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EUA concedem a Caetano o visto especial que ele queria

05-06-2008

Sergio Huoliver/JB

Caetano Veloso

Helena Celestino
Correspondente NOVA YORK

   Na quinta-feira, no fim da tarde, Caetano Veloso ganhou um visto especial para entrar nos Estados Unidos — o cobiçado O1 — fazer os dois shows no Carnegie Hall, em Nova York, marcados para a próxima semana, e ficar o tempo que quiser no país. Este é um privilégio concedido pelo serviço de imigração americano às pessoas de “talento excepcional” mas que, num primeiro momento, tinha sido negado ao artista brasileiro por causa de supostos elogios seus ao inimigo número 1 dos EUA, o terrorista Osama bin Laden, em entrevista dada pelo cantor e compositor depois do ataque ao World Trade Center no 11 de setembro.

Visto saiu no último minuto do expediente antes do feriado

   Apesar de ninguém colocar em dúvida a genialidade do músico brasileiro, foram necessários dez dias de insistentes contatos entre o Consulado do Brasil em Nova York e o serviço de imigração nos Estados Unidos para vencer a resistência das autoridades americanas.

   O visto especial foi emitido no último minuto do expediente antes do feriado da Páscoa e, por causa de toda a confusão, talvez não dê nem tempo de Caetano usá-lo ao desembarcar nos EUA porque terá de ser enviado para Londres, onde ele está fazendo shows, e chegar antes de o compositor pegar o avião para Nova York, onde tem compromissos já marcados para toda a próxima semana. Além dos dois concertos no Carnegie Hall agendados para os dias 16 e 17 (sexta e sábado da semana que vem), Caetano é o homenageado de uma festa oferecida por um executivo da MTV na terça-feira, dia 13, e também é curador dos concertos do AfroReggae, no dia 14, e de Mart’nália, no dia 15, no Zanker Hall.

   Normalmente, este visto especial deveria ter sido emitido já no Brasil sem necessidade de nenhum pedido especial — como aconteceu outras vezes com Caetano. Mas, para surpresa das autoridades americanas no Rio, desta vez foi concedido um visto que cobria apenas o período em que o músico fora contratado para os shows — visto P-3 na linguagem da burocracia. Para resolver a situação, o conselho dado pelo consulado americano foi o de que os produtores dos espetáculos entrassem em contato com o consulado brasileiro em Nova York para ajeitar as coisas, confiando nas boas relações entre os dois serviços.

Funcionário do consulado brigou dez dias pela concessão

   Nos Estados Unidos, a conversa foi difícil e a imigração avisou que muito dificilmente Caetano voltaria a ter direito ao visto especial por causa do que era considerado um elogio a Bin Laden. Oficialmente, a explicação era bem diferente: o Carnegie Hall teria errado no encaminhamento burocrático do pedido de visto, solicitado o P-3 e, agora, estava muito difícil mudar para o O1.

   O consulado brasileiro destacou um funcionário só para cuidar desse caso e ele passou os últimos dez dias recusando-se a aceitar o não. Insistiu, pressionou e acabou conseguindo, inicialmente, um period of grace , uma extensão do prazo de permanência de Caetano nos Estados Unidos depois de terminado os compromissos profissionais. Mas era pouco. O funcionário continuou insistindo e, na quinta-feira, recebeu o sim que queria.

   As declarações de Caetano não passaram de um comentário despretensioso sobre a aparência de Bin Laden (ele disse que o terrorista era “bonito”), mas isso foi o bastante para deixar em alerta as autoridades dos Estados Unidos, que, desde 11 de setembro, redobraram as investigações sobre todos os estrangeiros que solicitam visto de entrada no país e passaram a usar um rigor extremo nas normas para a concessão de autorização de entrada em território americano.

(© O Globo)


Reflexo de contraste e harmonia musical

Antonio Carlos Miguel

   Se “A foreign sound” vale por seu conteúdo, pela sua musicalidade, mais do que apenas um grande disco, ele também funciona como uma tese de Caetano Veloso sobre a canção anglo-americana e seu papel no mundo. Neste álbum — que será lançado mundialmente dia 8 de abril — ao revisar velhas paixões que atravessaram a sua adolescência ou algumas das descobertas feitas mais tarde, o cantor baiano quer, como sempre, provocar. Daí, como explicou em concorrida entrevista, anteontem, no Copacabana Palace, Caetano misturar standards de mestres como Gershwin, Cole Porter, Jerome Kern, Richard Rodgers e Duke Ellington com o pop e o rock de Kurt Cobain, Paul Anka, Stevie Wonder e Bob Dylan.

