05-06-2008
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Ninguém Assistirá Ao Enterro Da Tua Última Quimera, Somente A
Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável!,
Este é o título completo do filme Di Cavalcanti di Glauber |
Mauro Ventura
Durante 25 anos, raros brasileiros tiveram a chance de ver “Di-Glauber”,
filme em que Glauber Rocha registrou o funeral do pintor Emiliano Augusto
Cavalcanti de Albuquerque e Melo, o Di Cavalcanti, em 1976. O curta-metragem
não pode ser exibido no país, por ordem da Justiça, que acatou pedido da
filha adotiva do artista plástico, mas graças a uma estratégia de João
Rocha, sobrinho do cineasta, as imagens foram parar na internet e em uma
semana 11 mil pessoas acessaram a página.
João recorreu a um provedor americano e disponibilizou o filme, recuperado
digitalmente, na grande rede. Quem quiser pode fazer o download gratuito de
“Di-Glauber”, nome pelo qual ficou conhecido o curta “Ninguém assistiu ao
formidável enterro de sua última quimera, somente a ingratidão, essa
pantera, foi sua companheira inseparável!”.
— Não temos interesse comercial. Tanto que estamos gastando dinheiro. Mas
queremos ver corrigido este erro que já se arrasta há 25 anos — diz João,
que é diretor do Tempo Glauber.
Idéia inicial da família de Glauber era reabrir processo
O curta estreou junto com “Cabeças cortadas”, mas, na própria noite de
estréia, Elizabeth Di Cavalcanti entrou com um pedido de busca e apreensão
do filme. Glauber passou a noite na delegacia, tentando resolver o problema.
Algumas cópias chegaram a passar em universidades, mas, desde então, a
família Rocha tenta, sem sucesso, a liberação da obra.
— Eu e dona Lúcia ( mãe de Glauber ) conversamos sobre entrar com a
reabertura do processo, mas é muita burocracia — conta João. — Então falei:
“Vó, existe um paliativo. Já que não se pode assistir na tela grande, que se
assista na pequena.” Como o filme está proibido aqui, mas liberado no
exterior, procuramos um servidor americano.
João diz que são comuns as manifestações de estranhamento com a decisão de
Elizabeth.
— Num papo com um grupo de estudantes de Harvard, um deles disse: “É um
absurdo que o mundo inteiro tenha acesso ao filme e vocês não” — explica
João. — Eles se ofereceram para pôr no servidor de lá. Um grupo da Sorbonne
também propôs que se usasse um servidor francês. Um pool mundial de
estudantes começou a se movimentar e eles até falaram: “Se você não liberar,
a gente vai liberar de qualquer jeito.” Não tinha como voltar atrás.
Nos primeiros dias, o número de acessos ao endereço
www.dicavalcantidiglauber.us tem sido tão grande que volta e meia aparece
uma mensagem automática avisando que a página está temporariamente fora do
ar. João sugere que os internautas tentem acessar à noite.
— Vou tentar distribuir o filme em vários servidores ao redor do mundo para
evitar o congestionamento — diz João.
Segundo João, Di afirmou a Glauber, em um de seus encontros nas esquinas de
Paris, na década de 70, que se o cineasta o filmasse ele ficaria muito
satisfeito. Glauber propôs o mesmo ao pintor, que disse:
— Vamos fazer um acordo, Glauber. Eu te pinto e você me filma.
Glauber riu e perguntou, ironicamente:
— Vivo ou morto?
— Claro!
Ao saber da morte do amigo, o cineasta correu com alguns amigos, entre eles
Cacá Diegues, e, com uma câmera 16mm, registrou as últimas imagens do
artista plástico — o velório no MAM e o sepultamento no cemitério São João
Batista.
O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977,
antes que Elizabeth processasse a Embrafilme e a Justiça proibisse a
exibição em território nacional. A filha de Di considerou a obra
desrespeitosa. Glauber justificou à época: “Filmar meu amigo Di morto é um
ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas
renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que
liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição.”
(©
O Globo)
Conheça o curta Di Cavalcanti Di Glauber
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