05-06-2008
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Foto: Cláudio Lima
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O Centro Cultural Dragão do Mar, cinco anos depois de inaugurado:
cultura de eventos distribuída em uma área de 30 mil metros
quadrados |
Inaugurado oficialmente no dia 28 de abril de 1999, o Centro Dragão do Mar
de Arte e Cultura chega aos cinco anos como o principal equipamento cultural
do Ceará. Entretanto, a crise econômica que afeta o setor também se reflete
naquele espaço
Patrícia Karam
da Redação
Museus, anfiteatro,
cinemas, teatro, auditório, café, planetário, livraria, a chamada Praça
Verde espalhados numa área de 30 mil metros quadrados. Quatro anos de
construção, oito meses de funcionamento em caráter experimental e,
finalmente, a inauguração oficial, 28 de abril de 1999. O Centro Dragão do
Mar de Arte e Cultura chega agora aos cinco anos com um belo cartão de
visitas. Por ali, passaram mostras que atraíram milhares de pessoas. A
exposição Auguste Rodin: Esculturas e Fotografias foi visitada
por 73.096 mil pessoas, entre 29 de novembro de 2000 e 2 de janeiro de 2001.
Outros campeões de público foram Ceará Redescobre o Brasil:
55.403 visitantes (10 de março a 31 de julho de 2002), Julio Le Parc:
Luz e Movimento: 47.775 pessoas (10 de agosto a 4 de novembro de
2001) e O Olhar Viajante Pierre Fantubi Verger: 13.163 pessoas
(2 outubro a 2 de novembro de 2003).
Os shows e festivais que ocuparam a
Praça Verde e o anfiteatro também ajudaram a solidificar a imagem do Centro
como o principal equipamento cultural do Estado. Por quatro anos, o Dragão
Jazz foi a alternativa para quem queria fugir do axé em plena época de
Fortal. Grandes nomes da MPB brilharam nos palcos do Dragão (em shows do
Dragão ou para os quais apenas alugou-se o espaço): Luiz Melodia, Nana
Caymmi, Olivia Byngton, Pato Fu, Arnaldo Antunes, Paulinho da Viola, Beth
Carvalho, Mário Lago, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Cordel do Fogo
Encantado, Mestre Ambrósio. Sem esquecer os locais: Fagner, Kátia Freitas,
Irmãos Aniceto, Karine Alexandrino, Paula Tesser e Valdo Aderaldo.
Pluralidade que também se refletiu nos programas de formação de platéia (com
ingresso a preço simbólico), que contemplaram a dança e a música e que
permanecem até hoje, a exemplo dos projetos Quinta com Dança e Domingo
Instrumental.
No entanto, a crise
econômica que afeta a atual administração estadual e atingiu o setor
cultural em cheio já pode ser sentida também pelo Centro. Nos últimos 16
meses, a principal mudança foi a incorporação da área de capacitação
profissional para a cultura - atividade desenvolvida anteriormente pelo
Instituto Dragão do Mar, que foi extinto. Mas se essa alteração não é
sentida diretamente pelo público que frequenta os amplos espaços do
equipamento, outros aspectos já saltam aos olhos, decorrentes da escassez de
recursos. ''Vejo esses novos tempos com prós e contras. Como há menos
eventos, eles estão mais preocupados em abrir discussões. Sempre recebo os
e-mails do Fala de Artista, aponta a jornalista Kerla Alencar,
referindo-se ao projeto que reúne diferentes gerações das artes visuais
cearenses para um bate-papo com o público às quartas-feiras no Museu de Arte
Contemporânea. ''Mas a programação musical caiu muito e, o que é pior, os
preços praticados não são mais tão camaradas. Mesmo quando são shows nos
quais o Dragão apenas aluga o espaço, é preciso ter em conta a proposta do
Centro enquanto espaço público'', prossegue Kerla. A jornalista também vê
problemas no entorno. ''Está tudo estagnado. Ele poderia oferecer
programações diversificadas em outros horários. Não é possível um lugar
sobreviver só da noite'', enfatiza. A falta de divulgação das ações do
Dragão é outro aspecto apontado por Kerla: ''Para alguns, ele é um elefante
branco. É preciso divulgar o que ele se propõe''.
A designer e estudante de filosofia
Mariana Tamas destaca o fato do Dragão abrigar as salas de cinema do Espaço
Unibanco. ''Vem a calhar dentro da proposta de um centro cultural. Também
gosto das exposições permanentes (As Admiráveis Belezas do Ceará
e Vaqueiros). Elas são um cartão postal e permitem um
primeiro contato dos que visitam o Estado com a cultura do sertanejo e do
vaqueiro'', acredita. Mariana faz uma observação que ela ressalta ser
empírica: ''Houve uma inversão. Na medida em que caíram os shows vindos de
fora, cresceu o número de espetáculos de formação de platéia. É bom porque
destaca os artistas locais, mas tem a contrapartida, pois a cidade é carente
como um todo de shows com artistas nacionais''. A aposentada Lastênia
Menescal Lima é assídua frequentadora dos cinemas e dos museus. ''Quando foi
entrar o novo governo, fiquei com medo que o Centro tivesse queda de
qualidade. No entanto, o estado de conservação dos espaço continua bom. O
que mudou foi o museu. Tá meio fraco de exposição'', diz Lastênia.
A relação do Dragão com
a cidade é analisada pelo advogado Renato Roseno. ''É um espaço que eu
utilizo como cidadão, mas o problema do Dragão é a ausência de outros
centros culturais em Fortaleza. Os poucos que existem ficam localizados em
áreas nobres. Imagine uma pessoa que mora no Canindezinho. Como ela vai
pegar um transporte público para voltar pra casa às 23 horas? Não é problema
do Centro em si, mas de uma cidade que é apartada'', entende o advogado. A
falta de uma mídia mais massificada para divulgar as ações culturais do
Centro também é vista por Renato. ''Para o fortalezense, diversão é sentar
num bar para consumir álcool e ouvir música alta. Quantas pessoas que
frequentam os bares do entorno vão aos museus ou ao teatro do Dragão?,
indaga Renato. Para a consultora de gestão cultural, Liduína Lins, o Centro
é a extensão da política cultural do Estado e, sem recursos, não consegue
dar conta para que essa política se efetive. ''O Dragão já fez muita coisa.
