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Um DJ chamado Dolores

05-06-2008

Iara Venanzi

DJ Dolores

Cristina Ramalho

   DJ Dolores veio para confundir, não para explicar. A latinidade no nome sugere uma moça salerosa, talvez curvilínea, metida num vestido justinho. A profissão faz pensar numa garota moderna, cheia de brincos, dona do seu nariz. Nos shows, camarins podem ter flores, nos aeroportos, homens esperam um tipo de unhas vermelhas. Aparece um rapaz de jeans. “Já me acostumei com os mal-entendidos”, diverte-se o tímido Hélder Aragão, o DJ Dolores, 37, sergipano nascido em Propriá e famoso por ser o “primeiro punk de Aracaju”, aos 16 anos. O nome Dolores, aliás, não tem nada a ver com feminilidade. Foi escolhido por Hélder graças ao seu currículo de sujeito inconformado, figurino todo negro debaixo daquele sol do Nordeste. “É porque significa dores, em espanhol”, diz.

   Dolores combina com Morales, apelido do cineasta pernambucano Hilton Lacerda, com quem o DJ fazia uma dupla de criadores e designers gráficos muito elogiados no Recife, para onde p fse mandou aos 18 anos. Dolores virou cartunista de jornal, desenhou até para a coluna de Paulo Francis. Circulava com a turma jovem do mangue-beat, gente como Chico Science, o pessoal da Nação Zumbi, o jornalista Xico Sá, o cineasta Cláudio Assis (de Amarelo Manga), que inventariam um novo jeito de se expressar, seguindo à risca o famoso slogan da rádio local, “Pernambuco falando para o mundo”. Do desenho, Dolores passou à produção de filmes, dos filmes à composição de trilhas, e então chegou a duas descobertas fundamentais:

   1- Que podia muito bem fazer música sem saber partituras, usando computadores e músicos de verdade. “Sei combinar os ritmos, entendo a função dos instrumentos, estou estudando harmonia”.

   2- Que a sua mistura de ritmos podia ser tão política quanto as charges que criava no Jornal do Commércio. “Quero o brega, o popular, as raízes do Brasil com os sons eletrônicos, a classe média dançando a música desprezada pelos críticos. A música é aglutinadora”.

   E assim o primeiro punk de Aracaju botou para quebrar pistas e conceitos no Brasil e mundo afora. Sua música, mistura de sons nordestinos com batidas eletrônicas, virou hit em pistas européias e americanas. Tocou em vários países, festejado em dezenas de turnês. Agora em maio segue por todo o Leste Europeu, terminando na Inglaterra, onde é adorado. Seu CD Contraditório? gravado junto com a Orchestra Santa Massa, acaba de ganhar um prêmio da BBC, de Londres, na categoria club global, espécie de Grammy da world music eletrônica. Até David Byrne, o ex-músico dos Talking Heads que, entre outras coisas, botou Tom Zé no circuito internacional, se declarou fã: “Acabei de ouvir um grupo brasileiro com um cara chamado DJ Dolores. Foi uma das únicas vezes que vi um trabalho de computador combinado com músicos ao vivo que realmente funciona”, falou Byrne, agora diretor do selo Luaka Bop.

   “Sou sensível ao valor das tradições, mas os arroubos experimentais me seduzem como as sereias dos antigos marinheiros”, define-se Dolores/Hélder sobre

Contraditório?. A Orchestra Santa Massa é composta pela cantora Isaar França, que também divide uma banda com outras moças, a Comadre Florzinha; o MC e rabequeiro Maciel Salú; o ritmista Mr. Jam e umap fpenca de convidados. O som? Bom, tem música de folclore alagoano, canções nordestinas, composições de Dolores e parceiros, rabeca, sintetizadores, percussão, guitarra e sopros, tudo batido no mixer. Delícia de dançar. É um jeito de amalgamar ritmos e raízes já que a cultura do cabe tudo faz parte do dia-a-dia no Nordeste. “Lá o povo dança reisado e marujada na rua e liga o rádio, ouve Madonna, dança também”. Ele próprio, quando vivia em Aracaju, escutava o eletrônico alemão Kraftwerk e o punk do The Clash. Mas admite que só foi achar graça no carnaval de Recife depois de convidado numa festa de um bairro antigo. “É demais, quinze mil pessoas dançando, mesmo debaixo de chuva”.
 
   E com essas idéias musicais tão democráticas Dolores rodou por um sem número de discos e espetáculos. Fez turnê com Elza Soares e a Orquestra Pernambucana de Cordas no espetáculo Folias Guanabaras, de Ivaldo Bertazzo. Assinou a trilha do musical A Máquina, de João Falcão, o que fez seu nome despontar até no Japão. “Sabia que a trilha da peça vende bem no Japão?”, surpreende-se. Acompanhou ao vivo a festa de 35 anos do Balé da Cidade no Teatro Municipal de São Paulo.
 
   É dele a elogiada trilha do filme Narradores de Javé, de Eliane Caffé, assim como a de vários curtas. Tocou nos discos Tribalistas, Marítimo (Adriana Calcanhoto), e nos tributos a Reginaldo Rossi e a Luiz Gonzaga, Baião de Viramundo. Também voltou suas antenas a outros artistas do planeta, gente como um iugolasvo que faz sons meio ciganos, um polonês que toca rabeca, outro que brinca com folclore iídiche.
 
   A cada projeto, ele convida novos músicos. A Santa Massa, por exemplo, já acabou. No CD que começou a gravar recentemente, Aparelhagem, outros dão o ar da graça. A única a permanecer é Isaar França. “É a minha musa”, justifica ele. Aparelhagem vai trazer o fino do brega, ritmo paraense meio caribenho, sucesso absoluto no norte do país, mais coco e maracatu. O nome refere-se aos enormes sound systems que irradiam os sacolejos do brega em bilhões de decibéis – o som do baile em Belém bate lá na África. O disco vai ser lançado pelo selo que o próprio Dolores acaba de criar, o Azougue, que é como os fortes do sertão batizam uma bebida com limão, cachaça e pólvora.
 
   “Adoro o ritmo brega e todos os que são chamados de bregas, isso é o verdadeiro punk”, ele fala. É um Chacrinha dos sons eletrônicos esse Dolores. Veio para confundir, não para explicar.

(© Revista Ícaro)

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