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A última viagem de Sailormoon

05-06-2008

Pescados Vivos, livro póstumo de Waly Salomão

MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

   "Pescados Vivos" é um livro póstumo de Waly Salomão. Nada nele, porém, lembra o inacabamento comum em obras publicadas sem revisão final do autor, pois o escritor baiano criou uma estética do provisório, do devir, que harmoniza esse volume de poemas com o conjunto de sua obra.

   Ponto culminante da poesia tropicalista ao lado de Torquato Neto e Caetano Veloso, Salomão não foi um artífice do verso, mas um entoador de cânticos.

   Mesmo que sua oralidade incandescente seja conquistada por um árduo trabalho de linguagem, o resultado são poemas que nos arrebatam pelo ritmo embriagado, e não pelo rigor construtivo ou pela economia retórica que se tornaram valores dominantes na poesia brasileira.

   Sailormoon (pseudônimo com o qual assinou seus primeiros versos e que significa "Marujo da Lua") sempre foi consciente da nota dissonante que introduziu em nossa literatura recente. "Tarifa de Embarque", seu livro anterior, já proclamava: "Eu não nasci pra ser clássico de nascença (...)/ Sou todo ao convulsivo" e não é difícil encontrar nesse furor existencial traços de Mário de Andrade ou do português Fernando Pessoa.

   Em "Pescados Vivos" há referências aos dois. "Barroco", por exemplo, se inicia com versos que derivam do "eu" fragmentado de Pessoa ("Mundo e ego: palcos geminados./ Quero crer que creio/ E finjo e creio/ Que mundo e ego/ Ambos/ São teatros/ Díspares/ E antípodas") e culmina na citação de "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" (primeiro livro de Mário de Andrade): "Há uma lasca de palco/ em cada gota de sangue/ em cada punhado de terra/ de todo e qualquer poema".

   A esses autores, para quem "o caos é um banquete", somam-se traços biográficos (a origem síria, a Bahia natal) que servem de mote para celebrar o espírito mediterrâneo, solar, encarnado tanto por poetas do mundo greco-romano (Propércio, Safo) quanto pelo "Baco dos trópicos" que foi Gregório de Mattos.

   Ao mesmo tempo, esse hedonismo confere um conteúdo socialmente crítico aos modelos de eloqüência poética mobilizados por Waly Salomão. Se em "Feitio de Oração" a forma da ode tem ressonâncias tanto de Píndaro quanto dos heterônimos pessoanos Álvaro de Campos e Ricardo Reis ou da "Janela do Caos" de Murilo Mendes ("ó senhora dos sem remédios/ domai as minhas brutas ânsias acrobáticas/ que suspensas piruetam pânicas/ nas janelas do caos"), outros poemas trazem personagens dos bailes funk ("a cachorra gostosa do inferninho Mikonos") e "famílias famélicas" que saqueiam um mercado carioca.

   Essa geléia geral está dentro do espírito tropicalista e da leitura muito pessoal que Waly Salomão fazia da filosofia pré-socrática, de Nietzsche e da poesia como a gaia ciência de um mundo em combustão: "Ó deuses que regei as interfaces/ Hipertextos de horrores e êxtases"; "Cada novo monumento soma ruínas e gozos".

   Nesse sentido, esse livro póstumo é o epílogo perfeito para o autor de "Me Segura qu'Eu Vou Dar um Troço" (volume de anotações e ensaios poéticos que acaba de ganhar reedição pela Aeroplano, com fac-símiles dos manuscritos de Sailormoon). Mas "Pescados Vivos" também deixa uma provocadora sugestão "metalingüística" em "Ler Drummond" e "Retrato de um Senhor".

   Nesses dois poemas, que devem ser lidos em conjunto, Salomão faz "leituras luteranas" do autor de "A Procura da Poesia", leituras imunes aos "assaltos dos exércitos da hermenêutica". Ao enxergar no escritor itabirano "uma aventura adâmica,/ um convite renovado ao espanto e à surpresa", Salomão faz Drummond falar contra as apropriações da poesia pela crítica literária, pelo "olhar gelado da eternidade" que "intenta abafar a cacofonia da cidade grande" (seu alvo explícito é o José Guilherme Merquior de "A Razão do Poema").

   Talvez esse Drummond vitalista não seja exatamente "drummondiano", mas é conseqüente com uma poética expressa pela epígrafe colhida por Waly Salomão no poeta espanhol Antonio Machado: "O poeta é um pescador, não de peixes, mas de pescados vivos; entendamo-nos: de peixes que podem viver depois de pescados".

Pescados Vivos
    
Autor: Waly Salomão
Editora: Rocco
Quanto: R$ 24 (80 págs.)

(© Folha de S. Paulo)

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