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Guiomar é metáfora do Brasil

05-06-2008

A dramaturga paraibana Lourdes Ramalho

Moncho Rodriguez dirige peça que estréia amanhã, no Arraial

Ivana Moura
Da equipe do DIARIO

   A carroça da peça Mãe Coragem, de Beltold Brecht, assume o poder simbólico de testemunha dos horrores provocados pela ganância dos homens. A protagonista da peça se mete numa guerra para proteger seus filhos e expõe as dores e a capacidade de superação do ser humano nas situações-limite. Uma outra carroça carrega a memória da história do Brasil e funciona como elo do espetáculo Guiomar, a Filha da Mãe, que estréia amanhã, às 20h, no Teatro Arraial. Guiomar do título é uma mulher atormentada, que entrelaça suas lembranças tragicômicas com acontecimentos marcantes do País - do descobrimento aos atuais embates de políticos e denúncias de corrupção.

   Ao arrastar o mundo real nas costas, Guiomar aparece entre os colonizadores portugueses, mostra os reflexos da Inquisição no Brasil, as saídas encontradas pelos cristãos novos para fugir da perseguição. Ela tritura tudo e cria um universo à parte, com fantasmas de vidas imaginárias. A mulher inventa e transporta duende, diabo ou destino, que pegam carona na carroça. Esse meio de transporte rudimentar também lembra a imagem de um País empobrecido, de esperanças esgarçadas e cuja boa parte da população mendiga pelo essencial.

   E isso atinge Guiomar, que era uma respeitável professora de História. Perdeu tudo, a casa financiada pela Caixa Econômica Federal - CEF, a dignidade e a memória. Vagando pelas ruas com seu filho - que nem sempre ela reconhece - Guiomar tenta fugir do destino, tenta reencontrar sua identidade. Enquanto isso, assume outras vidas.

   Com texto da dramaturga paraibana Lourdes Ramalho, de 80 anos, e direção do encenador Moncho Rodriguez, a peça traz no elenco Augusta Ferraz, que interpreta Guiomar, e Márcio Carneiro, que desdobra-se em várias personagens. O processo de montagem da peça durou cerca de três meses e foi gestado dentro do Piane - Projeto de Integração de Atores do Nordeste, desenvolvido em Camaragibe e já encerrado.

   A encenação reflete a pesquisa por um teatro nordestino, de uma dramaturgia que tem um pé na tradição. Mas que espelha uma cena que quer afirmar uma poética do contemporâneo. A peça estreou em Brasília, no II Festival do Teatro Brasileiro - Cena Pernambucana. Depois da temporada no Teatro Arraial, a produção pretende participar de festivais e fazer apresentações abertas nas ruas, se conseguir apoio.

Serviço

Guiomar, a Filha da Mãe
Quando: Sexta e sábado, às 20h; domingos, às 17h
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora, 463, Boa Vista)
Quanto: R$ 5,00
Informações: 3134.3072

(© Pernambuco.com)


Em sua carroça, Guiomar carrega a memória nacional

Personagem da autora Lourdes Ramalho desfia uma teia de fatos marcantes da história do Brasil em espetáculo que estréia amanhã no Teatro Arraial

   A autora Lourdes Ramalho, 80 anos, é uma antiga conhecida do público pernambucano. Pelos palcos do Estado já passaram várias montagens baseadas em textos dessa dramaturga cearense que há muitos anos se instalou em Campina Grande, no Sertão da Paraíba. Algumas delas fizeram história, como a versão de As Velhas dirigida por Moncho Rodrigues. A mesma peça foi, em 2003, atração do Festival Recife de Teatro. A partir de amanhã, mais uma obra dela é encenada no Recife. Trata-se de Guiomar – A Filha da Mãe, que entra em cartaz no Teatro Arraial às 20h.

   Novamente, o diretor Moncho Rodrigues se debruça sob a dramaturgia de Lourdes Ramalho, tendo como intérpretes os atores Augusta Ferraz (Malassombro) e Márcio Carneiro (O Arquiteto e o Imperador). Ela vive a personagem-título, mulher forte, que surge como se carregasse a memória nacional. Arrastando toda a vida do País numa carroça de madeira, como essas que os catadores de papel conduzem nas ruas, Guiomar desfia o seu rol fantástico de tipos numa tentativa de dar a sua versão de como se fez a história do Brasil.

   A partir do relato da incansável Guiomar aparecem em cena os ‘descobridores’ portugueses, os personagens da corte e até alguns cristãos novos. Todos ganham vida pelo ator Márcio Carneiro. “É uma peça tragicômica. Em alguns momentos o humor predomina, mas não é nada escrachado. Os personagens de Lourdes têm muita ligação com a terra, carregam traços marcantes do falar e pensar nordestino e é isso o que sobressai”, ressalta Márcio.

   Guiomar – A Filha da Mãe é um desdobramento de outra obra de Lourdes Ramalho, intitulada Guiomar, Sem Rir e Sem Chorar. A pedido da própria Augusta Ferraz, a dramaturga concebeu o novo texto, que foi montado originalmente para participar do 2º Festival do Teatro Brasileiro – Cena Pernambucana. O evento realizou-se em Brasília, em novembro do ano passado.

   “Fizemos duas apresentações em Brasília e estávamos com a peça toda prontinha, esperando só uma ocasião para entrar em cartaz”, explica Márcio Carneiro, 31 anos, que trabalha pela primeira vez com a veterana Augusta Ferraz, 46.

   “O projeto era de Augusta e ela me convidou. Adorei porque estamos juntos no palco e como produtores. Tenho trabalhado com diretores e grupos bem diferente aqui e isto é muito enriquecedor”, destaca o ator goiano.

   Guiomar ficará em cartaz às sextas e sábados, 20h, e domingos, no horário ‘alternativo’ das 17h. “Domingo é um dia complicado para tirar as pessoas de casa à noite. Estamos lançando este horário como uma alternativa para quem vier passear no Centro ou Bairro do Recife e quiser aproveitar para dar uma passadinha rápida no Arraial”, comenta ele. A temporada segue até junho. (J.L.)

Amanhã, 20h. Teatro Arraial – Rua da Aurora, 457, Boa Vista. Fone: 3231.2716. Ingressos: R$ 5 (preço único)

(© JC Online)

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