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Parabéns, Dorival

05-06-2008

Todas as matérias a seguir foram publicadas em 30.04.2004

Dorival Caymmi

Compositor completa 90 anos e é homenageado pelos filhos em show no Canecão, no Rio

   Rio - Se você quiser homenagear o compositor Dorival Caymmi, agora que ele completa 90 anos, saia cantando Acalanto, a canção de ninar que ele fez para a recém-nascida Nana, sua filha. "Fiz essa música quando ela era pequena, ficava no colo da mãe, a minha Stella, lá na nossa casa, no Grajaú (bairro da zona norte do Rio). É a que gosto mais", contou ele ao Estado, na última quarta-feira, em sua casa, em Copacabana, na zona sul do Rio. Amigos, admiradores e fãs (certamente todos os brasileiros) não precisam pensar em presente. "Não pedi nada porque tenho muitas restrições médicas, mas aceito uma flor", completou. "O maior presente da minha vida foi essa moça bonita, Adelaide Tostes, nome de batismo da conhecida cantora Stella Maris, que largou tudo para fica comigo até hoje."

   Dorival Caymmi contou também que não esperava chegar aos 90, pois há dez, quando completou oito décadas de vida, achou que já tinha recebido todas as homenagens possíveis. Mal sabia ele que os filhos discordavam e prepararam mais uma, o disco Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, lançado há um mês e que hoje vira show (com direito a gravação de DVD) no Canecão. "Foi o maior presente que recebi neste aniversário. Meus filhos já cantaram juntos muitas vezes, comigo, com Tom e Vinícius, mas este foi especial, só para mim. E ficou lindo", elogiou o compositor, famoso por não ser dado a jogar confete levianamente. "Não sou rigoroso nem fico elogiando tudo e todos. Digo o que sinto de verdade e esse disco me deixou feliz."

   Tão feliz que ele até planeja aparecer no Canecão hoje, quando Nana, Dori e Danilo, seus três filhos, e os sambistas cariocas escolhidos a dedo por eles, tocarão os 20 sambas gravados, mais os sucessos que todo mundo exige. "Vou tentar estar lá, pois é uma aventura ter os três filhos juntos aqui no Brasil, no dia do meu aniversário." Stella, sua mulher, não garante, pois espera saber como estará o tempo ("Cada dia está de um jeito, a gente nunca sabe", reclamou ela) e a opinião dos médicos dos dois. Mas Dorival já se adiantou. "Ele (o médico) permite que a gente vá e até gosta, acha necessário estarmos presentes com os filhos e os amigos."

   Por causa do show, o aniversário não será comemorado hoje, em família, embora os Caymmis sejam unidos, quase um clã. Reunir os três filhos, sete netos e quatro bisnetos em casa é corriqueiro para Stella e Dorival, que se orgulham do tempo em que vivem juntos. "Sessenta e quatro anos", enfatizou ela, antes de chamá-lo e pedir que a conversa seja breve. Os três filhos, todos músicos de sucesso, não negam que o pai foi a maior influência. "Para mim, é vital, porque, ainda criança, esperava ouvi-lo cantar no rádio para dormir", conta Dori. "E os músicos que ele levava lá em casa foram responsáveis pela minha formação musical." Nana concorda. "Imagine chegar em casa e encontrar Elizeth Cardoso, Procópio Ferreira... e ter João Gilberto com o Trio Irakitan cantando na sua festa de 15 anos", comenta ela. "Só adulta compreendi sua importância, mas sempre adorei a sua música." E Danilo, o caçula, não esconde que queria ser como ele. "Sempre busquei essa forma direta de comunicação com o povo, desde que comecei a compor."

   Caymmi é mesmo um caso raro de sucesso rápido e duradouro. Filho de um funcionário público e músico amador, ele veio de Salvador para o Rio em 1938 tentar a vida. Já conhecia o êxito como compositor, pois dois anos antes, vencera um concurso de marchas carnavalescas com A Bahia também Dá, mas música não era considerada profissão naquela época. Trabalhou na imprensa como ilustrador, mas logo agradou a Carmem Miranda, estrela máxima de então (a quem ensinou a ser brejeira, vestir-se de baiana e revirar os olhinhos, de um jeito que se tornou sua marca registrada), e Assis Chateaubriand, poderoso dono de emissoras de rádio, cantando O Que É Que a Baiana Tem?. Aí não parou mais. Fez rádio, shows, cinema (foi um dos primeiros galãs brasileiros fora do padrão europeu) e, principalmente, conheceu a cantora Stella Maris, com quem se casou em 1940. (Beatriz Coelho Silva)

(© estadao.com.br, 30.04.2004)


"Hit nas paradas", Caymmi celebra 90 anos

Compositor, que tem sucesso na novela "Celebridade", será homenageado pelos três filhos em apresentação no Rio

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

   De seu apartamento em Copacabana, ele só sai com a mulher, Stella, para passar alguns períodos no sítio de Pequeri (MG). Mas a reclusão, provocada pelo enfraquecimento da saúde, não abala em nada seu status de patriarca atual da música brasileira.

   Hoje, Dorival Caymmi completa 90 anos sendo celebrado por três representantes especiais dessa música: seus filhos Nana, Dori e Danilo. Eles fazem shows até domingo no Canecão, no Rio, para lançar o álbum "Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo - 90 Anos". Só ao longo do dia Caymmi decidirá se verá o show de hoje à noite para poder sentir, ao vivo, a emoção que teve ao ouvir o CD.

   "Ele ficou muito feliz. Nessa época em que estamos perdendo a nossa identidade, é importante homenagear um compositor de 90 anos que ainda tem um hit nas paradas", diz Dori, 60, referindo-se a "A Vizinha do Lado", sucesso da novela "Celebridade".

   O fato de esse samba estar tocando em rádios e ter a autoria desconhecida por muita gente fortaleceu, segundo Nana, o desejo de fazer bastante festa para os 90 anos do pai. "Precisamos botar os pingos nos is. Meu pai tem uma criatividade absurda", exalta a primogênita, 63.

   Os filhos querem mais. Ainda vão fazer shows em Salvador e São Paulo. E Nana pretende gravar outro disco dedicado à obra do pai, centrado nos sambas-canção.
Sobre os ensinamentos de Caymmi, os filhos citam exemplos que vão da música ao marketing, passando pelo uso do tempo, algo em que ele é mestre.

   "Ele me ensinou a não correr, não ficar nervosa, não matar as pessoas. Quando eu quero matar alguém, conto até mil, penso nele e sigo em frente", diz Nana.
"Ele me deu a visão musical. Eu ouvia quando criança e pensava: "Que maravilha!'", conta Dori.

   "Ele me dizia: "Cante para as mulheres porque são elas que levam os maridos para os shows'", diz Danilo, 56.

   A relação custo-benefício na obra de Caymmi é para lá de satisfatória. Segundo sua neta Stella Caymmi catalogou na biografia "Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo" (editora 34), ele compôs apenas 120 músicas, pouco se comparado a outros artistas. Mas grande parte delas se tornou sucesso. "Marina", "Dora", "O Samba da Minha Terra" são algumas das canções mais gravadas.

   E ainda existem inéditas. Duas delas foram gravadas recentemente pelo grupo Arranco de Varsóvia e sairão em CD neste ano. "E o que me Importa se Eu Tiro o Domingo pra Sambar?" e "Falou com a Moça?" foram compostas no início dos anos 1930.

   "Ele se lembrou dessas músicas em 1999 e me chamaram para tirar as harmonias", conta Muri Costa, 49, do Arranco e que acompanhou Caymmi durante dez anos. "Na "E o que me Importa...", faltavam uns três versos, e ele completou. Eu brinco que é o recorde dele: levou 69 anos para acabar uma música." Na gravação, Caymmi canta dois versos e dá uma gargalhada.

(© Folha de S. Paulo, 30.04.2004)


No ritmo de Caymmi

Os 90 anos do compositor baiano, completados hoje, são lembrados com vários eventos

Giovanna Castro

   Cronista do cotidiano do brasileiro simples, o cantor e compositor Dorival Caymmi completa, hoje, 90 anos de vida. Lúcido, ainda que naturalmente alquebrado pelo peso da idade, o autor de Saudades da Bahia vai comemorar a data entre familiares e amigos e, de quebra, deverá dar o ar de sua presença no show Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, que acontece esta noite na casa de espetáculos Canecão, no Rio de Janeiro. Além desse preito, que será registrado em DVD, o artífice de belos exemplares do cancioneiro popular nacional como O samba da minha terra, Marina, Só louco, Eu não tenho onde morar e O bem do mar está sendo merecidamente homenageado de várias formas.

