05-06-2008
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Capa de
Assim Falava Lampião, que deu origem ao Dicionário |
XICO SÁ
Crítico da Folha
O leso, além de cibito, era um
lopreu, abirobado, cheio de munganga. Entrou abaixadinho na fubuia e por uma
peinha de nada, um culhonésimo, não fez uma emboança naquele brega quando
lhe chamaram de pirobo.
Calma, não se avexe, eis a tradução
do arrazoado acima: o idiota, além de esquelético era um demônio, amalucado,
dado a caretas e trejeitos. Bebeu cachaça sem piedade e por muito pouco não
provocou uma confusão sem fim quando foi chamado de gay.
São os vastos falares do Brasil, que
não cabem nos Aurélios e Houaiss e carecem de decifradores mais
regionalizados. Caso do novo "Dicionário do Nordeste", do jornalista e
pesquisador Fred Navarro. O recifense, que já havia contribuído com outra
obra do gênero, o livro "Assim Falava Lampião" (98), agora exibe, com o
enxerimento necessário, 5.000 expressões do "nordestinês".
Além de escarafunchar a linguagem
oral da sua terra, Navarro juntou ao seu embornal de vocábulos a colaboração
de outros dicionaristas que produziram versões estaduais da fala nordestina.
Aqui entra, por exemplo, a "Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês",
de Paulo José Cunha. Todos comparecem com os devidos créditos.
Na apresentação, o autor adverte que
o livro não tem caráter acadêmico. Marcos Bagno, professor de Lingüística da
Universidade de Brasília, autor de "Preconceito Lingüístico: O Que É, como
se Faz", diz, no prefácio, que há até uma vantagem na pesquisa ter sido
feita por um não-especialista.
"Este dicionário tem, justamente por
isso, a possibilidade de atrair um público muito mais amplo e diversificado
do que os parcos leitores de obras acadêmicas de circulação restrita (e
deficiente)", escreve Bagno. Ele aponta a existência de um descompasso,
quase um abismo, entre o que se produz nos meios acadêmicos em termos de
conhecimento da língua falada pelos brasileiros.
Para ampliar ao máximo o seu léxico
nordestino, Navarro, além da memória afetiva e pesquisa de campo, se amparou
de uma penca de bons autores, músicos, cineastas e jornalistas nascidos na
região. De Gilberto Freyre ao forrozeiro brega Genival Lacerda ("Ele tá de
olho é na botique dela..."). Na literatura tem muito do mundo de Graciliano
Ramos --o que enriquece bastante o livro--, Osman Lins, José Américo de
Almeida, Marilene Felinto, Waly Salomão e Wilson Freire, ótimo poeta do
sertão pernambucano.
A música também vem sortida. Tem o
recifense Edu Lobo com o seu enfeitado "Cordão da Saideira", Luiz Gonzaga,
Tom Zé, o cearense Fausto Nilo, Gilberto Gil, Naná Vasconcelos, e grupos
como Mundo Livre S/A, Nação Zumbi e Comadre Florzinha.
O "Dicionário" é obra de importância
que tem a bênção e matriz no potiguar Câmara Cascudo, um dos homens mais
sábios do Brasil, tão importante na literatura de formação do país quanto
Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda. Com o seu livro, Navarro
mostra que é mesmo um "tampa-de-Crush", como se diz, em Pernambuco, a
respeito dos arretados, velhos e bons.
Avaliação:

Dicionário do Nordeste
Autor: Fred Navarro
Editora: Estação Liberdade
(©
Folha Online)
Nordestinês para o Mundo entender
Dicionário traduz expressões típicas de toda a região
NE
Augusto Pinheiro
Enviado especial
SÃO PAULO - A
fração imprópria correu para apanhar a atraca e breou a chulipa no
chepe-chepe. Se não fosse o Dicionário do Nordeste (Estação Liberdade), do
jornalista pernambucano Fred Navarro, que será lançado hoje na 18ªBienal
Internacional do Livro de São Paulo, o leitor teria que percorrer o
Nordeste, da Bahia ao Maranhão, para descobrir o significado da
frase-frankenstein acima, criada a partir de verbetes originários de locais
diferentes da região. A tradução é: a mulher de ombros largos e quadris
estreitos correu para apanhar a tiara e sujou o tênis no lamaçal.
