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Muito a dizer com apenas 50 letras

05-06-2008

Capa de Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século

Marcelino Freire, autor pernambucano radicado em São Paulo, vem lançar, hoje, a antologia Os 100 Menores Contos Brasileiros, que reúne a nata da literatura

Texto
» Leia alguns dos microcontos da antologia
SCHNEIDER CARPEGGIANI
Enviado especial

   SÃO PAULO – Para bom entendedor, meia palavra rasga. É assim, sem perder qualquer detalhe, sabendo que a salvação e a perdição estão lá, nos mínimos detalhes (e frases), que o escritor pernambucano, radicado em São Paulo, Marcelino Freire, organizou a antologia Os 100 Menores Contos Brasileiros do Século. Cada autor convidado teve de escrever um microconto de no máximo 50 letras. E não palavras! Marcelino aproveita para fazer o lançamento da antologia no Recife hoje, depois da sessão do espetáculo Angu de Sangue (que começa às 21h), baseada no seu livro homônimo, que está em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho. O preço do livro é R$ 20.

   Os resultados são flashes que carregam mundos inteiros. Suspirando, Adriana Falcão escreveu: “Ali, deitada, divagou:/ se fosse eu, teria escolhido lírios.", Em Amor, um Manoel de Barros erótico: “Maria, quero caber todo em você.”, Raimundo Carrero foi direto ao ponto no conto Quatro Letras, composto apenas pela palavra nada “nada”, ao contrário do econômico pernambucano, Jorge Furtado usou quase toda sua cota de letrinhas para descrever um diálogo telefônico, que deveria ser amoroso, “Eu não te amo mais./ - O quê? Fale mais alto, a ligação está horrível!”

   É claro que, em uma antologia que busca o mínimo denominador comum das histórias, uma presença não poderia ficar de fora, a de Dalton Trevisan. O vampiro de Curitiba colaborou com um grande instantâneo de crueldade: “- Lá no caixão.../ - Sim, paizinho./ - ... não deixe essa aí me beijar.” A presença de Dalton na coletânea chega em um momento no qual a crítica volta a atacar o escritor curitibano, que a cada livro novo procura reduzir ainda mais suas histórias, transformando seus personagens em vestígios. Para alguns, o que ele anda fazendo passa longe de literatura, é só uma brincadeira de palavras, baseada em seus textos antigos. Marcelino, no entanto, engrossa a fila de aplausos para o vampiro. “Dalton é um dos grandes gênios da nossa literatura. Tanta gente que escreve calhamaços e não diz nada, não é? E a maravilha é que o Dalton topou participar da antologia. Quando vi, chegou um envelope do Dalton lá em casa com o microconto e com dois livros que ele me presenteou. Essa antologia sem a presença dele seria uma antologia ‘menor’, sem graça, entende? Confesso que esse projeto todo é, de alguma forma, uma homenagem ao Dalton, pai maior de todos os minicontistas”, afirmou Marcelino.

   O projeto dos 100 Menores Contos Brasileiros do Século foi inspirado naquele que é considerado o mais famoso microconto do mundo, de Augusto Monterroso. A história é só isso (como se esse só isso fosse pouco!): “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. São apenas 37 palavras e muitas brechas para serem preenchidas pelos leitores.

   “Escrever é cortar palavras. João Cabral era o gênio da concisão. O negócio é enxugar ao máximo, não é não? Quis chamar a atenção para isso, para o mínimo, para o menos, entende? Um exercício maravilhoso! Inspirada pelo projeto, recentemente a Lygia Fagundes Telles fez o microconto dela, publicado na Folha de S. Paulo. Liguei para convidar a Lygia para o projeto, mas ela estava viajando. Agora, espontaneamente, ela contribuiu com a antologia. O microconto da Lygia é assim: - Fui me confessar ao mar. - E o que ele disse?- Nada.”

(© JC Online)


Contos desafiam poder de concisão

   O escritor pernambucano Marcelino Freire, que vive desde 1991 em São Paulo, lança hoje no Recife a publicação Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, após o espetáculo Angu de Sangue, baseado em seu livro homômimo, que começa às 21h no Teatro Hermilo Borba Filho (ver matéria página C-4).

   O livro, editado pela Ateliê Editorial (SP), reúne microcontos de, no máximo, 50 letras de cem autores brasileiros, entre eles alguns pernambucanos, como Raimundo Carrero, Xico Sá e Marcus Accioly. "Gosto muito desse gênero", explica Marcelino, que em 2002 criou a coleção independente 5 Minutinhos, dez volumes com histórias (conto, novela, romance) de até 30 linhas, com textos dele mesmo, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso e Manoel de Barros, entre outros. A idéia foi escrever livros para as pessoas que alegavam que não tinham tempo de ler. O volume de Marcelino, por exemplo, chamava-se 30 Microcontos para Você Ler no Intervalo da Novela. No ano seguinte, a coleção ganhou títulos infantis.

   Essa foi a inspiração paraeste livro junto com o trabalho do guatemalteco Augusto Monterroso que, segundo Marcelino, escreveu o mais famoso microconto do mundo: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". O livro também parodia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizado por Italo Moriconi, que assina, a convite, o microprefácio dos menores. "Limitei o texto dele a 50 palavras. E ele foi exato", diz Marcelino.

   As pílulas literárias, verdadeiras pérolas, foram um desafio de concisão para os autores. "Marcus Acciolly, por exemplo, é conhecido por seus poemas longos, épicos", diz Marcelino. Ele se saiu assim: "Não tinham o corpo, mas a alma gêmea. Nem a morte os separou", sob o título Xipófago.

   Outros escritores, como Millôr Fernandes, brincaram com as regras do livro: os microcontos tinham de ter no máximo 50 letras, sem contar o título. Ele praticamente contou toda a história em um título imenso. "Acho que é maior que o livro todo", se diverte Marcelino, elogiando a idéia do autor.

   O pernambucano ressalta ainda que Dalton Trevisan é uma presença inevitável em um livro com essa proposta. "Ele é um grande nome do miniconto nacional." É dele: "- Lá no caixão.../- Sim , paizinho./-... não deixe essa aí me beijar".

   Marcelino prezou pela diversidade, convidando de poetas (Manoel de Barros, Fabricio Carpinejar etc.) a romancistas (Marçal Aquino, Moacyr Scliar etc.). O autor mantém um site com informações sobre seu trabalho (
www.eraodito.blogspot.com) (A.P.)

Serviço

Lançamento de Os Cem Menores
Contos Brasileiros do Século, de Marcelino Freire
Quando: hoje, às 22h15
Quanto: R$ 10 (para quem assistiu à
peça Angu de Sangue) e R$ 20
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho (av.
Cais do Apolo, s/nº)

(© Pernambuco.com)

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