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05-06-2008
No Abril Pro Rock de 1994, os integrantes da Chico Science & Nação Zumbi estavam mais ansiosos do que em outras ocasiões. Tinham recebido a notícia de que Da Lama ao Caos, o álbum de estréia da CSNZ, pela Sony Music, havia ficado pronto. O disco, eles só veriam no dia seguinte, quando executivos da Sony vieram assistir ao festival, trazendo cópias suficientes para abastecer a todos da banda. Da Lama ao Caos foi um clássico instantâneo da moderna música pernambucana, e brasileira. Da MTV ao mais sisudo jornal do País, nenhum órgão de imprensa ficou indiferente àquela poderosa mistura de batuques de alfaias de maracatu, com solos rascantes de guitarra, e os versos fortes de Chico Science. Uma década depois, Da Lama ao Caos continua um trabalho instigante e obrigatório. (© JC Online) ENTREVISTA/LÚCIO MAIA “Nós curtíamos falar do futuro” JOSÉ TELES O guitarrista Lúcio Maia, considerado um dos melhores de sua geração, conheceu Chico Science e Jorge Du Peixe no final dos anos 80, quando ensaiava na garagem de casa, pensando em formar uma banda com o baixista Alexandre Dengue. Formaram as bandas Orla Orbe, a Loustal e a Chico Science & Nação Zumbi. E aí, tudo passou a acontecer muito rapidamente. Veio o primeiro Abril Pro Rock, o contrato com a Sony, o CD Da Lama ao Caos, as primeiras viagens ao exterior. Primeiro para os EUA, depois para a Europa. A vida deste ex-estudante de Engenharia Química jamais seria a mesma. Nesta entrevista, Lúcio Maia volta dez anos no tempo e conta como foi a gravação de Da Lama ao Caos. O disco que mudou a face da música pernambucana. JORNAL DO COMMERCIO - Vocês esperavam gravar em tão pouco tempo, e logo por uma major, feito a Sony?LÚCIO MAIA- Toda banda sonha com isso, mas a realidade nos obriga a pôr o pé no chão de uma maneira ou de outra. Principalmente quando não se tem grana. A Sony surgiu no meio de outras gravadoras que também assediavam o passe. O primeiro convite foi feito pela Tinitus, do nosso amigo Penna Schmidt, semanas antes de fazermos a primeira viagem a SP. O contrato chegou pelos Correios na casa de Chico. No dia do show no Aeroanta, em SP, encontrava-se toda comitiva da Warner, Sony, EMI, BMG, entre alguns selos paulistas. Agarramos a melhor proposta. Aí, depois de assinarmos e recebermos adiantamento, fomos pro Rio de Janeiro gravar no estúdio de Liminha sem estar com o repertório pronto, apenas a metade tinha sido composta. Isso aconteceu porque éramos uma banda nova. Tínhamos apenas um pouco mais de um ano de existência, apesar de trabalharmos um tempo juntos no Orla Orbe e no Loustal. Era novo pra gente também tirar um som com a bateria dividida em dez pessoas. O processo de criação era lento. JC - Lembro que na época vocês pensaram em Arto Lindsay para produzir o disco. Como chegaram a Liminha? Foi a gravadora que escolheu? Lúcio- Ela não escolheu. Ofereceu. Estávamos tentando contato com Arto, mas não rolava. A Sony fez corpo mole porque era apenas interesse nosso trazer o cara de Nova Iorque pra produzir o disco. Liminha estava no Rio e disponível. Pensamos: “O cara foi um mutante e tal...”. Chico trocou uma idéia com ele pelo telefone e sentiu que iria ser legal. JC - Liminha teve dificuldades em produzir o grupo, pois ele nunca havia feito um trabalho assim, com uma banda que não usava bateria. Como transcorreram as gravações de Da Lama ao Caos? Lúcio - Quando chegamos, ele já sabia do que se tratava. Já tinha ouvido a demo e não era tão novidade assim. Ele é um cara que tem muita experiência em vários segmentos da música, já tinha trabalhado com deus e o mundo. A dificuldade veio com o relacionamento. Ele tinha as TPMs dele e nós as nossas. Se