Luz do Solo''

* Em dezembro de 2002, lança Casa Tudo Azul pelo selo ''Pão e Poesia''

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Casa Tudo Azul

   Há 60 anos, nascia o quarto dos sete filhos do casal Luís e Hilda Costa, em Quixeramobim, a 224 Km de Fortaleza. Fausto Nilo morou na casa onde nasceu Antônio Conselheiro. Entre quatro paredes, os primeiros desenhos. Do lado de fora, música troando nos alto-falantes, cinema, futebol, 'marinheiras'
Fausto Nilo Costa Júnior não é filho, mas neto de Fausto Nilo. O lapso do tabelião da cidade de Quixeramobim, cometido há 60 anos, quando o quarto dos sete filhos do casal Luís e Hilda Costa nasceu, até hoje gera controvérsias familiares. ''Na época, o único Júnior da cidade era o filho do promotor de Justiça. Dizem que o empregado do cartório copiou o nome porque queria agradar, conferir importância. Mas a vida toda Fausto encarou isso como um erro de cartório. Até o dia em que descobriu que Júnior não significa filho de fulano, mas o mais novo do clã. Daí em diante, entendeu o fato como um acerto'', contou o irmão Benjamin Costa, 58. Entre os homônimos, sobraram afinidades eletivas. Em vida, o avô fez fama como o festeiro-mor da região: contratava o bumba-meu-boi, arranchava cantadores e emboladores, organizava festas nos matos e, se preciso, vencia léguas no rastro de um bom arrasta-pé regado a cachaça e cabrochas.

   Padeiro e comerciante de tecidos, Luís Costa, ao contrário, encarnou o tipo compenetrado. ''Hoje, quando nos reunimos, lembramos do papai como uma figura engraçada, por conta de suas reclamações, seu zelo exagerado, o modo como exigia que andássemos na linha. Ele não queria ver os filhos metidos com negócio de roda de violão, bebida ou futebol. Então, quase tudo o que fazíamos era escondido, acobertados por minha mãe, hoje com 90 anos. Quando Fausto começou a desenhar, por exemplo, ele foi contra e ela é quem ponderava: 'Meu filho, sente lá na calçada da Matriz e desenhe à vontade'. Dava corda porque também tinha pendores artísticos: o seu caderno de músicas de solteira tem as notas musicais todas desenhadinhas'', lembrou a irmã caçula, Maria das Graças Costa, 55, a Gracinha. Cúmplice, a matriarca anteviu a verve do filho. ''Hoje, minha mãe quase não tem momentos de lucidez. Mas contava sobre o espírito aventureiro de Fausto, revelado desde criança. Ele era louco por caminhão, chegava a desenhar vários tipos. Quando os carreteiros passavam com seu burros de carga, chegou a surpreendê-lo comendo paçoca com eles, super à vontade. Outra vez, foi pegá-lo já perto da estação, junto aos ciganos'', recordou a mana Selma Costa, 63.

   Habilidoso nos campinhos de várzea, o fujão chegou a ganhar apelido. ''Nas peladas, a meninada chamava o Fausto de Damasceno, um jogador da época, muito bom. Ele ficava todo orgulhoso'', entregou o irmão Luís Costa Filho, 58. Desempenho oposto na água. ''Até sair de Quixeramobim, aos 11 anos, Fausto não aprendeu a nadar. Nem nas férias perdia o medo e assim é até hoje. Quem ouve 'As Marinheiras', canção em que fala do rio da cidade, pode achar que nadou muito ali. Mas não. As marinheiras eram justamente os poços que se formavam quando o rio secava. Ali, as meninas tomavam banho em determinados horários e ele só brechava de longe'', emendou. Cinema sim, virou rotina. E o circo, encanto. ''Ficava na primeira fila do cine Skeff, Fausto e outros meninos. As meninas não se misturavam, sentavam nas fileiras do meio, com acompanhante. Lembro que Fausto comprava o retrato das vedetes, Dorothy Lamour era paixão platônica, e gostava de acompanhar o palhaço pelas ruas da cidade na divulgação do espetáculo. Tudo escondido de papai'', ressaltou Selma.

   Paródia era a especialidade das filhas de Hilda Costa, a melhor boleira da região. ''As irmãs gostavam de mangar da vizinhança, imitar um e outro, então aquilo virava atração no meio da sala-de-visitas'', riu-se Luís. Público em casa não faltava. ''Morávamos entre dois avôs, Fausto Nilo e Benjamin, parede com parede, sem separação. Ficava na rua Cônego Aureliano Mota, 210, o mesmo endereço onde Antônio Conselheiro nasceu. Era um sobrado grande, com sótão. Nas férias, os irmãos e os amigos de Fortaleza dormiam lá e era um entra-e-sai danado de madrugada, na surdina. Eles amarravam lençóis que serviam de corda para escalar o muro. Sempre havia movimento, festa'', atestou a irmã Neodêmia Costa, a Neó. Por estas e outras, não foi fácil deixar a Casa Tudo Azul, nome com o qual Luís, o patriarca, batizou seu comércio, numa alusão direta ou inconsciente à feliz atmosfera doméstica. ''Quando deixou Quixeramobim por Fortaleza, aos 11 anos, mamãe fez Fausto se despedir dos parentes e amigos todos, um por um. A última cena que ele diz ter visto da janela do trem foi uma pessoa escovando os dentes do lado de fora. Chorou muito durante a viagem'', relatou Gracinha.

   A cada férias escolares do Liceu do Ceará, volta ao aconchego. Por vontade paterna, o primeiro varão da prole posou de menino-da-cidade-grande, maduro e ajuizado. ''Papai sempre responsabilizou o mais velho por nossas estripulias. Às vezes até castigando. Eu e Luís éramos presepeiros mesmo, saíamos para caçar, andávamos com baladeira, frequentávamos lugares mal falados e, para completar, começamos a beber cachaça. Fausto ficou sabendo disso numa de suas vindas à cidade e foi exigido que nos desse um corretivo. Chegou repreendendo, sério, cheio de moral, dizendo que a gente tinha que se ajeitar, parar de beber. No final das contas, saiu de lá bebendo mais do que nós dois juntos'', gargalhou Benjamin. Nas letras de música, fragmentos da memória infanto-juvenil. Alguns só detectados em família. ''Tem uma canção em que ele fala sobre o cavalo corta-vento, que é mais rápido do que o pensamento. Meu pai era quem cantava isso'', observou. ''Noutro verso, menciona 'o cordão colado'. Não é jogo de palavra. Isso vem de um parente nosso, doido, que entre seus delírios usava essa expressão'', afirmou Neó.

   Comprada pela Secretaria da Cultura do Estado, a Casa Tudo Azul dos Costa está vazia. À frente, uma placa identifica o local de nascimento do messiânico Antônio Conselheiro, fundador do arraial de Canudos. Nenhuma menção à passagem do compositor que cantou a cidade, perguntando-se, entre melancólico e jocoso: ''O que será de mim, Quixeramobim?'. Na despedida, festa no quintal que dá para o rio, roda de violão, cantoria. Música popular brasileira das primeiras décadas do século XX. Tudo muito familiar. ''Este era o repertório da extinta radiadora Voz de Cristal, que, com seus quatro mil discos de cêra, embalou nossa infância e adolescência. Quando nos revemos é como se não tivéssemos idade e os alto-falantes ainda funcionassem, tocando, o dia inteiro, Orlando Silva, Nelson Gonçalves...', suspirou Neó. A caçula arrematou: ''Hoje, moramos eu e minha mãe, na casa de eira e beira que foi de minha bisavó e tem mais de 100 anos. Fausto reformou-a, mas ainda sinto saudades da antiga''. (Ethel de Paula)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Chão da praça

   A amplificadora da paróquia de Santo Antônio alcovitou namoros ao sereno. ''O grande ponto de encontro da juventude de Quixeramobim sempre foi a praça central. Os rapazes nas bordas e as moças passando. Quem não era tão bom de batida de olho, mandava recados amorosos pelos alto-falantes: 'De alguém que está no banco tal para alguém que está de azul'. Fausto, que era tímido, também se utilizou desse artifício, mas nunca chegou a ser o que se pode chamar de um conquistador nato'', segredou o primo José Artur Costa, hoje professor, companheiro inseparável na cidade-natal e nos primeiros anos de Liceu do Ceará, em Fortaleza. Ávidos por informação e entretenimento, os dois não perdiam a chegada do trem à estação. ''Era o momento de pôr as mãos no mais novo número da revista O Cruzeiro e passar dias comentando as notícias do Sul do país. Sonhávamos com os anos dourados do Rio de Janeiro'', rememorou.

   No chão da praça, também pisavam os tipos populares, figuras que, pela excentricidade, ficaram na memória. ''Nos divertíamos muito com o Chico Caminhão, por exemplo. Era psicótico e motorista dele próprio, o primeiro oficce-boy da cidade. Só andava correndo, fazia aquele barulho do motor com a boca, metia a marcha, tudo. E quando mancava era porque o pneu estava furado. De repente, podia dar o prego, mesmo que estivesse levando as malas de alguém até a estação, aí não tinha jeito, empacava. Por fim, chegou ao cúmulo de cortar os cílios quando a Ford mudou os designers dos faróis, retirando as capinhas'', gargalhou o primo. Boêmios profissionais, Cabeleira e Serafim tornaram-se chapas de copo e violão. ''Um era todo no pano passado, sapato branco lustrado, cabelo na brilhantina e exímio dançador de gafieira. Nós aplaudíamos, adorávamos. O outro encarnava o Zé Carioca da época, falava gíria, posava de vida boa, mas, na verdade, era engraxate, louco por cinema e cantor de samba de breque. Eu e Fausto parávamos para ouvi-lo'', credenciou.

