05-06-2008
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O Mombojó |
Carlos Albuquerque
O que o
surgimento de um grupo como o Mombojó — assim mesmo, com agudo no último “o”
— nos faz pensar? Então as multinacionais ameaçam não lançar mais tantos
discos de brasileiros por causa da pirataria? Então o sistema de troca de
arquivos musicais pela internet está matando a música? Então o Metallica,
que topa tudo por dinheiro, e a Riaa, a obtusa entidade que representa essas
mesmas multinacionais e que processa criancinhas para passar a “lição” de
que não se deve trocar arquivos musicais pela internet, então eles estão
absolutamente certos? Então como é possível, nesse clima de filme de horror
que nos é vendido pela Babilônia do disco, nesse pesadelo a que somos
induzidos por essa Matrix musical, como é possível que surja uma banda tão
boa, íntegra e inspiradora quanto o Mombojó?
Um grupo que vem da rica cena musical
do Recife, cujos integrantes têm idade média de 20 anos e cuja postura vai
de encontro a tudo isso. Um grupo cujo primeiro disco — brilhante,
absolutamente brilhante — foi produzido, lançado e distribuído de forma
independente (encartado na revista “Outra coisa”, de Lobão) e cujas músicas,
desde o fim do ano passado, já podiam ser livremente baixadas através do seu
site (www.mombojo.com.br). Um disco que apesar do título, “Nadadenovo”,
representa a renovação estética e musical que a MPB — cansada de guerra, de
reverenciar cegamente os mesmo ídolos e de olhar tanto para o próprio umbigo
— desesperadamente precisa. Em outras palavras...
— O Mombojó é do cacete! — exclama
Lobão. — Os caras estão um passo adiante, no contexto musical e na atitude.
Chico Science é uma influência forte
Os “caras”, nesse caso, são Felipe S
(voz e letras ótimas), Marcelo Machado (guitarra), Vicente Machado
(bateria), Samuel (baixo), Chiquinho (teclado e sampler), Rafa (flauta) e
Marcelo Campello (violão, cavaquinho e escaleta). “Mombojovens”, já disse
alguém, brincando com a idade dos integrantes do grupo. Sete músicos hoje,
sete projetos de adolescentes há dez anos, quando saiu “Da lama ao caos”, o
primeiro disco de Chico Science & Nação Zumbi, aquele que trouxe para a
superfície os sons e a estética do chamado mangue beat (ou bit). E plugou
Recife na tomada do mundo.
— Todos nós começamos a tocar
quando éramos muito novos. E a gente absorveu tudo aquilo, fosse ouvindo ou
vendo. Chico e o Nação, por exemplo, ensaiavam no ateliê do pai do Felipe —
conta Marcelo Campello. — Todos nós vimos shows do Mundo Livre, Otto, Eddie
e Devotos do Ódio, para dar alguns exemplos.
Mas não espere do Mombojó — que toca
no Rio pela primeira vez no próximo dia 17, no Ballroom — o barulho de
tambores roncando ou o visual com chapéus-de-coco.
— Não há como enquadrar todas as
bandas de Recife dentro de uma estética — explica Campello. — O que existe é
uma biodiversidade igual à do mangue, com bandas diferentes convivendo e
trocando informações num mesmo ambiente.
Tirando a foto de divulgação, o
Mombojó é mesmo difícil de enquadrar. Suas músicas têm jeito de
montanha-russa, cheias de subidas e descidas, aceleradas e freadas, trocas
inesperadas de direção, a distorção das guitarras antecedendo o sambinha, o
scratch nervoso subitamente trocado por uma flauta literalmente
doce.
— Achamos legal trocar de climas de
repente — diz Campello. — Isso evita que a música se torne linear. Faz com
que ela tenha mais dinâmica. Alguém já viu nisso a influência de bandas como
Sonic Youth e Mogwai, mas não sei ao certo.
Quem for ouvir “Nadadenovo” talvez
“veja” também por ali traços suaves de Mundo Livre, Tortoise, Los Hermanos,
Stereolab, Jorge Ben, surf music, dub, choro, jazz, ska, bossa nova e punk
rock. Tudo isso está ali mesmo, mas absorvido, reciclado e transformado em
uma coisa única, uma espécie diferente dentro do mangue. Espécie Mombojó.
— Brincamos na hora de definir nosso
som — conta Campello. — Dizíamos que era “rock sem refrão” ou “não-rock com
peso”. Mas a melhor definição veio de Vicente, “lombração espontânea”. Achei
perfeito.
Vicente tem 17 anos, talvez faça
vestibular para Engenharia Florestal, mas Campello garante que a banda é
prioridade de todos. O ingresso do Mombojó na música começou em 2001, quando
a banda se formou. Shows aqui e ali mesmo (como no festival Abril Pro Rock)
formaram uma base inicial e sólida de fãs. Mas a aprovação geral só veio
mesmo no começo deste ano, quando “Nadadenovo” ficou pronto, após quase dois
anos de experimentos em estúdio.
— Não consigo imaginar esse disco
saindo por uma grande gravadora. Ficamos no estúdio o tempo que quisemos,
fazendo as coisas no nosso tempo. Até celular tocando na hora de gravação
rolou. E ficou.
Como também rolou um clima Jovem
Guarda em “Adelaide”, com órgão de churrascaria e tudo.
— Nós adoramos esses sons, meio The
Pops, né ? Temos até uma banda paralela chamada Del Rey, só de
covers do Roberto Carlos.
Produção de Igor Medeiros e Mad Mud,
“Nadadenovo” foi livremente “servido” primeiro àqueles que acessaram o site
do grupo. Ruim para vocês?
— Que nada! Quando o disco chegou ao
Lobão, ele já estava pronto e tinha o suporte de uma base de fãs que ouviu e
baixou as músicas antes. Isso não atrapalhou. Só ajudou.
Uma atitude radical? Uma atitude
revolucionária? Talvez apenas uma nova atitude. Como a que a banda tem em
relação ao copyright .
— Os samplers, a internet, a troca de
arquivos, tudo isso está mudando o mundo. E neste momento, o copyright
é como um pedrinha tentando conter um dilúvio. Somos a favor do copyleft
, dos registros abertos, como defende o pessoal do Re:Combo. Tanto que em
breve vamos deixar as músicas do disco abertas no site para quem quiser
remixá-las.
Para o show no Ballroom, Campello diz
que a banda tem diversas outras músicas livres, além das que estão no disco,
para mostrar.
— Vai ser nossa primeira vez no Rio e
queremos fazer bonito. Nossos shows costumam ser divertidos — diz Campello,
pulando do sério para o descontraído e assumindo o seu lado mombojovem
— Às vezes tocamos bem pesado, que isso é bom para liberar os hormônios (
risos ). Gostamos de dar uns gritos também.
(©
O Globo)
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