bem que o escore dele foi muito maior. Mas nas gravações, ele deu toques importantíssimos que usamos até hoje. JC - Em quanto tempo o disco foi feito? Lúcio - Demorou mais do que o esperado. Estourou o orçamento, peguei caxumba e voltei ao Recife, paramos as gravações porque Liminha precisava ir a Los Angeles ... Uma série de imprevistos. Acho que levou uns três meses pra ficar pronto. JC - Como foi a reação de vocês, e a de Chico em particular? Lúcio - A sensação do disco pronto não vem só no final. Você o vê tomando forma e ficando legal durante todo o percurso da gravação. Isso, nós sempre comentávamos. Chico era um enorme entusiasta e sempre dava uma força na hora de todos gravarem suas partes. Curtíamos muito falar do futuro, movido pela excitação de estar ali, realizando o tão sonhado primeiro disco. Houve um atraso no lançamento e no Abril pro Rock ainda não tinha disco nas lojas. Levou quase um ano pra ter o disco acessível. JC - Pelo visto o resultado não agradou muito, tanto que Liminha não foi mais o produtor do segundo disco, Afrocibederlia. Lúcio - Não tínhamos um parâmetro para dizer se ficou bom ou ruim. Hoje, considero o Da Lama ao Caos um disco muito legal, recheado de novidades para época. Os tambores não soavam como hoje, mas isso foi bom. Fez a gente querer encontrar o caminho certo pro lugar certo. Assim, achamos melhor trabalhar em conjunto e não ter mais um produtor ditando o que ele acha certo ou errado. JC - Como vocês vêem este disco hoje? Ainda escutam e se emocionam com as músicas? Lúcio - Muito. (© JC Online) Nação teve que forçar algumas portas Quando foi convidado para trabalhar com a Chico Science & Nação Zumbi, o produtor Paulo André, então com 26 anos, não tinha certeza se era aquilo que pretendia fazer pelo resto da vida. Na época, ainda mantinha a loja Rock Xpress (em sociedade com Humberto, baixista da Paulo Francis Vai pro Céu). Quando a CSNZ foi contratada pela Sony Music, e começou a gravar o que seria Da Lama ao Caos, ele se deu conta de que havia adquirido um bilhete de viagem sem volta.“Foi um tempo muito legal. A gente passou um mês hospedado num hotel em Copacabana. Íamos para o estúdio Nas Nuvens pela manhã, almoçávamos lá mesmo, as gravações iam até a noite. Depois a gente saía na noite. Quando a gente fazia algum show sempre pintava por lá a turma da cena alternativa, D2, BNegão, um pessoal que estava começando”, relembra Paulo André. Sem muita experiência no ramo, ele teve que se desdobrar para segurar o grupo. A Sony esperava alguma coisa nos moldes da axé music, então o estúdio era constantemente visitado por empresários de artistas conhecidos: “Até o de Elymar Santos apareceu por lá para conversar com a gente”, conta Paulo. A gravadora no entanto não ficou muito entusiasmada com as vendas de Da Lama ao Caos, queria trabalhar mais o disco no Brasil. Portanto, os executivos da gravadora não gostaram nem um pouco quando souberam que a CSNZ iria empreender uma turnê pelo exterior (primeiro ao Estados Unidos, depois à Europa): “Se a gente entrasse numa nóia e ficasse com medo de represália da Sony não teríamos conseguido o que conseguimos. A turnê foi um divisor de águas. Na volta mudou o tratamento que a gente recebia no Brasil, da própria Sony, inclusive. Acho que esta turnê de Chico e a Nação Zumbi abriu também as portas para as outras bandas brasileiras, naquele tempo não era comum os grupos nacionais tocarem lá fora”. Paulo André deixou de empresariar a banda poucos meses depois da morte de Chico Science, em 1997: “Mas nos damos bem, tanto que o pessoal da Nação Zumbi me convidou para trabalhar a carreira deles no exterior, a partir deste ano”. (© JC Online)
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