Notícias
Sem esperança não há caminho

05-06-2008

Manoel Marques

Ariano Suassuna

 

   A casa fica em Casa Forte, no Recife que escolheu aos dez anos. Do portão se vê uma pequena multidão. Câmeras posicionadas, microfones, gente espiando. Um entra-e-sai sem fim. O assessor explica que há anos o paraibano pretende terminar novo romance. Naquela correria, não é possível. Resolveu deixar a cidade. Só volta para alguns compromissos. Naquela tarde não eram poucos. Um documentário, um trabalho de universidade, além de visitas inesperadas e da entrevista para a edição comemorativa de cinco anos do ALMANAQUE BRASIL. Mas ele não demonstra cansaço. Enquanto chuva e tarde caem sobre o Recife, assobia uma melodia e se volta para o entrevistador: “Conhece?” Esse é Ariano Suassuna, autor de obras-primas como a peça O Auto da Compadecida (1955) e o romance A Pedra do Reino (1971). “Um escritor de emblemas”, cuja obra não se limita aos textos. Homem de idéias e ideais, defensor entusiasmado da riqueza da cultura popular. E para os que vacilam em relação aos rumos do Brasil, dispara:

“SE PERDERMOS ATÉ ESPERANÇA,
NÃO HÁ CAMINHO PARA NÓS”

Na infância você lia almanaques, o Lunário Perpétuo?

Assim que me alfabetizei, comecei a ler de tudo. E lia muito os almanaques, o Lunário. Gostava muito de um almanaque português, o Almanaque Bertrand. Prestei minha homenagem a ele em meu romance A Pedra do Reino. Toda a “cultura” de Quaderna, o personagem principal, é fundamentada no que ele chama de Almanaque Luso-Brasileiro. No fim é uma máscara, um disfarce da cultura luso-brasileira.

Uma coisa que me entusiasma muito no almanaque é que ele se volta à figura do humanista. Nesse mundo técnico, de especializações, o que me encanta é que ele tem uma visão geral. Há charge, caricatura, anedota, informação histórica, conto literário, charadas, enigmas. Quando menino, gostava muito de decifrar as cartas enigmáticas, inclusive as dos almanaques modestos que chegavam ao sertão. Tinha o Almanaque da Salsaparrilha, do Doutor Ayer. E também o do Biotônico Fontoura, onde travei conhecimento com Monteiro Lobato.

Eram leituras que me encantaram profundamente na adolescência, e ainda hoje encantam. Tanto assim que mantive coluna na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, chamada Almanaque Armorial. Em princípio, eu escrevia no primeiro caderno. Depois, como queria dar uma feição mais literária à minha colaboração, me transferiram para a Ilustrada. Foi aí que botei o título Almanaque Armorial, que já tinha usado aqui em Pernambuco num jornal que se extinguiu.

E os almanaques sertanejos?

Eles eram feitos pelos chamados “profetas sertanejos”. Às vezes eram cantadores, às vezes não; às vezes traziam gravura, às vezes não. Entrei em contato com eles logo menino. São herdeiros diretos do Lunário Perpétuo. Muitas das informações que eles publicavam eram obtidas do Lunário, que era uma espécie de almanaque maior, uma grande referência.

Até hoje existe um, publicado todo ano por José Costa Leite. Ele é paraibano, mas, como eu, mora em Pernambuco, só que em Condado. É gravador e poeta popular. Até bem pouco tempo existia o famoso João Ferreira, cujo almanaque era muito esperado pelos sertanejos para começar a plantar. Era um instrumento de trabalho.

No sertão todos liam?

Os almanaques, por natureza, não eram elitistas. Eram leituras para a maioria. Num país em que o público ledor é pequeno, eles eram os livros de maior leitura, porque permitiam acesso, eram populares. Você veja, no Brasil o escritor muito conhecido, que vende como Jorge Amado, por exemplo, quando muito chega a 70 mil exemplares. Isso num país de 170 milhões de habitantes. É muito pouco.

Você acompanha as publicações da imprensa?

Eu leio muito, mas só literatura. As revistas me dão até um pouco de agonia na cabeça. Não gosto muito, não. A maioria é de uma frivolidade muito grande, não me interessam. Tenho horror ao chamado “gosto médio”. Prefiro o mau gosto ao gosto médio. E a maioria das revistas é feita buscando esse maldito gosto médio.

Quando surgiu seu interesse pela literatura?

Foi muito cedo. Tive a boa sorte de encontrar algo que não era comum. É incomum hoje, quanto mais naquela época. Meu pai tinha uma biblioteca muito boa, de maneira que eu comecei logo a ler. Além disso, de uma família de nove filhos, eu era o oitavo do geral e o último dos homens. Meus irmãos mais velhos, que já estavam estudando no Recife, levavam livros para o sertão da Paraíba, onde eu morava. Comecei a ler esses livros. Eram livros de aventura, romances policiais. Lia tudo, devorava.

Tinha alguma preferência?

Gostava dos livros de aventura, como Scaramouche, de Rafael Sabatini. Esse livro foi profundamente importante para mim, e ainda hoje é. De modo geral, gosto mais de reler do que ler. E esse livro leio várias vezes, ainda hoje, com 76 anos.

Por que gosta tanto dele?

Uma coisa que me encanta é que uma das partes mais importantes da ação ocorre com uma companhia ambulante de teatro, o que, por motivos óbvios, representa um grande campo para mim.

Quando você começou a escrever?

Aos 12 anos. Me tornei um grande leitor, e por isso comecei a admirar os escritores, a querer me tornar um deles. Meu primeiro conto era horroroso. Era uma história de crime e sangue. Era horrível, de uma violência enorme.

Como era a história?

