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05-06-2008
FLÁVIA DE GUSMÃO O Instituto Cultural Bandepe, justiça seja feita, alavancou o nível das exposições de artes plásticas no Recife, particularmente no que se refere a montagem. Na mostra Eu, Maurício – os espelhos de Nassau, que será inagurada hoje (para convidados e amanhã aberta à visitação do público), a equipe que recebeu como missão concretizar este projeto será ainda mais desafiada em sua competência. No time escalado para o propósito estão os curadores Maria Lúcia Montes (antropóloga), Jose Luiz Mota Menezes (arquiteto) e Marcos Galindo (historiador). A produção é de Ana Guimarães, a cenografia de Zezinho Santos e há, ainda, a colaboração de acadêmicos como E.J. van den Boogaart da Universidade de Leiden, Gerhard Brunn, titular da cátedra Jean Monnet de História Regional Européia, e de Wolfgang Degenhardt, pesquisador da história dos meios de comunicação e uso de multimídia no ensino da História, ambos da Universidade de Siegen na Alemanha. Esta exposição, inclusive, pode ser encarada como uma “Parte II” daquela realizada em Siegen, no início deste ano, e que foi intitulada: A Partida para um Novo Mundo: Johann Moritz von Nassau, o Brasileiro. Tal força-tarefa se faz necessária para juntar os fragmentos e dar o acabamento, o mais perfeitamente possível, a uma figura emblemática, especialmente para os pernambucanos: Maurício de Nassau, o conde, o príncipe, o conquistador, o empreendedor, o homem vaidoso que quis projetar para a eternidade o seu reflexo como administrador competente. O maior complicador está, justamente, na falta de relatos em primeira pessoa. Diante desta lacuna, os curadores traçaram uma estragégia temporal para decifrar o mito, construindo (tal qual Nassau) um ‘em torno’ a partir do qual fosse possível vislumbrar o homem no seu tempo e raio de ação. A mostra foi, então, dividida em três núcleos convergentes: no primeiro deles, vemos o jovem e ambicioso Maurício residindo ora na Holanda, ora na Alemanha. Na segunda fase, ele vem ao Brasil, onde, diferentemente de outros governantes holandeses, em outras paragens, de fato, construiu uma cidade e não só extraiu o máximo que pôde dela. E, finalmente, na terceira fase, o seu retorno à Alemanha, onde se desfez de praticamente todo o acervo adquirido no Brasil para se manter até o fim dos seus dias, aos 75 anos de idade, bem longevo para a época. O curioso desta exposição é observar como o nosso herói está tão ausente e, ao mesmo tempo, tão presente. É preciso fechar os olhos e se deixar contaminar pela idéia principal da exposição: enxergá-lo como produto cultural de uma época na Holanda e Alemanha, como resultado da tolerância praticada pelo calvinismo, como fruto de uma sociedade aristocrata que precisava se colocar como o reflexo mais aproximado daquilo que a plebe esperava ver. João Maurício de Nassau, se fosse se ver agora, gostaria do resultado. Para quem jamais seria majestade no país de onde veio, ele se saiu muito bem ao construir um mito para que os outros tentassem decifrar. (© JC Online) O mercador do exótico
A construção do “Eu” Maurício de Nassau só foi possível com o uso de algumas licenças poéticas e ficcionais. É importante que se entenda isso para melhor aproveitar a exposição. Da mesma forma, é fundamental o uso da palavra ‘espelho’, cujo significado envolve tanto facetas da vida mundana, política e econômica que circundaram o personagem, quanto sua própria personalidade. E se conseguirem botar as mãos no catálogo da exposição, que contém os textos assinados por Mota Menezes, Maria Lúcia Monte e Marcos Galindo, tanto melhor. Ter-se-á, então, o retrato mais bem-acabado que se pôde construir do governante - à luz predominante da antropologia e psicologia, sem esquecer o urbanismo e a história. “O Nassau contratado por uma companhia opressora não nos interessa aqui. O lado sombrio que cada um de nós tem não vem ao caso”, esclarece Mota Menezes, situando que