   O show do Canecão é o presente especial dos filhos que, pela primeira vez, reuniram-se sem o pai para mexer nos seus sambas. O disco recém-lançado foi idéia de Nana, depois que ela ouviu A vizinha do lado na trilha da novela Celebridade, e percebeu que quase ninguém sabia que a canção era de seu pai. Sem demora, propôs aos irmãos a produção do projeto que saiu pela Warner. Oportunamente, os três gravaram no Projac, terça-feira passada, uma participação na novela das oito tocando na casa de samba Sobradinho, no bairro do Andaraí (não foi divulgada a data que a cena irá ao ar).

   Caymmi também será lembrado hoje pela Educadora FM no Especial das seis. Às 22h, a emissora dedica o programa Memória do rádio com depoimentos e músicas do compositor. A cantora baiana Marilda Santana homenageia o mestre amanhã, com show gratuito no Largo de Quincas Berro D''Água (Pelourinho), a partir das 23h. Marilda escolheu cantar Quem vem pra beira do mar, Canção do pescador e Milagre, entre outras. "Ouvindo a música dele, a gente sente como se estivesse vendo um filme do tempo em que a Bahia vivia num outro ritmo. É justamente essa pureza, essa poesia, que me emociona. E é inacreditável que ele tenha conseguido permanecer contemporâneo por tanto tempo", derrama-se a intérprete.

   À frente do seu tempo - Contemporaneidade é a palavra usada também por Dori Caymmi para classificar o trabalho do pai. Dorivalzinho, como é chamado pela família, confessa sua paixão pelas canções de mar escritas pelo pai e pelo suingue dos sambas. "Nesse modelo de música, papai é craque", elogiou, em entrevista ao Folha, lembrando que na época das gravações de Para Caymmi... todos os músicos convidados sabiam cantar e tocar as canções de cor e salteado. "Ele está impregnado no coração dos sambistas".

   O compositor e jornalista Luiz Tatit (que realizou, terça-feira, palestra no Museu da Imagem e do Som - MIS, de São Paulo, enfocando a obra de Caymmi) lembra que o baiano só gosta das interpretações que ele mesmo imortalizou. Tatit declarou recentemente que, como Caymmi se acompanha tocando violão, faz um contracanto que outros intérpretes não conseguem reproduzir. Até por isso mesmo foi muito gratificante para os filhos saber que o pai chorou de emoção ao ouvir o disco.

   Dori Caymmi, a quem coube a realização dos arranjos, afirmou que soube do choro (coisa nunca vista em casa) pela mãe, dona Stella. "Pela primeira vez, papai aceitou minhas versões. Ele reconheceu meu respeito pelas coisas dele", conta o cáustico e polêmico Dori, que começou a ter noção da importância da obra do pai ainda menino. "Via o interesse e o respeito com que ele era tratado por diversas pessoas de nível intelectual bem mais alto que o comum". Na infância, os filhos conviveram com artistas como Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Antonio Maria, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Ivon Cury.

   Sucesso internacional - Carmen Miranda é personagem decisiva na divulgação do trabalho de Caymmi. Em 1938, quando se mudou para o Rio de Janeiro com planos de cursar direito e trabalhar como jornalista, Dorival já tinha composto O que é que a baiana tem. A canção acabou entrando no filme Banana da terra, produzido no Rio pelo norte-americano Wallace Downey. Escolhida em substituição a Tabuleiro da baiana de Ary Barroso (com a carreira em alta, o autor de Aquarela do Brasil teria cobrado caro pelo uso da música), acabou estourando no exterior, abrindo caminho para as carreiras internacionais de Dorival e Carmen.

   Esse primeiro grande sucesso do autor veio quando ele tinha apenas 24 anos. Antes de pegar um ita (navios que transitavam entre o norte e o sul do país) para o Rio, Caymmi trabalhara em programas radiofônicos e no extinto jornal baiano O imparcial. Os primeiros contatos com a música aconteceram em família com o pai, que tocava vários instrumentos, e a mãe, que gostava de cantar. O violão, o jovem Caymmi aprendeu a tocar sozinho, e foi neste instrumento que compôs sua primeira canção, No sertão, aos 16 anos. No ano seguinte, foi trabalhar na Rádio Nacional (RJ), onde conheceu a futura esposa, a cantora Stella Maris. Os dois estão casados desde 1940 e atualmente vivem num sítio na cidade mineira de Pequeri.

   Dorival gravou seu primeiro disco em 1954 - Canções praieiras - e apresentou-se no Andy Williams Show, em 1965, em Los Angeles (EUA), onde gravou o disco Caymmi (kai-ee-me) and the girls from Bahia. Influenciou diversas gerações de artistas, principalmente os bossa-novistas. O jornalista Luiz Tatit observa que o samba de Caymmi é puro, não é samba-canção nem samba carnavalesco e afirma que João Gilberto se baseou nessa escola para criar a batida da bossa nova. João gravou, entre outras, Rosa morena e Saudade da Bahia, e Tom Jobim exaltava a modernidade da obra do amigo. "É um samba único. Nem Ary Barroso nem Noel Rosa chegaram à idéia de papai de fazer um suingue que permanece na música cantada sem acompanhamento. É maravilhoso e nem todo compositor pode fazer isso", derrete-se o filho Dori.

   O cantor e compositor Claudio Nucci (que foi casado com Nana Caymmi durante três anos e conviveu de perto com Dorival) acaba de lançar o disco Ao mestre, com carinho, com canções de diversas fases do homenageado. O músico se impressiona com o poder de síntese de cada composição. "É conciso, muito trabalhado para não gastar nenhuma nota, frase, palavra ou sílaba. É intuitiva, natural, inspiradíssima e, por outro lado, muito caprichada. As notas são muito bem colocadas e os acordes usados mesmo na década de 1940 são sempre abertos. Há algo de revolucionário naquela obra que ainda tem o poder de juntar as raízes populares com a música erudita".

   Compositor de uma obra marcante, embora pouco numerosa (ao todo, escreveu cerca de 120 músicas em sua maioria inspiradas em experiências vividas na juventude), Caymmi deixou um legado que envolve o amor pelo Brasil e a integridade pessoal e artística. O compositor já teve discos-tributo gravados por Gal Costa, Rosa Passos, Jussara Silveira e a própria filha Nana Caymmi. "É bonito. Ele deixou para nós o amor pelo país e, no meu caso, uma qualidade musical sem possibilidades de ser corrompida", conta Dori.

   Até por isso mesmo, revela, Caymmi fica chateado com a pecha de "baiano preguiçoso" que tem carregado ao longo dos anos. "Ele levou oito anos para completar Saudades da Bahia, e esta é a velocidade dele, o tempo dele, é difícil julgar. Principalmente porque as pessoas hoje em dia acham que o consumo tem que ser rápido. Na época dele não era assim, não havia essa pressa toda. Não sei se ele poderia produzir agora nessa época de tanta velocidade", conta sobre o homem que é apaixonado por música clássica e passa horas ouvindo Chopin, Debussy, além da preferida Prelúdio coral e fuga do compositor belga Cesar Franck.

(© Correio da Bahia, 30.04.2004)


A quarta idade de Caymmi

   Dorival Caymmi chega aos 90 anos, ou à “quarta idade”, como conta em entrevista ao GLOBO, com direito a todas as homenagens. Essa edição do Segundo Caderno, integralmente dedicada ao compositor, é uma delas. Baiano de Salvador, que chegou ao Rio em 1938, onde desenvolveu uma das mais bem lapidadas e pessoais obra da canção brasileira, ele tem o raro dom de ser sofisticado e popular. Fruto também de muito trabalho de alguém que tanto buscou inspiração no folclore quanto no clássico. Algumas de suas canções estão tão entranhadas na memória do brasileiro que há quem pense se tratarem de obras de domínio público.

   Aí talvez esteja uma das maiores homenagens que um artista possa sonhar. E isso Caymmi tem saboreado desde o início de sua carreira, quando, em 1939, na voz de Carmen Miranda, criou uma das personagens típicas do Brasil em “O que é que a baiana tem?”. Delas — baianas, cariocas, mineiras, Doras, Marinas, vizinhas do lado... — já sabemos muito, mas a pergunta ainda vale para tentar decifrar o agora nonagenário: O que é que Caymmi tem?
Família unida festeja no palco

   Dorival Caymmi nunca foi muito afeito às gravações que fizeram de suas músicas. Seja uma orquestração exagerada, uma interpretação que não batia com o sentimento que ele desejava para a música. Mas, educado, evitou tecer comentários sobre o trabalho dos outros, mesmo quando sua música era o mote principal. A única observação que fez foi, ao ser perguntado qual era o melhor intérprete de sua música, responder: “eu”. Mas filho é filho e os dele não são pouca coisa. Portanto, não tiveram cerimônia ao se reunir para gravar os sambas do pai em “Para Caymmi de Nana Dori e Danilo” (Warner), que será lançado hoje, às 22h (a curta temporada vai até domingo), dia do aniversário de Dorival, no Canecão, com direito à gravação de um DVD.

