05-06-2008
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Novos Baianos, em
momento de reencontro |
João Pimentel
Na virada dos anos 60 para os 70, a
turma dos Novos Baianos, formada por Moraes Moreira, Luiz Galvão, Paulinho
Boca de Cantor e Baby Consuelo (hoje do Brasil), apareceu disposta a manter
acesos os ideais da Tropicália. A partir dos conceitos difundidos
musicalmente por Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia, fundiram o samba
de Assis Valente e a bossa nova de João Gilberto ao rock e deram ao bandolim
a função vigorosa dos solos das guitarras elétricas. E mais: no momento em
que a maioria dos artistas abria mão dos “movimentos” e das “correntes
musicais”, cada um indo cuidar da própria vida, eles criaram uma espécie de
comunidade e viveram praticamente dez anos sob o mesmo teto. Para celebrar
35 anos desse encontro, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor resolveram
juntar o farto material sobre o grupo num DVD, com previsão de lançamento
para maio.
Documentário terá imagens inéditas do grupo
Galvão ainda sonha em transformar os
40 minutos que filmou em 16mm, no fim dos anos 70, num longa-metragem em
35mm.
— Os Novos Baianos tiveram um papel
musical importante. Até hoje as novas gerações de músicos citam a gente como
referência. Mas também mostramos, num momento político complicado, em que as
pessoas viviam enclausuradas, a possibilidade de um clima musical harmonioso
— conta Luiz Galvão. — Vivíamos em comunidade, onde o dinheiro ia para uma
caixa única, isso num país capitalista.
O DVD, em fase final de edição pela
produtora paulista Ampla Comunicação, vai ter imagens de shows do grupo em
Salvador, no Rio e em São Paulo e mostrará momentos inéditos, como trechos
do filme de Galvão e de um documentário feito para um canal de televisão a
cabo que foi ao ar apenas uma vez.
— Esse documentário foi feito em 1998
e 99, quando o grupo voltou para uma série de shows comemorativos dos 30
anos — conta Odorico Mendes, responsável pela seleção e edição das imagens.
— Mas o DVD, além de clipes e de gravações ao vivo, contará com entrevistas
de gente como Caetano Veloso e Gilberto Gil e imagens raras. Estamos
fechando também uma data no Canecão para que tenhamos um registro no palco
onde os Novos Baianos estrearam.
Luiz Galvão tem um projeto paralelo
ao mesmo tempo curioso e ambicioso. Ele quer juntar as imagens que gravou
nos anos 70 com registros atuais dos filhos dos músicos e fazer um
longa-metragem.
— O que eu filmei naquela época era um sonho que acalentávamos. A realidade
mesmo é o que existe hoje, são nossos filhos, que dão continuidade, da
maneira deles, a uma história musical — diz Galvão. — Quero juntar Davi
Moraes ( filho de Moraes Moreira) , Pedro Baby e as meninas do SNZ
(do clã Baby/Pepeu Gomes) , Peu Souza (filho de Galvão) e
o baixista Betão Aguiar e o baterista Gil Oliveira (herdeiros de
Paulinho Boca de Cantor) no elenco do filme.
Paulinho conjuga com as idéias de
Galvão e já reuniu a turma toda, pais e filhos, com exceção de Moraes
Moreira, em um palco em Salvador.
— Foi muito bacana o encontro. Esse
registro seria bem interessante. Mas acho bem difícil, por conta da agenda
de cada um, transformar isso num show, num grupo real, que pegue a estrada —
pondera Paulinho.
Já Galvão acredita que a propalada
convivência do grupo no Hotel Danúbio, no Flamengo, e posteriormente no
sítio em Vargem Grande, tenha acarretado, além da uma grande amizade, rusgas
“invisíveis”, problemas sutis de relacionamento:
— O nosso problema somos nós mesmos.
Quando Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Zé Ramalho e e Alceu Valença
resolveram fazer um trabalho coletivo, deu certo. Principalmente porque
nunca foram um grupo — explica. — Já nós, éramos mais do que um grupo,
éramos irmãos mesmo. Mas todo convívio também desgasta. Alguns amigos meus
estrangeiros dizem que nós rasgamos dinheiro, pois os Stones e os
integrantes do Led Zeppelin se detestam, o que não é o nosso caso, mas
ganham muita grana juntos.
O idealizador e principal letrista
dos Novos Baianos espera que a data e as imagens dos filmes sirvam não
apenas para lembrar um passado distante, mas fazer com que ele e seus
companheiros de música possam acreditar que o sonho ainda não acabou.
— Um trabalho conjunto não impede que
tenhamos a nossa individualidade. Só precisamos acordar para uma realidade
que é a possibilidade de mostrarmos ao vivo o que as novas gerações
conhecem, e muito, através de discos e de histórias.
(©
O Globo)
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