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05-06-2008
Mais do que uma história de amor, Espelho d’Água: Uma Viagem no Rio São Francisco, de Marcus Vinícius César, é álbum cinematográfico de cartões postais KLEBER MENDONÇA FILHOO quinto longa-metragem da seleção 2004 do Cine PE foi projetado na noite do domingo com casa cheia. Espelho d’Água: Uma Viagem no Rio São Francisco (2004), de Marcus Vinícius César, é uma produção realizada com esforços de cariocas, baianos e pernambucanos e teve sua estréia nacional no Teatro Guararapes. Nos faz pensar sobre a função do cinema, seja como arte ou produto. Nesse caso, como produto há a clara utilização de uma espécie de “taxa de paisagem”, cláusula contratual que parece existir, se não em papel, mas na preocupação dos realizadores (diretor/produtor), e certamente aos olhos do espectador, que garante alta porcentagem de imagens que resultam em série infindável de cartões postais. Esses cartões não ajudam o filme em termos de contar a história, mas, quem sabe, poderão ajudar a região filmada a receber mais turistas e, talvez, garantir ajuda financeira ao filme. Embora difíceis de serem comprovadas, é posssível que “taxas de paisagem” tenham sido aplicadas em obras como Tieta (1996) e Deus é Brasileiro (2003), de Cacá Diegues, ou Bela Donna (1998), de Fábio Barreto, integrantes ilustres dessa categoria cinematográfica que, agora, recebe de braços abertos Espelho d’Água. Como de costume, há uma história que garante eixo mínimo para o catálogo de vistas. Namorada carioca (Carla Regina) chega de surpresa em Penedo para encontrar namorado fotógrafo (Fábio Assunção), mas ele desceu o rio para trabalhar. O amor dos dois é raso. Com a ajuda de um velho barqueiro que conversa com sua canoa, nascido e criado à beira do rio, ela vai à procura do amado, rapaz que não usa celular. Subindo e descendo o rio num tó-tó-tó, ela tem a sorte de, em menos de uma semana, ver de perto todas as festas, folguedos, lendas e eventos turísticos que fazem a agenda anual da região, salvo, claro, o boto cor-de-rosa da Amazônia. Aspecto interessante é a dificuldade que temos como espectadores de nos localizar geograficamente. O mapa do São Francisco bem impresso num flyer distribuído domingo à noite para a platéia não ajuda, na verdade, piora. O personagem de Assunção é visto num helicóptero no que parece ser a foz, no Oceano Atlântico, sua namorada é vista no que pode ser Piranhas e, mais tarde, em Petrolina (?), representada por uma casa no meio do mato, chovendo do lado de fora. História chega ao fim em Bom Jesus da Lapa (?!), centenas de quilômetros rio acima, a caminho de Minas Gerais. Pontos de interesse como a morte de um líder ecocomunitário não são utilizados e o espectador também fica de fora de um acidente de barco que poderia ter sido explorado dramaticamente. Ao final, resta uma sensação de vazio como cinema, mas uma vontade saudável de conhecer região ribeirinha tão fotogênica. (© JC Online) Produção de curtas apontam para direções bem distintas Parece que quanto mais nobre a bitola dos curtas, mais industrial o resultado. Bitolas menos nobres, como o 16mm e o digital, deixam realizadores mais relaxados? Se um filme como Bala Perdida (RJ), de Vitor Lopes, exibido domingo, lembra uma superprodução da Fox com som THX, e a animação O Curupira (RJ), de Humberto Avelar, atualiza a nossa lenda popular rumo ao estilo Disney, filmes “menores” como Produto Descartável (SP, 16mm), de Flávia Rea e Rafael Primo, nos lembram que menor pode significar mais eficaz e pessoal.O filme dá a impressão de termos entrado num mundo peculiar que observa as relações rápidas entre urbanóides, com uma câmera “Robert Rodriguez” que faz, por exemplo, maravilhas dentro de um elevador, melhor ainda num quarto fechado. Mesmo mixado em mono de baixa qualidade, há uso de som que nenhum THX seria capaz de melhorar no sentido de concepção. Por outro lado, dois 35mm projetados na sexta-feira apontam para trabalhos pessoais e de identidade. L´Amar (SC), de Sandra Alves, onde duas garotas são perfeitamente filmadas à deriva numa prancha de surfe durante dias, em curta incomum na atual safra. Sem diálogos, pois é o mar que fala. O total oposto seria Momento Trágico (DF), urbano com personagens atônitos que falam muito, e