   — Eu resolvi fazer o disco mas precisava de um O.K. do José Milton, que é o meu produtor. Ele topou mas disse que o tempo era curto. Liguei para o Danilo e para o Dori já certa de que eles gostariam de fazer esse trabalho — conta Nana. — Foi mais fácil para mim do que fazer “O mar e o tempo” (disco sobre a obra do pai lançado no ano passado) . Cantar os sambas do papai foi como brincar na varanda com meus irmãos.

   A idéia de Nana de cantarem juntos, como os conjuntos vocais do passado, no início foi recusada por Dori, que depois acabou aprovando.

   — Sempre que tentaram inovar na obra do meu pai, o resultado foi ruim. Mas, na hora, vi que ficaria bom — diz Dori.

   E ficou mesmo. Dorival considera este o melhor disco feito sobre sua obra. Mas nem sempre foi assim:

   — Acho que é porque ele se aposentou de vez — brinca Nana. — Sempre que eu me meti a cantar suas músicas, ele reclamava dizendo que não tinha ainda se aposentado.

   O repertório do show será o mesmo do disco, ou seja, sambas clássicos como “Vatapá”, “A vizinha do lado” e “Acontece que eu sou baiano”. Mas não faltarão outos Caymmis como o de “Marina” e o das canções do mar como “Promessa de pescador” e “O bem do mar”. (J.P.)

(© O Globo, 30.04.2004)


Visões diferentes da obra e do grande pai

João Pimentel

   Dori sempre viu no pai a imagem da própria música. Mesmo assim, ressalta a educação tradicional baiana. Dorival fazia questão de que os filhos segurassem direito os talheres, tratassem os mais velhos com educação. Nana, a mais velha dos irmãos, diz que o pai sempre foi assumidamente machista. Com seu jeito deliciosamente escrachado, ela diz que o pai vivia muito a vida de músico, fora de casa, e ela sequer podia pensar em ser cantora (“Mulher não trabalhava. O que eu fazia era lavar cinzeiro, arrumar a casa...”). Já Danilo, o mais novo e o último a sair de casa, aproveitou um Dorival mais caseiro, que o levava para o Sítio Maracangalha, comprado com o dinheiro ganho com a música homônima, e passava as tardes ouvindo programas no velho rádio Zenith. Como toda família que se preze, o clã Caymmi guarda imagens e sentimentos diferentes do patriarca.

   Além de cultivarem lembranças distintas, os irmãos, que lançaram no início do mês o CD “Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo”, apesar de admirarem a obra de Dorival como um todo, têm preferências diferentes quando perguntados pelas fases do compositor.

   Dori sempre acompanhou o pai em programas de rádio e, mesmo tendo nascido no Rio de Janeiro, acredita que a força motriz de Dorival está nas suas canções praieiras:

   — As músicas sobre o mar, para mim, são as mais importantes. As canções praieiras são as que deveriam ser divulgadas para sempre — diz Dori. — Minha imagem definitiva é a dele cantando a canoa, a jangada. É a relação dele com a Bahia transformada em música. Assim como o Caribé fez na pintura e Jorge Amado, na literatura.

   Nana, a idealizadora do CD do trio de irmãos, que traz apenas os sambas, já prefere essa outra praia do pai. No ano passado, ela dedicou um disco inteiro às músicas do velho Caymmi, o belo “O mar e o tempo” (também o título da biografia que a filha da cantora, Stella, fez do avô), reunindo diversas facetas de sua obra. Álbum que acabou sendo uma amostra de uma caixa que gostaria de fazer com CDs temáticos, cada um abordando uma fase: as canções praieiras, os sambas baianos e os sambas-canções:

   — Adoro os sambas do papai porque eles foram criados no momento mais rico do samba e de toda a música brasileira.

Danilo exalta a forma sensual como o pai canta as mulheres

   Também amante da fase carioca do pai, Danilo, no entanto, tem um motivo todo pessoal para a sua escolha:

   — Os sambas retratam a minha visão do meu pai. São a imagem que eu tenho dele como um amigo que dividia as minhas questões adolescentes e, mais tarde, o meu despertar como músico — conta. — Foi na sensualidade, no duplo sentido delicado e na maneira de falar das mulheres que eu procurei e procuro me espelhar até hoje.

   E como foi para os três a descoberta que aquele pai que reunia a família para ouvir Orlando Silva, Sílvio Caldas e Jacob do Bandolim também era um dos maiores nomes da música brasileira, influência de gerações e gerações de músicos?

   — Sempre vi meu pai como um amigo. Ele foi meu primeiro parceiro, na música “Ô nega como é que pode”. Pouco depois fiz muito sucesso com “Andança” (parceria com Edmundo Souto e Paulinho Tapajós) e as pessoas vinham me perguntar se ele havia feito a música — lembra Danilo. — Só entendi a importância dele mais tarde, quando ele fez “Caymmi visita Tom”. Eu admirava demais o Tom Jobim, e quando vi a admiração que ele tinha pelo meu pai, a ficha caiu.

   — Eu percebi muito cedo a importância do meu pai. Rolava muita festa lá em casa. Sabe como é família pobre, ? Quando morávamos em São Cristóvão, a turma sempre se reunia para comer, ouvir música. Lembro que um dia, quando a festa estava no fim, se eu não me engano eram umas 4h, um tio olhou para o relógio parado na parede e disse: “Com todo esse esporro e ainda são 19h...” — conta Nana. — Lembro-me também dos amigos da família, dos médicos que iam para a nossa casa na Barão de Ipanema. Quando meu pai pegava o violão, todos faziam um silêncio que dava para a gente ouvir o que acontecia na Barata Ribeiro.

Dori era o filho que acompanhava Dorival nas gravações do rádio

   O primeiro a perceber desde bem cedo o gênio que estava por trás da figura paterna foi Dori:

   — Eu sempre fui o filho que ia com ele para as gravações nas rádios. Eu adorava aquele mundo. Lembro-me de um programa do Antônio Maria. Até hoje me vem a voz do apresentador: “Lã Sans apresenta Dorival Caymmi.” E ele entrava tocando seu violão único. Poucos músicos têm essa personalidade ao violão.

   Dori, o arranjador da família, por sinal, é quem melhor define musicalmente o pai. Ele concorda quando Dorival diz que a sua voz e o seu violão formam um só instrumento:

   — É um artista de luz própria como não existe mais. Acompanhei ele muitas vezes em shows e isso se refletia no olhar das pessoas que estavam assistindo. Ele e um violão no palco se bastam — explica. — João Gilberto disse, certa vez, em entrevista, que o que mais lhe fascinava era o poder de síntese de papai. Quem mais faria “a jangada saiu com Chico, Ferreira e Bento/ A jangada voltou só...”?

(© O Globo, 30.04.2004)


‘Acredito tanto no tempo quanto no mar’

Arnaldo Bloch

   Entrar na casa de Dorival Caymmi em Copacabana às vésperas dos seus 90 anos, faz qualquer um tremer nas bases. Ao vê-lo repousando na poltrona da sala, diante do janelão dando para as árvores da velha Rua Souza Lima, a única alternativa é curvar-se e beijar-lhe a mão, que ele estende sem aparência de vaidade. Atrás da poltrona, um dos cinco balaios cheios de bengalas (somando tudo, deve chegar a umas 90...), que ele coleciona há quase meio século, embora não use nenhuma.

   Ao sentar-se diante de Caymmi, a gente pensa até que vai ouvir um veterano lamentoso dos tempos melhores que passaram, mas aí ele escancara aquele sorriso de pescador que traz a Bahia inteira numa só expressão. E instala-se a alegria. Na sala, uma das visitas lhe dá notícias da atriz Juliana Paes, a Jaqueline Joy de “Celebridade”, embalada pela canção “A vizinha do lado” em suas cenas.

   — Parece que ela quer conhecer você, Dorival.

   — Iiiih... é mesmo? Isso não vai prestar...

   Queixa, mesmo, só de uma tosse que interrompe a prosa, e que ele atribui à vacina contra gripe. Para Caymmi, saúde não tem idade.

   — Aos 80, peguei-me pensando o que é que pode acontecer a uma pessoa com 90... como é que Caymmi se portaria numa idade dessas? Aí, de repente, tive uma grande surpresa quando entrei no ano 2000... Se papai estivesse vivo, não ia acreditar que esse ano existe. E agora chego aos 90. Quer dizer que se está vivendo mais assim, é? Pois é. O mundo anda complicado, mas tem compensações. Coisas que aparecem de repente como se fosse a passagem do cinema mudo para o falado. Essa coisa de viver mais é uma novidade bonita da ciência. A quarta idade é uma nova versão de vida. Posso estar caminhando para o fim, mas bonito... da mesma forma que acredito no mar, acredito muito no tempo, tem até um orixá que leva seu nome.