   Na cabeça de ambos, a mudança para Fortaleza representou o primeiro passo em direção à modernidade. Instalados no centro da cidade, moraram em trio: Fausto, José Artur e um terceiro primo, já falecido, José Wagner. ''Éramos viciados em cinema. E teve um ano que durante os meses de março e abril inteiros fomos assistir aos filmes todos os dias. Até decorarmos os diálogos e as músicas. Quando chegou o elepê, ficávamos ali na rua do Ouvidor, ouvindo na garapa. A mesada que vinha do interior era aquele dinheirinho contado. Zé Wagner é quem tinha mais discos e uma eletrola'', recordou José Artur. Aos sábados, a turma de alunos do interior, aprovados no difícil 'vestibular' do Liceu do Ceará, passava o repertório a limpo, em rodas matinais de violão. Na sala de aula, indícios da profissão futura. ''Antes de tornar-se estudante de arquitetura na Universidade Federal do Ceará, Fausto já era capaz de reproduzir um objeto ou desenhar a caricatura de uma pessoa. Fazia isso, por diversão, no Liceu'', comentou.

   Recomendação familiar: os mais novos deviam obediência ao mais velho. ''Acho que Fausto me enganou várias vezes, quando virava noites na faculdade com a desculpa de ficar estudando. Desconfio que eram reuniões políticas - estávamos no final dos anos 60 e ele vibrava com os protestos na Praça do Ferreira - ou boemia. Nós três frequentávamos o Clube Iracema, o Clube dos Diários, as boates... Isso quando os dois não eram barrados por parecerem ainda mais novos. Aconteceu várias vezes na Fascinação e lembro a noite em que Fausto e Zé Wagner foram conhecer uma nova, na Praia de Iracema. Tinha ancorado um navio, alertei que marinheiro, quando desembarca e vai se divertir, sempre arruma confusão. Eles não ligaram, me juraram voltar antes da meia-noite. Marcamos um ponto de encontro. E duas horas depois do combinado chegam os dois, brancos: tiveram que escapar da briga pela porta dos fundos'', riu-se.

   Hoje, quando Fausto volta a Quixeramobim para veranear, o ponto de encontro entre os primos é a barbearia do Edilson. ''Mandamos buscar a bebida, o tira-gosto e ali vamos nos atualizar. É como cabeleireiro, tudo o que acontece na cidade a gente fica sabendo'', fofocou José Artur. Entre um e outro feriado, o reencontro com parentes da mesma e de outras gerações. Oswaldo Costa Martins, o Oswaldinho, filho de Ana Maria, prima do letrista, arrepiou-se no dia em que, no meio da quermesse da festa da padroeira, Fausto reuniu-se com os mestres de boi da região. ''Ele havia trazido como convidado de Fortaleza o cineasta Maurice Capovilla. Quis mostrar as músicas do boi de Quixeramobim. E quando os mestres esqueciam as letras, Fausto relembrava. Sabe de cor cerca de 40 delas e tem planos de gravar um disco temático'', afirmou. As rodas de viola no quintal da casa do poeta também encerraram horas mágicas. ''Quando criança, havia uma pedra que ele achava parecida com um peixe, ficava horas olhando e dialogava com ela. Recentemente, pediu a um lapidário para, finalmente, esculpir o peixe. Foi um momento ritualístico, a gente assistindo, comendo carneiro e bebendo cachaça'', vibrou. (EP)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Cidades e lendas

O arquiteto Fausto Nilo foi da primeira turma da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Ingressou na escola em 1965, já desenhando profissionalmente

   Chegou ao escritório do decorador Arialdo Pinho levado pela mãe, dona Hilda Costa, com o diploma do Curso Monitor de Desenho em punho. No local, já trabalhava o então aluno do Liceu do Ceará e colega de banco escolar, Delberg Ponce de Leon. ''Na primeira tentativa não houve como ficar, mas continuamos em contato durante as aulas. No mesmo semestre, avisei-o sobre a nova chance e ele foi contratado. Tínhamos 16 anos'', narra o parceiro de prancheta com quem o arquiteto Fausto Nilo trabalha desde então. Empolgação juvenil. A especializada biblioteca do patrão apaixonou os iniciantes, que varavam madrugadas feito traças. Empenho recompensado. Em 1965, ano de implantação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará, Fausto integrou a primeira turma de aprovados. Um ano depois, Delberg passou no mesmo vestibular.

   A dupla-amadora colou na dupla-mestre, oferecendo-se para fazer o detalhamento de projetos arquitetônicos dos então professores Liberal de Castro e Neudson Braga. ''Fausto era um aluno que se destacava por seu interesse e habilidade. Desenhava bem e mostrava-se um debatedor equilibrado naquele espaço que acabou se tornando um centro de referência cultural e político para a cidade. Atraídos por uma discoteca sortida, estudantes, intelectuais e músicos fizeram do pátio da escola a melhor sala-de-aula que podiam ter. As árvores tratavam de protegê-los, dificultando visitas inoportunas, comuns naquele período engessado. Nós, por outro lado, garantimos uma biblioteca eclética, com títulos ligados à arte e à cultura em geral, além das assinaturas de mais de 80 títulos de revistas afins. Tudo isso favoreceu a imaginação poética, assim como o pensamento teórico da arquitetura. Não era só o risco pelo risco'', contextualiza o arquiteto Liberal de Castro.

   Em 1969, um ano antes de concluir o curso, a equipe de Fausto Nilo traz para o Ceará o prêmio da X Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, organizada por Francisco Matarazzo. ''A disputa de projetos foi entre escolas de arquitetura nacionais e estrangeiras. O tema dos meninos foi ''A Faculdade de Arquitetura no Campus''. Esse reconhecimento nacional marcou a vida da escola, que cinco anos depois de instalada já entrava no circuito com respaldo. Até hoje, o trabalho está exposto na biblioteca em painéis'', credencia o mestre Liberal. Entre projetos de residências, empresas e hotéis, Fausto e Delberg também lecionaram. ''Fui professor da faculdade de 1972 a 1978. Fausto ensinou de 1970 a 1974, só que os três últimos anos foram na UNB, em Brasília. Mas sempre mantive o nome dele nos projetos locais, trabalhávamos por telefone, correio, fax'', diz o parceiro. A curiosidade em relação à cidade planejada só durou até 1973. De volta a Fortaleza, Fausto não esquentou lugar, mudando-se dois anos depois para São Paulo.

   Não à toa. É de sua autoria o projeto arquitetônico da estação Santa Cecília do metrô paulista. ''Trata-se de uma obra subterrânea, mas com iluminação direta e ventilação. Muito interessante. Ia bem até ser arrastado para o Rio de Janeiro, passando a escrever letra de música. Mas, gradativamente, o Delberg o trouxe de volta para a arquitetura. Até que em 1988 veio para Fortaleza de vez. Hoje, é autor de alguns dos cartões postais da cidade'', comemora o ex-professor. Entre os ícones assinados pela dupla Fausto/Delberg, Praça do Ferreira e Centro Dragão do Mar saltam, literalmente, aos olhos. As mega-intervenções colecionam loas e críticas. ''O julgamento é do público, não há melhor juiz para uma obra. A aceitação pode não ser imediata e os critérios variam com o tempo. Tem mais: às vezes o projeto é feito de uma forma, mas o cliente não tem dinheiro. Quer dizer, não sou usuário, pouco saio de casa, mas a mim agrada a idéia de um prédio longitudinal, que atravessa dois quarteirões. Aproveitou o que lhe foi dado, dentro da tecnologia possível'', defende Liberal.

   Quanto à Praça do Ferreira, simpatia pela linha arquitetônica adotada. ''A Coluna da Hora é mantida como reposição de memória do que foi extinto. Os arcos fazem a marcação da passagem de carros, numa reinterpretação nova, que passa por um refinamento intelectual. E a cacimba de 1857 está à mostra. Não é puramente racional nem emocional'', esmiuça. Assinando 13 planos-diretores municipais e um regional, que abraça todo o Maciço de Baturité, Fausto Nilo contabiliza mais de 150 obras em 30 anos de grafite. Por último, participou, com Delberg, do projeto coletivo do Centro de Feiras e Eventos, encomenda do Governo do Estado, ainda em discussão. ''Fomos convidados pelos professores Liberal de Castro e Neudson Braga para assumir, mas Fausto teve a idéia de convidar outros arquitetos e compor um poll. Fizemos mais de 50 debates públicos. Tudo isso é incomum entre a classe e foi um exemplo para o Brasil, mas acho que os arquitetos não valorizaram. Hoje, quebrou-se a linha de produção e o projeto não passa de um monte de papel'', admite Delberg, autor da idéia de avançar com a obra para o mar, outro ponto criticado entre arquitetos contrário à intervenção.

   Intensa, a relação profissional da dupla não tem a mesma pulsação da convivência informal. ''Não tenho sua coleção de discos, não sei suas músicas nem seu telefone celular de cor, mas Fausto é padrinho de meu segundo filho e não existe uma notícia que não dê em primeira mão para ele. No entanto, não fazemos os mesmos programas e raramente nos visitamos'', assume o amigo. Com o ex-professor, o cotidiano, via de regra, é compartilhado ao telefone. ''Sou cético, Fausto é animado. Muitas vezes quebra a cara com concursos fajutos e depois é que vem me dar razão. Meus amigos continuam sendo os da escola. Eu e Fausto já viajamos juntos, tomamos vinho no cais em Paris, olhando o entardecer, passeamos por Veneza, Barcelona. E sempre trocamos livros. Ele compôs uma bibliografia internacional, está sempre atualizado. Se bem que, em se tratando de arquitetura, os antigos podem ser os mais interessantes. Lemos Vitrúvio, arquiteto que viveu há 200 anos, como se ele fosse um companheiro'', vibra Liberal. (Ethel de Paula)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Era moderna a minha dor

Xico Sá
Especial para O POVO

   Tem coisa mais estranha do que a nossa primeira Coca-Cola? Em língua semi-árida, vôte, é tão indecifrável como a primeira hóstia, o primeiro beijo na roda-gigante - um nervoso de botar os bofes! -, a primeira grande chuva, a primeira rapariga, o primeiro arroto de cajuína, o corte na fita inaugural do gozo mais precoce. A primeira Coca-Cola de Fausto Nilo cai bem melhor com um rum, nos bota comovidos, furando o disco, morte morrida das nossas Dorothys Lamour.

