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05-06-2008
Homenageado no Rio, o escritor Ariano Suassuna se diz mais tolerante, mas continua em campanha contra música estrangeira Helena Aragão Se fosse personagem de cordel, Ariano Suassuna poderia inspirar folhetos interessantes. Com títulos quilométricos, como é de praxe, do tipo O cavaleiro defensor do Brasil contra as invasões culturais dos enviados de Tio Sam, ou A luta do mestre invocado em favor dos valores nacionais. Até onde se tem notícia, ele ainda não virou mote de histórias populares. Mesmo assim, uma aura de lenda envolve as opiniões radicais do escritor paraibano de 76 anos em favor da arte brasileira. A simples citação de seu nome numa conversa pode gerar discursos apaixonados, para o bem e para o mal. Isso não é novidade. O que surpreende a ele mesmo é a mudança de seu comportamento diante das reações.- Se eu ganhei algo com a velhice, foi uma certa serenidade. Antigamente, era muito mais intolerante, me irritava com as críticas. Hoje não me angustio. Acho até graça - conta Ariano, que está no Rio para ministrar duas aulas-espetáculo no Sesc-Copacabana. Que os críticos não se animem. O homem que chamava Chico Science de ''Chico Ciência'' e criticava a mistura de maracatu com rock do líder do Nação Zumbi (''Não sei como uma coisa ruim pode valorizar coisas boas'') continua o mesmo. Detona a invasão cultural com sua oratória privilegiada, treinada com os romances narrados na infância e nas décadas em que foi professor de estética na Universidade Federal de Pernambuco. As opiniões não foram abaladas pela serenidade. Mas estão cada vez mais bem-humoradas. - Outro dia um primo me mostrou uma carta que escrevi aos 19 anos. E já tinha tudo isso que defendo hoje. Podem me acusar de tudo, menos de incoerência. Não mudo minhas convicções. Ele continua metódico também. Acorda cedo, escreve todo dia, religiosamente, pela manhã. Gosta de ficar em casa, no bairro de Casa Forte, em Recife, cercado de suas obras de arte. Vê TV de vez em quando. Não vai muito ao cinema e ao teatro, mas não porque desgoste destas artes. - É por medo de sofrer vendo coisa ruim mesmo. Felizmente, tenho vídeo e agora DVD para me salvar. Na TV, defendo uma campanha para banir a música estrangeira. Outro dia, ouvi minhas empregadas cantando Com que roupa, do Noel Rosa, porque está tocando na novela. É só oferecer música boa que as pessoas curtem. Não se deve subestimar o gosto popular. Famoso por sua aversão a avião, ele segue com horror a viagens. Mas tem viajado à beça. - Não gosto de viajar de jeito nenhum, nem para perto, de carro ou de ônibus. Por mim não saía de casa, acontece que não posso recusar convite de certos amigos. Foi assim em fevereiro, quando abriu um seminário da Rede Globo em São Paulo com uma palestra (leia abaixo). E agora, que está de volta ao Rio, depois de dois anos longe da cidade. As aulas-espetáculo vão encerrar uma semana de eventos em sua homenagem no Sesc. O Encontro com Ariano Suassuna, organizado pela atriz Inez Viana, levou vídeos, peças, exposições e shows que mostraram como a filosofia armorial - que valoriza as raízes culturais do Nordeste -, difundida por ele desde os anos 70, tem sucessores em todas as artes. São artistas como o grupo pernambucano de dança Grial, criado por Ariano e a coreógrafa Maria Paula Costa Rego. E o conjunto carioca Gesta, que lançou no evento seu primeiro disco com toadas, repentes e desafios, que tem a participação do paraibano em uma faixa. A reverência ao escritor já é antiga, mas a amplitude do evento reflete uma boa fase. - Tive épocas mais difíceis. Nos anos 80, por exemplo, estava falando praticamente sozinho. Agora, ando mais esperançoso. Acho que a juventude de hoje está mais consciente das coisas da terra. A questão é ver se é só modismo ou é coisa séria. Modismo é algo que, definitivamente, nunca fez a cabeça do dramaturgo. - Em geral eu dava o exemplo do Michael Jackson, mas este rapaz está tão decadente que prefiro nem falar mais mal dele. Os artistas não devem