|
05-06-2008
Vida social, política, economia, comércio e religião, temas pouco descritos nos livros didáticos, vem à tona com tradução das Nótulas Diárias escritas por funcionários da Companhia das Índias Ocidentais entre 1630 e 1654 CLEIDE ALVESA tradução para o português de documentos copiados a mão em arquivos da Holanda, há 118 anos, joga novas luzes sobre o período da ocupação flamenga no Recife (1630-1654). Vida social, política, economia, comércio, religião, relações com Portugal, enfim, o cotidiano da cidade nesses 24 anos está registrado nas Nótulas Diárias (Dagelijkse Notulen). Era a prestação de contas dos que aqui estavam para a Companhia de Comércio das Índias Ocidentais, que financiou a expedição ao Brasil. Todo esse acervo – mais de 11,5 mil páginas encadernadas em 32 volumes – pertence ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Foi copiado por iniciativa do ex-sócio da entidade, o jurista José Hygino Duarte Pereira, numa missão realizada entre 1885 e 1886. Dos 32 volumes, sete estão traduzidos e dois serão publicados de imediato pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) nas duas línguas, português e holandês. O lançamento está previsto para junho próximo, em São Paulo. “A publicação desse acervo é a iniciativa mais ambiciosa dos últimos 50 anos, no campo específico da memória partilhada entre a história dos Países Baixos e do Brasil, em qualidade e quantidade de material”, afirma o sócio do Instituto Arqueológico e coordenador-geral do projeto, Marcos Galindo. Ele ressalta que os grandes fatos ocorridos na época da dominação holandesa estão assinalados em livros didáticos. A tradução dos manuscritos, agora, permitirá que sejam esmiuçados os pequenos acontecimentos. Uma das Nótulas Diárias, escrita em 1639, mostra uma situação no mínimo curiosa. Mulheres holandesas que vieram para o Brasil e levavam uma vida considerada “escandalosa” pelo Conselho da Igreja, foram mandadas embora, depois de terem sido denunciadas por protestantes. “A Companhia das Índias Ocidentais era uma empresa privada, administrada por calvinistas, puritanos”, observa Marcos Galindo. A punição recaiu sobre Janneke Jans, que era casada com um homem livre e morava em Sirinhaém, Maria Roothaer, “esposa de um sujeito que partiu para a pátria-mãe com o último navio”, Agniet, que não sabia onde estava o marido, Elisabeth, esposa de um soldado que servia ao capitão Robert Herway, Maria, também casada com um homem que havia regressado, e outra mulher, igualmente casada, sem identificação, que era servente de três delas. “A vida particular das pessoas, na época, era esquadrinhada”, comenta a escritora Luzilá Gonçalves Ferreira, que assume este mês a presidência do Instituto Arqueológico. Ao mesmo tempo, os documentos permitem dimensionar a economia pernambucana nesse período, milimetricamente. Nas atas constam o nome de todos os navios que partiam e atracavam no Porto do Recife, especificando o tipo e a quantidade da carga que levavam e os destinos. Marcos Galindo ressalta que muita coisa ainda está para ser dita e escrita sobre o tempo dos flamengos na cidade. Por exemplo: em 1640 foi instituído o Imposto Predial e Territorial Urbano no Recife. O carnê chegava na casa dos moradores e o dinheiro arrecadado era usado na realização de obras públicas. “As primeiras letras de câmbio foram criadas no Recife, para controle dos juros que os judeus cobravam pelos empréstimos que faziam”, diz ele. Os manuscritos trazem toda a discussão em torno da construção da Ponte do Recife (atual Maurício de Nassau), incluindo a história do boi voador. Há ainda a ata de uma assembléia de índios convocada por Maurício de Nassau, que governou o Brasil holandês entre 1637 e 1644. Os chefes de aldeias participavam das discussões nos assuntos de interesse da categoria. “Nassau reconhecia os índios como nação”, destaca. Cinco tradutores (brasileiros e holandeses) estão debruçados sobre os documentos desde outubro de 2003. O trabalho começou com uma ajuda de R$ 20 mil da Embaixada do Reino dos Países Baixos. Posteriormente, foi aprovado projeto no valor de R$ 100 mil pela Lei de Incentivo à Cultura Estadual. Os recursos são suficientes para traduzir dez volumes. “Precisaremos de mais dinheiro para continuar o trabalho”, afirma Luzilá. É a versão holandesa da história sendo descortinada. (© JC Online) Autor de Tempo dos Flamengos consultou obra A coleção José Hygino corresponde a apenas 14,3% do acervo documental existente nos arquivos dos Países Baixos sobre o período holandês no Brasil. Para escrever Tempo dos Flamengos, o historiador José Antônio Gonsalves de Mello (1916-2002) utilizou parte do acervo. O material também foi consultado pelos historiadores Alfredo de Carvalho e Evaldo Cabral de Mello, que escreveram livros sobre o episódio.Como os documentos são escritos em holandês arcaico, as pesquisas são restritas a quem domina o idioma. Três anos atrás, o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano elegeu Marcos Galindo e Luzilá Gonçalves Ferreira para executar o projeto Monumenta Hyginia, de tradução dos documentos. “José Hygino trouxe documentos holandeses de interesse histórico brasileiro, bastante representativos”, diz Marcos Galindo, professor do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Pernambuco. A tradução e publicação do acervo, após 118 anos, na avaliação de Marcos Galindo e Luzilá Gonçalves, denota uma mudança de postura por parte do Instituto Arqueológico. Os manuscritos ficavam guardados numa sala da entidade, longe dos pesquisadores. Agora, serão disponibilizados ao público. “Só se preserva um documento quando ele é publicado”, defende Marcos Galindo. As publicações contêm informações adicionais sobre pessoas e fatos citados nos documentos, além de ilustrações. “Não basta apenas publicar o documento na íntegra, é preciso ajudar o trabalho do pesquisador”, comenta o professor. Já foram traduzidos os manuscritos referentes ao período de 27 de março a 31 de dezembro de 1635 e todos os meses de 1636, 1637, 1638, 1639, 1640 e 1644. Metade da edição será doada ao Instituto Arqueológico para distribuição e a outra parte será comercializada. (© JC Online)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004