   Quando se chega aos 90 com esse astral, as tristezas não doem tanto. Se o violão tem que ficar guardado, se as mãos, como ele diz, “não são mais aquelas”, se a voz perdeu o tônus, se o ouvido falha, isso não é, absolutamente, razão para não compor.

   — É um outro tipo de composição. Uma composição só para mim. Saio cantando. Não pego gravador, não registro nada. Registro na memória, e isso já basta para mim. Passei a gostar de acompanhar a vida dos meus três filhos, fico encantado com os temas que estão fazendo a Nana, o Dori, o Danilo, os três em plena atividade, modernos dentro da época, e também com consciência da beleza das coisas do passado. E minha Stella, também cantora, esse prêmio que eu ganhei e que está comigo até hoje.

   A memória de Caymmi está tão boa para o passado como para o presente e até o futuro. Nos fatos do país, o olhar é de quem já viu tudo, não perde a esperança mas não é levado pelo momento:

   — Eu já não sinto emoções em ver governantes. O fato de o Lula ser um homem que vem de camadas desfavorecidas não é o principal. Dirigir um país não é questão de rótulo. É saber dominar a situação que se assumiu, é saber fazer evoluir, não deixar parar a máquina. Ele está indo bem, até chegar o dia de ceder lugar a outro. Agora, para encontrar um herói como a gente gosta, é difícil.

   Dorival Caymmi aos 90 não se cansa de nada e, vivendo com Stella Maris entre Pequeri, em Minas Gerais, e Copacabana, cultiva aquele velho prazer pela vida que trouxe da Bahia e que ganhou um jeitão contemporâneo.

   — O prazer de estar no Rio não acaba, e é um prazer cheio de razão. Sei que o Rio perdeu muito do seu jeito, da sua sutileza, da sua graça, o Cristo e o Pão de Açúcar meio que se perdem numa névoa poluída, mas a gente gosta. Sou baiano daqueles crentes, mas quando, aos 24 anos, aportei aqui num navio da Costeira num 1 de abril, virei carioca na mesma hora. Hospedei-me numa pensão no Centro e depois fui ver a Glória, o Flamengo e a bendita Copacabana. Hoje, a fisioterapia me permite levantar sozinho, então, quando bate vontade peço para me levarem de automóvel até o Leme, tomo uma água-de-coco, fico olhando os novos botequins de praia, tem um ali na ponta muito simpático. E caminho um pouco, o que as pernas agüentarem. Outro dia subi a serra e fui a Petrópolis, fui fazer uma coisa de que sempre gostei: ver a cidade de cima, o Rio todo através daquela bruma bonita...

   A bruma faz Caymmi vagar, os ecos do passado vêm em ondas, mas elas não são melancólicas. Sente uma falta tremenda do seu equipamento de 78 rotações com caixa de agulha e tudo, onde ouvia os discos de sua coleção, e que foi roubado na época em que tinha casa em Rio das Ostras.

   — Os ladrões adoram essa coisa de som, são apaixonados... levaram tudo que eu tinha de bom. Hoje ouço até uns CDS e uns DVDs, é impressionante como a televisão está dominando tudo, e tem aquele jogo maluco de música na internet que eu não consigo entender direito. Por isso prefiro ficar com o rádio, desde que a Opus 90 acabou tive que me contentar com a Rádio MEC. Agora, quando chega um disco como esse que meus filhos fizeram em homenagem, a coisa pega... nunca fui de chorar, só sei chorar para dentro, mas, quando eles trouxeram o CD e puseram para tocar, eu não consegui conter o marejar dos olhos.

   Nesse sentido, o do ouvir musical e o da contemplação artística, Caymmi admite que não consegue acompanhar a marcha do tempo. Não por uma dificuldade, mas pela natureza do que ouve.

    — Nunca fui pessimista. Aprendi com bons mestres. Não sou um homem triste. Mas é impossível não enxergar o quanto a arte deixou de despertar um real interesse, sobretudo nas gerações que vêm chegando por aí. Os museus hoje parecem supermercados e não há aquele fascínio pelas gran des obras, aquela vontade de ir ao Louvre, a Nova York, a Roma, a Florença, ver as monumentalidades que o homem fez. E tem a música popular. Dizer isso não condiz com meu gosto, fica feio dizer, mas é preciso: o pessoal de hoje não sabe bem como é que faz, não conhece música direito. Repete-se muito. As palavras são banais. E os sambas cariocas? Eram gostosos, cultivavam o caricato, a graça... não há mais disso. Não há mais o amor dito com poesia.

   Chega de reclamar. Caymmi anima-se, quer mostrar o escritório.

   — Aqui fico a maior parte do tempo, ouvindo meu rádio, lendo, e recebendo as visitas de Marina, minha bisneta, filha de Denise, que é filha de Nana. Tenho um xodó muito grande por ela, é muito agarrada em mim, acha o escritório divertido, ela fica comigo, e eu relaxo, mexo nos meus arquivos, nas minhas fotos. Você vê como está tudo organizado? É aquela menina, Elaine, que cuida de tudo, e que presta conta à Dona Stella. Assim posso ficar sonhando, sendo como eu sou.

   A empregada entra. Avisa que ele está atrasado para o lanche.

   — Vou ter que encarar a merenda. Elas mandam, eu obedeço. Sempre foi assim. Nasci para ser governado. Elas me mandam tomar banho, eu levanto e vou, pacientemente. Assim sobra tempo para a contemplação.

   Sem bengala em meio às 90 da coleção, ele se levanta e assume o lugar na mesa posta. Com as mãos juntas de oração, sorri, despedindo-se.

(© O Globo, 30.04.2004)


Chega ao Rio o baiano mais carioca do mundo

João Máximo

   Se o moço de 23 anos — cuja neta e biógrafa, Stella, descreveria um dia como “magro, mulato, com 1,66m de altura, modesto e asseado” — não deixava de ser baiano pelo fato de mudar-se de vez para o Rio, certamente começava a tornar-se carioca ali mesmo, ao pisar o chão do Cais do Porto na Praça Mauá na manhã de 4 de abril de 1938. Como homem e como artista, estava destinado a carregar pela vida afora uma dupla cidadania não só existencial, mas sobretudo poético-musical. Chegava para ser, com suas canções, as já feitas e as ainda por fazer, o baiano mais carioca do mundo. Em duas palavras: Dorival Caymmi.

   O Rio das duas décadas em que ele construiria o mais importante de sua obra — as de 40 e 50 — era uma cidade não só maravilhosa, mas sobretudo sedutora. Quem desembarcasse nela era para sempre. Tudo, a política, o jornalismo, as artes, a inteligência, a vida boêmia, acontecia naquela velha capital que os paulistas, enciumados, chamavam de “grande balneário”, apesar de o centro nervoso de tudo aquilo ainda não ter tomado o caminho do mar. De fato, quando o moço desceu do ita que o trouxe de Salvador, o Rio boêmio, e nele a canção popular, ainda se concentrava na Lapa, na Cinelândia, na Praça Tiradentes e em outros pontos do Centro, de onde mal se via o mar. Ali ficavam os cabarés, as gafieiras, as sociedades carnavalescas. E também os teatros, os poucos estúdios de cinema, as muitas estações de rádio, as fábricas de disco, os principais meios de divulgação musical na década que ia chegando ao fim. Musicalmente falando, tudo que havia do outro lado eram os cassinos, o Atlântico e o da Urca, com seus luxuosos shows para turista ver.

A boemia tomao caminho do mar

   Dorival Caymmi chegou no exato momento em que as coisas começavam a mudar. Ou seja, quando a boemia musical foi se deslocando do Centro para a Zona Sul. No início, o moço hospedou-se em pensão da Rua São José, ao lado do Café Rio Branco (famoso por reunir a turma da música e do futebol, Ary Barroso pontificando). Hesitou em desembrulhar o violão (as pessoas costumavam confundir seresteiro com vagabundo) e fez bico como desenhista na revista “O Cruzeiro” (primeiros esboços do bom pintor que ainda seria). Enfim, tudo no Centro da cidade. Na época, quando queria matar a saudade do mar, caminhava sozinho pela Avenida Rio Branco até a Praça Mauá. Só mesmo a saudade pode explicar como “O mar” e outras de suas canções praieiras nasceram nestas caminhadas.

