05-06-2008
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DJ Dolores, que apresenta na primeira noite do Abril Pro Rock |
Festival assume faceta de
fomentador alternativo
Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO
Há onze anos, o
Recife - em ebulição artística provocada por uma idéia genial que botou fogo
na produção musical da cidade - recebia um festival de bandas que passaria a
ser o mais cobiçado por todos os músicos que naquela mesma década, ou antes
até, começavam a trilhar sua estrada. O Abril Pro Rock, produzido por Paulo
André Pires, então produtor da banda Chico Science e Nação Zumbi, atração
principal daquele primeiro ano, seria o catalisador da nova cena, termo que
virou coletivo de várias bandas com um som original, surgidas no Recife na
década de noventa. Doze anos depois, o Abril Pro Rock, que vingou em
consequência dessa fertilidade musical, não poderia continuar sendo o mesmo.
Afinal, também regido pelas relações do
mercado fonográfico brasileiro, o festival não seria mais aquela vitrine que
criava nos músicos a expectativa de saírem do palco com a possibilidade de
um contrato com uma grande gravadora para o primeiro disco. Junto à nova
cena, o mercado via nascer também o fenômeno da pirataria, quetambém causou
uma revolução nas relações da indústria da música com os seus artistas.
"Até quatro anos atrás, as cinco majors,
Sony, Warner, BMG, Universal e EMI, mandavam seus representantes ao
festival. Depois, com a pirataria, muitas com problemas financeiros,
deixaram de investir em artistas iniciantes, e eles passaram a se
auto-produzir", lembra Paulo André. O Abril Pro Rock também começou a sofrer
a concorrência de outros festivais, recifenses ou não, mas que atraíam a
criativa música pernambucana. Há ainda um terceiro agravante para a mudança
de postura do Abril, um entrave que, talvez, num futuro próximo, ameace até
mesmo sua existência: a falta de recursos, apoios, enfim, dinheiro para
trazer atrações de fora, nacionais, latino-americanas ou mesmo européias que
casem com a filosofia do APR. Esse ano, por exemplo, o excelente grupo
cubano Orixas seria uma das atrações principais, mas não passou pelo
orçamento.
"Para um festival que vai na 12ªedição, o
nosso risco ainda é muito alto", abre Paulo André. Então, dentro dessas
condições, o festival está fazendo o melhor. Mesclando atrações locais,
iniciantes e veteranos, trazendo novos nomes da cena nordestina - como as
bandas Cabruêra (PB), Pitty (BA), Karine Alexandrino (CE) e a heavy metal
Switch Stance (CE) e apostando nos internacionais, como a alemã Destruction
(hardcore) e a francesa Vive La Fête, que promete ser um dos melhores
momentos do festival. "Continuamos sendo uma vitrine, pela quantidade de
bandas novas que se apresentam. Este ano, estamos priorizando uma nova
geração de nomes nordestinos, é uma outra realidade", defende Paulo André.
Apesar dos contratempos, o produtor diz que o APR é ainda o único festival
que consegue atrair nomes importantes para o fomento de um mercado
alternativo da música.
VELHOS TEMPOS -
Após a saída das grandes gravadoras do seu backstage, o Abril Pro Rock este
ano inaugura um novo tempo, de novas relações mercadológicas, reacendendo
nos artistas a velha prática de usar o evento como uma ponte entre eles e -
não mais as gravadoras - mas sim os selos alternativos, e as grandes
distribuidoras. Que voltem os kits com disco independente e release, e a
busca dos músicos atrás dos caras que podem gravar ou distribuir o disco
pelo selo tal, ou divulgar pela rádio, revista ou site que também preza
pelos independentes. MTV, Alto-Falante, da TV Cultura, Som da Sopa, Henrique
Amaro (português que tem um programa em Lisboa e dá força às bandas
pernambucanas).
Além desses, a Tratore (distribuidora), e selos
nacionais como Outros Discos, Monstros Discos, Empire Records, Lona Records,
Big Bross, entre outros, estarão no festival. Se, por um lado, a restrição
da grana atinge a programação do APR, essencialmente de bandas
independentes, por outro, o festival se assume como tal e entra da rede.
Quer viabilizar novas e produtivas discussões para o público e as bandas que
ajudou a formar ao longo dos anos. Vida longa ao Abril.
(©
Pernambuco.com)