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O DJ da ideologia

05-06-2008

Dolores: 'Posso resgatar a música do Brasil sem grana porque sou articulado, branco e de classe média'

Dolores quer valorizar a música excluída do Brasil

João Bernardo Caldeira

   O pernambucano Helder Aragão, 37 anos, conhecido internacionalmente como DJ Dolores, vive o melhor momento de sua carreira. Elogiado por gente como Caetano Veloso e David Byrne, ele foi premiado em janeiro com o Awards for World Music 2004, organizado pela rádio BBC de Londres, na categoria club global, destinada à eletrônica, logo após uma turnê de quatro meses na Europa. Agora ele acerta os últimos detalhes do segundo CD e não esconde sua alegria, ao conversar com o JB:

   - Espero que as coisas melhorem ainda mais no futuro!

   Uma faixa do DJ foi incluída no disco da premiação da BBC. Lá fora saiu também o álbum Electric Gypsyland, composto por remixes da música cigana dos Balcãs, um deles do DJ, que diz incorporar influências deste universo em seu trabalho.

   - Em 2003 fizemos 52 shows entre Europa e Estados Unidos. Mas não há nenhum deslumbramento ou rancor com o Brasil - diz ele, que agendou shows este anos em países como Macedônia, Eslovênia, Portugal, Alemanha e Turquia.

   Além de discotecar na noite, compor músicas próprias e fazer shows, Dolores faz tambbém trilhas para cinema, como a do filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé. O tema principal da película foi incluído numa coletânea do selo francês MK2 Music, que reúne trilhas do Brasil e de Cuba. Agora Dolores foi convidado para fazer as trilhas dos diretores Karim Aïnouz, Fabiano Maciel e Marcelo Gomes.

   Na verdade, tudo começou no cinema, já que Hélder Aragão criou seu nome artístico para assinar a trilha do filme de um amigo, em 1996. Anos antes, por puro hobby, ele já discotecava em festas apinhadas de amigos da cena mangue beat, como Chico Science e Fred Zeroquatro. Destacou-se tanto que abandonou a carreira de documentarista.

   - Vi que estava ganhando mais grana com música do que com TV - conta.

   Em 2002, o selo Candeeiro Records lançou o disco Contraditório, de Dolores e a Orquestra Santa Massa. As misturas inusitadas conciliavam as batidas eletrônicas, a rabeca arretada de Maciel Salustiano e os ritmos nordestinos. Em uma apresentação do grupo na França, Caetano Veloso subiu no palco para uma canja.

   - David Byrne também declarou que somos a melhor coisa que ele já viu em termos de laptop com banda. Um elogio nos ajuda a ganhar credibilidade, mas acho bacana se for do David, Caetano ou do meu vizinho - desmistifica.

   Em janeiro, Dolores dispensou a Santa Massa e montou a Aparelhagem, mantendo apenas a cantora Issar França. A banda já mostra que não quer apenas fazer a pista dançar, ainda que flerte com as batidas alucinantes do drum'n bass.

   - Tento imprimir uma linguagem relacionada com o Nordeste, mas sem concessões.

  Seus limites geográficos, na verdade, se estendem até a região Norte. Músicas como Azougue, que fará parte do CD, sintetizam a filosofia da banda.

   - O nome Aparelhagem vem das grandes festas de brega no Pará, o tecno-brega, próximo da house music. Na década de 70 surgiram as guitarradas, uma influência do chorinho, bossa nova e da música que chegava em Belém pelas rádios caribenhas. Apesar desses bailes reunirem 3 mil pessoas, há 20 anos, é uma música excluída da história brasileira - diz o DJ, que está produzindo um disco com mestres da guitarrada.

   E continua:

   - É a música do povo sem grana do Brasil. Quero resgatá-la por seu sentido político. Posso fazer isso porque sou articulado, branco e de classe média. Quanto tempo o funk carioca levou para atingir a classe média? O oposto disso é a MPB de bom gosto, como Simone. Os caras do morro são muito mais inventivos! Mas tudo o que vem do povo a elite abafa - acusa.

   Como DJ, Dolores não é um virtuose, nem mestre em técnicas como o scratch. Em sua pista, a ideologia está por trás da seleção de músicas, mas sem distanciar-se do público.

   - Meu sonho é que as pessoas cantem e assobiem minhas músicas. Quero me comunicar sem ser underground. Eu gostaria de conjugar experimentalismo, discurso político e, ao mesmo tempo, fazer um produto comerciável. Não vejo aí uma contradição, mas um desafio.

(© JB Online)

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