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Nelson Rodrigues em formato de bolso

05-06-2008

Nelson Rodrigues, à esquerda, com o escritor Otto Lara Resende

Roberta Oliveira

   Se a consagração de Nelson Rodrigues como autor teatral veio nos anos 80, quando, pela primeira vez, a Editora Nova Fronteira lançou, divididas em quatro volumes, todas as peças do dramaturgo, a popularização e a unanimidade, tão temida pelo próprio dramaturgo em vida, prometem chegar agora. Depois de conseguir renovar os direitos sobre a obra teatral do autor de “Vestido de noiva”, participando, com outras editoras, de um leilão, a Nova Fronteira lançou, na Bienal Internacional de São Paulo, as primeiras quatro edições avulsas e de bolso das peças de Nelson Rodrigues.

   — Estamos convencidos de que publicar as peças separadamente, em edições de bolso e, portanto, mais baratas, é a melhor maneira de badalar a obra de Nelson, que é um dos nossos maiores objetivos desde que ganhamos o leilão — avalia Carlos Augusto Lacerda, editor da Nova Fronteira. — Vamos fazer de tudo para trabalhar a obra porque ele tem um teatro de qualidade e genuinamente brasileiro.

Primeiras edições trazem peças mais populares

   A escolha das primeiras peças a serem editadas em formato de bolso não segue a ordem das quatro edições temáticas da obra completa: “peças psicológicas”, “peças míticas” e os dois volumes das “tragédias cariocas”. A editora começou por aquelas que reputa serem as mais populares, ou seja, “Vestido de noiva”, “Senhora dos afogados”, “Viúva, porém honesta” e “Álbum de família”. A idéia, além de popularizar a obra do autor, é permitir que alunos de Ensino Médio e estudantes de teatro possam ler os textos por um preço mais acessível: R$ 13.

   — Como as quatro edições acabaram de ser lançadas, ainda não tivemos um retorno, mas as pessoas que viram na Bienal gostaram. Depois de 20 anos, era preciso trazer uma inovação — diz Lacerda, que ainda não sabe quais serão as próximas peças a serem lançadas neste formato. — Vamos lançar todas as 17, mas ainda não batemos o martelo de qual será a ordem.

   Certa é a data do relançamento da obra completa: agosto. Também com direito a alguma inovações. A idéia da editora é que sejam edições mais luxuosas do que as anteriores, que ainda podem ser encontradas em algumas livrarias. Além dos textos que já ilustram ou explicam as peças, serão acrescentados novos e fotos de montagens de décadas atrás e mais recentes. A diagramação também passará por uma reformulação.

   — As edições de bolso foram pensadas para um público específico, o dos jovens que nem sempre têm dinheiro para comprar a obra completa. Já estes novos quatro volumes estão sendo voltados para um público mais qualificado, que quer ter todas as peças — compara Lacerda, adiantando que o preço ficará por volta dos R$ 40.

   As novas edições avulsas e de bolso das peças de Nelson Rodrigues trazem a ficha técnica das montagens de estréia, com direito a elenco, teatro em que a peça foi apresentada, diretor e, provando que são realmente voltadas para um público jovem, um roteiro de leitura. Nele, Flávio Aguiar, professor de Literatura Brasileira da USP, apresenta a peça, faz um resumo da vida e da trajetória do autor e dá sugestões de trabalhos que podem ser desenvolvidos pelos professores a partir do texto. Há, ainda, um glossário de termos teatrais, em que palavras como “bastidor” e “cenário” ganham significado, e uma bibliografia sugerida sobre teatro e sobre a obra do autor.

(© O Globo)


Três palcos que não vivem mais de teatro

   Nas fichas técnicas dos livros de bolso, é possível descobrir onde as quatro peças de Nelson Rodrigues fizeram suas primeiras apresentações. Duas delas, “Vestido de noiva” e “Senhora dos afogados”, estrearam no Teatro Municipal. As outras duas, “Viúva, porém honesta” e “Álbum de família”, foram apresentadas pela primeira vez, respectivamente, no Teatro São Jorge, atual Cacilda Becker, e no Teatro Jovem, hoje auditório do Colégio Imperial, em Botafogo. Coincidência ou não, já faz anos que nenhum dos três palcos abre suas portas para o teatro.

   — A nossa prioridade é atender aos nossos corpos artísticos, ou seja, privilegiar concertos, óperas e espetáculos de dança — justifica Helena Severo, presidente da Fundação Theatro Municipal. — Na época em que as peças de Nelson estrearam no Municipal, havia muito menos palcos na cidade. Hoje, há muitos. Mas só há este para dança, ópera e música clássica, daí esta prioridade.

   Entretanto, Helena não descarta que, à imagem e semelhança do que acontece no Teatro Municipal de São Paulo, um mês do ano, o do recesso dos corpos artísticos, possa ser dedicado ao teatro declamado.

   — Sou totalmente favorável a termos teatro no Municipal, mas é preciso analisar com cuidado como isso pode ser feito — diz Helena, acrescentando que, este ano, nos meses em que poderia abrigar espetáculos teatrais, o teatro estava passando por reformas.

   O Cacilda Becker também passou recentemente por obras. O palco que ainda se chamava Teatro São Jorge quando abrigou, em 1957, a estréia de “Viúva, porém honesta”, com Walmor Chagas, passou a se chamar, um ano depois, Teatro do Rio, aí já sob o comando dos então jovens atores Ivan de Albuquerque e Rubens Corrêa. O pequeno teatro do Catete passou a se chamar Cacilda Becker em 1975 e, em 1991, começou a ser palco apenas de espetáculos de dança.

   — O Cacilda Becker passou a ser um teatro dedicado apenas à dança porque não há nenhum outro teatro dedicado só a isso — justifica Cristina Pereira, coordenadora de Teatro, Dança e Ópera da Fundação Nacional de Arte (Funarte).

   — E deu certo, ele se firmou como teatro para dança.

   Já o Teatro Jovem do Rio de Janeiro, onde em 1967 estreou “Álbum de família”, com José Wilker, hoje funciona como auditório do Colégio Imperial, em Botafogo. Depois de, entre 1961 e 1969, sediar o grupo formado por Ginaldo de Souza e Kleber Santos por onde passaram atores como Vanda Lacerda, João das Neves, Dirce Migliaccio, Paulo Gracindo, Eva Vilma, Paulo César Peréio, Tonico Pereira e Cecil Thiré, o palco foi fechado na época da ditadura e só voltou a ser reaberto, já como auditório e reformado, nos anos 80. Hoje, é usado pelos alunos do colégio, mas também pode ser alugado para ensaios de espetáculo e para as próprias apresentações.

(© O Globo)

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