   Trata-se de velho projeto, que, como o próprio contou no texto que escreveu para o release, nascera durante o período de exílio inglês (entre 1969 e 72). Mais recentemente, parecia ser o passo natural após sua mirada à canção hispano-americana que foi o disco “Fina estampa” (em 1994).

   — Depois de Londres, eu tinha desistido do disco. Acabei retomando a idéia por insistência de Bob Hurwitz (presidente da gravadora Nonesuch, que lança seus discos nos EUA) — diz na entrevista. — Hurwitz sugerira que eu gravasse com produção de Tommy LiPuma (veterano homem do disco, que trabalhou com Miles Davis a João Gilberto ou Diana Krall) mas quis fazer tudo no Brasil.

À procura da particular batida do samba

   Ao contrário de “Estrangeiro”, disco de 1989 com repertório todo brasileiro mas gravado quase integralmente em Nova York, com produção do americano Arto Lindsay e do suíço Peter Scherer, “A foreign sound” — a frase, que significa um som estrangeiro (ou alienígena, ou estranho), foi tirada da composição de Dylan “It’s alright, ma” — traz as canções anglo-americanas para o Brasil. Produtores, músicos, estúdios e, acima de tudo, batidas explicitamente brasileiros:

   — Em “Cry me a river”, canção que na versão de Julie London com a guitarra de Barney Kessel influenciou diretamente o estilo cool da bossa nova, quis fugir desse formato da bossa nova. Fizemos com surdo e tamborim, como um samba-canção de Monsueto, é um “Mora na filosofia”. Para “The man I love” quis o tratamento de uma marchinha bossa. “So in love” é outro samba-canção pré-bossa nova — lista Caetano, que diz não se preocupar como o público americano irá reagir. — Não sei se muita gente vai ouvir. A expectativa é das gravadoras, não é do público ou do cantor.

(© O Globo)


Show vai estrear em maio em São Paulo

   Caetano Veloso pode ter feito seu “som alienígena” sem se preocupar com a opinião do público médio americano, mas a gravadora Universal aposta alto. Ontem mesmo o cantor viajou para Londres, onde, na semana que vem, cumprirá extensa programação de entrevistas. O destino seguinte é Nova York, para, entre os dias 15 e 18 deste mês, participar da série Perspectives, com dois shows no Carnegie Hall. No Brasil, “A foreign sound” será lançado em temporada de três semanas, a partir de 14 de maio, na Sala São Paulo, chegando ao Rio em junho — dia e local ainda não foram acertados.

   Disco novo à parte, como é normal em suas coletivas, não faltaram declarações originais, sobre diversos temas.

   — A Inglaterra hoje é como Porto Rico, uma ilha atrelada aos Estados Unidos, mais um estado americano — comentou, para em seguida explicar a razão para tantas polêmicas. — Não me nego a revelar opiniões quando as tenho. O que não quer dizer que sejam sempre pertinentes. Dou opinião mesmo sem ser especialista.

   Perguntado sobre o que apontaria de novo em tema no qual é especialista, música brasileira, Caetano alegou não ter método, não parar para ouvir:

   — Sou um ouvinte passivo. Ouço o que vem até mim. Num restaurante, sempre tem música ambiente, o que não é o ideal, ou ao entrar no carro de um amigo. Em casa, ouço a música de nossos empregados, que são evangélicos.

   Mas acaba listando alguns nomes. De Domenico, parceiro de seu filho Moreno, a quem assistiu no Ballroom, a BNegão ou o grupo Los Hermanos (“Gosto mais de ‘Bloco do eu sozinho’, que foi uma surpresa, enquanto ‘Ventura’ é uma confirmação”) e o DJ Dolores (“Assisti na Europa, é muito interessante a mistura de rabeca, uma cantora e um DJ”). Outra novidade é o grupo funk Bonde Faz Gostoso (“Adorei as meninas, a quem assisti no Morro da Mineira e no 00”).