   Fausto Nilo bota é quente, com o seu lirismo de sangrar açudes, com suas dores farpadas a bolir com os quietos e com os que procuram. Outro dia acordei todos os amigos mais prezados para ouvir, ao telefone, ''Dorothy Lamour''. Ouvi umas trezentas vezes. Na voz do próprio. Era madrugada em São Paulo, eu cismava sozinho à noite, com os meus Cariris em desassosego por dentro, meus piolhos no couro do inconsciente, meus pequis-madeleines....

   O letrista de Quixeramobim e suas belas canções do exílio, que dão conta de dores estranhas e fora de lugar. Tenha o sujeito partido ou não, tenha apertado ou não as titelas do adeus ou chorado o choro com paçoca de todas as rodoviárias. Coisa assim de peito apertado, Lupiscínio e Leonardo Cohen, esteja ou não bonito pra chover.

   ''O nosso amor é um escuro bar'', volta a inegociável alma de Fausto, agora com Rodger Rogério. Certezas do fim da festa, prenúncio de uma certa esquina do Brasil com os desertos da beleza interior. ''Suspiro azul de bocas presas'', sopram os seus quixeramobins. Afeto que se encerra no bilhete no espelho de um moderno batom. É de furar o disco esse Ave noturna (75), segundo elepê do rapaz de um Orós de outras cheias. ''Não quero ver o fim do mundo/ vou dormir em teu jardim'', esmorece o radinho fanhoso no fundo da rede de uma rapariga em flor. Chora a carnaúba velha sob a fina agulha de um mandacaru.

   São as dores queimadas na noite, os suspiros que gastam os pavios, a agonia alumiada por uma lata todinha de querosene Jacaré. Com a morte, matamos as nossas Dorothys Lamour, mas as espinhas de velhos desejos irrompem na pele mesmo diante do último dos vermes. E esse Fausto Nilo nos bota comovidos como o diabo, como um cachorro pé-duro que troca o último osso pelas costelas secas da cadela amada.

   ''Velha estampa na parede...'. Vejo a cachaça chegando ao fim e eu chegando ao fim com ela. Deixo só uma pro santo, e uma bicada pro Fausto.

Xico Sá é jornalista contratado da Folha de S. Paulo, cearense radicado em São Paulo

SERVIÇO:

O programa Memória 107, da rádio Universitária FM (107.9 mHz), produzido e apresentado pelo jornalista Nelson Augusto, presta homenagem aos 60 anos do compositor Fausto Nilo, hoje, de 14h às 15h. Ao vivo e em cores, o compositor canta nos próximos dias 05, 12, 19 e 26 de maio, sempre às quartas-feiras, no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


O futuro é assim

Marcus Lima
Especial para O POVO

   A arquitetura é uma das mais complexas atividades na construção das sociedades. Por seu caráter pluralista, cuja formação envolve aspectos sociais, econômicos, ambientais, tecnológicos e culturais, possui a propriedade de dissecar civilizações, expor contextos históricos e denunciar invariavelmente as contradições, conflitos e tensões entre o público e o privado, entre as intenções e as possibilidades. Não há nada mais revelador, e, por mais paradoxal que possa parecer, apresenta, com o mesmo vigor, a fragilidade ou a autenticidade dos discursos, face à materialização dos resultados. É um constante debate entre a razão e a emoção, a técnica e a arte, forma e função, conteúdo e continente.

   O caráter atemporal e permanente da arquitetura sempre seduziu o poder e a vaidade de seus autores. A arquitetura oficial registra fatos, demarca limites, imprime marcas pessoais e sinaliza contextos históricos. Ao arquiteto cabe o papel de interpretar ideologicamente os princípios destes projetos e transformá-los em realidade. É neste intervalo ocupado pela arquitetura pública que prevalece a trajetória mais recente de Fausto Nilo, sempre na inseparável companhia de Delberg Ponce de Leon. Este período pode ser pontuado numa resumida, mas significativa, lista de notáveis projetos: o edifício-sede do Incra, austero e racionalista; o prédio da Anatel (antigo Dentel), delicado e sereno em seus cheios e vazios; a reforma da Praça do Ferreira, resgatando importante espaço simbólico; e o esfuziante Centro Dragão do Mar.

   Estes exemplos retratam a sua versatilidade na compreensão das mais diversas solicitações, no referenciamento de seus projetos segundo preceitos arquitetônicos tão distintos, quanto contraditórios. Os dois primeiros são frutos de uma fase conceitual, na qual predominou a equilibrada linguagem modernista; enquanto que os mais recentes primam pela autoreferência e pela valorização das soluções de alto impacto visual, mesmo que descartáveis, marcas registradas do que se convencionou chamar de pós-modernismo.

   Este último, bastante polêmico, representa um marco estético do neoliberalismo, promovido pelo lema mudancista governamental, grandiloqüente, aqui seguido à risca. Este contexto foi perfeitamente assimilado por um projeto de escala monumental, o qual, pretensiosamente, impôs uma nova feição àquela área histórica, descontínua ao espaço original, relegando o conjunto arquitetônico existente à condição de entorno, e propiciando aos prédios sobreviventes, integrados ao complexo, o papel de coadjuvantes. Neste caso, o projeto filtrou e conseguiu transpor para a realidade a lógica da supremacia política do contratante, submetendo o tecido urbano, tal qual uma camada sedimentada, estagnada, obscurecida pela imponente caracterização da nova ordem, que reflete uma contemporaneidade imagética, cenarista, que não estabelece relações com a memória, mas que anseia por exclusividade.

   Ao assumir a intermediação intelectual deste conceito, o projeto estabelece um solidarismo com a ideologia então predominante, demonstrando similaridade com os seus objetivos. Esta sintonia é relevante quando se trata de uma irrefutável ideologização unilateral das intervenções urbanas em Fortaleza, em contraposição às diretrizes do Estatuto da Cidade, que sacraliza o debate com a sociedade em todo o processo. É importante citar, também, que, assim, não se pode creditar ao projeto público a co-responsabilidade comunitária, típica de países mais desenvolvidos. Por outro lado, merece todo o respeito a sua franca interpretação e a profícua atividade na cidade. Ela determina pontos de debates fundamentais para o desenvolvimento da arquitetura e a inserção da sua crítica e reflexão nos meios de comunicação.

Marcus Lima é conselheiro do IAB/CE e professor do curso de Arquitetura da Unifor

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Opinião

   ''A primeira poesia de Fausto Nilo que me chamou atenção imediatamente foi 'Retrato Marrom'. Conheço bem as canções que têm o bar como referência. Lupiscínio, Dolores, Maísa... Mas o enfoque de Fausto é diferente, por conta das metáforas: ''Vê se estanca essa tristeza que ilumina o escuro bar / O nosso amor é um escuro bar / suspiro azul das bocas presas / Guarda o teu olhar de ave presa / Na toalha de uma mesa / Sem mirar a luz / Não há calor na luz do sol / O fim da festa é uma certeza''. Essas informações estranhas me chamaram atenção. Logo aprendi a música e comecei a tocá-la. Quando o conheci na casa de Afonsinho, já tocava. Vaidoso como é, no mínimo, pensou: 'Conquistei o Rio de Janeiro' (risos). A partir daí, o que posso dizer é que caiu na noite carioca com uma alegria pagã, cercado de más companhias. O cara desembestou, como se diz no Quixeramobim, sua cidade-natal. Por conta das farras, o namoro com a Silvia, sua atual esposa, naturalmente esfriou. E posso dizer que fui eu quem propiciou o reencontro definitivo dos dois quando os convidei para uma festa na minha casa. Cervejinha vai, violão vem, voltaram a namorar e nunca mais se separaram. Hoje, é um pacato pai de família. A letra dele que gostaria de ter feito? 'Três Meninas do Brasil'. Mas ele também gostaria de ter feito 'Festa do Interior' (risos). Agora, vou dar o crédito: em 'Baú de Brinquedos' o verso que diz 'quando anoitece pra lá da campina' é dele. Achei engraçado, porque minha perspectiva é sempre muito urbana. E esse toque deu algo de surrealista à canção''.
Abel Silva, cantor e compositor


   ''A primeira canção de Fausto Nilo gravada por mim foi 'Retrato Marrom', em 1977. Acho que o conheci na casa de Abel Silva, já ouvia falar dele através do Fagner, com quem gravei um compacto na década de 1970. Mais recentemente, Fausto me ajudou na seleção musical de meu CD Batuque. Encontrei-o no aeroporto de Salvador e comentei que estava gravando um disco só com músicas dos anos 30 e 40. Sei que é um pesquisador da música popular brasileira e que se interessa muito pelos compositores da época, aliás é capaz de lembrar letras inteiras de alguns deles. Então, ele me mandou algumas sugestões e duas delas acatei: 'De Papo para o Ar' e 'Teu Retrato', de Nelson Gonçalves. Gosto muito do trabalho e da postura dele como letrista. É manso e nunca foi de oferecer música''.
Ney Matogrosso, cantor e compositor


   ''Conheci Fausto Nilo quando os nordestinos chegaram ao Rio de Janeiro, praticamente juntos, no início da década de 1970. Ele já estava ali pela CBS junto com Fagner, Robertinho do Recife, Amelinha. Mas eu não havia conseguido gravar meu primeiro disco ainda. Chegamos, como diz o Belchior, sem parentes importantes e vindos do interior. Só a mala cheia de poesia. Dormi muito de favor na casa do Fagner, do Abel Silva... Assim, nossa primeira parceria só foi acontecer em 1998, no meu disco Eu sou todos nós. Gravei 'Companheira de Alta Luz'. 'Cidades e Lendas' foi a segunda e deu nome ao meu disco por ser uma balada mística, que trata da pluralidade das cidades brasileiras, tema que me interessa. A mais recente, ainda inédita, deve entrar no meu próximo CD, estamos dando os últimos retoques por e-mail. É romântica, fala de amores perdidos, mas de uma forma fantástica, como Fausto bem sabe fazer. Gosto como ele cava o poder das palavras, distorce imagens''. Zé Ramalho, cantor e compositor