"Foram oitos anos de pesquisa", explica o
autor, cujo novo livro é uma atualização de Assim Falava Lampião, de 1998.
"Resolvi lançar essa nova edição, pois fiquei insatisfeito com o conteúdo da
primeira, que era muito centrada no vocabulário de Pernambuco, Ceará e
Bahia. Neste há mais palavras e expressões dos outros estados". São cerca de
5.000 verbetes no total.
Mesmo assim, afirma o autor, são os
três estados-pólos da região (PE, BA e CE)que contribuem com a maior
quantidade de verbetes. Mas, em busca do equilíbrio, ele incluiu, por
exemplo, cerca de 300 novos termos apenas do Maranhão.
Aliás, esse estado, por fazer fronteira
com o Pará, região amazônica, tem um vocabulário nordestino peculiar.
"Depois da Bahia, é o lugar com o maior número de palavras de origem
indígena", afirma o autor. "Mas em algumas cidades maranhenses encontrei uma
fala bem nordestina".
A pesquisa para a obra, iniciada em 1996,
começou com discos e livros que o autor havia levado do Recife para São
Paulo, onde vive há 15 anos. "Peguei muita coisa da literatura de Graciliano
Ramos, Jorge Amado, Ariano Suassuna. Mas depois fui sentindo falta de mais
material e saí correndo atrás", conta.
No caso, "correr atrás" incluiu uma
série de viagens pelas capitais e interior dos estados, pesquisa nos
dicionários Larousse e Aurélio, que trazem a origem das palavras, na
imprescindível obra do folclorista Câmara Cascudo e na literatura de cordel
encontrada em Caruaru, entre outras fontes.
As viagens foram bancadas pelo próprio autor,
que aproveitava as vindas ao Recife para visitar outros estados. Só para
João Pessoa (PB), ele conta que foi cerca de 15 vezes. Além disso, Fred
contou com uma extensa rede de informantes (família, amigos etc.) espalhados
pelo Nordeste e por outras regiões do Brasil.
Depois do lançamento da primeira edição, ele
também recebeu uma enxurrada de sugestões de leitores -alguns ganharam
menção na lista de agradecimentos do autor. Em suas pesquisas, Fred
descobriu também que muitas palavras e expressões consideradas nordestinas
não têm origem na região. Elas ganharam espaço no capítulo Parece mas não
é... "Metade delas têm origem mineira e chegaram ao Nordeste pela fronteira
do estado com a Bahia", diz.
Uma visita do autor a Fernanda de Noronha
enriqueceu a publicação com termos que são existentes apenas no arquipélago,
como pabuf (bebida que mistura álcool com suco de fruta) e diversos nomes de
aves. O Dicionário do Nordeste, que traz ilustrações do artista plástico
Cavani Rosas, que vive há seis anos em São Paulo, e xilogravuras de J.
Borges, apresenta também, por meio dos verbetes, manifestações culturais
(frevo, reisado, tambor-de-crioula etc.), frutas (pitomba, carambola etc.) e
comidas (arrubacão, buchada, cuxá etc.). O que torna o dicionário ainda mais
sui generis é que ele traz receitas completas de pratos e sobremesas da
região. "Muitas eu peguei com a minha mãe, com as cozinheiras da família, e
outras do livro Açúcar, de Gilberto Freyre", conta.
O livro é uma verdadeira viagem pela história
da região: dos termos trazidos pelos portugueses na época da colonização,
como palavras de origem árabe que só existem em Pernambuco, Paraíba e
Alagoas, como alcatifa (carpete) e alfenim (doce típico), a termos criados
ou difundidos pela turma do mangue beat no Recife, como guajá, que significa
mauricinho, pois trata-se de um caranguejo do mar que vive limpinho, e xié,
que originalmente é um caranguejinho, para trombadinha. "É preciso destacar
o bom humor. Apesar do sofrimento, a população não perde o bom-humor. Na
Bahia, pessoa baixinha é jóquei de cabrito", finaliza o cabra-da-peste.
Serviço
Dicionário do Nordeste
Fred Navarro
Estação Liberdade
408 págs., R$ 36,00
(©
Pernambuco.com)
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