Quem não reconhece a força do funk é “babaca”

   O funk carioca, aliás, continua sendo uma fixação:

   — O que me atrai é a violência histórica que ele representa. Quando o movimento Black Rio surgiu, nos anos 70, a crítica esquerdizante veio dizer que era imposição das gravadoras e das rádios, mas a maioria das músicas que tocavam não tinha sido editada no Brasil, vinha diretamente dos Estados Unidos. E é a partir daquele funk que dizia “Eu só quero é ser feliz” que começa a produção caseira. Hoje os bailes só tocam música produzida aqui. Isso é de uma grande força histórica, não reconhecer isso é ser babaca!

   Paixão pelo funk que não o impede de aplaudir “Brasileirinho”, de sua mana Bethânia (“Foi o disco mais bonito que saiu no Brasil no ano passado”), ou de sonhar com um disco de sambas inéditos:

   — Era um dos projetos, antes de “A foreign sound”. Cheguei a compor um, “Diferentemente”, que cantei no show do Baretto, em São Paulo, e abortei algumas idéias para outros sambas — contou Caetano, que também compôs e gravou, em dupla com Zé Miguel Wisnik, a música do próximo balé do Grupo Corpo.

(© O Globo)


Classe de unir Porter e Dylan

João Máximo

   Um disco de classe. Que elogios outros corram por conta de quem os faça melhor. Limitemo-nos a the man and his music , o artista brasileiro que se propõe conquistar o mundo com canções anglo-americanas (a classificação é dele). Nas notas do release e do encarte, há pelo menos duas verdades. Uma, atribuída a um produtor americano: Caetano é o único que pode gravar Cole Porter e Bob Dylan no mesmo disco. Outra, do próprio Caetano, “Posso fazer qualquer coisa”. Que ninguém se atreva a duvidar. Já se sabia, de incontáveis experiências anteriores, o que se confirma agora: Caetano Veloso é um intérprete excepcional cujo trunfo maior é transformar em sua qualquer canção alheia, de cantá-la à sua maneira sem despi-la de seu jeito de ser. Da mais antiga (duas do disco são de 1927) a uma exumação do Nirvana.

   Maior trunfo? Talvez não. Não esqueçamos sua incrível capacidade de descobrir belezas em canções nas quais nós, mortais, nunca percebemos nada de mais: tango, bolero, rumba, roquinho de ocasião, música brega, de Vicente Celestino a Peninha, tudo fica bonito, e inconfundivelmente Caetano, em sua voz. Um exemplo do disco: “Something good”. Quem se ligou nesta canção ao ver ou rever “A noviça rebelde”? Pois Caetano, em vez de cantar jóias menos conhecidas de Rodgers com Hart (como “Wait till you see her”) ou de Rodgers com Hammerstein (como “I have dreamed”), preferiu esta, de Rodgers sozinho, pedra bruta das menos apreciadas de um filme que a intelligentzia despreza.

   A escolha do repertório obedece sempre a este princípio: o que conta é o que Caetano sente e não o que os apóstolos do bom gosto esperam. É nítida sua ligação com os grandes nomes da canção americana, Cole Porter (um “So in love” primoroso), o pouco lembrado Vincent Youmans (“The Carioca”), Jerome Kern (“Smoke gets in your eyes”), George Gershwin (“The man I love”, cantada como deve ser e não naquela canhestra versão masculina), Irving Berlin (“Blue skies”), Harry Warren em dose dupla (“I only have eyes for you” e “There will never be another you”), Duke Ellington (“Sophisticated lady”). E também com os clássicos “Star dust” (e não “Stardust”, como está no disco), “Body and soul” e “Cry me a river”.