ouvem muito, num filme engraçado de maneira que flerta com as psicomédias de Woody Allen. (K.M.F.) (© JC Online) Amor ao cinema leva Reichenbach a abandonar o vício do cigarro O Cine PE homenageou na noite do domingo uma das grandes figuras do cinema brasileiro, Carlos Reichenbach, nome que talvez fuja à consciência do grande público, mas que é dono de uma obra coerente e pessoal. É um cinéfilo apaixonado, espécie rara de cineasta brasileiro capaz de conversar horas sobre cinema, diretores e filmes. Seu blog, www.olhoslivres.com documenta uma fração do seu amor por tudo isso. Sua trajetória e seu pensamento estão no livro recém-lançado Cinema como Razão de Viver, do crítico Marcelo Lyra.Reichenbach (ou “Carlão”) subiu no palco para agradecer a homenagem, levando ao microfone seu discurso pessoal e tocante. Lembrou que quase morreu via militância tabagista (quatro maços de cigarro por dia) e renasceu para dirigir dois filmes nos últimos dois anos – Garotas do ABC e Bens Confiscados, em fase de mixagem, trabalho que o leva de volta a São Paulo hoje mesmo. Impressionado com o volume de público que o Cine PE atrai, lamentou a mudança de programação que transferiu a exibição de Garotas do ABC, de ontem para amanhã. “No início do filme, dois pernambucanos são atacados por skinheads e gostaria muito de ver a reação da platéia, principalmente pelo que vem ao final, pois creio que o público sentirá uma catarse”, adianta. Na saída, Carlão conversou sobre o curta preferido dele no domingo (A Moça que Dançou Depois de Morta), o cineasta italiano Dario Argento e seu filme. Reichenbach dirigiu pornochanchadas nos anos 70 com toque pessoal distinto (Amor Palavra Prostituta, A Ilha dos Prazeres Proibidos) e, mais tarde, pérolas autorais como Anjos do Arrabalde (1987) e Alma Corsária (1993). Em 1999, estreou Dois Córregos e trabalha nos lançamentos de Garotas do ABC e na finalização de Bens Confiscados, um projeto de Betty Faria. (© JC Online) Qualidade de obras fica dentro da média MARCOS TOLEDONo fim de semana, a maioria dos curtas exibidos no Cine PE passou pelo crivo do público que superlotou o Teatro Guararapes nas duas noites. Entre os doze trabalhos, porém, não houve nenhuma surpresa, nada que, no conjunto, arrematasse a platéia. O único que filme que gerou uma manifestação adversa explícita por parte dos espectadores foi A História da Eternidade, do pernambucano Camilo Cavalcante. Os curtas em 16mm – Nada a Declarar, no sábado, e Cheque de Terceiro, no domingo –, mesmo em desvantagem por causa do formato (a imagem escurece na projeção devido à distância do pequeno projetor para a telona) demonstraram fôlego de produção maior e agradaram dentro da média. O mesmo ocorreu com os documentários em 35mm, Porão e Boi. As animações, costumeiramente bem cuidadas, conquistaram a platéia. No sábado, com O Fantasma da Ópera, adaptação bem-humorada da clássica história, aqui narrada ao estilo dos cartuns dos anos 40 e 50, ao estilo de Chuck Jones, e, no domingo, com o original A Moça que Dançou Depois de Morta, adaptação de cordel de J. Borges, justa homenagem ao xilogravurista. Na categoria Ficção 35mm, dois trabalhos ganharam o ‘troféu cara-de-pau’ em suas respectivas noites: Quem É?, uma mistura de ‘pegadinha’ de João Kléber e propaganda de uma empresa de telefonia celular, e o completamente nonsense A Incrível História da Mulher que Mudou de Cor. Já a novelinha infantil de um capítulo só Marina, que mais parece uma cena extraída de uma novela Manoel Carlos, fez menos estragos. Bala Perdida, foi o único curta acima da média na programação do fim de semana, mais por exercício estético do que por apresentar algo novo e realmente interessante. Os curtas pernambucanos também não ultrapassaram a média e, mais expressivamente, apenas deram continuidade à série ‘bichos estripados, homens nus’, muito em voga no cinema local. A História da Eternidade provocou sentimentos de amor e ódio no público – que se dividiu entre vaias e aplausos, um bom aspecto – em mais um exercício de ‘plano seqüência’ do diretor, com forte influência cinemanovista. Porcos Corpos, de Sérgio Oliveira, contou de modo muito raso a história de um jovem interiorano perturbado interpretado pelo cantor Otto. (© JC Online)
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