   O sucesso veio logo. Menos de um ano depois de ter chegado ao Rio, já era conhecido. No rádio, estreando na Tupi como compositor e cantor de “canções regionais” (era assim que os speakers costumavam anunciar quase toda música não urbana, não carioca). No teatro, participando de espetáculos de palco-e-tela, então muito comum. No cinema, ajudado pelo acaso. A história é bastante conhecida: Ary Barroso pedindo muito dinheiro para que seus sambas sobre a Bahia fizessem parte da trilha sonora de “Banana da terra” e os produtores correndo atrás de um substituto mais barato. Com a ajuda de Almirante, foram buscar Caymmi, cujo “O que é que a baiana tem?” parecia sob medida para Carmen Miranda cantar. Sucesso. Consagrador da baiana estilizada e de um baiano de verdade.

   O carioca aconteceu nas duas décadas fundamentais que se seguiram. A boemia musical do Rio foi se mudando para a beira do mar ao longo dos anos 40, quando o túnel recém-aberto, ligando o Mourisco ao Leme, permitiu que Copacabana começasse a dar asilo aos cariocas que a violência policial, em nome dos bons costumes, foi expulsando da Lapa e adjacências. Desapareciam os cabarés (como desapareceriam os cassinos com a proibição do jogo) e, aos poucos, pequenas e escuras casas noturnas, afrancesadamente chamadas de boîte (caixa), iam abrindo suas portas de um posto ao outro do bairro. Seria quase uma em cada quadra quando os anos 50 chegassem.

   Caymmi viveu intensamente as duas décadas. Se na essência ele permaneceria baiano a vida toda, os gestos, o jeito sestroso, a fala cantada na voz encorpada de barítono afro, o carioca foi se amoldando a cada época. Nos anos 40, a um Rio mais alegre, mais vivo e até mais festivo, nos tempos subseqüentes ao fim da guerra e da ditadura Vargas. O Caymmi baiano, produzindo obras-primas das canções praieiras. O Caymmi carioca, compondo sambas ágeis, balanceados, não raro carnavalescos: “Doralice”, “Lá vem a baiana”, “Requebre que eu dou um doce”, “Acontece que eu sou baiano”, “Samba da minha terra”, “Rosa Morena”, alternando-se a “É doce morrer no mar” e a primeira safra de admiráveis “canções regionais”. Sambas mais alegres, porque mais alegre era o Rio do Janeiro que Caymmi freqüentava numa década em que tudo, até a guerra, virava samba.

   Já nos anos 50, um Rio mais noturno (e soturno) abrigou a boemia musical carioca. Um Rio onde Caymmi varava madrugada com Vinicius de Moraes, Antônio Maria, Fernando Lobo; ou encantava mulheres, solteiras ou nem sempre (Tônia Carrero é uma que se lembra do Caymmi irresistível daqueles tempos); ou que dava trabalho à própria mulher, Stella, que ele conhecera cantando samba de Noel Rosa na Rádio Nacional (mais de uma vez ela foi arrancá-lo à força das festas proibidas do Clube dos Cafajestes); ou que era cultuado pelos mais atuantes grã-finos da cidade (de um deles, seu parceiro Carlos Guinle, dizia-se: “Nos sambas dos dois, Caymmi entra com letra e música, e Carlinhos, com o uísque”). Enfim, um Rio no qual Caymmi sabia transformar em música tanto as histórias de pescadores quanto a vida dissipada dos boêmios da Zona Sul, quase bebendo tristeza em mesa de boate. Em resumo, se o samba ritmado foi a trilha sonora dos anos 40, o samba-canção, lento, dolente, melancólico, embalaria os amores muitas vezes frustrados dos anos 50.

   De qualquer forma, o Caymmi baiano e o Caymmi carioca conviveram musicamente nas duas décadas, criando em ambas suas canções de pescador, jóias falando em dramas e tragédias vividos no mar e nas praias da Bahia, e ao mesmo tempo compondo sambas, primeiro, e sambas-canções, depois, com corpo e alma de Rio.

   Esse Caymmi esteticamente ambivalente é o que vai complicar a vida dos estudiosos de sua obra, sobretudo aqueles que já viram nele um “precursor da bossa nova”. A inclusão de seu nome num balaio onde parece sempre caber mais um certamente se deve a seu aval ao LP de estréia de João Gilberto (e ao fato de o repertório deste incluir “Doralice”, “Saudade da Bahia”, “Samba da minha terra” e outras) do que propriamente a música ou letra sintonizadas com a bossa nova. Numa como noutra, quem percebe a presença de um precursor? A não ser aquele exegeta que já detectou até traços de atonalismo na música, ou aquele outro para quem Caymmi “não fala, em seus sambas e canções, de desencontros, decepções, ressentimentos ou rancores amorosos”.

Mais testemunha que personagem

   Na verdade, a música e a poesia de Caymmi explicam-se por si mesmas. Ambas primam pela simplicidade, esse grande mistério da beleza em arte. Nem a música contém os elementos rítmicos e harmônicos que formalmente caracterizam a bossa nova, nem a poesia abre mão de cantar as dores de amor que, segundo alguns teóricos, eram tudo a que os jovens letristas do movimento se opunham. Se estes cantavam o barquinho a deslizar no macio azul do mar, a jangada de Caymmi voltava só. E se seus sambas-canções podiam ser positivos, otimistas (“Um bom lugar pra se amar, Copacabana...”), também podiam falar de desencontros (“Você não sabe amar, meu bem? não sabe o que é o amor....”), decepções (“Oh, insensato coração, por que me fizeste sofrer...?”), ressentimentos (“Nunca mais vou querer seu amor, nunca mais/O que tu me fizeste, amor, foi demais...”). E a esses cantos que o exegeta nega juntam-se ainda o da solidão (“Tão só, tão só, tão só sem ninguém”...) e o da mocidade perdida (“É a vida que já se vai/O fim se aproxima...”). Nada menos bossa nova.

   Mas não se pense num carioca enfossado, sem esperança, curtindo tristeza sob o céu de Copacabana. Seus sambas-canções foram apenas crônicas de um tempo cujas dores de amor ele testemunhou mais do que viveu. Exatamente como o baiano que cantou as dores do mar.

(© O Globo, 30.04.2004)


Dorival Caymmi por ele e pelos outros

Hugo Sukman

   O Caymmi ideal é o cantado pelo próprio Dorival, acompanhado tão somente por seu violão. Por isso, o melhor início de caminho para sua arte refinada é “Caymmi e seu violão”, LP de 1959, disponível em CD dentro da caixa “Caymmi amor e mar” (EMI), sete CDs com todos os LPs gravados por ele para a Odeon. Vale até se endividar para ter o essencial da obra caymmica , das “Canções praieiras” (1954) à celebração da família musical de “Dori, Nana, Danilo e Dorival Caymmi”, um ao vivo de 1987.

   Mas há Caymmi por ele mesmo fora da caixa. Do heróico selo Elenco, devidamente relançado pela Universal, são obrigatórios o “Caymmi visita Tom” (1964), Dorival, Nana, Dori e Danilo (os dois filhos homens em suas primeiras gravações) com Tom Jobim, e “Vinicius e Caymmi no Zum Zum” (1967), deliciosa reprodução do show com Vinicius de Moraes, o Quarteto em Cy e o conjunto de Oscar Castro Neves.

   A segunda melhor maneira de ouvir Caymmi é por seus filhos. O preferido do mestre é o recém-lançado “Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo” (Warner), os três formando afinado grupo vocal cantando exclusivamente os sambas de Caymmi como ele gosta de ouvi-los.

   Em trabalhos solos dedicados à obra do pai, Dori, o filho-maestro, injeta acordes em profusão nas canções praieiras do pai em “Tome conta do seu filho que eu também já fui do mar” (Universal), o cerne da obra de Caymmi em arranjos modernos, densos, sofisticados; Nana canta uma sutil biografia musical do pai em “O mar e o tempo” (Universal), trilha sonora de sua biografia propriamente dita escrita pela neta Stella, que abarca o Caymmi aquarelista da velha Bahia (“Festa de rua”, “Saudade de Itapoã”), o praieiro (“O bem do mar”, “Morena do mar”, “Sargaço mar”), o autor de sambas-canções cariocas (“Não tem solução”, “Você não sabe amar”), o romântico (“Desde ontem”, “E eu sem Maria”, “Cantiga”), o saudoso (“Saudade da Bahia”, “Peguei um ita no norte”), etc.

   Ah, e tem o Caymmi dos outros. O mais novo é “Ao mestre com carinho” (Lua), de Claudio Nucci, arranjos contemporâneos, calcados no violão de aço do cantor. E tem as mulheres, Rosa Passos, Jussara Silveira, o mítico “Gal canta Caymmi”, tanta gente que já se dedicou à obra do fundador da moderna música brasileira.