Mas é hora de se adaptar , salienta Liduína. Ela acrescenta que o Centro não
deve criar apenas uma programação que seja de massa. ''O papel dele é trazer
nomes do cenário independente também'', indica.
(©
NoOlhar.com.br)
Diálogos e impressões
Frente a frente, o
criador do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, ex-secretário da Cultura
Paulo Linhares, e a atual presidente do equipamento, Cristiana Parente
Ao reunir o criador do Centro Dragão
do Mar de Arte e Cultura, ex-secretário da Cultura Paulo Linhares e a atual
presidente do equipamento, Cristiana Parente, a intenção era promover um
jogo de idéias sobre a atual situação do centro cultural. Após uma hora e
meia de conversa, Paulo manteve-se incisivo, enquanto Cristiana saiu-se pela
tangente diante da falta de dinheiro que aflige hoje a Secretaria da Cultura
(Secult). ''O que eu tô falando aqui, acho que ela não pode nem falar. Mas
eu posso'', disse o também ex-deputado estadual. Nem mesmo o Centro com sua
estrutura de Organização Social (OS), que lhe dá maior mobilidade
burocrática, consegue escapar da crise. Com um orçamento de R$ 18 milhões de
reais para a construção, o Centro, que teve projeto arquitetônico assinado
por Fausto Nilo, precisa de R$ 5 milhões para a manutenção anual, segundo
Paulo. Cristiana falou no contrato de gestão entre a OS e o Estado, mas não
apresentou números.
Ainda na entrevista, o papel
simbólico do Dragão como revitalizador não apenas da Praia de Iracema, mas
também do Centro da Cidade. Meta ainda não atingida. Para Paulo, as
declarações da atual secretária da Cultura, Cláudia Leitão, sobre instalar
''dragõezinhos'' na periferia foram equivocadas. ''Não se pode dizer que o
Dragão é dos ricos e se tem que fazer alguma coisa para os pobres. Tem que
fazer dele um espaço democrático. Essa questão da descentralização é falsa.
Aqui deve ser o centro de memória das pessoas'', argumentou Paulo. O
ex-secretário lançou mão do pragmatismo de Mao Tsé Tung para analisar o fim
do Instituto Dragão do Mar, outro projeto nascido na sua gestão. Agora, o
Centro é responsável também por capacitar. Para ele, o Instituto, do ponto
de vista do capital simbólico, é até mais importante do que o Centro.
Se o Instituto é um
tema novo para o Centro, os problemas relativos ao tipo de ocupação urbana e
de entretenimento de seus arredores são antigos. Em janeiro de 2001, o Vida
& Arte apontou, em uma série de matérias, os principais problemas que
atingiam a área. A idéia original de compor um mix de cultura, comércio e
entretenimento nunca saiu do papel. Agora, Cristiana faz planos. Dentro da
política de parcerias implantada pela Secult para amenizar a ausência de
recursos financeiros, uma nova proposta: atrair também instituições que
realizam treinamento profissional, além de reforçar a oferta de serviços por
parte dos donos dos galpões. Cristiana anunciou que um dos prédios mais
tradicionais da Praia de Iracema vai sediar uma unidade do Sesc-Senac. O
Sebrae também ocupará um dos galpões do entorno. E a Caixa Econômica Federal
vai ter seu próprio centro cultural. (Patrícia Karam)
O POVO - O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura foi pensado
dentro de uma linha de criação, difusão e animação. Ele vem desempenhando
esse papel durante os seus cinco anos de existência?
Paulo Linhares - Eu acho que está tendo uma retomada dessa
característica agora. Por incrível que pareça, ele passou muito tempo sem
formular. Não tinha um formulador gerenciando. Na época que comecei a pensar
para a inauguração, botei uma pessoa que tinha característica de gerência
administrativa (nota de redação: Pádua Araújo), porque eu
formulava. O antigo gestor do Dragão era um gerente administrativo, porque a
gente havia pessoas formulando - eu, a própria Cristiana Parente, tinha
gente demais. Aí, o Dragão passou um tempo sem formulação. Ele passou a ser
muito receptáculo naquela época. Acho que com a Cristiana, ele voltou a ter
formulação. Com todas as dificuldades financeiras que ela está atravessando,
ele voltou a ter uma possibilidade de formulação. Tanto que a Cristiana era
diretora de ação cultural na minha época. Acho que isso é bom. Agora, é
óbvio que o Estado hoje passa por uma grande crise econômica. E, junto a
isso, há o problema do modelo de financiamento à cultura, que estava
precisando de revisão no modelo de financiamento em nível federal e
estadual. Achou-se que ia ser fácil mudar. Mas as negociações com os setores
financeiros são muito complicadas. Se você não negocia certinho, eles tiram
e não botam nada no lugar. E foi o que aconteceu: reduziram a capacidade de
fluxo financeiro da cultura, tanto estadual quanto federal e está sendo
difícil recolocar. É uma mudança no modelo de financiamento, que deve ser
revista, porque o sistema de incentivo que foi montado naquela época ficou
muito dependente de instâncias de mercado. Acho que o estado deveria ter
maior autonomia em relação ao mercado. Na verdade, há uma crise de
financiamento público, que precisa ser enfrentada por todos nós. O Estado
investe uma média de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões por ano no Fundo de
Desenvolvimento Industrial (FDI). Normalmente, investe-se em políticas
industriais. Não se pode investir 10% disso na lei de incentivos à cultura?
Seria um milhão por mês. Já dava uma equilibrada no sistema orçamentária na
Secretaria da Cultura.