   ''Na época da reforma da Praça do Ferreira, começo da década de 1990, ficávamos eu e Fausto, do alto dos janelões do Clube dos Advogados, olhando a obra e conversando. Eu tinha verdadeiras aulas sobre a história de Fortaleza. Recentemente, voltamos a passear pelo Centro da cidade, aos sábados. Ficamos acompanhando a rota do mercado informal de discos, perguntando a um e outro ambulante. Antes, quando ainda existia a Francinet Discos, gastávamos horas lá dentro ouvindo música. O dono era de Quixeramobim, assim como Fausto, daí garimpava pérolas para nós. Já fomos assíduos frequentadores de bar. Mas hoje só nos reunimos às segundas-feiras, dia mais profissional para a boemia que procura uma boa conversa. Quando queremos enfiar o pé na jaca, coisa rara, o lugar para encerrar a noite é o Tocantins, onde amanhecemos cantando''.
Fernando Costa, publicitário


   ''Na época do Bar do Anísio, na Beira Mar, point do Pessoal do Ceará, eu era considerado menino, eles não me davam bola. Começamos a frequentar os mesmos bares já no anos 80. Era Estoril, Armário, Citron. O Francis Vale teve um bar-pousada que chamávamos de Francês das Arábias, lá também via Fausto Nilo, Augusto Pontes, Rodger Rogério... Mas só viemos a ficar amigos quando o escritório dele venceu a licitação para a construção do Centro Dragão do Mar. Fausto veio com a idéia de que a obra começasse em cima, descesse aquela ladeira e ocupasse dois níveis diferentes da cidade, tipo cidade alta, cidade baixa. Fizemos viagens pela Europa visitando centros culturais e museus. Brigamos muito, eu e ele, com os gerenciadores do dinheiro do Governo, tivemos que reduzir as dimensões por falta de verba, a obra parou, disputamos com outros projetos, fizemos com o que tínhamos. A idéia original era desapropriar casas do entorno, interligar o centro com o Boris, fazer um teatro com dois mil lugares. Acharam megalomaníaco. Hoje, está pequeno. Então, aprendi com esse processo. Fausto Nilo é um grande observador da cidade e me ajudou muito na compreensão dela. Trata-se de um profissional que busca se atualizar, não teme os riscos e não foge ao debate de idéias. Representa uma atualização estética para a música e a arquitetura do Ceará''.
Paulo Linhares, ex-secretário da Cultura do Estado, hoje deputado federal


   ''Apesar de ter sido do centro acadêmico de Arquitetura e vice-presidente do DCE em 1968, Fausto nunca pertenceu a nenhuma organização política ou partido. Sempre foi reticente, sempre refletiu muito, tinha muitas dúvidas. De qualquer forma, era querido, procurado para dizer o que pensava. Eu era do PC do B, fui presa muitas vezes. Nos casamos e viemos para Brasília em 1971, onde estou até hoje. Ficamos casados por cinco anos. Mas não mantivemos contato depois disso''.
Mércia Pinto, musicista, primeira esposa de Fausto Nilo


   ''Em São Paulo morei na casa do Belchior. Rodger Rogério morava em frente, então por ali sempre apareciam Fausto Nilo, Brandão, Augusto Pontes. E eram grandes noitadas que tive o prazer de presenciar. Anos depois, já em Fortaleza, vim abrir ateliê em um dos galpões contíguos ao Centro Dragão Mar, projetado por Fausto. As linhas e curvas do lugar me inspiraram a pintá-lo. Fiz uma série Dragão do Mar. Na exposição, Fausto comprou uma das pinturas, que hoje está na parede de sua sala-de-visitas''.
Sérgio Pinheiro, artista plástico


   ''Como amante da música brasileira, sempre admirei as letras inventivas do Fausto. Um dia, depois de um show que fiz em Fortaleza, no Dragão do Mar, finalmente nos conhecemos. Falei pra ele: 'Fausto, pra mim você até agora era só um nome nas capas de discos, agora sei que o nome tem rosto. Minha geração deve muito a você'. Ele agradeceu, e passamos a noite bebendo e conversando no bar do hotel em que eu estava, lembrando de canções, eu e a banda embasbacados com a verve do Fausto, um ótimo contador de histórias. Passamos a compor com certa frequência e hoje já temos mais de dez canções, incluindo as que foram gravadas no meu disco com o Fagner. Nossa parceria é muito fluente, muito fácil, tanta é a afinidade que rola entre a gente. Nos divertimos muito durante a gravação do disco aí em Fortaleza, passamos noites inesquecíveis. Uma das histórias mais hilárias do repertório do Fausto é a história do Padre Cromácio Leão, regente da euterpe de Jaboatão. Difundi tanto essa história entre os amigos por aqui, que posso dizer que o padre já é uma pequena celebridade. Perguntem ao Fausto. Abraço, ZecaB.' (N.R. Fausto Nilo disse que a história do Padre Cromácio Leão é impublicável)
Zeca Baleiro, cantor e compositor


   ''Minha aproximação com Fausto Nilo se deu de forma muito natural e espontânea. Antes do meu primeiro disco ele já me dizia que gostaria de produzir algo para mim. Brincava: 'Precisamos fazer um hit pra você'. Quando estava produzindo o disco Próximo, ele estava começando a se reunir com o Cristiano Pinho, que fez a direção musical do seu segundo CD, Casa Tudo Azul. Foi numa dessas reuniões que conheci a primeira safra de parcerias do Fausto com o Zeca Baleiro. Me apaixonei por 'Antes', mas demorei muito até pedir para gravá-la, pois imaginava que faria parte do Casa Tudo Azul. A vontade de gravar foi mais forte e resolvi, muito tímida, pedir a música a ele. Eu liguei, ele estava em Quixeramobim e disse 'sim' imediatamente. Mas 'Antes' seria a segunda letra do Fausto que eu gravaria no Próximo, pois já estava em andamento uma parceria dele com o Cristiano Pinho, 'A Ponte', que foi composta especialmente para o disco. Depois destas duas veio, então, 'O Piano'. A melodia conheci antes, na casa do Fausto, quando ainda não tinha letra. Ele abriu um baú de músicas ainda não letradas e lembro bem que fiquei encantada com o blues do Antônio José Forte. Desta vez, ele me ofereceu a música, tímido, pois já havia duas letras dele no meu disco. Ouvi a música, agora com letra, e disse sim imediatamente, pois ''O Piano'' - música e letra - é uma obra de arte. Há lirismo e contemporaneidade nos textos do Fausto. São duas características que gosto e que costumam estar presentes nas letras que escolho para cantar. É muito difícil colocar a palavra certa numa melodia e, além disto, fazer com que soe bem. Ele faz letras simples, inteligentes e boas de cantar. Como intérprete, fico feliz por conhecê-lo e ter gravado composições suas inéditas; como cearense, fico orgulhosa por sua obra''.
Kátia Freitas, cantora e compositora


   No programa do show Cores, Nomes, no Canecão, Rio de Janeiro, em 1982, Caetano Veloso dá a seguinte declaração sobre a música ''Surpresa'', que conta com uma inusitada colaboração de Fausto Nilo:

   ''Ela (a canção) nasceu da seguinte maneira: João Donato foi assistir ao meu show Outras Palavras no Canecão e em seguida foi pra minha casa, eu, ele e o Guilherme Araújo. Ficamos conversando e ele pegou meu violão, na verdade ele toca piano, e começou a inventar uma melodia e a me pedir para colocar umas palavras. Eu fui dizendo essas palavras que estão aí gravadas no disco. Mas fiquei devendo a Donato completar a letra. Quando nós já estávamos no meio das gravações, Donato apareceu dizendo que a canção estava pronta. Eu disse: que canção? Aquela, daquele dia - ele disse. Como, se eu não terminei? O Fausto Nilo - disse Donato - me disse que não precisa botar mais nada, que aqueles pedacinhos que você botou já bastam. A gente grava assim do jeito que está. O Fausto Nilo, então, é também parceiro por ter concluído a música sem acrescentar uma palavra. E nós gravamos assim. Donato fez a orquestração e ficou lindíssima''.

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Retrato Marrom

   Reuniões clandestinas no C.A. da Faculdade de Arquitetura da UFC, pós AI-5. Prisão-relâmpago no sítio em Ibiúna, durante o Congresso da UNE, em 1968. Viagens de ônibus nas chamadas Caravanas Culturais. Festas e peças no CEU
Ingresso concomitante no seleto quadro discente do Liceu do Ceará. Pré-adolescentes, os alunos Fausto Nilo e Cláudio Pereira conceberam juntos o jornal-mural Alvorada. Enquanto um ilustrava, o outro escrevia. ''Tratávamos de literatura, bossa-nova, Cinema Novo, temas incomuns e densos para meninos com 12 anos de idade. Mas era o que nos interessava'', ratifica Cláudio, hoje presidente da Casa da Amizade Brasil-Cuba. Na fase universitária, ao final da década de 1960, novos encontros criativos. À frente do Grupo Universitário de Teatro e Arte (Gruta), órgão cultural do Diretório Central dos Estudantes (DCE), organizou as antológicas viagens de ônibus das chamadas Caravanas Culturais, emplacando uma forma 'descolada' de fazer turismo. ''O grupo fazia shows, performances e exposições nos lugares por onde passávamos. Fausto estava em uma dessas viagens malucas de semi-leito em que fomos parar na Argentina. Lembro dele cantando durante todo o trajeto'', pontua.

