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Angu recheado de violência e morte

05-06-2008

O escritor Marcelino Freire, que escreveu Angu de Sangue

Diretor Marcondes Lima estréia Angu de Sangue, adaptação do livro-homônimo do pernambucano Marcelino Freire, que relata a dura vida nas grandes cidades

JANAÍNA LIMA

   Angu é um prato típico da culinária nordestina. O termo é também utilizado para fazer referência a situações extremamente complicadas, quando não se chega a uma solução facilmente. E foi exatamente nesse sentido que o escritor Marcelino Freire escreveu Angu de Sangue, livro que acaba de inspirar o novo espetáculo teatral do diretor Marcondes Lima. A produção entra em cartaz neste domingo, às 20h, no Teatro Hermilo.

   Depois da montagem de A Caravana da Ilusão, texto de Alcione Araújo que se desenvolve na forma de um ‘delírio’, Marcondes Lima mergulha fundo na realidade. Na face mais dura e cruel do real. Mesmo se tratando de ficção, a obra de Marcelino Freire, pernambucano nascido em Sertânia, tem o pé afundado nos dramas do cotidiano. São 10 histórias que têm como personagens uma fauna de tipos urbanos, que expõem diferenças sociais e ideológicas.

   Violência e marginalidade são o mote desta peça, que foi estruturada a partir da seleção de nove contos do autor. Do livro Angu de Sangue foram escolhidos sete.

   São eles: Faz de Conta que Não Foi. Nada (sobre um menino de rua barbaramente assassinado), Muribeca (catadora de lixo se indigna com a possibilidade de as autoridades acabarem com seu sustento), Volte Outro Dia (homem desespera-se com insistente mendigo que se prostra a sua porta), O Caso da Menina (mulher de rua tenta convencer alguém a adotar sua filha), Angu de Sangue (homem revive, em assalto, o violento fim da relação com a ex-companheira), The End (manicure se impressiona com o desvelo dos norte-americanos para com os mortos) e Socorrinho (saga de menina seqüestrada e violentada é narrada em forma de música).

   Outro livro do autor que inspirou a peça foi Balé Ralé, do qual foram pinçados os contos Daluz (mulher confessa que deu os filhos por não poder criá-los), e A Volta de Carmen Miranda (homossexual das antigas diz como era bom ser gay antigamente).

   Completa o espetáculo o quadro Perna, livremente inspirado em fatos reais e que segue a escrita e universo explorado pelo autor. Nele, é retratada uma platéia pouco educada assistindo a um filme onde homossexual soropositivo morre por falta de socorro, após ser assaltado.

   A atmosfera marginal que vem dos textos impregna o cenário da peça, que também é de Marcondes Lima. O diretor utilizou como mote os bastidores de um jornal. Toda a arena do Hermilo é forrada com um tecido vermelho, que desce do teto, sugerindo o movimento do papel-jornal nas máquinas de um parque gráfico. Como se o sangue saísse do papel e se esparrama-se pelo teatro. Ao fundo, um telão mostra alguém redigindo uma reportagem.

   Cinco atores encaram a responsabilidade de interpretar os pessonagens: Gheuza Sena, Ivo Barreto, Fábio Caio, Hermila Guedes e André Brasileiro. A peça tem ainda trilha sonora especialmente composta por Henrique Macedo.

Pré-estréia para convidados sábado. Estréia para o público em geral domingo, 20h. Ingressos: R$ 10 e R$ 5. Teatro Hermilo – Av. Cais do Apolo, Bairro do Recife, fones: 3224.1114

(© JC Online)


Universo barra-pesada é o mote predileto do autor

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   A literatura do escritor e publicitário pernambucano Marcelino Freire é uma espécie de encosto vivo – que incomoda, está sempre lá, quando menos esperamos, e que não quer nos deixa dormir em paz à noite. Não é exagero. Seus fantasmas são bem conhecidos no universo de qualquer bom urbanóide: é o homem que não sabe o que fazer diante de um pedinte que chega à sua porta e, por isso, fica lá repetindo um vazio ‘volte outro dia’, é a mulher que entrega os filhos porque não consegue criar, já anestesiada depois de tantas ‘doações’, são pessoas que não têm voz, apenas empregos/vidas medíocres, que vivem gritando monólogos para ninguém.

   Apesar de tratar de um mundo tão barra-pesada e sem o tal do final feliz como compensação nas últimas páginas, o autor preenche a fala das suas personagens com uma linguagem que, de tão banal, acaba sendo preciosa. É prosa para ser lida em voz alta, como poesia, em que cada palavra tem um significado forte e que não pode ser descartada.

   Trazer Marcelino Freire para o teatro não só confere um fôlego novo à produção cênica da Cidade, como abre uma vitrine para um dos principais autores contemporâneos do Estado, que injustamente é mais conhecido fora do que dentro dele. É o velho clichê: santo da casa não faz milagre.

   Angu de Sangue, de 2000, foi a sua estréia na ficção. Antes ele havia lançado o livreto Era o Dito, no qual brincou com o significado de frases, que, embaralhadas, acabavam dizendo coisas diversas ou o mais do mesmo – tudo dependia do esforço de quem as lia.

   A versão teatral para Angu de Sangue desperta ainda mais curiosidade porque os textos não foram adaptados. Os encenadores preferiram levar para o palco Marcelino como ele é, ou, melhor, escreve. A decisão foi das mais acertadas, afinal, citando Ariano Suassuna, ele escreveu na epígrafe dessa coletânea de contos que queria ser ouvido com a atenção que alguém confere a um tiro. Cada palavra com o seu respectivo significado sangrento.

(© JC Online)

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