OP - Você está falando da cultura como um todo. Mas vamos
falar da situação do Dragão.
Paulo - O Dragão foi pensado de uma forma muito barata. Saiu
um equipamento baratíssimo. Eu estava fazendo as contas outro dia. Veja o
exemplo do projeto Museu Guggenheim, do Rio de Janeiro. A obra do Dragão em
relação a ele representou 1,2% do que vai ser investido no Guggenheim. Para
um centro cultural, isso não existe. Não se consegue fazer em lugar nenhum
do mundo uma obra dessa dimensão com R$ 18 milhões como essa foi feita.
Depois foi pensado em um custo de manutenção baixo. Então, aqui, o mínimo é
de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões por ano. Sabe quanto a Bahia gasta com o
Pelourinho, em eventos e manutenção? R$ 50 milhões por ano. Esse centro
cultural aqui é 10% do Pelourinho e ainda não se investe. E ainda dizem que
é um equipamento caro. Caro? Tem que ter o mínimo. Agora pode dar R$ 200
milhões por ano para esses caras que vêm de São Paulo fazer chinelo e não
pode criar emprego na área de cultura? Por que as políticas industriais têm
privilégios e a cultura, que cria muito mais emprego, não tem isso? Eles dão
dinheiro para o setor industrial, mas não vêem a cultura como economia, como
gerador de emprego. Isso é uma coisa tão básica. Por que na Europa e nos EUA
se disputa, à bala, qualquer evento cultural? Porque é gerador de divisa.
Aí, tem uma crise aqui. E pro Dragão também. Imagino o que a Cris tá
passando. O que eu tô falando aqui, acho que ela não pode nem falar. Mas eu
posso e vejo tudo isso. Vejo uma crise de financiamento, em todo Brasil.
Vejo o Gilberto Gil com aquela conversa interessante, mas a verdade é que
ele também não fez muito.
OP - Já que o Paulo falou nessa questão da crise econômica por
que passa o governo. Como é que ela se reflete no Dragão, que tá tendo de
conviver com poucos recursos?
Cristiana Parente - Primeiro, deixe eu explicar rapidamente.
Concordo com o que o Paulo colocou, mas acho que todos os estados estão
sofrendo. Hoje, a secretaria da Cultura de São Paulo está transformando
todos os equipamentos dela em Organização Social (OS). Principalmente,
porque existe uma experiência muito positiva de uma OS administrando seus
recursos, que é o Dragão do Mar. Em Curitiba estão começando a transformar
os equipamentos culturais deles em OS, porque o modelo, o equipamento maior
que o Brasil tem em termos de conjunto de equipamento cultural é o Dragão do
Mar. Não existe nenhum mais complexo. Concordo com o Paulo que é o maior
complexo do Brasil e é o complexo mais barato do Brasil. Se construiu uma
marca nacional, ele é querido todo mundo gosta dele, independente se já
esteve aqui ou não. Só que, a cada ano, a cada dois anos, a cada quatro
anos, o cenário brasileiro e internacional muda. Estamos vivendo uma
recessão barra pesada mundial. Acho que a minha missão é tornar isso aqui
mais útil, mais público e que ele efetive os objetivos do equipamento.
Obviamente, faço uma gestão financeira econômica, esse é o meu papel. Juntar
equipe de pessoas pensantes para refletir sobre o que a gente pode fazer de
melhor por esse espaço. A gente tá tentando fazer com que o entorno do
Dragão não se transforme só em restaurantes. Os restaurantes são elementos
importantes do Dragão do Mar porque a ação noturna de um restaurante é
importante dentro de um aspecto cultural. As pessoas não são apenas aquela
racionalidade de criação, nem da exposição, elas também têm o
entretenimento. É extremamente importante. Hoje, a gente tá vivendo uma
harmonia aqui. Mas Temos que trazer mais ocupação diurna aqui. Genericamente
falando, com relação à questão do recurso. De fato, eu sou uma OS. Uma OS é
uma entidade privada sem fim lucrativo, é uma associação, com sócio.
Instituto de Arte e cultura do Ceará (IACC) é o nome formal, que ninguém
conhece. As pessoas só conhecem a marca Dragão do Mar. Eu sou presidente do
IACC. Sou um instrumento de gestão, de proposição. Existem pessoas aqui que
fazem proposições, orientadas pelo Estado, que é nosso financiador. A OS
serve justamente para viabilizar ações que o Estado, respeitando a lei de
licitação e toda a burocracia, não tem mobilidade. Obviamente, tenho que
tratá-lo como espaço público, mas eu também tenho um contrato de gestão.
Nesse contrato de gestão, é tudo muito detalhado, metas, número de eventos,
artistas, como vou disponibilizar os espaços.
Paulo - Esse contrato define o valor que é repassado pelo
Estado com metas e avaliações feitas pelo conselho. Esse é o modelo de uma
OS.
Cristiana - Não recebemos apenas essa receita. Isso não
viabiliza o Centro Dragão do Mar. O estado não tem mais potência como o
Governo Federal. Os principais equipamentos de São Paulo são financiados
pela Lei Rouanet. Os 15 equipamentos culturais que estão sendo transformados
em OS em São Paulo tem 15% é recurso do estado, o resto vem da Lei Rouanet.
Se nós nos compararmos a outros equipamentos, a quantidade de público que
entra e de programação é muito maior. Recebemos mais de oito mil alunos de
escolas públicas por mês. Hoje como gestora percebo alguns desafios como
gestão, mas a gestão não é a única ferramenta. O Dragão do Mar conseguiu
formar uma marca e eu tenho a missão de mantê-la da forma como está, como
qualidade. A gente tá tentando fazer com que essa marca seja internacional.
A gente não tem só ação de inclusão, acesso, a gente tem que ter proposição.