(© O Globo, 30.04.2004)


Dorival Caymmi

Dorival Caymmi

O genial mestre da canção, que completa 90 anos hoje, fala à neta Stella sobre música, terrorismo e política

Stella Caymmi
Jornalista e autora de 'Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo' (Editora 34)

   Baiano de nascimento, carioca por adoção, Dorival Caymmi sempre que pode se refugia na terra de sua mulher Stella, Pequeri, uma cidadezinha da Zona da Mata mineira. São longas temporadas passadas nas montanhas, longe do mar constantemente associado ao compositor das famosas canções praieiras. Lá ele recebe seus filhos, netos, bisnetos e os parentes de Stella que moram na região. Da varanda de sua casa, cumprimenta quem passa e aprecia os beija-flores que costumam freqüentar o roseiral do jardim. Da cadeira de balanço, avista a Igreja de São Pedro, no alto da colina. Chegou a escrever um poema pedindo que a cidade retomasse o nome original, São Pedro do Pequeri: ''Vamos juntar novamente/ Ao nome desta cidade/ A do santo pescador/ E, rezando pra que rime,/ Pede Dorival Caymmi/ Com devoção, com amor''.

   Quando fala de Pequeri, Caymmi gosta de contar que, nos anos 40, quando a família costumava alugar uma modesta casa para o veraneio, ele pegava o trem com o cunhado João, marido de sua irmã caçula Dinahir, na estação Leopoldina no Rio às 6 horas da manhã. Chegava ao meio-dia à pequena estação de Pequeri, hoje desativada. Era uma viagem de poesia.

   Na Semana Santa, Dorival Caymmi concedeu esta entrevista em que fala sobre os seus 90 anos de vida bem vivida - que completa hoje, junto com os 63 da filha, Nana, e os 64 de casamento com Stella Maris. Na conversa, Caymmi reflete sobre sua obra e a música de hoje, avalia o CD que os filhos fizeram em sua homenagem, lamenta o terrorismo e a violência do Rio de Janeiro e diz que políticos, como Lula, precisam fazer o que o povo quer deles. A idade nova será celebrada com um almoço em família, no apartamento de Caymmi em Copacabana, e com a estréia de um show com os filhos Nana, Dori e Danilo Caymmi, no Canecão (leia na página B6). Sábio como sempre, Caymmi dá sua receita de bem viver: ''É seguir o que há de melhor que a vida pode oferecer, não é só o prazer. É a atividade, a hora da contemplação, a hora do sossego, a hora do bem-estar, a hora da obrigação''.

- Como é fazer 90 anos?

- Ah! É uma emoção diferente. Nos deixa assim defronte de um espelho da memória, defronte assim do passado revisto naquele momento. Surgem na nossa cabeça momentos vividos da juventude, da infância, da mocidade e da maturidade mesmo. Muitas boas lembranças.

O mundo visto de Pequeri

- Alguma lembrança especial vem à memória?

- O melhor são as recordações da infância e da adolescência, o convívio familiar e a descoberta da vida cá fora. Da mocidade é que surgiu a noção de independência, eu comecei a gostar do que fazia. Fui me realizando como indivíduo.

- E como é chegar a essa idade sendo tão admirado pelo povo e considerado pela crítica um dos maiores compositores brasileiros?

- É de uma seriedade, de um respeito...Você sabe que está sendo observado. Isso acorda em você um princípio de vaidade, vaidade com a qual você tem que discutir, para ver que posição toma. E, então, tomada essa posição, continua suavemente o trabalho com a vida, acompanhando o gosto popular, acompanhando as amizades, respeitando. Assim cresce um artista dentro de si, da sua mente. Eu me comporto assim graças ao auxílio da família, e também da educação familiar, da infância, da adolescência. Gostar da vida é essencial.

- Muitos críticos afirmam que sua música será sempre lembrada e executada pelas futuras gerações. O que o senhor pensa disso?

- Eu nunca fui de pensar a fundo nisso. Mas tem gente que diz que eu posso resistir ao tempo. Tenho visto exemplos de esquecidos no decorrer das carreiras. De repente, vejo que pelo tempo que eu tenho de atividade, chegando aos 90 anos, deixo lembranças. Sinto nas pessoas amor nos olhos, amizade, respeito.

- Independente da qualidade intrínseca da sua música, o senhor acha que o fato de a família prosseguir na música e cantando Caymmi contribui para isso?

- Contribui. É uma alegria muito especial quando você descobre que um filho tem a vocação de seguir o que você faz, a mesma linha de bom gosto, de agradar o próximo de uma maneira bonita. Isso me agrada muito.

- Como é que o senhor se sentiu ao ouvir o disco em que seus filhos, Nana, Dori e Danilo, gravaram os seus sambas, como presente de aniversário?

- Realmente, me causou uma emoção grande. Eu nem pensava no aniversário. Ao ouvir em casa a prova do disco, fiquei comovido. Eu sou um pouco contido nos atos, no pensar, mas dessa vez confesso que fiquei emocionado, disfarçando sempre. Ninguém notou que eu estava realmente comovido.

- O senhor sente vontade de compor coisas novas ou prefere dar sua obra por encerrada?

- Não, ainda não posso dar por encerrada. Eu sempre sinto a ânsia: vem espontaneamente uma idéia ou lembrança de uma canção da mocidade, já esquecida, enquanto eu não era profissional. Note bem, antes de eu ser profissional de música, eu já fazia cançõezinhas para brincar comigo mesmo, na Bahia.

- Pode surgir alguma coisa nova para os 90 anos?

- Eu não duvido! Eu sinto que ainda vivem em mim aqueles momentos de criatividade.

- Como é que o senhor viu a eleição do Lula?

- Eu não sou tão político assim, para estar examinando qualidades de homens escolhidos pelo povo. Acertando ou não, é o povo que fala. Eu não sou de política. Até me juntei, convivi com políticos de esquerda e de direita, formas políticas, partidos, mas nunca fui entrosado nessa coisa de política. Eu quero sempre que o país em que reside a minha família tenha como governante um homem sincero, forte, capaz de resistir ao trabalho que dá um país do tamanho do Brasil. Não sei lembrar de heróis na direção da República. Houve populares, como Getúlio Vargas, que ficou muito tempo no governo... antes dele teve Washington Luís, respeitado mas pouco comentado. Depois veio Juscelino, que fez Brasília. Até chegar no Lula, de origem humilde, parece. Mas não sei se o trabalho dele está sendo uma coisa que renda o que o Brasil merece, por causa da tarefa de governar um país desse tamanho. Nessa época, acho que é uma tarefa difícil. Não é para um homem só. Mas quem governa realmente é o povo, que tem suas ânsias. Não admiro um político por suas qualidades pessoais. Ele precisa amar seu povo.

- Como?

- Tem que seguir o que o povo deseja.

- E como é que o senhor está vendo o mundo de hoje, com a intolerância, a guerra do Iraque, o Afeganistão, o atentado de Madri e o do World Trade Center?

- Eu só acho um ponto de convergência: na história do comportamento humano sempre houve guerras. Eu procurei entender, quando era moço, e também já maduro, já vivido, a razão das guerras, a procura de conquistas através de força e de violência. Eu sou contra. Eu não entendo por que essa ambição. Tenho fé num poder maior: Deus. Ele deve achar a forma de consertar, porque o homem demonstrou até hoje ser incapaz de resolver esse ponto.

- Como o senhor vê o Rio de Janeiro hoje, com tanta violência, tantas mazelas?

- Eu não gosto. Há uma explicação: a evolução do tempo, a saída da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília. Não fui contra Juscelino [Kubitscheck], nem Oscar Niemeyer. Mas está tudo muito errado: o crescimento da população pobre, o crime, a violência. Tudo isso me dá nojo, eu nem converso sobre o caso. Quem mora em Copacabana há muito tempo e ainda está por lá lembra daquele morro assim: tinha flores, araras, pavão andando ali naquelas subidas... Hoje tem barracos, tem crimes, vícios, dentro do coração da beleza do Brasil, desse Rio de Janeiro que eu amo loucamente. Para governar o Rio de hoje é preciso ter uma capacidade muito especial. Eu ainda não vi até agora quem tivesse um gesto carioca, real, de consertar alguma coisa no Rio de Janeiro.

- Na sua opinião, de que o Brasil precisa?

- Precisa de homens, de um grupo de homens, ou um homem só que seja, excepcional, para governar o Brasil no sentido de dar educação e instrução, comportamento e funcionalidade. Alguém que saiba inspirar respeito, estimular o povo a saber viver, a evitar a violência, saber ser sério, saber ser amigo, saber ser colega.

- Como é o seu dia-a-dia em Pequeri?

