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05-06-2008
Patativa do Assaré, morto aos 93 anos, deixou uma obra que chegou a ser estudada na Sorbonne, em Paris Gilmar de Carvalho Assaré significa atalho. Passagem das boiadas para o Piauí, a meio caminho entre o quase desértico Inhamuns e o oásis que é o Cariri. Gado que marcou sua economia e impregnou seu imaginário. Às margens do rio dos Bastiões foi fundada essa vila. A 18 km dali, na localidade Serra de Santana, nasceu Antonio Gonçalves da Silva, a 5 de março de 1909, filho de pequenos proprietários rurais. Aos quatro anos perdeu um olho, aos oito perdeu o pai e, a partir daí, passou a trabalhar as terras que herdou com os irmãos. A mãe contava histórias e cantava uma Asa Branca, da tradição popular. A leitura coletiva do primeiro cordel lhe deu a certeza de que seria poeta. Teve apenas quatro meses de escola. Alfabetizado, dedicou-se, com voracidade, às leituras: Camões, os poetas românticos brasileiros e o Tratado de Versificação (de Bilac e Passos), que lhe deu as normas do fazer poético. Aos 16 anos, vendeu uma ovelha para comprar uma viola e passou a se apresentar na Serra e redondezas. Todos queriam ouvir o menino violeiro. Viajou para Belém, em 1928, e lá ganhou o epíteto de Patativa, pelo canto mavioso. Voltou e, durante vinte e cinco anos, trabalhou a terra e compôs sua obra. Na roça, afastava-se de todos para criar poemas que, à noite, passava para o papel. Era convidado para apresentações ao som da viola. Fez fama. Seus poemas passaram a ser transmitidos, oralmente, pelas brenhas do Sertão. Às segundas, ia à feira do Crato vender sua produção, encontrar os amigos e tomar uma boa cachaça. Passou a recitar seus poemas na Rádio Araripe. José Arraes de Alencar o ouviu e teve a idéia de publicá-lo. Nasceu Inspiração Nordestina, seu livro de estréia, em 1956. Patativa continuou seu trabalho no campo, que só abandonaria aos 70 anos, por insistência de dona Belinha, mãe de seus nove filhos, com quem casara em 1936. Comprou uma casa na praça da matriz de Assaré, para onde se mudaram. Curiosa essa relação de Patativa com a terra. Ela revigorou sua poesia, que brota do chão, funde natureza e cultura, voz ancestral e uma preocupação política. Em 1964, Luiz Gonzaga ouviu um violeiro cantar a Triste Partida e gravou esse manifesto ético e estético do Nordeste. Era o canto amplificado, por meio do disco. Patativa continuou trabalhando a terra, vivendo os mesmos dramas de todos os camponeses. Com o golpe de 1964, teve sua prisão decretada e colaborou com jornais alternativos, contrários ao autoritarismo. Veio outro livro: Cante lá que eu canto cá (1978), que lhe deu uma amplitude nacional. Em 1979, participou da luta pela Anistia. Foi homenageado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e gravou o primeiro disco. Conheceu Fagner e fizeram de Vaca Estrela e Boi Fubá outra referência. Participou das “Diretas Já”, em 1984. Publicou outros livros e continuou morando na sua Assaré, acolhendo em casa todos aqueles que queriam conhecê-lo. É doutor honoris causa de quatro Universidades, premiado nacionalmente (pelo Ministério da Cultura). Tem comendas (Medalha da Abolição) e, aos 90 anos, ganhou um Memorial em sua cidade, que faz um apanhado de sua trajetória de trabalho e vida. Patativa do Assaré fez da reforma agrária um de seus temas recorrentes. Canta a tradição, antenado com a contemporaneidade: faz uma poesia comprometida com um mundo mais justo, e não um manifesto militante. Poeta roceiro, a partir de sua aldeia cantou o mundo. Chegou à Sorbonne, onde foi estudado por Raymond Cantel, é captado pelos radinhos de pilha e lido nas bibliotecas. Objeto de teses acadêmicas e de matérias na mídia, tornou-se, para sempre, uma referência na poesia nacional, com as mãos calejadas e a voz rascante, que ecoa como um aboio sertão adentro. Como diria Drummond, com todo “o sentimento do mundo”. Gilmar de Carvalho é escritor (© Continente Multicultural) Cantiga de pé-quebrado ao poeta passarinho Eleuda Carvalho Dos 93 anos que Antônio Gonçalves da Silva bem viveu, quase todos foram na forma alada de Patativa do Assaré, poeta do povo, a quem cantou por rimas exatas e bem medidas que, se aboiavam à beleza áspera do Sertão nosso nordestino e ao viver errático de socorrer-se do céu, também glosaram sobre a justiça aqui mesmo na terra, anunciando (qual Federico García, de Espanha) a possível revolução. Metáfora aos vivos: o pinto dentro do ovo bate o bico pra poder se libertar. Nem todos os discursos articuladíssimos dos teóricos e acadêmicos e intelectuais penetraram tão fundo mentes e corações. Patativa do Assaré já tinha cabelos brancos e pernas trôpegas quando o vi a primeira vez, em corpo pouco e alta voz. Muito antes, na sala de reboco da casa do meu avô, em ondas que vinham de um rádio capelinha posto em semi-altar, numa demonstração óbvia de grande consideração, ouvia