Sempre trazer informação para dentro desse contexto. O Dragão não é apenas
um equipamento de entretenimento, ele se propõe também a lazer, cultura e
arte. Isso tudo é um chamativo para o turismo. O próximo passo é que
tenhamos outros financiadores, não só o Governo do Estado. E que esses
financiadores respeitem a característica original do equipamento, que é ser
inovador, buscar a inclusão social. As pessoas me perguntam, você vai
trabalhar com um tipo de cultura para trazer o turista, para dar informação
aos artistas ou trabalhar cultura e arte para a população do estado? Vou ter
que atender a todos esses públicos.
OP - Como fazer isso?
Cristiana - Tem toda uma administração de marketing.
Você tem que pensar nos públicos e fazer estratégias. Ano passado, a gente
desenvolveu um evento que quase ninguém falou dele. Um evento mundial com o
Planetário Colégio. Poucas pessoas no mundo sabem o que é isso. É o lugar
onde todas as pessoas da Europa e Estados Unidos que trabalham com arte
digital estão fazendo seu doutorado ou pós. Vieram 26 artistas
internacionais para apresentar os seus trabalhos, ao lado de seis artistas
brasileiros. Nós tivemos apresentações de mais de 15 trabalhos de pessoas
que estão na frente dentro de seus países, universidades e galerias. Essas
pessoas são formadoras de opinião e todas elas querem voltar. Estamos
fechando com Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. O Dragão do Mar hoje
está na rede da arte contemporânea, que é a arte digital. Eu pertenço a essa
rede mundial hoje. As pessoas viram o que a gente tem aqui, viram que tem
gente que pode produzir. E assim vamos conquistando cada uma das redes.
Hoje, com a estrutura da globalização, você tem que alcançar as redes. Cadê
as redes do museu? Da área do patrimônio?
Paulo - Existem três aspectos importantes com relação ao
Dragão. Uma questão é a centralização versus descentralização. O Dragão é um
equipamento que foi feito pensando em dar uma retomada de revitalidade a um
pedaço do centro da Cidade. O Dragão do Mar tem que se transformar também
num lugar de periferia. Se você analisar antropologicamente, ele tem que ser
o lugar de pessoas de baixa renda. Vi uma entrevista com a Secretária (Cláudia
Leitão) em que ela dizia que a periferia tinha que ter um Dragão do
Mar. Não se pode dizer que o Dragão é dos ricos e se tem que fazer alguma
coisa para os pobres. Tem que fazer dele um espaço democrático. Essa questão
da descentralização é falsa. Aqui deve ser o centro de memória das pessoas.
A outra questão é da cultura de massa e de elite. Existem várias culturas.
Essas culturas têm que dialogar e não ser espaço de exclusão de uma cultura
ou outra.
Cristiana - Gostaria de fazer uma correção. Se a gente pegar o
plano de cultura da Cláudia, tem essa orientação política para a gente: o
Dragão é para a Secretaria da Cultura um portal irradiador e receptor. O
plano diz isso.
Paulo - Saiu agora recentemente uma pesquisa do IBGE que diz
que o estado do Brasil que atingiu o primeiro lugar em número de
equipamentos culturais nos municípios até 100 mil habitantes, no espaço de
10 anos, até 2001, é o Ceará. Isso porque o Dragão criou um fator de
visibilidade, de capacidade de acumulação de capital simbólico e os
prefeitos começaram a fazer. Então, dizer que isso aqui é uma concentração
da cidade de Fortaleza? Por que não vai se investigar porque o IBGE deu o
primeiro lugar no Brasil?
Cristiana - Na verdade o instrumento do Dragão é ser o
irradiador da produção cultural no interior. Hoje, eu administro o Dragão do
Mar e outros programas. Não sou a única, mas executo programas na Secult.
Dentro dessa execução, tenho a função de ser centro de referência em termos
de treinamento. Existe uma quantidade enorme de centros culturais sendo
inaugurados no interior do estado e esse povo todo precisa ser treinado,
precisa-se abrir uma circulação estadual de cultura.
OP - Voltando aos pontos que o Paulo começou a falar.
Paulo - É. Essa questão da centralização e descentralização do
ponto de vista da cidade versus periferia. Essa questão de Fortaleza e
interior e a questão elitismo versus popular. Se você vir as pesquisas e a
opinião da população de baixa renda, é um equipamento extremamente popular.
Cristiana - O capital simbólico e o fortalecimento da área da
cultura, seja no Ceará, no Brasil ou em qualquer lugar, depende da
articulação da cadeia da cultura e da arte. Hoje, o Dragão é uma instituição
que tenta articular os fóruns pelas áreas até por conta da capacitação e da
ação cultural. Isso porque a gente quer democratizar a discussão. O que os
artistas querem ver e querem receber? A gente percebe o seguinte: o segmento
música, audiovisual, o que eles têm em comum? Porque na verdade, a Fortaleza
do capital simbólico de pressionar o poder público é o empresariado. Tanto o
empresariado como o administrador do governo são duas pessoas iguais.
Paulo - Aqui o nosso capital simbólico da classe artística
ainda é muito pobre.
OP - Paulo, como você vê a incorporação do Instituto pelo
Centro?
Paulo - Outra questão importante é o Instituto Dragão do Mar.
Não conheço um outro centro de criação de centro de formação e qualificação.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) foi uma conquista. Brigamos com o
Ministério do Trabalho, no sentido documental, para mostrar que existe o
emprego do entretenimento e da cultura. Por isso a gente tinha que
qualificar o cara não para consertar geladeira, mas para trabalhar na área
de cultura, em diversas atividades. O Ceará foi o primeiro estado do Brasil
a transformar o dinheiro do FAT para a cultura. Conseguimos comover o Banco
Mundial para que seus projetos do Banco Mundial tivessem investimento na
cultura. A gente brigava com os gringos aqui. Foi uma conquista de todo
mundo. Agora se é o centro cultural que vai ter o Instituto vale o provérbio
de Mao Tsé Tung: ''Não importa se o gato é preto ou se o gato é branco, o
importante é que o gato coma o rato''. O que temos que ter é uma instituição
forte que seja capaz de qualificar, de ter centro de qualidade para a
formação cultural. A vanguarda não dá para depender das universidades
tradicionais, que são muito lentas. Acho que o Instituto, do ponto de vista
do capital simbólico, é mais importante do que o Centro. A força do
Instituto é muito grande, se você pega o histórico.