- Meu dia-a-dia em Pequeri? É ser preguiçoso. É um lugar de descanso muito agradável. Tem coisas como essas, que me vêm ao coração: lembrar da minha mulher, a Stella Maris do rádio, que nasceu aqui. Aqui é um ponto de Minas Gerais daqueles de muita paz, muita tranqüilidade, noites muito agradáveis, amizades também boas, tudo muito sereno.

- E o senhor acorda cedo? O que faz?

- O dia-a-dia é acordar cedo, com o sol. Clareou o dia, eu estou acordado. Não pulo da cama como fazia jovem. Mas levanto, faço o que posso fazer, tenho auto-domínio para não cometer erros, tudo de acordo com a minha idade. Eu saio. Quando quero auxílio, peço. De manhã eu procuro ler alguma coisa, jornal, página de um livro... Ou brincar com moedas antigas, o que me distrai muito e me afrouxa os nervos.

- O senhor é muito observador. O que há para observar na cidade?

- Ah! Observar a paisagem, essas colinas, as flores, a floresta, os pássaros, a natureza em si, que eu respeito e amo. Porque a natureza nos dá momentos de rara felicidade.

- O que significa Stella Maris na sua vida?

- Ah! Um amor sereno, inexplicável. Quem olha para mim e olha para ela não acredita que aquele par, de aparência diferente, tenha uma ligação secreta, divina, bonita, amorosa, de 64 anos de convívio, sem separação. Somos casados desde 1940 e eu muitas vezes paro para contemplar a prole, de imaginação: os três filhos, os sete netos, os quatro bisnetos, os amigos do casal.

- O senhor se considera responsável pelo abandono da vida artística da cantora Stella Maris?

- Nunca eu faria essa asneira. Porque eu vi minha mulher a primeira vez, jovenzinha de 16 para 17 anos, na estação de rádio, num domingo de folga na Rádio Nacional.

- Foi amor à primeira vista?

- Amor à primeira vista. Eu não sabia que eu estava amando. Eu estava naquele auditório fechado, com vidro, e ela lá dentro. Uma fila de seis a oito jovens e o animador, a orquestra. Era um programa de calouros. Ela já tinha cantado em outras estações, mas eu não a conhecia. Eu pensei que ela ia cantar uma música clássica. Ela estava muito bonita, muito séria, com cara de soprano. Quando o animador perguntou a ela o que ela iria cantar, ela disse: Último desejo, de Noel Rosa. E cantou com uma voz que eu não acreditava que pudesse sair daquela lindeza.

- Com tantas músicas de sucesso, gravadas e regravadas continuamente, sem mencionar as gravações no exterior, o senhor ficou rico?

- Não, fiquei naquela medida do burguês da classe média, não é? Sem riqueza e sem pobreza também. Sempre feliz, em companhia de amigos que fiz, tenho muitas boas lembranças dos amigos que tive. Lamento, certas horas, suavemente, com doçura, com boa verdade e beleza, os amigos que já foram. Eu tenho muita saudade assim dos amigos que morreram, meus companheiros de conversa, da minha conversa própria, que estão indo embora. Eu sinto muita falta!

- De quais o senhor sente mais falta ultimamente?

- Dos amigos do convívio comum, que eram de casa, da família. O José Tostes, por exemplo, o irmão de minha mulher, era boa companhia. Fernando Lobo, companheiro de música, também. Chegamos na mesma época no Rio. Antonio Maria, Alberto Lee, Carlinhos Guinle...

Receita de vida

- Fizeram muita piada e intriga usando meu nome e o de Carlinhos Guinle, porque ele era realmente milionário. [Caymmi é autor de sambas-canção em parceria com Guinle, que na opinião de alguns representariam uma capitulação à cultura urbana carioca.]E eu não sou milionário nem nunca fui. Falta de vocação. Na área de artes plásticas tinha muitos amigos. [Os pintores} Clóvis Graciano, Portinari, eram os mais famosos. Mas tudo entre nós era muito simples. Carybé, Jorge [Amado]- que saudade! Irmão de coração!

- O senhor teria gostado de ficar rico?

- Gostar não. Acho que dá uma certa comodidade. Mas a riqueza tem duas faces. Uma, a face de ser cômoda, de se ter muito. Mas, a toda hora, os ricos têm que atender alguma coisa. É o resultado de ser rico. Meus amigos milionários sempre tinham muitas preocupações. Então, eu nasci para a classe média mesmo.

- Como é que o senhor se sente vivendo longe do mar?

- A presença do mar, a presença das coisas físicas que a gente têm não saem da memória, e a memória vê. Embora você tenha o desgaste dos sentidos, da visão, da audição...

- O senhor nasceu na Bahia, vive no Rio, e agora está em Pequeri. O senhor agora é mineiro?

- Ah! Sou mineiro, sou baiano, porque nasci na Bahia - na rua do Bângala. Eu sou brasileiro e amo o Brasil. O mar, para mim, está aqui perto. Eu vejo o meu Abaeté querido, na Bahia. Vejo amigos queridos: o Millôr Fernandes; vejo o Carybé, argentino-baiano; vejo de repente uma prima do Rio Grande do Sul, a Alice querida... Vejo tudo o que quero com o sentimento da memória. Então, se eu quiser ver aquela paisagem, aquela coisa, não preciso trazer o mar para perto de mim, ele está no meu coração.

- Por que o senhor nunca aprendeu a nadar? Não quis?

-Eu mergulhei, tentei nadar, nadei cachorrinho, uma coisa assim. Mas braçada eu não conseguia acertar. Fui cair n'água da primeira vez já na idade de rapazinho. Não consegui aprender. Agora, eu adorava mergulhar: jogava uma coisa no mar limpo assim, e pulava. Itapuã era uma praia linda! Cheia de coqueiros bonitos, areia branca bonita. Eu mergulhava e conhecia também o fundo do mar.

- O que o senhor acha da música brasileira de hoje?

- A música popular é tirada do povo e dada de volta ao povo, de uma forma de que ele goste, com a qual tenha prazer. Hoje o prazer não tem o lado poético, é mais de visual, do aceno, do pulo, da dança, da atividade física. Não é da cabeça para a garganta. É a gesticulação, é a imagem no ar, vendo em casa tranqüilo a televisão. E a reforma feita na música é de mau gosto. A música atual não atinge o sentimento como sempre foi. Hoje é levantar da mesa e dar um pulo. Ficaria feio antigamente, hoje não. Então, a música de hoje não tem expressão para mim.

- O senhor conhece alguém da nova geração?

- Eu devo conhecer, até porque esses artistas passam tão depressa atualmente. Estamos nesse ponto: excesso.

- Como o senhor analisa a sua obra hoje?

- Eu gosto. Eu analiso como um elemento para pesquisa dos jovens. Eles é que vão apreciar, dizer se eu fui um bom autor, um bom compositor, um bom cantor.

- O senhor está completando noventa anos. Tem algum conselho para dar sobre a vida?

- Ah, sim! Tenho. É seguir o que há de melhor que a vida pode oferecer, não só o prazer. É a atividade, a hora da contemplação, a hora do sossego, a hora do bem-estar, a hora da obrigação, de ser fiel. Têm os erros de hoje, falhas de educação... Nós precisamos de instrução, educação doméstica, educação de cidadania. É o que eu desejo, é o que eu imagino para a felicidade de uma nação.

- Qual é o sentido da vida para o senhor?

- O sentido da vida é uma beleza que Deus criou: viver é lutar, mas também viver é viver; viver é aproveitar o que Deus manda. Deus nos dá diariamente e repete para que você não esqueça: o sol amanhece, o sol se põe, a lua faz essa viagem em torno da Terra. Essa beleza da vida natural é o grande privilégio que o homem tem. E a contemplação, sem deixar de funcionar e fazer funcionar suas sabedorias, seus conhecimentos para ajudar a si e ao seu próximo.

(© JB Online, 30.04.2004)


'Eu sou assim'

 

Fernando Rabelo – 2001

Caymmi e Dona Stella, que já foi cantora na Rádio Nacional, onde conheceu o compositor

 

Ora doce e protetora, ora brigona e encrenqueira, Stella Maris é a cara-metade de Dorival

Helena Aragão

   O nome de Dorival Caymmi se confunde com consensos. Considerado um dos maiores compositores brasileiros e o letrista com mais sensibilidade para traduzir o espírito da Bahia, ele é símbolo também de simplicidade e dignidade. Mas, para amigos e parentes, a maior unanimidade que envolve o artista pode ser resumida na máxima que diz que por trás de todo grande homem há sempre uma grande mulher. Ou seja, sem Stella Maris, Dorival Caymmi simplesmente não seria Dorival Caymmi. Os filhos explicam:

   - Ele não saberia se organizar sem ela - acredita Dori.

   - Ela é o esteio da família - opina Danilo.

   - Sem ela, papai jamais estaria chegando aos 90 anos - afirma Nana.