   Espírito de grupo. Fruição estética apaixonada. ''A discoteca do centro acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFC, no Benfica, atraía estudantes e artistas interessados em cultura e política. Conheci Fausto lá, assim como o Pessoal do Ceará. Depois, curtimos as tertúlias do Centro Estudantil Universitário (CEU) e fizemos peças. Lembro de uma, Tempo em Preto e Branco, com músicas minhas e letras do Augusto Pontes. Comigo, Fausto cantou e interpretou. Na cena da serenata, enquanto eu levava o violão, ele segurava o poste e a lua'', reconstitui, entre risos, o compositor Rodger Rogério. O teatro também uniu o então estudante de Arquitetura ao aluno do Curso de Direito da UFC, hoje diretor teatral, Aderbal Freire-Filho. ''Fausto fez o cenário de uma peça minha de 1969, Garota de Olhos Grandes. Depois, o cartaz de Besame Mucho, de 1982. Participei de um show dele, Poeta, mostra a tua cara, onde letristas interpretavam suas composições. Ele escreveu seus versos em tirinhas de papel, eu tirava aquilo do bolso, aleatoriamente, lia e jogava para o público'', conta, por telefone, do Rio de Janeiro, onde mora.


   Na Praça do Ferreira, a turma discutia os rumos do país às voltas com o golpe militar e o gradual endurecimento da ditadura. A primeira prisão de Fausto Nilo decorre das ações de protesto da época. ''Era a Semana do Exército e algum vândalo quebrou a vitrine da loja Milano. Como costumávamos ficar por ali conversando até altas horas, desconfiaram. Foram me prender no bar Balão Vermelho, um reduto de esquerda. Depois chegaram Fausto e Antônio Carlos Coelho, então presidente do C.A. de Filosofia. Passamos a noite na mesma cela, mas saímos no outro dia, por falta de provas'', recorda Cláudio. Nada que comprometesse o hábito de, às 11 da noite, bater ponto na banca do Bodinho para comprar os jornais Correio da Manhã e Última Hora. A leitura, crítica e coletiva, ecoava até o pátio da Arquitetura. ''O centro acadêmico sequer tinha chave. E ali havia reuniões clandestinas, mesmo pós AI-5. Os arquitetos Liberal de Castro e Neudson Braga, diretores da escola, não eram subservientes como a maioria. Apenas fingiam que não sabiam o que acontecia'', sustenta o ex-estudante do Curso de Direito, hoje cineasta, Francis Vale.

   Aconteceu de, em 1968, 800 estudantes de todo o Brasil reunirem-se em torno do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, interior paulista. Fausto Nilo, então vice-presidente do DCE da UFC, estava no sítio, assim como o cabeça da chapa vencedora, também cearense, hoje presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno. ''Houve repressão policial e todos acabaram presos. Tenho uma foto do Fausto quando saiu da cadeia para ser trazido de volta a Fortaleza. Do grupo, era o único que sorria, o que denota uma suavidade nos momentos mais difíceis. Não é um riso de alegria, mas de afirmação. O golpe não conseguiu vencer a efervescência cultural. Ele sempre preferiu ser o analista, o estratégico. Preocupava-se com a cultura, o comportamento das pessoas, postura mais consequente do que qualquer arroubo político'', credencia o hoje médico Mariano de Freitas, autor do livro Nós, os estudantes (Editora Ao Livro Técnico).


   João de Paula, companheiro de cela do militante-quase-arquiteto, então estudante de Medicina, lembra de Fausto, literalmente, como música para os ouvidos. ''O desconforto era geral, 30 em um cubículo durante dez dias. E Fausto mantinha a alegria, cantava para nós, aliás, foi aí que descobri que é uma memória viva da MPB. Um dia, reunimos os papéis de todos ali e fizemos uma faixa onde se lia a palavra 'Liberdade'. Fausto, com sua letra de arquiteto, foi quem escreveu. Colocamos do lado de fora da janela, dando para a rua, e ouvimos muitos gritos de solidariedade'', recorda. Na volta, a retomada do lado criativo da militância. ''Augusto Pontes, espécie de guru, puxava os papos filosóficos - ele era sabatinado em programas de rádio e acertava todas -, mas entre a turma também rolava besteira: cai-duro no Abrigo Central, sentados nas cadeiras dos engraxates; conversas eróticas com o ex-juiz José Tosta, antes de seguir para o alto meretrício... Lá nasceu a idéia do Festival de Música Aqui no Canto, que revelou Fagner e companhia. Eu era diretor-artístico da rádio Assunção e Fausto do júri'', recorda Aderbal.

   O 'guru' Augusto Pontes dispensa a reverência, mas admite: ''Incentivei muito o Fausto a escrever letra de música, mas ele resistia, apesar de ser musical e gostar de cantar. Uma vez chegamos a começar algo juntos. Chamava-se 'Madame Lilás', mas esquecemos. Se fosse azul talvez lembrasse...'. Inesquecível para os amigos do peito foi o primeiro casamento de Fausto Nilo. Tradicional, a família da noiva, a musicista e militante política Mércia Pinto, assustou-se com a 'homenagem' armada pela turma do futebol e da cachaça. ''Costumávamos nos reunir antes dos jogos do Ceará em meu sítio na Parangaba, o chamado Cachação. Mas alguém chegou falando do casamento do Fausto e decidimos ir de calção, camisa do time e armados com bandeira e foguetes. Entramos pelas portas laterais da igreja, um grupo foi até o altar e o noivo simplesmente saiu nos braços, carregado como um jogador em triunfo. Acho que até soltaram uma rajada lá dentro, o que fez o padre nos chamar de comunistas e quase anular a cerimônia'', atesta o jornalista Guto Benevides. (Ethel de Paula)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Três meninas do Brasil

   Caseiro e família. Em casa, o arquiteto e compositor Fausto Nilo tem a companhia de três mulheres: a esposa Silvia e as filhas Elisa e Marina declaram afeto e contam histórias vividas no aconchego de um lar democrático
Longas viagens de ônibus na esteira das Caravanas Culturais de Cláudio Pereira. Rodas de violão e festas em casas de amigos comuns, com direito à 'carona amiga' ao final das noitadas. Assim, Fausto Nilo e Silvia Parente flertaram e iniciaram o namoro, que deu em casamento, o segundo do poeta. ''Em 1981 a gente resolveu ter filho. Morávamos os dois no Rio de Janeiro, mas em casas separadas. Ele mergulhado na atividade de letrista, eu trabalhando como terapeuta ocupacional. Na época, era careta casar e começamos a morar juntos aos poucos. Quando Elisa, a primeira filha nasceu, há 21 anos, atamos de vez. Como ela mesmo escreveu em uma redação escolar, quando criança, 'casamos de coração'', derrete-se a esposa, mãe das duas filhas de Fausto.

   Bendito entre as mulheres. Em casa, Fausto conquistou respeito na base do diálogo aberto. ''Ele sempre foi democrático, conversa até demais. E diz que nos juntamos contra ele quando está errado. Tem um fundo de verdade. Mas é porque ele erra pouco como pai, aí a gente tem que aproveitar'', goza a mais velha, Elisa Parente Costa, 21. Sem arranhões, a relação já rendeu música, mas também choro: ''Meu pai compôs 'Pirlimpimpim' me olhando no cercadinho, aquela história do 'olho grande da menina'. Virou meu iniciador musical, claro. Mas lembro que, quando era pequena, a gente viajava de carro ouvindo uma fita cassete que ele me deu com músicas do Luís Gonzaga, Dorival Caymmi, palhaço Carequinha... Eu adorava o repertório, até que, um dia, no prédio onde morava, desci com ela para ouvir com as amigas. Elas tiraram sarro da minha cara, não conheciam nada daquilo. Subi chorando, com ódio do papai'', conta.

   Entre as crias, nenhuma intenção em seguir os passos do pai. Elisa é estudante de psicologia. Marina, 19, a caçula, cursa publicidade. ''Já chegamos, as duas, a fazer curso de desenho, pensando em ser arquitetas. Mas a medida em que fomos crescendo percebemos que o encanto era pelo desenho, as cores e, principalmente, pelo fato de estarmos sempre entre lápis e pincéis vendo o papai desenhar. O encanto era por ele, não pela profissão'', reflete Marina. Segundo ela, a autocrítica também é herança paterna. ''Ele sempre disse que devíamos ser abertas a críticas porque somos filhas de um compositor e um arquiteto, autor de obras públicas. Ou seja, alguns vão gostar de seu trabalho, outros não. Mas só fui realmente atinar para a sua figura pública quando os professores do cursinho me chamavam depois da aula para saber mais sobre as canções de meu pai. Ou quando os alunos do Geo vinham me perguntar se era ele mesmo quem tinha feito o colégio'', admite. (EP)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Você se lembra...