Cristiana - A proposta de modificação foi minha. Eu acompanhei
todo o começo do Instituto. A minha produtora foi sala de aula do Instituto.
Como está muito difícil o recurso, a gente resolveu fazer o seguinte: a
força da máquina está no Centro, então vamos botar para funcionar o projeto
original de capacitação do Centro Dragão do Mar e formalizar isso de alguma
forma. Você dá uma força para uma ação governamental para que ela se torne
ou não momentânea. Na verdade, leva um tempo para você constituir uma
escola. Leva anos. Aí fica assim: ''Pôxa, a Cristiana matou o Instituto''.
Mas o que o Instituto estava produzindo nos últimos dois anos? O Silas de
Paula (nota de redação: ex-diretor do Instituto) teve
paralisar em alguns semestres. Podemos fazer muita coisa sem dinheiro, mas
existem coisas que só fazemos com dinheiro. Estamos no momento de
recolocação. Em agosto, vamos abrir o curso técnico de dança, que veio do
Colégio de Dança. Porque as coisas amadurecem. A gente discute há muito
tempo. Temos que retomar o Centro de dramaturgia.
OP - Como a atual gestão do Dragão lida com a questão do seu
entorno? Durante o dia, esse entorno está completamente parado.
Cristiana - Sempre que alguém assume um projeto, acho que tem
que olhar para trás: o que deu certo e o que não deu, porque obviamente
daqui a dois, três anos eu vou sair desse lugar e a nova pessoa vai
repercutir tudo que a gente fez e o que deu certo e o que não deu, o que ela
vai ajustar. No começo, foi feito uma série de planejamentos. A idéia era
trazer as molduras dos galpões e ocupar isso durante o dia e durante a
noite. Depois do Dragão, o que aconteceu foi uma ocupação prioritária de
restaurantes e os galpões continuaram fechados. O que a gente fez? Conversei
para retomar a origem disso, que é recuperar a Praia de Iracema, pegar esse
comércio entre a Praia de Iracema e o Centro. Inclusive tivemos uma reunião
com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o
presidente Romeu Duarte me aconselhou a tombar um conjunto histórico. Esse
conjunto entre a Praia de Iracema e o Mercado Central tem a história da
arquitetura de Fortaleza. Você tem vários períodos da arquitetura cearense.
Paulo - Esse projeto que tenho aqui em mãos, do Programa para
Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur), é para desapropriar o
chamado ''Quarteirão do Artista''. A idéia era que a gente desapropriasse e
o Estado fizesse o mix. Porque se você deixa o mix nas mãos do setor
privado, você corre o risco de, no período de alta, os artistas serem
expulsos.
OP - Por que não aconteceu a desapropriação?
Paulo - O projeto foi barrado. O Banco Mundial queria
financiar, mas o Estado considerou que estava em um nível de financiamento
alto. Priorizou outras coisas. A idéia inicial era a urbanização do
quarteirão que desce para a praia, lá na ponta teria um aquário e
incorporaria a região do ponto de vista urbano como um todo. Então, essa
desapropriação desse quarteirão é importantíssima e era baratíssima. Quanto
mais tempo demorar, mais caro fica.
Cristiana - Existe uma outra estratégia. Como a gente não vai
poder desapropriar porque existe uma ação de residência e já se constituiu
um status de convivência, só que o entorno não é esse apenas, a gente tem
que levar em consideração desde a Ponte Metálica até a Catedral, até o
conjunto da Reffsa. Só que isso vai vir por partes. Depois da Cláudia vai
vir um outro secretário que vai fazer outra parte. As coisas governamentais
demoram. Estamos fazendo uma parte.
OP - O que vocês estão fazendo efetivamente?
Cristiana - A Caixa Econômica tem uma ação diurna, mas é muito
fechada. Ela vai se transformar em um Centro Cultural Caixa Econômica, em
2005. O Galpão do Boris já seria um outro restaurante, mas a gente conseguiu
trazer o Sesc e o Senac. Então, a parte de cultura deles vai estar aqui,
como o Sesc Pompéia. Tem outros galpões que estamos ocupando com uma Escola
de Artes e Ofícios. O Sebrae também está ocupando um. A idéia é a gente
atuar junto com a iniciativa privada para refazer a moldura da rua e ter uma
ligação com a Monsenhor Tabosa. Queremos atrair centros de capacitação que
trazem ocupação diurna. Têm imóveis que podem ser transformados em lofts
residenciais.
Paulo - Esse trabalho tem que ser feito junto à Praia de
Iracema. É uma coisa básica de urbanismo. Qualquer pessoa competente sabe
que pode fazer isso. A Praia de Iracema não é uma vítima do destino. Aquilo
ali é incompetência. Não é o determinismo histórico que faz com que ali
tenha só prostituta. Elas podem participar da paisagem, mas não pode ser só
delas como está hoje. Essa interligação com o Centro da cidade depende de
habitação. Aquele lugar tá todo abandonado. Tem que fazer prédio barato,
legal, bonito. A Prefeitura deve cobrar um percentual menor de IPTU ou não
cobrar durante tantos anos para quem construir na Praça do Ferreira ir
morando. Isso é possível para a recuperação do Centro. Aconteceu em vários
locais do mundo. Então não existe um determinismo histórico para que o
Centro da cidade e a Praia de Iracema sejam destruídos. Isso é
incompetência.
Cristiana - É mais ou menos o que aconteceu em Manhattan.
