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05-06-2008 Texto originalmente públicado em 29.04.2004
SERGIO SALVIA COELHO Gero Camilo é um desses privilegiados que souberam manter intacta dentro de si a infância. Suas crônicas misturam com desenvoltura memória e fantasia e, quando é ele mesmo que vai para a cena narrá-las, o encantamento é garantido. É o caso de "Aldeotas", na qual ele interpreta Levi, o menino poeta que não cabe em sua aldeia, e Elias, seu melhor amigo que não teve a mesma coragem de sair de lá. Muitos anos depois, na véspera de voltar, Levi manda a Elias uma peça de teatro, que evoca flashes de suas aventuras. Em uma metalinguagem sem enigmas, a peça mostra a leitura dessa peça. Sentados em um tapete que, junto com uma iluminação nordestinamente mágica de "céu cor de cor de céu" constitui a essencial ambientação de Marisa Bentivegna, evocam em "faz-de-conta" momentos marcantes da vida de qualquer um. A diretora Cristiane Paoli Quito, cúmplice de primeira hora, monta uma partitura de movimentos tão precisa que chega a ser invisível, e nesse aparente improviso Gero Camilo mostra o imenso ator que é. A seu lado, Marat Descartes cumpre com generosidade a difícil função de "escada", o ator que está lá para segurar firmemente o colega que voa no trapézio da memória. Mas não se deduza daí que é um ator menor. Em "Entreatos", espetáculo composto por outros dois textos de Camilo em cartaz no Arena, Descartes mostra uma grande maturidade. "Café com Torradas", o primeiro monólogo, exige do ator uma entrega total: pateticamente de pijama em uma sala de espera, ele vai reconstituindo a sua história, contracenando com a platéia, que com ele espera. O fio narrativo é tênue, pouco mais que uma piada, mas, sem nenhuma ênfase (em grande contraste com trabalhos passados), Marat Descartes constrói um personagem vulnerável e tocante. Na segunda peça, "Quem Dará o Veredicto?", contracena com Paula Cohen, que faz uma mulher à beira de um ataque de nervos, a quem o marido suporta com ambígua resignação. O tom aqui beira o besteirol, e a história, mais estapafúrdia, possibilita à atriz exercitar um impagável repertório de marcas e tons; mas, por outro lado, faz com que a performance ofusque a narrativa, que acaba se arrastando. Mas o humor de Gero Camilo, sua despretensão, conquista de qualquer jeito. Afinal, o dramaturgo-poeta-ator-diretor foi do Ceará a Hollywood sem vender sua alma, sem perder de vista sua Esperança de origem: Camilo é um exemplo raro de profeta em seu próprio país, daqueles que você encontra voltando da feira e que conhece o seu cachorro pelo nome. É muito bom estar na mesma aldeia que ele. (© Folha de São Paulo)
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