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05-06-2008
SÉRGIO DÁVILA Alguém deveria fazer um estudo sobre a arte do aplauso. O ato de chocar uma mão na outra, produzindo som em sinal de satisfação, é revelador tanto da platéia que aplaude quanto do artista que é aplaudido. No Brasil, em apresentações musicais e de teatro, costumamos aliá-lo a assobios agudos e gritinhos, além de todos se levantarem das cadeiras. Nos EUA, não é raro ouvir gritos de "bravo!" ou "brava!" acompanhando as manifestações, especialmente em concertos; nas peças, como não são tão "cordiais" como nós, só se levanta quem realmente achou o espetáculo inesquecível, não há demérito nenhum em ficar sentado. Já o japonês é mais contido, mas persistente -são aplausos secos, mas duradouros. Na verdade, alguém já fez esse estudo. Está no livro "Gestures, Their Origins and Distribution" (Gestos, Suas Origens e Ocorrências, ed. Stein and Day, 1979), de Desmond Morris, em que de quebra o zoologista revela a origem do dedo médio esticado como ofensa e do polegar levantado como sinal de que as coisas vão bem. Segundo Morris, o aplauso é parcialmente instintivo, pois bebês de meses de idade já o fazem em sinal de felicidade. Foi em sinal de felicidade que milhares de japoneses aplaudiram por 25 minutos o final de uma das apresentações de João Gilberto em Tóquio. Pense na última vez que você aplaudiu e se imagine fazendo isso por 25 minutos. Existe algum artista que mereceria tal deferência? Vinte e cinco minutos. Diz a lenda que o aplauso mais longo registrado antes desse foi para a lendária Maria Callas (1923-1977), no teatro La Scala, de Milão. Claro que os 25 minutos não estão registrados no CD "João Gilberto in Tokyo", que a Universal lança agora no Brasil. Mas poderiam, pois todas as faixas e o conjunto em geral merecem. São 15 músicas apresentadas por
João, ele e violão, que abre a noite de 12 de setembro de 2003 no Tokyo
International Forum Hall A falando "Kon-ban-wa" (boa-noite, em japonês) e
dedilha em seguida repertório que vai de "Bolinha de Papel" a "Rosa Morena",
passando por "Lígia" e outras, como sempre. Como sempre? Não exatamente. Primeiro porque é o primeiro registro em CD da linda "Louco", de Henrique de Almeida e Wilson Batista, que João cantou na Itália conforme mostra o documentário "Bahia de Todos os Sambas" (1984-96) e canta eventualmente aqui e ali, mas nunca tinha gravado em disco dele. Segundo porque, embora há alguns anos o baiano da bossa se dedique às mesmas 30 músicas, na maioria sambas velhos que ele desenterrou e deu nova forma ou marcos do movimento que ajudou a inventar, uma apresentação nunca é igual à outra, um registro seu, embora aparentemente idêntico na forma, traz detalhes diferentes que só o iniciado é capaz de perceber. (Pois que João é para iniciados, que o resto nos perdoe.) Assim, em "Corcovado" ele cantarola entre um bloco e outro, triste, triste; revoluciona o final de "Wave", mudando toda a estrutura do violão e terminando em agudo; e reinventa completamente "Adeus América". Como escreve no texto de divulgação Kazufumi Miyazawa, cantor (e não "cantora", como vem identificado incorretamente) da banda The Boom, "João é o equivalente do Brasil". Só que melhor. João Gilberto in Tokyo (© Folha de S. Paulo)
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