05-06-2008
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Caetano Veloso no Carnegie Hall |
Helena Celestino
Correspondente NOVA YORK
"Pensei em cantar standards
americanos que já tinha gravado e canções brasileiras que viraram
standards internacionais, mas acabei cantando músicas brasileiras
obscuras e Carmen Miranda. Melhor pra mim.”
Esta é também a melhor descrição do
concerto de Caetano Veloso no Carnegie Hall, sexta-feira à noite, dada por
ele mesmo no palco. Num recital à la João Gilberto, banquinho, violão,
roupas discretas, em que alternou as músicas do seu último disco, “A foreign
sound”, com canções brasileiras que compôs ou cantou ao longo de sua
carreira, Caetano fez também o papel de mestre de cerimônias e foi contando
durante todo o show a história da relação dele com os Estados Unidos, com a
língua inglesa e com as músicas apresentadas. Foi aplaudido
entusiasticamente do início ao fim por uma platéia metade americana e metade
brasileira.
Condoleezza e Osama unidos pela música
Só cantou uma música inédita, que,
como explicou, foi composta muito rapidamente quando esteve em São Paulo
fazendo um pocket show de lançamento do seu último disco. Um samba,
“Diferentemente”, que une Osama Bin Laden, o terrorista mais temido do
mundo, e Condoleezza Rice, a poderosa Conselheira Nacional de Segurança
americana. Diz assim: “Eu amo você e você ama e o indizível se divide. Muito
diferente de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus”. Uma pequena
provocação compreensível apenas pela parte do público que fala português,
pois foi com elogios aos Estados Unidos, ao poder do inglês e da música
americana que ele recheou o seu concerto. Contou que se sentiu mais à
vontade em Nova York do que tinha se sentido em Londres ou em qualquer lugar
da Europa. “É uma curiosa cidade e todos dizem que não tem nada a ver com os
Estados Unidos, mas só os Estados Unidos poderiam criar uma cidade como New
York”, disse, lendo um texto de sua obra “Livro”, recém-traduzido para o
inglês.
Falou muito, sempre em inglês, e
cantou quase o tempo inteiro sentado num banquinho — deu apenas uma pequena
dançadinha, perto do percussionista Leonardo Reis, ao final de sua versão
para “Come as you are”, um hit de Kurt Cobain, do Nirvana. Cantou “Love for
sale”, de Cole Porter, à capela (como na gravação de “A foreign sound”), e
em muitas canções foi acompanhado apenas por seu violão. Em algumas músicas
cantou somente com o som do violoncelo de Jaques Morelenbaum e em outras se
apresentou acompanhado por diferentes formações da banda integrada por duas
guitarras (Lula Galvão e Pedro Sá), baixo (Jorge Elder), bateria (Carlos
Bala), percussão (Leonardo Reis) e violoncelo (Jaques Morelenbaum). Caiu no
rock ao apresentar “It's alright, Ma (I'm only bleeding)”, de Bob Dylan, e
chegou mais perto do jazz ao cantar “Body and soul”
(Green/Heyman/Sour/Eyton) — outras duas do mesmo disco. Ao cantar
“Cucurrucucú Paloma”, o público aplaudiu-o de pé pela primeira vez. Em
português, apresentou “Baby”, “Manhatã”, “Coração vagabundo” e, dizendo que
todo brasileiro num palco dos Estados Unidos lembra-se de Carmen Miranda,
cantou “Adeus batucada” e “Brasil pandeiro”, uma composição de Assis Valente
para Carmen e que virou sucesso com os Novos Baianos.
Toda esta trajetória musical
explicada passo a passo. Lembrou que o “Fina estampa”, sua bem-sucedida
incursão pelos clássicos em espanhol, já tem dez anos e contou que gravar “A
foreign sound” foi enfrentar de novo a questão do poder da língua, mas no
caso do inglês de maneira muito mais complicada.
— Quando se pensa na língua inglesa,
pensa-se em poder. O poder militar e econômico dos Estados Unidos reforça o
poder da língua. Mas me pergunto como seria o mundo sem estas maravilhosas
canções americanas — disse, explicando que procurou usar como filtro no seu
novo disco de sucessos anericanos a sofisticação da bossa-nova e a
sagacidade e ironia da Tropicália.
Ao encerrar o show de duas horas, foi
longamente aplaudido de pé e voltou para uma canja, aí sim, com o super
standard brasileiro “Garota de Ipanema”, para depois encerrar com “Mamãe, eu
quero”. Sábado voltou ao palco para um concerto ao lado de David Byrne, o
guitarrista do Talking Head, de novo apresentando-se num Carnegie Hall
lotado — os ingressos para os dois shows de Caetano se esgotaram uma semana
depois de serem postos à venda.
Uma semana de glória para o artista brasileiro
A semana passada foi de glórias para
Caetano. Ele foi o primeiro artista de música não clássica a fazer a
curadoria da série Perspectivas, do Carnegie Hall, na qual o convidado
seleciona uma série de concertos que reflitam a sua visão musical. Por
escolha de Caetano, subiram ao palco do Zankell Hall — uma sala menor do
teatro — a Banda AfroReggae na quarta-feira, Mart'nalia na quinta-feira e
Virginia Rodrigues ontem à noite. Caetano, além dos dois shows sexta e
sábado no palco principal do Carnegie Hall, também mostrou, num auditório,
os sons do Brasil para estudantes de música e do segundo grau na sexta-feira
de tarde.
Foi ainda na semana passada que “A
foreign sound” chegou às lojas de disco americanas, figurando com destaque
nas prateleiras de world music . Como nada disso se faz sem festa,
ainda teve um jantar em sua homenagem oferecido por um diretor da MTV num
hotel freqüentado pelos modernos nova-iorquinos, o Hudson. E, claro, passou
por uma grande exposição na mídia americana: no domingo anterior ao início
da semana brasileira, o “New York Times” publicou uma extensa e elogiosa
reportagem sobre Caetano, em que o considera um dos mais inovadores
compositores do mundo.
(©
O Globo)