   Aos 82 anos, ela se dá o direito de concordar. E acrescenta:

   - Sempre fui mais do que esposa. Represento várias pessoas da família: mãe, mulher, irmã.

   Por isso, o dia 30 de abril não é marcante apenas por lembrar o nascimento de Dorival. Foi nessa mesma data, em 1940, que o compositor se casou com a cantora Adelaide Tostes - então já conhecida pelo nome artístico de Stella Maris, que ganhara pouco antes. Conta-se que Caymmi levou um susto ao contemplar pela primeira vez a bela moça de cabelos louros e olhos azuis, na Rádio Nacional. E voltaria a se surpreender com ela muitas vezes na vida. Por exemplo, ao vê-la decidir largar a carreira de cantora tão cedo. Ou ao notar sua total ausência de papas na língua, característica que mantém intacta, como confirma ao justificar sua opção pela vida doméstica:

   -Vi cenas que me abalaram muito na Rádio Mayrink Veiga. Coisa de putaria mesmo, de gente que se vendeu para subir na vida - conta Stella.

   Hoje, confessa que já pensou em como teria sido sua vida se não tivesse abandonado a profissão:

   - Nunca quis ficar famosa nem fazer carreira. Mas quando tinha 50 anos de casada, chegou a passar pela minha cabeça como seria minha vida se eu fosse independente. Ter que pedir dinheiro para qualquer coisa era um martírio.

   Trata-se de uma mulher de opinião. Entrevistada em 1994 pela coluna Perfil do Consumidor, do JB, afirmou que sua música predileta é Minha, de Francis Hime (mas honrou o marido no quesito frase preferida: ''A jangada voltou só''). O gênio forte acabou gerando uma imagem ambígua da ex-cantora capricorniana, como explica o compositor Ronaldo Bastos, um dos agregados do clã Caymmi:

   - Em muitos momentos, ela é o homem da casa. Sabe dar bronca como ninguém, embora seja também de uma doçura sem tamanho. As histórias de Stella já ganharam status de lenda e só são comparáveis às de João Gilberto e Roniquito de Chevalier (jornalista).

   De fato, ela sabe valorizar seus bons momentos, mas é brigona de dar gosto, uma característica que passou para os três filhos. Para defender a prole, criou fama de encrenqueira na vizinhança de Copacabana. Mas foi para tentar garantir sua integridade como esposa que mostrou uma personalidade que está mais para João Valentão que para Marina ou Rosa, personagens de canções de Caymmi. Como o protagonista da obra-prima, chegou a ''dar bofetão'' e ''fazer coisas que até Deus duvida''.

   Algumas das histórias estão imortalizadas na biografia Dorival Caymmi - o mar e o tempo, publicada pela neta Stella em 2001: como a vez em que viu, ao fim de uma peça, uma mulher enlaçar o marido com uma écharpe. A briga foi ali mesmo, no saguão do teatro. Ou quando recebeu o telefonema de uma mulher que dizia querer comprar Dorival. A resposta foi irônica:

   - Pode levá-lo de graça, desde que o direito autoral fique.

   Por essas e outras situações, chegou a declarar à neta:

- Se houvesse anticoncepcional na época, ele era corno.

   Às vezes, sobrava para quem estava em volta, como o amigo de Dorival, Marcelo Machado:

- Ela já brigou muito comigo, dizendo que eu o levava para a farra.

   Para Zélia Gattai, viúva do escritor também baiano Jorge Amado, outro grande amigo de Dorival, o fato de Caymmi viajar com freqüência ajudou a aumentar a fofoca em torno de suas ''puladas de cerca'':

   - Dorival era galã, tinha olhar de picardia. Ela nem sempre o acompanhava nas viagens porque tem uma certa claustrofobia, tem horror de avião. Quando desconfiava de alguma coisa, engrossava. Mas eles acabavam sempre se entendendo.

   É verdade. Mas, embora as histórias do passado tenham tom de folclore e hoje provoquem risos, deixaram marcas.

   - Vovó não esquece o que sofreu. Quando o vovô começa a elogiar, ela mostra ceticismo e responde com ironia. Mas, no fundo, ela sabe que ele é louco por ela. Eles formam uma única entidade, um não existe sem o outro - conta a neta Stellinha.

   As provas estão no dia-a-dia do casal. Há 30 anos, quando o compositor teve que parar de ingerir bebida alcoólica por problemas de saúde, Stella, até então uma cervejeira convicta, parou junto. Noveleira assumida, ela não arreda pé da frente da TV até o último folhetim. Dorival acompanha a esposa, em geral cochilando no sofá. Só vai dormir junto com ela.

   - E não pense que isso é coisa de agora. Sempre foi assim - conta Danilo.

   Precavida, Stella se preparou para a velhice. Tem lá seus problemas de saúde, mas continua corajosa para fazer o que quer. Evita dar trabalho aos filhos e, por isso, durante muito tempo pagou mensalidade em uma casa de repouso:

   - O maior medo dela era ver papai velho pedindo esmola na porta da igreja. Mas depois de tanto economizar para garantir o futuro, não é que o asilo faliu? - conta Nana, sem evitar o riso.

   Hoje, o que ela quer mesmo é ficar em casa - em Pequeri, cidade mineira onde nasceu, ou, de preferência, no apartamento da Rua Souza Lima, em Copacabana. É nesses lugares, rodeada de netos e bisnetos, que constata que tudo valeu a pena.

   - Não me arrependo de ter protegido minha família. Todo o sacrifício que fiz foi espontâneo, sem fins lucrativos ou intenção de ser heroína. Eu sou assim.

   E, como João Valentão, ela sabe que não precisa dormir para sonhar. Afinal, não há sonho mais lindo do que aquele que transformou em realidade: uma prole alegre, bem ao gosto de uma autêntica matriarca.

(© JB Online, 30.04.2004)


Em busca da velhice perfeita

Filhos fazem da convivência com o pai um aprendizado

Helena Aragão

   Toda semana, Dori liga de Los Angeles para saber como andam as coisas com os pais. E sempre se diverte com a mesma resposta.

   - Papai diz que está tudo a ''lesma lerda'', trocando o m pelo l - conta, rindo.

   Santa lerdeza que fez Dorival Caymmi chegar aos 90 anos com saúde. Tal dádiva será celebrada pelos filhos - Dori inclusive - no show de lançamento do disco Para Caymmi, de hoje a domingo, no Canecão. De volta ao Rio depois de uma temporada em Pequeri, Dorival não revela se vai ou não na festa. Seja como for, a brejeirice, a simplicidade e a tranqüilidade estarão representadas nas histórias contadas em cena pela prole. E o lado temperamental, menos conhecido do público, também.

   - Não parece, mas ele é mais radical que mamãe e os filhos. Quando não gosta de algo, fecha a porta e vai embora, enquanto nós brigamos para caramba, mas resolvemos tudo na hora - explica Dori.

   Mas, ao contrário de muita gente, apesar da reserva Dorival não é de sofrer em silêncio nem de guardar rancores com o passar dos anos.

   - Não conheci ninguém que reagisse bem à velhice. Só papai. É um exemplo de como envelhecer com dignidade. Por incrível que pareça, ele ficou mais tolerante. É um camaleão, se adapta bem às mudanças. Bem diferente de mim, um inconformado de carteirinha, um Ariano Suassuna piorado - observa Dori.

   O segredo para isso está em dois aspectos: a contemplação - e aí o alvo pode ser uma janela, um passarinho, um quadro - e a obediência às determinações da esposa Stella.

   - Se mamãe diz para não comer sal, ele não come e não reclama - conta Danilo.

   Também não se revolta com as impossibilidades que a idade avançada traz. Hoje não pode mais ler, atividade que ocupava boa parte do seu dia.

   - Depois que a vista começou a falhar, tentou a lupa. Agora temos que ler o jornal para ele. Mas ele aceita isso sem problemas, o que me deixa feliz - diz Dori.

   Mesmo com os ânimos tão diferentes dos do pai, Nana, Dori e Danilo se espelham nas lições de Dorival quando consideram suas próprias perspectivas de futuro.

   - Se tem algo que admiro em meu pai é a sua leveza. Confesso que, nisso, gostaria de conseguir imitá-lo. Queria ficar menos nervosa e agitada - diz Nana.

   Danilo conta que já comprou uma casa em Pequeri. Dori faz planos de se aposentar aos 65 (hoje tem 60) e retornar ao Brasil:

   - Mas para o Rio não volto. Só para o interior.

   Enquanto esse dia não chega, passa temporadas na casa dos pais quando vem de férias. E festeja o bom momento com eles.

   - Estamos mais próximos nos últimos anos. Temos muito mais a dizer um para o outro hoje em dia - diz Dori.

(© JB Online, 30.04.2004)


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