Hoje, você tem um outro bairro, que era fabril e passou a montar-se
residências, lojas, milhares de serviços, restaurantes. Então, estamos
tentando fazer o que aconteceu com Recife Antigo. Existe uma série de ações
que a gente tá resolvendo, inclusive com os próprios restaurantes, com as
empresas que estão no entorno. Estamos fazendo uma negociação com os donos
dos galpões para que tragam outros serviços. Eles não são o elemento ruim,
são elementos necessários. Tem que ter um mix. Não pode ser é predominante.
(©
NoOlhar.com.br)
O mapa do Dragão
No aniversário do Centro Dragão do
Mar de Arte e Cultura, uma programação sem novidades. Peças, exposições,
shows e outras atividades espalham-se pelos 30 mil metros quadrados do
Centro - apresentados no infográfico abaixo, que dá a dimensão dos diversos
espaços integrantes do equipamento cultural.
TEATRO
Hoje: 17h - O Menino Maluquinho. R$ 14,00 e R$ 7,00 (meia)
19h - Albergue Broder Ceará. R$ 15,00 e 7,50 (meia)
Terça-feira, 20: 20h - Zona Contaminada. R$ 1,00.
Quarta-feira, 21: 20h - Show de lançamento do CD Friends, de
Christian Pinheiro
Quinta-feira, 21: 20h - Quinta com Dança: Embolado.
R$ 1,00
22h - Espetáculo Subtração de Ofélia - Passagem 9. Solo de
Maura Baiocchi. R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia)
Sexta-feira, 22: 0h - Teatro à Meia-Noite: Quanto Custa
o Ferro? R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia)
PRAÇA VERDE
Hoje: Das 16h às 20h - Recreação: Brincando no Dragão. Grátis
Neste espaço acontecem os shows de grande porte, a exemplo de Rita Lee &
banda, ocorrido ontem.
AUDITÓRIO
Hoje: 18h - Domingo Homenagens: Joana Angélica Canta Dorival Caymmi.
R$ 1,00.
Terça-feira, 20: 12h - Cine Dragão: Azyllo Muito Louco.
Grátis
19h - Palestra: O Taanteatro - Expressões da Energia. Grátis
Quinta-feira, 21: 12h - Cine Dragão: Tristeza do Jeca.
Grátis.
ESPAÇO ROGACIANO LEITE
Hoje: 19h - Pôr-do-Sol em Canto: Rinaldo Lasalvia. Grátis.
RUAS DO DRAGÃO
Hoje: 20h - Teatro de Rua: A história de Mariquinha e José de
Souza Leão. Grátis
PLANETÁRIO RUBENS DE AZEVEDO
Programas em cartaz: Visões do Cosmo, Viagem ao Céu do
III Milênio, A Quinca, o Pititi e o Amigo da Lua,
O Dragão do Ceú e o Dragão do Mar e Sírius, a Estrela da
Vida dos Egípcios. R$ R$ 8,00 e R$ 4,00 (meia).
ESPAÇO SOB O PLANETÁRIO
Quarta-feira, 21: 17h - Dança de Salão: Professor Chocolate
LIVRARIA LIVRO TÉCNICO
Quarta-feira, 21: 19h - Lançamentos Literários: Paracuru e suas
histórias.
PASSARELA ENTRE O DRAGÃO E A BIBLIOTECA
Sexta-feira, 22: 18h - Festa do Livro e da Rosa. Grátis
MEMORIAL DA CULTURA CEARENSE (MCC)
Em cartaz até o dia 30: Rua dos Inventos - exposição de Gabriela
Gusmão Pereira, sobre o universo material urbano de ambulantes que
desenvolvem suas ''tecnologias de seobrevivência''. Reúne fotografias,
objetos e vídeos.
Permanente: As Admiráveis Belezas do Ceará ou o
Desabusado Mundo da Cultura Popular: mostra que apresenta um painel
multifacetado da região sul do Estado, composto por objetos de uso cotidiano
e obras de arte popular de criadores locais presentes nas feiras e na fé do
Cariri.
Permanente: Vaqueiros: exposição que percorre o
universo do vaqueiro a partir da ocupação do território cearense pela
pecuária até a atualidade através de recursos cenográficos, ensaios
fotográficos e objetos ligados ao cotidiano do vaqueiro
MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA (MAC)
Experimental Fase II - Exposição que reúne o trabalho de artistas
cearenses.
Fala de Artista - Projeto que acontece às quartas-feiras,
sempre às 19 horas, reunindo artistas de diferentes gerações para apresentar
seus trabalhos e participar de um diálogo direto com o público.
* Horários: de terça a quinta, das 9h às 21 horas / de sexta a domingo, das
10h às 22 horas
* Ingressos: MAC + MCC - R$ 3,00 e R$ 1,50 (meia)
MAC + MCC + Planetário - R$ 9,00 e R$ 4,50 (meia)
Visitação gratuita aos domingos
ANFITEATRO
* Espaço com capacidade aproximada de 800 pessoas, onde já aconteceram shows
memoráveis como os de Nana Caymmi, Cássia Eller, Cordel do Fogo Encantado,
Irmãos Aniceto e Fausto Nilo. Recentemente, o espaço recebu Geraldo Azevedo.
CAFÉ SANTA CLARA
CINEMAS
Duas salas do Espaço Unibanco Dragão do Mar. Confira horários e salas de
exibição na agenda do Vida & Arte.
ESPAÇO MIX
Onde acontecem exposições, cursos e oficinas.
ESPAÇO ROGACIANO LEITE FILHO
Palco sob a passarela reservado para pequenos shows e reecitais.
BIBLIOTECA PÚBLICA
PRAÇA HISTORIADOR RAIMUNDO GIRÃO
Em determinadas épocas do ano, como nas festas juninas, o espaço é ocupado
por eventos e barracas de artesanato.
Rua Dragão do Mar, 81. Praia de Iracema. Informações: 488.8600 /
488.8608. www.dragaodomar.org.br
Programação sujeita a alteração.