O dia em que Glauber Rocha berrou no hospital, Caetano Veloso foi barrado no Centro Dragão do Mar, Nara Leão vestiu, a contragosto, o vestido da irmã Danusa, e João Gilberto aconselhou Fagner a gravar o repertório dos grupos vocais cearenses

   Duas noites de fruição estética no apartamento 301 do edifício Flor da Paisagem, coração da Aldeota. Batizado em homenagem ao morador que o projetou ainda na década de 1970, o artefato evoca música homônima, também com assinatura dele. Arquiteto e compositor, Fausto Nilo é autor de cerca de 400 letras de canções registradas por mais de 100 parceiros, entre músicos e intérpretes do cancioneiro popular nacional. Para contar sobre 60 anos de vida completados amanhã e 33 de carreira artística, o anfitrião topou espalhar livros e discos sobre a mesa da sala, à frente da clarabóia central que canaliza vento. Objetos-valises, de onde saem histórias guardadas na memória, pensamentos em formação, arroubos de imaginação. Metidos na conversa, Glauber Rocha, Caetano Veloso, João Gilberto, Nara Leão. Thelonius Monk, Nat King Cole, Milles Davis, Moraes Moreira, Tchaikovsky, além de autores experts em cidade e urbanismo. (Ethel de Paula)


O POVO - Comecemos pela poesia, que namora com a letra de música...
Fausto Nilo - É... Quando faço letras de música gosto muito de revelar essas coisas meio indizíveis por outras linguagens. (Mostra um livro de poemas de W.H. Auden, poeta americano, em seguida Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira). O Bandeira tem essa lírica brasileira superbacana. Mas o grande mestre, que mudou minha cabeça, foi João Cabral (de Melo Neto). Li Educação pela Pedra, por influência do Augusto Pontes, muito jovem. Minha idéia de poesia era muito narrativa... aquela poesia parnasiana nos seus exemplares mais manjados. E quando li esse cara entendi o que era poesia. Me chamou atenção a inserção de palavras que não eram habituais - o sertanejo fala pedra, as palavras na boca dele chegam a ferir. O (García) Lorca já foi uma viagem diferente: o sujeito que pega cultura popular e faz um redesenho. Apolinaire deu uma virada violentíssima na minha vida. Poeta do começo do século, na França, pode-se dizer que é o precursor radical do surrealismo. Zona é um poema que saúda o século novo. Me deu mais confiança para escrever minhas loucuras. Quem me indicou foi o arquiteto Liberal de Castro, em 1977. Falou também da Florbela Espanca. Nessa época, foi proibida em Portugal, no tempo do salazarismo, por conta da tese de que era apaixonada pelo irmão e que todos os poemas teriam sido escritos para ele. Liberal soube que a Bertrand (Brasil) estava finalmente publicando. Isso foi em 1981. Eu estava na Espanha com Fagner, gravando o disco Traduzir-se. Comprei por lá e cheguei no hotel com esse livro, contando a história toda pra ele. Antes de dormir, me pediu emprestado. Quando acordei, já havia musicado ''Fumo'', incluída no disco de última hora, já no Brasil. Quando a gente estava voltando, passou em Portugal. O Glauber (Rocha) estava lá, agonizando em um hospital. Foi assim que o conheci. Ele não sabia quem eu era, fui com o Fagner visitá-lo. Quando cheguei, estava nu no quarto dando o maior 'show'. Já era um problema no hospital, os médicos sem saber o que fazer. E estavam o João Ubaldo Ribeiro e o Jorge Amado, que precisaram tomar alguma providência e saíram. Fiquei com o Glauber, sozinho, e o cara aos gritos na cama. Eu tava com minha pasta de desenhos, de repente ele perguntou: ''Como é seu nome?'. ''Fausto Nilo''. ''O que você faz?'. ''Sou arquiteto e também escrevo letras de música''. ''Eu acho que já ouvi seu nome no rádio, mas confesso que não conheço suas músicas''. ''Tudo bem''. Ficou calado e depois começou a berrar de novo. Quando parou, disse: ''E você tá fazendo o que na Europa?'. ''Vim com o Fagner para a Espanha fazer um disco, ficamos dois meses e meio, sou parceiro dele e estamos voltando agora para o Brasil''. Aí foi ficando à vontade, pediu pra ver o que eu tinha. Eu disse: ''São desenhos. Por onde passo, ao invés de fotografar, desenho''. Ele adorou, especialmente um de Triana, bairro de Sevilha, o bairro dos ciganos. Fiz não só o desenho como uma música, ''Trianera'', que seria uma moça de Triana. Ele pediu o desenho, que ficou lá até sua morte, depois soube. No segundo dia, o assunto foi o medo de morrer. Aí começou a delirar, falar sobre idéias que tinha de filmes: ''Quero fazer O Guarani, mas o Governo tem que me autorizar porque quero inundar o Teatro Municipal, quero o índio segurando uma carnaúba no Teatro Municipal...'. Umas loucuras! Aí me perguntou de onde eu era. ''Sou de Quixeramobim, no Ceará''. ''Não acredito! Eu já falei na sua terra e agora preciso ir ao Ceará. Estou querendo filmar o José de Alencar, quero fazer vários filmes com a história dele. Fui lá muito jovem''. Aí começou a falar em fazer um filme em Quixeramobim. Quando eu disse que havia morado na casa onde nasceu o Conselheiro, pirou. ''Vamos com Fagner, vou misturar Conselheiro com Moacir...'. Essas conversas malucas. E gritava, gritava, dizendo assim: ''Fausto, é o seguinte: esse grito aqui que você não deve estar entendendo é porque sou de Vitória da Conquista e o negócio lá é o Boi, viu? Estou aqui como um bezerro desmamado, no meio da caatinga, berrando, entendeu? Eu quero ir para a Vitória da Conquista''. Fiz então um desenho dele, escrevi um pequeno poema atrás e, durante um jantar, em minha casa, anos depois, dei para a mãe dele, dona Lúcia Rocha.

OP - (Apontando para livros do casal) Sartre e Simone de Beauvoir já vieram ao Ceará, você sabe?
FN - Eu os vi. Sartre e a Simone de Beauvoir fizeram uma tarde de autógrafos numa livraria da Floriano Peixoto. Era 1960, acho, eu devia ter uns 16 anos. Como era muito curioso, vi no jornal e fui pra lá. Gostava de ver as pessoas famosas, ficava olhando... Fiquei em pé na porta vendo os dois autografando umas duas horas. Quando terminou tudo, segui-os até o Excelsior, até entrarem no hotel. Ali, vi também a MylŠne Demongeot, uma atriz francesa da Nouvelle Vague, a gente se apaixonava por ela. Eu era penetra do Clube de Cinema do Darcy Costa. Ainda tinha uns cadernos para anotar os filmes. E meu primo, Zé Wagner, louco por música, ia pro filme e se tivesse uma música eu tinha que decorar. A gente ia a pé do Centro pra João Cordeiro, cantando o tempo todo para não esquecer, entendeu? Então, quando vi no jornal que a MylŠne Demongeot ia estar em Fortaleza fiquei de plantão ali na livraria Edésio até ela descer do hotel. Quando saía, eu ia atrás. (risos). Bem jovem vi Garrincha, Didi, Milton Santos, Pelé... mas discretamente, nunca fui pentelho. Uma vez, eu estava no futebol, Ceará e Fortaleza, e assisti ao jogo todo ao lado de Orlando Silva. Claro que eu não vi o jogo! (ri) Eu olhando cada gesto dele, aquilo pra mim, lá no interior, aquela voz, era tudo. Mas, muito tímido, não abordei.

OP - Caetano Veloso quis conhecer a Praça do Ferreira quando veio fazer show em Fortaleza, não foi?
FN - Foi. Caetano queria conhecer, soube que eu tinha feito e fomos lá de madrugada: ele disse que era uma mistura de Tóquio com Ceará. ''Isso aqui vai chamar Toquiorá, porque tem a cara do Ceará, mas é uma coisa atual assim que me lembra Tóquio''. ''Tá bom, Caetano''. Sempre que ele vem por aqui quer ver as obras. No Centro Dragão do Mar foi engraçado porque não deixaram a gente entrar, uma confusão danada... (risos) Eu queria mostrar o museu do vaqueiro e o rapaz da bilheteria falou que o horário de visitas já tinha terminado. Aí argumentei: ''Mas será que não é possível?'. ''Não, não é''. ''Olhe, mas é que sou autor desse projeto e esse aqui é o Caetano Veloso, faz pouco tempo que está na cidade e tal...'. (risos). O rapaz até que se sensibilizou mas ficou sem poder de decisão. Ligou para um outro e o cara do outro lado da linha não autorizou. Liguei pro diretor: ''Olha, estou aqui na entrada com o Caetano Veloso, mas não querem autorizar nossa entrada''. Enfim, conseguimos (risos).

OP - Você tem aqui um livro com clássicos dos cantares portugueses...
FN - É. Tenho um pé na tradição, no folclore, em minha memória longínqua, mas não gosto de ser regionalista nem ingênuo. Acho que esse papel é para os ingênuos. Embora às vezes você possa fazer canções com letras simples. Mas uma coisa é a simplicidade, outra é o simplório. Isso aqui pra mim é de muita importância: um livro com uma seleção muito boa de clássicos dos cantares portugueses, que são os meus colegas da Idade Média, são as cantigas de amigo, cantigas de escárnio... Tem uma coisa bacana aqui. Todos nós, letristas, com especialidade o Chico (Buarque), escrevemos letras para personagens que às vezes não são homens. ''Pequenino Cão'' é uma música escrita para mulher. E esses caras faziam isso. Escreviam como se fossem mulheres escrevendo para eles, poetas. Fiz uma brincadeira com isso no disco Casa Tudo Azul, com Carlos Paredes.

OP - Falando em disco, tem um aqui da Nara Leão, Romance Popular, produção sua e do Fagner, né? Como era a relação entre vocês três?
FN - Adoro a maioria dos discos dela. Do Romance Popular, que produzi, para trás, adoro. Fiz a capa. Desenhei o nome umas 300 vezes, gestual, né? Nessa época era tudo na mão. Ela era muito amiga do Fagner antes de me conhecer. Ele me apresentou e foi como se nos conhecêssemos há muito tempo. Depois disso, me ligava e eu ia muito à casa dela, conversar, ouvir música. Um dia, disse que o Menescal tinha uma proposta pra mim - ele é amigo dela de infância. Fui falar com ele, que me disse que ela estava de saco cheio, mas gostava muito de mim, então eu seria a única pessoa com que toparia produzir um disco. ''Você quer?' ''Olha, de repente topo, eu e o Fagner, que é muito amigo dela, ele conhece há mais tempo, e eu vou nas outras tarefas''. Ficou combinado. E ela pediu que levasse umas letras minhas. Um dia, sem mais nem menos, disse: ''Você sabe que eu tomei uma decisão? Vou gravar um disco só de Fausto Nilo''. Fui pra casa todo contente, mas depois achei exagerado. Aí propus outra coisa: ''Você grava quantas quiser minhas, mas vamos misturar um pouco com outras pessoas''. Fiquei desconfiado porque comecei a compreender a personalidade dela: uma pessoa muito espontânea mas ao mesmo tempo com uma sensibilidade à flor da pele, então de repente enjoa. E realmente aconteceu: tinha dias que não queria mais gravar. ''Olha, não sou cantora. Cantora é a Gal Costa. Já disseram que eu desafino. Desafino mesmo, não tenho respiração! E estou de saco cheio''. No estúdio, tinha um recorte de jornal com uma crônica do Drummond dedicada a ela, antiga. Aí, apelei: ''Vem cá, você acha que esse cara aqui não sabe o que diz?'. Daí levei músicas do Capinam, Robertinho (do Recife), Geraldo Azevedo... Nesse disco, também ela fez pela primeira vez uma letra. Veio me mostrar um pedaço, morrendo de vergonha, eu achei ótima e ela perguntou: ''Você tem coragem de terminar essa letra? Aí a gente chama o Fagner pra fazer a música''. Chama-se: ''Cli-Cle-Clo''. Ela tinha um namorado em Brasília, vivia indo pra lá, e conheceu o Climério, o Clésio e o Clodo. Ficaram amigos e descobriu que cli, cle, clo, em francês, são raízes de algumas palavras. O início é todo dela, fiz a segunda parte. Entre as coisas que levei para ela ouvir estava ''Amor nas Estrelas'', cuja letra já havia enviado para Roberto de Carvalho e Rita Lee. Ela se empolgou: ''Essa música foi feita pra mim''. E já começou a cantar: ''No alto / de uma montanha / existe um lago azul / é lá que a lua se banha...'. Liguei pro Roberto e ele autorizou a gravação da Nara. Anos depois, Rita me puxou a orelha: ''Deu minha música pra Nara, né?'. Bom, fizemos o disco, ela voltou às paradas.