o debate frequentemente colocado em mesa de botequim – sobre o caráter benéfico ou maléfico do governante estrangeiro – fica fora de questão. “Tentamos apenas explicar o mito através do homem”, resume. O que não está dito com todas as letras, mas permanece, ali, quase na superfície, é o quanto a vaidade e a ambição de João Maurício de Nassau foi fator determinante para que tudo acontecesse como aconteceu: que a antiga aldeia do Recife, com apenas um punhado de casas, se transformasse na Cidade Maurícia, com suas pontes e um plano inédito de urbanização. Três palácios, o observatório astronômico, os belos jardins de Friburgo e o legado deixado para a posteridade por artistas e gênios como Eckhout, Frans Post, Barléus e Markgraf. E é para este resultado que converge a exposição, quando os corredores desembocam numa maquete inédita, executada a partir das pesquisas do arquiteto José Luís Mota Menezes. Pela primeira vez, o público poderá visualizar o que era a Cidade Maurícia, com suas casas de influência ibérica e holandesa, contemplando toda a área do Bairro do Recife. DESTINO – No percurso até este ponto, que pode ser considerado o apogeu da vida de Nassau como empreendedor, conviveremos com seus pares – a nobreza holandesa e alemã – e entenderemos porque um funcionário da Companhia das Índias Ocidentais, empresa conhecida por não dar a mínima para o bem-estar dos nativos – empenhou-se até a raiz dos cabelos para construir um reinado nos trópicos. “Ele quer ascender entre a nobreza, quer marcar sua presença como uma figura real e começa a criar um espaço físico pudesse abrigá-lo e a seus projetos”, explica o historiador Marcos Galindo. “João Maurício consegue ser conde e ser príncipe por esforço próprio, ele galga esta posição e o Recife foi um excelente degrau”, completa Mota Menezes. Como um colecionador consciente de que o futuro exigiria riquezas acumuladas nos trópicos para garantir-lhe um padrão de vida no retorno à Europa, Nassau, por tabela, legou ao mundo a mais farta documentação sobre fauna, flora e tipos humanos das américas. Pouca coisa sobrou em poder desse ‘mercador do exotismo’. A maior parte do seu acervo foi doada a reis europeus na esperança de receber alguma coisa em troca. Mas, dizem, foi um Nassau diferente que voltou ao Velho Continente, um Nassau que nunca mais tirou da retina as cores do Brasil. Um Nassau que passou a ser chamado de “o brasileiro”. Talvez seja mais uma licença poética, talvez não. Eu, Maurício – os espelhos de Nassau – Galeria Térrea do Instituto Cultural Bandepe (Av. Rio Branco, 23, Bairro do Recife). Aberta amanhã para o público até 20 de junho (Hoje, para convidados). Horário: De terça a quinta, das 14h às 20h e de sexta a domingo das 14h às 22h. Entrada franca (© JC Online)
Nassau e suas circunstâncias
Mostra multimídia contextualiza trajetória histórica do nobre europeu
Júlio Cavani
No Brasil,
Maurício de Nassau é visto como um europeu que veio governar o País durante
o domínio holandês. Na Holanda, ele é conhecido como O Brasileiro, apesar de
só ter passado oito anos morando em Pernambuco. Lá, ele era visto como um
príncipe e, aqui, como um rei. Alvo de críticas e homenagens, sua figura
pessoal ganha uma investigação psicológica e cultural na exposição Eu,
Maurício - Os Espelhos de Nassau, que tem inauguração para convidados hoje e
abre amanhã ao público no Instituto Cultural Bandepe.
ROTEIRO -
Contando com recursos multimídia, o percurso do visitante na exposição
começa pela reconstituição alegórica do ambiente de formação de Maurício de
Nassau, reproduzindo o contexto em que ele ascendeu ao poder. No primeiro
ambiente, gravuras retratam a época em que o governante cresceu e
representam os ideais religiosos, sociais, militares e políticos do período,
com imagens de rituais, cenas bíblicas, retratos e paisagens. Uma animação
em multimídia cria uma alegoria com essas e outras referências. (© Pernambuco.com)
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