(©
NoOlhar.com.br)
O que eu quero para o
Dragão
''Então o Centro Dragão do Mar
assume a função de formar criadores. Ótimo. É algo que já reivindicavam os
alunos do Instituto irresponsavelmente extinto. Dramaturgo formado pelo
Dragão, penso que é uma dádiva e um privilégio construir-se escritor de
peças no mesmo espaço onde o texto vira cena. Era assim à época áurea do
Instituto, quando os anexos do TJA fervilhavam de alunos e lá escrevíamos e
encenávamos espetáculos que afirmariam uma leva artisticamente consistente
de novos escritores e atores para o estado. Mas, se é assim, o Teatro Dragão
do Mar precisa cumprir finalmente com a obrigação de ser uma casa
democrática, voltada para a produção e para a disseminação de espetáculos
honestos, de relevância cultural comprovada. Apoiar o Festival de Esquetes
de Fortaleza é só um começo. Desafio ainda maior é ter inteligência para não
repetir erros do passado. É preciso humildade para aceitar a importância da
vinda de bons professores e discernimento para perceber quem são os bons
professores disponíveis no estado. É preciso incentivar a formação de
grupos, estimulando a continuidade de buscas artísticas que tendem a
esmorecer quando solitárias. É preciso entender, de uma vez por todas, a
importância social de se formar artistas. O processo é lento, obstinado e
dispendioso, mas não é favor do Estado: é uma obrigação. Negligenciar a
cultura é crime, é prova de incompetência administrativa, de pequenez de
espírito e de demência intelectual. E temo que, no geral, é assim que tem
sido''.
Marcos Barbosa é dramaturgo, formado pelo Instituto Dragão do
Mar. Suas peças Quase Nada e À Mesa foram
montadas pelo Royal Court Theater (Londres).
''Visivelmente o Dragão do Mar vem
passando por restrições financeiras, mas, por outro lado, vem buscando
formas alternativas de atuação. Eu posso falar do que vejo acontecer no
Museu de Arte Contemporânea (MAC). O museu tem chamado os artistas locais
para participar de forma ativa dentro da instituição e ocupar seu espaço. Os
artistas, por sua vez, têm aceitado o convite e investido na instituição,
fazendo o papel do ''artista patrocinador''. Essa atitude do museu junto com
o artista tem gerado as exposições Experimental Um e
Dois. Mostras com foco na formação de público, ou melhor, na
aproximação da arte contemporânea com o público, quando contextualiza as
obras dos artistas locais junto a outros artistas com inúmeros catálogos,
vídeos documentais. Outra ação interessante é o projeto Fala de Artista que
possibilita o encontro de gerações e uma discussão sobre a produção de arte
de diferentes épocas na cidade. É uma ação simples do museu que abre o
espaço, fomenta uma discussão e contribuição pra minha formação''.
Rodrigo Costa Lima é integrante do grupo Transição Listrada
''O Dragão do Mar é o mais destacado
equipamento público de catalisação da produção cultural no Ceará e isso
torna inevitável a existência de um permanente compromisso educativo no
subtexto das suas atividades. A oportunidade de acesso dos compositores,
músicos e intérpretes ao público e vice-versa é um dos pontos mais
relevantes para a música nesse caldo essencial. O Ceará tem uma riqueza
musical oculta ou semi-exposta que é tão preciosa quanto a parcela que tem
sido difundida. É, portanto, uma responsabilidade de todos os que acreditam
nesse potencial trabalhar para que nos reconheçamos na nossa musicalidade. A
promoção do diálogo da música com as demais artes e com todos os públicos
produz afirmação e abre frentes de evolução ante a tendência mercadológica
da arte despersonalizada. O Dragão do Mar deve ser visto sempre como um
centro de transformação de expectativas em necessidades e de necessidades em
práticas de convivência, debate cultural, lazer, conflito de expressões,
convergência de interesses e acaloramento dos agentes culturais entre si e
nas suas relações com a comunidade. Essa aproximação é fundamental a fim de
que as pessoas se beneficiem intensamente desse espaço e, assim, possam
crescer bem mais em percepção e possibilidades de geração de renovadas
expectativas''.
Flávio Paiva é jornalista e autor dos CDs Rolimã (1994),
Terra do Nunca (1997), Samba-le-lê (1999) e
Bamba-la-lão (2001).
''Ao completar cinco anos, neste mês
de abril, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura já está consolidado como
um centro estimulador e divulgador da produção cultural cearense. Surgem,
todavia, novos desafios, como o de levar esta imagem consolidada para fora
dos 30 mil metros quadrados encravados no bairro da Praia de Iracema. Neste
sentido, o Dragão do Mar tem procurado ampliar sua rede de relações em
direção à periferia da capital e aos municípios do interior. Com pequenos
passos, a direção do complexo vem gradualmente ampliando suas ações. A
começar pela Comunidade do Poço da Draga, onde a população tem sido
beneficiada com programas de geração de emprego e renda. Já o Projeto Galera
do Dragão reciclou e capacitou 90 trabalhadores informais para melhor
atender o público visitante. Indo um pouco mais além da Praia de Iracema, o
Dragão exibiu clássicos do cinema nacional em sete bairros diferentes da
capital cearense, levando a sétima arte a pessoas que nunca tiveram a
oportunidade de entrar numa sala comercial. Estas ações reforçam a certeza
de que o nosso Centro Dragão do Mar é um complexo em movimento dentro e fora
dos seus 30 mil metros quadrados''.
Cláudia Leitão é secretária da Cultura do Estado.
''Acredito ter sido o Colégio de
Dança do Ceará um grande impulsionador da dança no Estado. E especialmente,
um veículo que possibilitou uma grande circulação de informações, tanto na
teoria quanto na prática. Definitivamente, não deveria ter acabado.