Papel de presente que embrulha tanto clássicos quanto banalidades

   Ao mesmo tempo em que percorre algumas canções que ninguém associaria àqueles grandes mestres (“Nature boy”, “Love me tender”, “Diana”, “If it is magic” e “Jamaica farewell”, esta de um nova-iorquino que fazia calipsos para Harry Belafonte e que, entre outros foreign sounds , compôs o hino nacional de Barbados), Caetano prova que ele e aquele produtor estão certos: pode cantar tudo. Daí — contrariando os que acham que quem gosta de Cole Porter e seus pares não pode gostar de Bob Dylan, Kurt Cobain e Arto Lindsay — embrulhar todos no mesmo papel de presente de seu novo disco, um disco de classe. Ah, e temos também “Feelings”, que Jaques Morelenbaum diz que os americanos pensam que é americana. Verdade. Eles não sabem que ela nasceu na França, em 1957, mais de dez anos antes de o anglo-brasileiro Morris Albert transformá-la em sucesso mundial.

(© O Globo)


Mais fortes são os poderes do povo

Hugo Sukman

   A origem provinciana e relativamente humilde, associada a uma formação intelectual que foi crescentemente se sofisticando, tudo precedido de um berço de ouro musical (de Aracy de Almeida e Caymmi a João Gilberto) que foi se alargando numa cama onde outras musas, lindas ou feias, viriam a se deitar, fez de Caetano Veloso de certa forma um artista único. Sobretudo na capacidade provocadora de puxar das mais baixas extrações da criação musical (de Vicente Celestino, Peninha, Fernando Mendes, rock e funk a, agora, Morris Albert) o que elas teriam de sublime. E, na outra pista da ponte, voltar trazendo formas estranhas à cultura de massas (poesia concreta, bossa nova, samba, dodecafonismo, alta literatura, crítica etc.).

   Ao estar nos dois mundos, Caetano diverte-se em confundi-los. Como fez no show de “Noites do Norte”— ao citar o funk carioca “Tapinha” na sua “Dom de iludir”— agora em “A foreign sound” ele termina a expressionista “It’s alright, ma (I’m only bleeding)”, de Bob Dylan, com trechinho da embolada de Sérgio Ricardo e Glauber Rocha para a trilha de “Deus e o diabo na terra do sol”: “Se entrega Corisco/Eu não me entrego não”.

   Seria fácil aqui comparar Caetano a Corisco, o cangaceiro que não se entregou e morreu gritando “Mais forte são os poderes do povo”. Afinal, Caetano traz, via bossa nova, para o universo da música brasileira, clássicos da canção americana como “So in love” ou “There will never be another you” (nesta acompanhado pelo violão suingadíssimo de Gilberto Gil) — mas isso até Sinatra fez. Ou abre o disco com a rumba kitsch “The carioca” em elegante versão baiana, com direito a timbaus e surdos virados — mas isso o tropicalismo já ousou. Ou, ainda, transforma clássicos como “Star dust” e “Cry me a river” em sambas, entre outras atitudes de certa maneira nacionalistas no sentido modernista do termo.

   Não é propriamente nesta forma de não se entregar que Caetano-Corisco aparece. É na postura de levar ao pé da letra a frase-emblema “mais fortes são os poderes do povo”, no sentido de encarar de frente o que a canção americana representa no imaginário popular.

“Feelings” ganha arranjo de cordas e interpretação emocionada

   Daí, recuperar talvez o momento mais baixo que a música popular brasileira jamais alcançou, a de um brasileiro plagiar uma melodia francesa, escrever uma letra em inglês, cantar nesta língua à perfeição, dar-se um nome anglofônico algo estranho e fazer sucesso no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Caetano dá a “Feelings” a dignidade de clássico, em gravação emocionada e grandioso arranjo de cordas de Jaques Morelembaum. Nunca uma canção brasileira foi tão subserviente. Paradoxalmente, nunca outra canção fez sucesso global tão imediato. Caetano-Corisco investe nesse paradoxo sem subestimar o gosto popular.

   “Ivan Lins é música; Nirvana é lixo”, diz Caetano no texto que abre o encarte do disco. Poderia cantar Ivan, nosso compositor mais internacional, em inglês. Não canta. Mas canta “Come as you are”, de Kurt Cobain, lindo lixo. Seja cantando Cobain, seja cantando Gerswhin, Caetano celebra a música que conquistou o povo do planeta. Quer, meio sério, meio de brincadeira, conquistar o mundo. Se conseguir, Corisco terá vencido, o sertão, virado mar, e o mar, sertão.

(© O Globo)

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