OP - Está na linda na capa com esse vestido vermelho...
FN - Esse vestido é da Danusa, irmã dela. Ela não queria. Mas tinha que estar chique para fazer um contraste com o título Romance Popular. Vestiu a contragosto, mas o fotógrafo pegou um momento fantástico, porque a mulher tá incrível...

OP - Tem um disco de João Gilberto aqui. Você teve contato com ele?
FN - João Gilberto... Gosto muito do primeiro disco, Chega de Saudade, e esse da capa branca. Tem esse outro gravado no México e tem o Amoroso. Cheguei um dia à casa do Fagner, que tava no telefone com ele. Ele costuma ligar de madrugada para as pessoas, passear de Opala pela Barra da Tijuca... E o Fagner me apresentou por telefone a ele. Eu: ''Oi, João, tudo bem?'. ''Oi, Fausto, você é o parceiro do Fagner... músicas bonitas...'. Aí falei pra ele de quando ele veio a Fortaleza, em 1959, eu tava lá, tinha 14 anos, estava na primeira fila, no Cine Samburá. E ele: ''Olha, diga pro Fagner pra ele botar nos discos dele aqueles conjuntos vocais do Ceará, falando dos verdes mares, dos palmeirais, aquilo é muito bonito. Por que ele não canta?' (risos). Quatro Ases e um Coringa, sabe? Imagina! E tem umas lendas em torno dessa passagem do João por Fortaleza... que ele cantou de pés descalço, de costas para o público. Tudo mentira. O pessoal confunde com o Juca Chaves. E mistura com uma história que aconteceu no Ideal Clube, na verdade com o Orlando Silva, que no apogeu da fama veio cantar aqui na Rádio e depois foi ao Ideal Clube. Lá, as pessoas queriam que ele cantasse e ele disse que não, que o show já havia sido na Rádio. Aí a elite botou o cara pra fora.

OP - Essa capa do disco Raimundo Fagner é sua?
FN - É. Esse disco representa muitos dos quais gosto muito. Gosto muito do Traduzir-se, do Orós, do Ave Noturna. Mas o Raimundo Fagner tem muita importância pra mim, fiz a capa dele, com Helena Trindade, pensamos juntos o conceito, o título. Foi a primeira vez que o nome Raimundo Fagner apareceu completo. Até então era só Fagner. Tem duas canções minhas aqui, que não são canções de rádio: ''Calma Violência!' e ''ABC''. São duas canções políticas. E tem uma versão de ''Calma Violência'', com Mercedes Sosa.

OP - Queria aproveitar a deixa e pedir para que você falasse nessa herança do Pessoal do Ceará, Fagner e companhia. Como você se sente, qual o seu lugar aí, como acha que vocês são vistos por uma nova geração?
FN - Perfeito. Tem uma coisa muito saudável e ao mesmo tempo problemática. Você sente a necessidade de inaugurar um caminho, acho saudável. Agora, do ponto de vista prático, ao evitar essa possível aparência de continuidade pode-se cair em outras, naquele desenho mineiro, por exemplo, misturado com Ceará... Mas o que acho uma coisa assombrosa é a quantidade de canções que nós popularizamos no Brasil, aquele resumo do Pessoal do Ceará. Se pegar esse material, catalogar e conferir o que permaneceu ou o que uma hora dessas está tocando em algum lugar do país, é algo que acontece em pouquíssimos grupos de origem regional, como se dizia na época. No entanto, até hoje não apareceu um trabalho sobre a gente, de uma maneira bacana, reveladora de nossos reais valores. Temos isso reconhecido quando um cara me liga lá do Rio de Janeiro pedindo música para o disco dele, alguém de prestígio. Faz 33 anos que faço músicas, hoje mesmo terminei uma letra com Rildo Hora, grande cantor de samba. Rapaz, o que ele me agradeceu por ter feito uma letra! Mas não sinto esta importância na crítica, nos pesquisadores. É como um período morto. Quer dizer, tivemos a infelicidade de aparecer na cena fonográfica brasileira no momento do exílio dos grandes. Chico foi para a Itália, Caetano e Gil foram exilados, Milton começa sua carreira internacional... Ficou quem aqui? Luís Melodia, Novos Baianos e nós. Além de Simonal, Raul Seixas chegando, João Bosco, Geraldinho e Alceu. Então, acho curioso isso. A Isabel Lustosa me disse um dia que a convidaram para escrever um fascículo sobre determinado período da MPB. Ela quis escolher como tema O Pessoal do Ceará. Aí o editor disse: ''Esse pessoal aí não faz parte da história da música popular brasileira''. Acho que é mais um fenômeno de visualização de um período cujo desenho nos coloca na sombra. Mas não com o público. Gravo de seis a dez músicas por ano, sem fazer nada, morando em Fortaleza, imagine se morasse no Rio de Janeiro. Não tenho do que reclamar. Até porque acho que depende muito mais de mim. Nunca perguntei ao Chico Buarque o que ele acha de minha música. Ia para os shows para ver como o público recebia. E até hoje esse é meu parâmetro de avaliação. Um cara na rua chegou e disse: ''Rapaz, é o seguinte: já comprei quatro ou foi cinco discos seus''. ''É mesmo?'. ''É. Sabe por quê? Minha sogra chega lá em casa pega um, meu irmão chega pega outro e assim vai. Mas vou dizer uma coisa: tu não canta porra nenhuma não. Mas teu disco é bom pra caralho'' (risos). Pra mim, foi a opinião mais sincera que já ouvi.

OP - Voltando aos discos...
FN - Esse é Leonard Cohen, grande poeta e compositor, grande letrista canadense. Tem um pouco de Bob Dilan. Foi um dos que ouvi muito nos anos 70. Depois fui gradativamente ouvindo menos rock. Adoro esse outro disco do (John) Coltrane. E esses outros são só para representar as tendências clássicas que me interessam. Chopin, quase sem comentários, né? E esse é um concerto que tenho inúmeras versões dele. Concerto para violino do Tchaikovsky. Sou caçador desse concerto. Debussy, música impressionista, são coisas que aqui, acolá retorno. E esse aqui é um disco belíssimo que ouvi demais, de um cara catalão, Jordi Fazall, que toca viola-da-gamba, o avô do violoncelo. Dizem que foi o instrumento que mais próximo chegou da voz humana. Os autores são Marais e Saint Colombe.

OP - Existe um ritual para ouvir música ou compor letras?
FN - Não. Às vezes ouço em casa, sozinho. Ouvia muito no carro, mas quase não dirijo agora. Resolvo minhas coisas a pé. Gostava muito de ouvir música com amigos, mas acho que a cada dia as pessoas têm menos disponibilidade. Mas hoje gosto mesmo é de chegar em casa, ficar ciscando, ler um livro, ir pro computador, misturar uma coisa com outra. Daí começa um filme, vou ver, depois volto, é um tecido... À noite, fico fazendo essa malha, um parceiro liga do Rio, tô fazendo uma letra, aí ouço uma notícia da televisão, misturo com a letra... Outro dia acontece com ''Os Três Irmãos''. Apareceu uma matéria no Fantástico contando que a polícia carioca matou três garotos trabalhadores no morro, as mães chorando... Saiu: ''Três irmãos indo pra escola na periferia...'. Zanzibar, o Moraes me ligou: ''Manda logo a frase que tá faltando que o disco tá pra sair''. E não saía. Daí, passando perto daqueles botequins do Rio de Janeiro, ouvi um cara, lá de dentro, gritar: ''Aliás!'. Pronto. Na mesma hora liguei pro Moraes e disse: ''A palavra é aliás. O Moraes estranhou: ''Aliás?'. ''É, dá certo: Aliás/bazar da coisa azul/ meu only you''.

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


Elefante & Zanzibar

   Escrita automática, à moda surrealista. Associação livre de idéias. Duas letras de Fausto Nilo, ''O Elefante'' e ''Zanzibar'', rendem discussões e despertam curiosidade entre internautas e leitores de jornal. No time das canções indecifráveis da MPB, ambas divertem fãs 'disléxicos', além dos próprios autores
Diz-se que a expressão foi criada por Paulo Francis, ainda como jornalista de O Pasquim. Virundum seria o verbete escolhido para designar os 'assassinatos' que certos ouvintes cometem ao cantarolar letras de música. O Hino Nacional puxa o cordão dos delírios. Não sem razão. Afinal, quem, na mais tenra idade, insuflado a decorar tão pomposa composição, não tropeçou na pronúncia do tal 'Ouviram do Ipiranga'? Para ouvidos infantis ou pouco experimentados, admita-se, soava mais musical algo como 'Virundum'... E assim foi batizado o site colecionador de derrapadas musicais do tipo (www.virunduns.blogger.com.br). Confessar erros crassos, jogando na rede versões nonsense para intrincadas e imaginativas canções, vem sendo, portanto, a diversão de internautas que passaram a vida cantando troncho o que não conseguiram compreender a contento nas vozes dos intérpretes.