e imaginava cenas ao lamento chorado de Gonzaga, que cantava a sina de uma família tangida pro Sul, sob o açoite da seca. E eu chorava, a menina da canção largava o gato, o pai abrindo a porteira, vendia o burro, o jegue e o cavalo. Era como se aquela e eu fôssemos uma mesma menina, e por mim e por ela me danava a chorar. E nem sabia de quem eram aqueles versos pungentes que pinicavam a minha infância. Theatro José de Alencar, idos de março ou abril, 1979. Um movimento chamado Massafeira Livre, reunião de músicos-artistas plásticos-atores-artesãos-descolados em três dias que eram pra ficar na história de Fortaleza. No palco, o psicodélico Perfume Azul, a ciranda de Ângela Linhares, Teti, Rodger Rogério, Ednardo, Pessoal do Ceará. Entre cabeleiras e guitarras, palavras de ordem e desacato, o homem velho, enxuto de carnes, chapéu de massa e bengala, óculos ray-ban e camisa volta-ao-mundo. Suas palavras brotavam da experiência e foram polidas pela arte dos bardos, ecos de Camões e Castro Alves, cantigas de amigo, de amor, de maldizer, épica de um Homero matuto e nem por isto menor, talvez mais altaneiro, creio. Na verdura dos 20 anos, aquele canto tremido mas firme, sincero, buliu-me idades mais tenras. E voltei, no galope do pensamento, ao aconchego de taipa e couro dos meus ancestrais. Então, foi aquela a primeira vez que o vi. Fazia Letras, na época, mas a poesia do cordel e do improviso mal coubera nos currículos escolares. Patativa do Assaré, embora estudado na França, era para nós uma sonora novidade. Contudo, a força da sua arte, a musicalidade de seus versos, tantas vezes indevidamente apropriados, abrindo caminhos, transpunham porteiras, Ispinho e Fulô cantados aqui, ali, acolá. Foi quando se deu a segunda vez. A Praça do Ferreira era uma praça de guerra, horríveis blocos de cimento armado impedindo a visão, o vento e a paisagem. E a passagem do povo. Porém, era por ali mesmo que a massa se juntava, cada dia era maior, um clamor pela Anistia, o último dos generais ainda firme nas rédeas do poder, havia lá longe um muro em Berlim, a União Soviética era um sonho por trás de cortinas de ferro. Pequeno e pouco, Patativa abria asas sobre o povo na praça, sob o azul violento do céu, seu dotô, me dê licença. E poetava. Passou-se. De ouvinte virei entrevistadora, de cara com o poeta, falando alto ao seu ouvido mouco. Era com o coração que ele escutava. E de cor, entre a prosa da palestra, ele ia tecendo manhãs em sonetos, dava som à voz calada, há tanto tempo, de Antônio Conselheiro em Canudos, do padre Henrique assassinado no Recife, a heróis anônimos do povo de que fazia parte e de quem nunca se apartou, vaqueiros, agricultores, romeiros, parceiros sem terra nem gado, menino, homem e mulher. A natureza, também, fonte inesgotável. Antônio nasceu em 5 de março de 1909, no alto pedregoso e reluzente da Serra de Santana, um tabuleiro raso nos sertões do Cariri chamado Assaré. Ainda rapazola, bota a viola no ombro e vai seduzir cearenses desgarrados pelo Belém do Pará. Dessa viagem em diante, vai ostentar o nome que lhe dará fama e sucesso, e dinheiro nenhum: jamais o poeta fez comércio de sua musa, como costumava dizer. Cansou-se logo da errância dos cantadores, por amor de Belinha, sua mulher e seus cuidados — a penca de filhos a criar. Então, como fizeram seu pai, seu avô, seu bisavô, armou-se de enxada e paciência e do raso enfezado da terra tirou, por 70 longos anos (dez vezes mais do que Jacó serviu a Labão, por amor de Rachel, serrana bela), o de comer de todo dia. Enquanto riscava sulcos na terra, a mente também iria arando. Um verso por vez, escandido na cachola, fixado, raiz pegada, a outro que se lhe seguia, até que todo o pensamento estivesse alinhado em versos onde não faltaria uma sílaba sequer. De estudo, mesmo, Antônio fruiu quatro meses, o que bastou para decifrar o manual do aluno sertanejo, a cartilha de Felisberto de Carvalho que tantas gentes desasnou. A outra escola entrou pelo ouvido, não saiu pelo outro: os cordéis cantados nas feiras, os clássicos lidos nos gabinetes de doutores que ele freqüentou, bom convidado. E aquilo que não se aprende no colégio, nem vem de herança. Talento, sim. Inspiração e suor. Memória privilegiada que derramava sobre o interlocutor o milheiro e mais de versos de sua invenção. E quando, já bem mais velho agora, a Onça Caetana deu o bote no seu pescoço, os rins batendo biela, o pulmão retinto de tabaco (vício que nunca largou, de vez), a perna troncha de um acidente de três décadas passadas cobrando pedágio, o olho que vinha azulando de todo, ainda essa mente que cria, essa memória que guarda, essa boca que repete. Segunda-feira, 8 de julho, o dia ia indo embora, o poeta fez um pedido derradeiro: “Morte, me leve sem dor”. E a Moça Caetana aquiesceu. Eleuda Carvalho é jornalista (© Continente Multicultural)
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