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Sincronias entre mitos reclusos

05-06-2008

João Gilberto lança disco gravado em Tóquio no ano passado

Cânones da modernidade vocal, João Gilberto e Mario Reis têm novos discos marcados pelo rigor artístico dos repertórios

Tárik de Souza

   Os dois cânones da modernidade vocal brasileira chegam às lojas de discos em lançamentos quase simultâneos. O carioca Mario Reis (1907-1981), o primeiro intérprete intimista da MPB, desembarcou esta semana numa coletânea de três CDs, Um cantor moderno (BMG), somando 47 faixas - todas as registradas por ele no antigo selo RCA, entre 1932 e 1935.

   Gravado durante a turnê japonesa realizada entre 11 e 16 de setembro do ano passado, co-produção de João Gilberto com Shigeki Miyata, do selo Dear Heart, sai no começo de maio João Gilberto in Tokyo (Universal), de 15 faixas, com reinterpretações do cantor baiano de seu repertório, que viaja da pós-bossa Ligia (Tom Jobim), de 1972, aos dourados anos 40 dos conjuntos vocais, como Anjos do Inferno (Bolinha de papel, Rosa morena, Acontece que eu sou baiano, Doralice) e Os Cariocas (Adeus América).

   Numa época em que os cantores ainda esmeravam-se nos dós-de-peito de procedência operística, Mario Reis emitia um ''canto silábico'', como desvenda no encarte seu biógrafo Luis Antônio Giron, autor do livro Mario Reis, o fino do samba (Editora 34, 2001). ''Seus contemporâneos diziam que ele fazia 'bossa' e não foi por outro motivo que João Gilberto foi etiquetado como um novo Mario Reis quando apareceu em 1958'', compara.

   Mario antecipou o fraseado de síncopas da bossa que seria instaurado por João, embora este se espelhasse mais na manemolência melódica de Orlando Silva (Preconceito, 1941, Aos pés da cruz, 1942). Em comum, no entanto, além do rigor artístico das escolhas dos respectivos repertórios e das retiradas estratégicas (a volta olímpica final de Mario foi em 1971, com um disco e show no Copacabana Palace), ambos cultua(ra)m a reclusão como forma de preservação da fama. Os dois mitos preferem manifestar-se através da arte.

(© JB Online)


 

Ourives das formas do som

   O campista Wilson Batista (1913-1968) faz a ponte dos dois repertórios. Dele, João Gilberto mostrou em três apresentações no Tokyo Internacional Forum (onde o disco foi gravado dia 12 de setembro passado) e outra no Pacific Yokohama a sutil Preconceito (''eu nasci num clima quente/ você diz a toda gente que eu sou moreno demais''), parceria com Marino Pinto, sucesso de Orlando Silva de 1941, e Louco (ela é seu mundo), com Henrique Almeida, êxito de Aracy de Almeida de 1947.

   Com cerca de 20 mil pagantes e uma bilheteria estimada em US$ 1,8 milhão só em Tóquio (cada ingresso custava US$ 100), venda esgotada três meses antes e uma ovação de mais de 20 minutos (não reproduzida no CD, claro), a performance de João prima pelo romantismo. Os únicos três standards da bossa nova incluídos na seleção, os jobinianos Corcovado, Meditação e Este seu olhar, flagram um João terno e lânguido, espraiando-se pelos compassos, degustando cada palavra, sem descuidar do balanço concatenado do violão orquestral. O mesmo ocorre nas pós-bossas, também jobinianas, Wave e Lígia.

   Já no departamento nostalgia dos anos 40, a década decisiva do cantor, que tentaria a sorte num dos muitos grupos vocais da época, predomina o sincopado. Vide os recortados Doralice (Dorival Caymmi e Antonio Almeida) e Bolinha de papel (Geraldo Pereira), ambos de 1944 , Pra que discutir com madame? (1945) e Adeus América (1948) - duas parcerias de Haroldo Barbosa, uma Janet de Almeida e outra com Geraldo Jacques. Não falta ainda um samba exaltação que ele adocicou e lançou para o sucesso, Isso aqui o que é, de Ary Barroso, lançado por um obscuro Moraes Neto, em 1942. E os remeleixos típicos do conterrâneo Dorival Caymmi, Rosa morena (1942) e Acontece que eu sou baiano (1944). Ourives da forma, João não cessa de depurar o conteúdo de sua obra recorrente.

(© JB Online)


O Reis da voz  

   Dândi da família que controlava a fábrica Bangu de tecidos, Mario freqüentava ''à distância os morros e os redutos dos sambistas'', como documenta o jornalista Moacyr Andrade no referido encarte. Aluno de violão do primeiro rei do samba, José Barbosa da Silva, o Sinhô, Mario aprendeu o fraseado quase falado, sem vibrato, enxuto, que poliu moldando sucessores. Na caixa Um cantor moderno, com arranjos de Pixinguinha, ele não se limita ao samba, embora pontifique em ótimas composições neste gênero de Lamartine Babo (A tua vida é um segredo, Verbo amar, Parei contigo, Tarde na serra, Eu queria um retratinho de você e O sol nasceu pra todos, as duas últimas parcerias com Noel Rosa), tido como o rei da marchinha.

   Lamartine vai além de fornecer o combustível deste espevitado estilo em Rasguei a minha fantasia, Uma andorinha não faz verão e Nada além. Dueta com Mario com sua voz nasal, aflautada, e o jeito caricato em Boa bola, Linda morena e Aí, hem!. A teatral Carmen Miranda é outra que contracena com a sobriedade de Mario nas lépidas marchas juninas de Lamartine Chegou a hora da fogueira e Isto é lá com Santo Antônio. No cateretê satírico ao rádio da época As cinco estações do ano, Almirante junta-se a Mario, Lamartine e Carmen. Por sua vez, João de Barro, o Braguinha, com parceiros, já cutucava a onça com vara curta em Cortada na censura, em 1934. (Mario só seria, de fato, censurado ao gravar Bolsa de amores, de Chico Buarque, nas trevas de 1971.)

   Cabem na seleção dois frevos de Capiba (É de amargar) e Irmãos Valença (Você faz assim comigo) orquestrados sem a cadência correta e sob o rótulo de ''marchas pernambucanas''. Mas o forte da caixa é o garimpo perspicaz dos sambas. De Heitor dos Prazeres (Não sei que mal eu fiz, Vou ver se posso) à dupla Bide e Marçal (Agora é cinza, Meu sofrimento, Nosso romance). E mais André Filho (Alô, alô, em dupla com Carmen Miranda), Assis Valente (Esse samba foi feito pra você), Noel Rosa (Fui louco, com Bide), Custódio Mesquita (Doutor em samba) e Wilson Batista (Estás no meu caderno, com Benedito Lacerda e Oswaldo Silva). O certeiro modernista sabia fazer história.

(© JB Online)

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