   Caso de ''O Elefante'', letra de Fausto Nilo com música de Robertinho do Recife, carro-chefe do disco Satisfação, de 1981. Ano passado, mais de 80 encafifados visitantes pelejaram para descobrir entre si qual a versão correta e o significado - implícito ou não - das mais alucinadas frases do hit que caiu nas graças do público infantil. Choveram pérolas. ''Um dos autores do hino do bloco Elefante, de Recife, morava colado ao quintal de Robertinho. Daí surgiu a homenagem e o verso 'se o oriente nasce em meu quintal'', jurou um internauta que se dizia amigo da irmã do instrumentista. Tão criativo quanto, outro desconfiou: ''Aquela parte que fala do Papa Kid não teria a ver com a visita que o Papa fez, na época, ao Brasil? Ou Papa Kid seria uma espécie de bicho-papão que papa criancinhas?'. Houve ainda quem simplesmente julgasse: ''efeito de drogas'', ''propagação de mensagens anticristãs com direito a back masking (música tocada ao contrário)', ''relação explícita entre o letrista e o judaísmo''.

   Pura maionese. Segundo Robertinho do Recife, hoje morando no Rio de Janeiro, a história começa com um casal de amigos estrangeiros que ele leva para conhecer a feira de artesanatos de Caruaru. Lá, o que mais chama a atenção dos turistas é um elefante esculpido na madeira. E os visitantes pedem para o anfitrião perguntar ao artesão qual a técnica que ele usava para talhar. Robertinho obedece. E tem como resposta um simples e genial enunciado: ''Não uso isso que o senhor disse de técnica não. Uso esse canivete aqui e um pedaço de pau. Aí, tudo o que não é elefante vou tirando fora''. Encantado com a prova de sabedoria popular, o artista passa a divulgá-la. ''No meu primeiro encontro com Fausto, rimos muito disso e resolvemos fazer uma música sobre elefante. Fui estimulando. Falei de um amigo chamado Papa Kid que foi lavador de elefantes no circo e andava em pleno Rio de Janeiro vestido de Jim das Selvas. O Congo Belga era um país africano que não existia mais, mas diziam que lá havia caça a elefante por causa do marfim. Também lembrei que o bloco Elefante de carnaval saía atrás lá de casa, no meu quintal. E assim ele foi reunindo referências para a letra'', contou, por telefone.

   A versão do amigo pernambucano faz o cearense rir. E o 'virundum' recomeça. ''Eu tinha um amigo no Rio de Janeiro, Hidelbrando, que vivia pelo Centro da cidade e colecionava causos de frequentadores assíduos como ele. Um desses era Menez, um caricaturista cearense com o qual havia se encontrado naquele dia, arrancando-lhe a história do artesão da Serra de Baturité que ao ser indagado a respeito de sua técnica saíra-se com esta: 'Pego o pedaço de madeira e corto fora tudo o que não é elefante'. O relato me encantou porque tinha tudo a ver com a frase de Picasso. Ele dizia que arte não se procura, se acha e eu contei isso para o Robertinho, que começou a reunir, a partir de então, uma série de curiosidades sobre elefantes para me mostrar'', rebateu Fausto. Segundo ele, Papa Kid, fiel parceiro de Luís Melodia, como também seu, na divertida ''Samba da Boléia'', do disco Casa Tudo Azul, simplesmente apareceu em seu apartamento no exato instante em que compunha. Por isso foi citado. ''Não sabia que tinha sido de circo e muito menos que lavava elefantes. Também nunca soube que o bloco carnavalesco Elefante, de Recife, saía do quintal de Robertinho. Mas respeito as associações do parceiro'', recuou, rindo-se.

   Virunduns à parte, ambos divertiram-se acompanhando o debate virtual em torno de ''O Elefante''. ''Tenho muito carinho por esta canção e fico feliz em saber que marcou uma geração, tornando-se inclusive hino de estudantes universitários em Recife. Acho que isso aconteceu justamente porque Fausto trabalha muito bem com o inconsciente em suas letras, valorizando nossas fantasias e estranhezas. Ele é o Salvador Dali da MPB. Freud adoraria tê-lo conhecido. Por mim, seria o próximo ministro da Cultura'', entusiasmou-se Robertinho. Segundo Fausto, a mais famosa parceria entre os dois, superior em termos de popularidade à inaugural ''Flor da Paisagem'', não nasceu voltada ao público infantil. ''Recebi de Robertinho uma espécie de rock-ciranda, mas quando a música ficou pronta a Polygram identificou o potencial e vendeu o peixe'', recordou. Bola dentro. Robertinho frisou que, antes de ''O Elefante'', só o palhaço Carequinha havia emplacado canções junto à criançada brasileira. ''O mais louco é que já havia feito melodias sofisticadíssimas antes, mas não era sucesso. Até que resolvi compor uma música bestinha, mongolóide. E estourou'', revelou.

   Ao contrário do parceiro, Fausto Nilo chutou a bola para cima. ''Estava mergulhado à época em leituras como A Obra Aberta, de Umberto Eco. Decidi experimentar a escrita automática de que falavam os surrealistas. Aquilo não é só um jogo aleatório de palavras, embora assim pareça a alguns. Trata-se de uma associação livre de idéias, mas muito bem pensada, apesar de brincalhona, por isso, até hoje, produz um estímulo na cabeça das pessoas. Essa loucura continua me interessando, como imaginação livre, mas elaborada'', observou. Técnica também experimentada em ''Zanzibar'', desta vez em parceria com Armandinho. A letra foi parar nas páginas do jornal carioca O Globo, acabando por vencer o concurso Zum de Besouro, lançado pelo colunista Artur Xexéu. Em disputa, as mais 'bizarras' ou incompreensíveis canções da MPB.

   O ''tricolor colar'' intrigou leitores e houve quem afirmasse que o letrista quis homenagear a Jamaica e a boina de Bob Marley, assim como as guias de umbanda. O famoso bar de Salvador frequentado pelos tropicalistas também foi citado como inspiração, além de Zimbabwe, ilha do Oceano Índico onde nascera o cantor Fredy Mercury. ''Estava em Salvador quando Armandinho me deu essa música. Voei de volta para o Rio lembrando de uma pichação recorrente nos muros da capital baiana, à época: ''Zanziblue''. Por onde passava, via isso. Depois, ainda no avião, lembrei de um filme estrelado por Dorothy Lamour, Viajando para Zanzibar. E assim a coisa foi saindo até chegar em Paracuru, como simples efeito de rima. O fato é que estourou e cheguei a receber um telefonema de congratulação do prefeito por ter contribuído com o incremento do carnaval de lá. Depois, fui convidado a fazer algo semelhante para outra localidade, mas não aceitei a encomenda. E o famoso bar baiano só surgiu anos depois. Gilberto Gil o homenageou. Não eu'', esclareceu, enfim, Fausto. (Ethel de Paula)

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


A versão original

O Elefante
(Robertinho do Recife e Fausto Nilo)

Como criança que vai viajar
Acordei cedo e vi você sonhar
Uma ciranda doce pelo ar
E a natureza foi se balançar
A fantasia me faz delirar
Que foi que eu disse? Eu cantei sem pensar
É uma doidice que essa dança dá
É uma doidice que essa dança dá

De que país vem esse carnaval
Se o oriente nasce em meu quintal
Um sol mais quente brilha muito mais
E um corpo quente que alegria traz
Ô Papa Kid cadê meu ganzá?
Do Congo-Belga que eu mandei buscar
Essa guitarra grita muito mais
Essa guitarra grita muito mais

O elefante brinca muito mais
Se uma menina vai correndo atrás
Que foi que eu fiz? fui te fazer feliz
Que foi que eu fiz? fui te fazer chorar
Será difícil alguém pronunciar
Na melodia o que essa letra dá
Na fala dela, linda é Aliá
Na fala dela, linda é Aliá

Se a natureza não me abandonar
No meu reinado você reinará
Tarzan dormindo no canavial
Tantor fazendo amor no bambual
Como a Colúmbia fosse viajar
Numa ciranda doce pelo ar
Acordei cedo e vi você sonhar
Como criança que vai viajar

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)


A versão tosqueira


O Elefante
João Quental, vencedor do concurso ''Versão Tosqueira'', do site virunduns (www.virunduns.com.br / www.virunduns.blogger.com.br)

Amor criança que vai pirajá
Amor descende de você sonhar
Uma ciranda você penhoir
E a natureza foice a balançar
A fantasia de fazer girar
E depois disse: eu também sei dançar
É uma doidice que essa andança dá
É uma doidice que essa andança dá

De que país vem esse carnaval
Se oriente nesse meu quintal
Um som mais quente brilha muito mais
O muco quente que a alegria traz
O papa disse que até meu dançar
O morro belga que eu mandei buscar
Essa guitarra grita muito mais
Essa guitarra grita muito mais

Um elefante mudo é muito mais
Se uma menina vai correndo atrás
Que foi que eu fiz fui te fazer feliz
Que foi que eu fiz fui te fazer chorar
Será difícil eu me pronunciar
Na melodia que essa letra dá
A bala bela de tear brilhar
A bala bela de tear brilhar

Se a natureza não me abandonar
O meu reinado você reinará
E o babuíno no canavial
E a onça velha lá no bambual
Como a Colúmbia fosse viajar
Uma ciranda você penhoir
Amor descende de você sonhar
Amor criança que vai pirajá

(© NoOlhar.com.br, 03.04.2004)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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