Consequentemente, precisaríamos, para dar continuidade à semente plantada
com o Colégio, de uma política cultural que nos possibilitasse uma formação
profissional reconhecida e, a exemplo de editais, maneiras de incentivar a
pesquisa, produção e circulação de dança, desenvolvendo e firmando o mercado
onde pudéssemos escoar nossa produção. Certamente, o Centro Dragão do Mar
foi de fundamental importância, seja na vinculação de cursos ou mesmo na
criação de projetos de formação de platéia, como o Quinta com Dança,
mas é preciso que essa parceria continue e que possa render mais frutos para
a dança e para as artes em geral''.
Possidônio Montenegro é bailarino, integrante da Cia da Arte Andanças,
e ex-aluno do Colégio de Dança do Ceará
''O Centro Dragão do Mar de Arte e
Cultura deveria perder o caráter de promotor de eventos, a exemplo de shows,
e ganhar um caráter mais cultural, relacionando-se com as pessoas da cidade.
É necessário que seus espaços, como as salas de cinema e o teatro, sejam
mais democráticos. Afinal, ali é um espaço público. Tem que ser aberto para
o povo. Mas o Dragão não se integra com a cidade de Fortaleza. Com relação à
área do audiovisual, quando eu ainda era aluno do Instituto Dragão do Mar, o
Centro estava sendo construído e eu sempre tive a sensação de que ele seria
a nossa nova casa. O Centro iria ser o espaço para a gente exercitar o que
estava aprendendo, exibindo nossas realizações, já que não tínhamos as
instalações físicas ideais no Instituto. Mas enquanto eu estava na escola,
isso nunca aconteceu. Eles nunca conseguiram andar juntos. Agora, finalmente
há a união entre capacitação e difusão, mas ela veio tarde demais: o
Instituto foi perdendo a força até ser extinto''.
Armando Praça é cineasta, formado pelo extinto do Colégio de
Realização Visual do Instituto Dragão do Mar
(©
NoOlhar.com.br)
Verso e reverso
Especulação
imobiliária, insegurança, violência, entre outros problemas enfrentados pelo
Centro Cultural e seu entorno põem em xeque o projeto de revitalização
proposto pelo discurso fundador do Dragão do Mar. Vancarder Brito,
sociólogo, reflete neste espaço sobre as transformações ocorridas na Praia
de Iracema e o desenho de modernidade que Fortaleza abraça
Vancarder Brito Sousa
Especial para O POVO
O Centro Dragão do Mar de Arte e
Cultura instalou-se em meio à antiga Praia do Peixe, atualmente chamada
Praia de Iracema, primeira zona portuária de Fortaleza. Nascido dos
desdobramentos do discurso de modernidade que se instalou desde 1987 com a
chegada de Tasso Jereissati ao Governo do Estado do Ceará, o Centro Dragão
do Mar a partir de 1999 passa a sugerir, dentro do universo simbólico que o
gerou, a renovação de toda uma gama de significações referentes aos
conteúdos, tanto do local onde se encontra, a Praia de Iracema de antigas
tradições portuárias, poéticas e boêmias, hoje transfiguradas através do
lazer e do entretenimento, quanto da própria funcionalidade e destinação da
cidade de Fortaleza.
Sob a ótica do discurso do ''governo
das mudanças'', Fortaleza destinar-se-ia ao convívio com um modo de vida
cada vez mais desvinculado das bases relacionadas à produção industrial
tradicional - entendida assim, a partir do momento da existência do Centro
Dragão do Mar de Arte e Cultura e da política cultural que lhe deu
sustentação, como inclinada a se adequar a um modo de vida de laços mais
estreitos com a globalização econômica e cultural, que hoje parece ser a
tônica dominante das novas configurações societárias que o mundo
experimenta.
O aspecto visual do Centro Dragão do
Mar imediatamente se distingue de tudo o que há no entorno, devido à sua
escala grandiosa e a polifonia arquitetônica de aparente inspiração
pós-modernista. Sua presença marcou definitivamente, não só a configuração
espacial do seu entorno como projetou para a cidade uma nova base simbólica
para pensar seu próprio processo de desenvolvimento.
Para que seja percebido
outro aspecto do processo de requalificação urbana simbolizada pelo
surgimento do Centro Dragão do Mar, se faz necessário falar um pouco sobre a
comunidade do Poço da Draga. Com mais de 40 anos de existência, formada por
moradores de baixa renda e comprimida entre a agência Pessoa Anta da Caixa
Econômica Federal e a Ponte Metálica, a comunidade parece viver uma relação
diferenciada e bem mais tensa com as conseqüências das modificações
urbanísticas daquela área da Praia de Iracema que os sentidos de renovação
do Centro Cultural podem suscitar.
O surgimento do Dragão do Mar
intensificou a especulação imobiliária na região, gerando parte da
insegurança dos moradores de baixa renda com o assédio do poder econômico
sobre suas moradias e as possibilidades de retirada. Por outro lado, o
aumento recente da insegurança na vizinhança com a ocorrência de furtos,
assaltos, prostituição e tráfico de drogas relacionado à diversão elitizada
do entorno parecem criar também um óbice no projeto de revitalização
proposto pelo discurso fundador do Centro Cultural. Neste aspecto, a
presença da comunidade do Poço da Draga passou a ser vista, erroneamente por
muitos, como responsável pela violência cada vez mais visível na vizinhança
do Dragão.
A observação das transformações
ocorridas na Praia de Iracema após a construção do Centro Dragão do Mar pode
nos ajudar a refletir sobre o verso e o reverso do projeto de modernidade
que Fortaleza desenha para si. Qual o sentido deste projeto que tem
simultaneamente uma face voltada para o turismo global e o consumo de
diversão e, sem uma visão de sustentabilidade, alimenta a indiferença em
relação aos seus cidadãos mais pobres, como os moradores do Poço da Draga?
Vancarder Brito Sousa é sociólogo,
doutorando em Sociologia - Universidade Federal da Paraíba
(©
NoOlhar.com.br)
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