se satisfazer com linha do modismo. Sucesso é uma coisa efêmera. O êxito, isto sim, é coisa rara. Ele fala com a certeza dos que experimentam a constante busca pelo tal êxito como escritor. A pedra do reino (1971), seu romance mais famoso, há tempos esgotado nas livrarias (e prestes a ser relançado pela Editora José Olympio), levou 12 anos para ser escrito. Atualmente, dedica-se a outro livro, ainda sem título, que já está virando lenda. - Não tenho nem coragem de dizer há quanto tempo estou escrevendo este romance... Tenho uma frase de São Tomás de Aquino como guia: tudo que pode ser feito, pode ser bem feito. O rigor com seu próprio trabalho pode fazer supor que Ariano seja estrito em relação a adaptações de sua obra teatral para o cinema. Pelo contrário. Aí é ele que bate nos puristas. - Reclamo de quem exige extrema pureza da arte, isso acaba a desumanizando. A pureza acaba gerando um tom muito acadêmico, que é prejudicial. Fui professor de estética, sei que a transposição de uma obra de um meio para outro sempre acarreta mudança. Por isso, ele diz que não tem nada a objetar das adaptações para a TV feitas por Guel Arraes (O auto da Compadecida, mais tarde exibido nos cinemas) e Luiz Fernando Carvalho (Uma mulher vestida de sol e A farsa da boa preguiça). Tanto que, com seu apoio, os cineastas foram convidados a participar do evento do Sesc, e dividiram um debate com o escritor Bráulio Tavares, o músico Antônio Nóbrega e o ator Matheus Nachtergaele ontem à noite. Também em outro assunto polêmico, a política brasileira, Ariano é a voz do apaziguamento. Está feliz com Lula no poder, e com Gilberto Gil no MinC. - Votei quatro vezes no Lula, não me arrependo. Sua chegada não causou mudanças mágicas, e nem poderia, são séculos de herança maldita. É a primeira vez que um filho do Brasil real vira presidente. Estou entusiasmado com suas posições para a política externa. Não passou a vergonha que a Espanha passou ao entrar na guerra do Iraque. Está se aproximando de China, Rússia e Índia, uma ótima estratégia. E ainda escolheu um negro para o Ministério da Cultura, o que me tocou muito. (© JB Online, 07.05.2004) De autor a personagem A ligação de Ariano Suassuna com produções audiovisuais não tem se dado apenas pelas adaptações de seus textos para o cinema. Em 1999, ele foi o narrador do documentário Cavalgada à pedra do reino, que mostra a festa popular homônima no sertão pernambucano. Em 2001, virou personagem do irônico curta-metragem Resgate cultural, do grupo Telefone Colorido, formado por artistas plásticos recifences. Na ficção, o escritor é seqüestrado por terroristas ainda mais radicais em favor da cultura nacional, que exigem rabecas e pinturas armoriais para devolvê-lo.Agora, sua palestra promovida pela Rede Globo no auditório da PUC-SP em fevereiro serviu de base ao programa A mulher do piolho, dirigido por Zelito Viana, a ser exibido segunda, às 22h45, no Canal Brasil. - O título vem da história de uma personagem que, segundo ele, tem uma teimosia em sobreviver igual à da cultura brasileira. O documentário mostra a reação da platéia, da qual faziam parte cineastas, escritores e atores, ao discurso de Suassuna. Frases contra a presença da cultura americana (''Estamos abrindo mão da nossa língua, tão bela, por uma bárbara, feia e difícil'') fizeram com que muitos saíssem irritados. - Ele diz que radicaliza demais para um lado porque muitos forçam a barra do outro. Às vezes, se define como cultivador da mentira. É difícil crer que algumas histórias sejam verdade, como a de que não sabia quem era John Lennon. Ele é um showman - diz Zelito. O melhor do filme são vai as frases de efeito de Suassuna: ''Só tem homem feio na ABL, somando a idade de todos nós, deve dar uns 3 mil anos'' e ''Sou contra falar mal das pessoas pela frente, constrange quem fala e quem ouve. Não custa nada esperar virar as costas''. Na melhor de todas, parece falar de si mesmo: ''Gênio de gosto médio nunca existiu''. (© JB Online, 07.05.2004)
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