Veja você, só depois percebi por que tinha escrito aquela história. Em 1932 os paulistas, que desde 1930 vinham quebrando as cristas com Getúlio Vargas, fizeram um levante. E Getúlio convocou policiais e voluntários do Brasil todo para reprimi-lo. Um oficial da polícia paraibana que estava em Taperoá foi solicitado. Quando voltou, soube que havia sido traído pela mulher. Na manhã seguinte, pediu a ela para fazer um café. Quando estava na beira do fogão, ele deu um tiro em sua nuca. Essa foi a primeira pessoa que vi morta. Minha mãe proibiu que a gente fosse, mas fui escondido. Fiquei muito impressionado. Me arrependi muito de ter desobedecido.

Sua mãe estava certa...

Pois é, naquela noite quase não dormi. Mas acho que, apesar de não fazer isso conscientemente, acabei me baseando nessa história para escrever o conto.

E era mesmo ruim?

Era. Mas você vê como a crítica literária se engana? Dei o conto para minha irmã, dois anos mais velha do que eu, e ela disse: “Isso tá bom demais. Não foi você que fez, não.” Já aí comecei a ser incompreendido pela crítica. Era péssimo, mas ela achou que era tão bom que eu não poderia ter escrito. Depois comecei a escrever poesia, e não parei mais.

Na adolescência você já tinha pretensão de ser escritor profissional?

Isso foi surgindo aos poucos. Tinha dez anos quando vim estudar no Recife. No colégio interno tinha uma revistinha em que escrevi algumas coisas. Publicar mesmo em jornal só aos 18 anos, em 1945. Um professor de Geografia corrigiu uma prova que fiz e descobriu que tinha vocação literária. Pediu para que eu trouxesse um poema. Eu levei e ele pediu emprestado, sem dizer pra quê. Aí levou para o Jornal do Commercio, que publicou. Tive uma alegria enorme quando chegou o domingo e o poema estava no jornal.

Mas, Ariano, esta história está meio esquisita. Como é que um professor de Geografia descobre através de uma prova que você tinha vocação literária?

Eu era estudioso, era muito bom aluno. Agora, realmente, nessa prova eu não estava muito bem informado. A prova era sobre o relevo brasileiro. E, como não sabia muito, danei-me a fazer divagações literárias. Falei do Planalto Central, do Rio Amazonas, das coisas mais óbvias. E então comparei com as esculturas do Aleijadinho e citei uns versos de Drummond que sabia decorado: Esse mulato de gênio / Lavou na pedra-sabão / Todos os nossos pecados. Quando ele foi entregar as provas, deixou a minha por último, e disse: “Fiquei com essa, pois de Geografia ela tem muito pouco, mas essa pessoa que escreveu tem vocação literária. Quem é o autor?” Então me identifiquei.

E recebeu uma nota boa?

Sim, ele botou uma nota boa. Me virei com a literatura. Na verdade, me valia muito da literatura para fazer minhas provas. E sempre obtinha êxito.

Seu interesse pela cultura popular surgiu nessa época?

Repare bem, muito menino vi duas coisas que me impressionaram muito. Uma foi a primeira cantoria. Vi dois cantadores lá em Taperoá. Tinha uns oito, nove anos. Um deles era um dos maiores cantadores que já existiram no Nordeste, Antonio Marinho. Meu irmão Lucas me levou para ouvi-lo. À certa altura, Marinho parou o improviso e cantou um folheto que sabia decorado. Meu primeiro contato com a poesia popular foi nessa noite. Lembro que me impressionei profundamente com o folheto. Além do mais, ele tinha dons de ator. Tocava a viola, cantava o folheto e com a cara representava a ação.

E a segunda experiência?

Foi quando um primo me levou para ver, no mercado de Taperoá, num dia de feira, um espetáculo de mamulengo, o teatro popular de bonecos. Me deixou deliciado. Pra você ter idéia da importância que isso representou para mim, a peça apresentava um personagem negro chamado Benedito. Ele era valente, dava surra na polícia. Em 1930 passei por uma experiência muito ruim. Minha família foi perseguida. Tinha uma antipatia danada da polícia. Quando vi o herói negro dar uma surra neles, fiquei morrendo de alegria. Se você ler uma peça minha chamada A Pena e a Lei, verá que o primeiro ato é encenado como uma peça de mamulengo, e o personagem principal é um negro chamado Benedito.

Como a cultura popular se tornou objeto de trabalho?

Foi muito importante a leitura dos livros de um pesquisador cearense, hoje injustamente esquecido, chamado Leonardo Motta. Ele foi um dos pioneiros em recolher os versos dos cantadores, os folhetos, as histórias populares. E ele era amigo pessoal de meu pai, a quem dedicou um de seus livros. Na biblioteca de papai encontrei sua obra. A essa altura os livros já tinham se tornado sagrados para mim. Quando vi aqueles cantadores serem objetos de livro, percebi que eles eram mais importantes do que eu pensava. Isso me chamou a atenção para a importância, inclusive literária, do romanceiro popular do Nordeste.

Você se preocupa com os rumos da cultura popular frente ao interesse crescente da mídia?

O interesse não é problema. O ruim é quando há deturpação. A modificação é inerente à arte popular, que é profundamente dinâmica. Os estudiosos do chamado folk lore é que estão preocupados com isso. Digamos que um deles tenha registrado um cavalo-marinho na década de 1950. Aí ele volta em 2004, vê o mesmo espetáculo, na mesma região, e fica espantado: “Tá deturpado.” Não. Isso faz parte da característica dessas manifestações. Elas mudam continuamente. E muitas vezes passam de uma manifestação para outra. Por exemplo, peguei O Auto da Compadecida de um folheto de um grande poeta popular, Leandro Gomes de Barros. Ele se chamava O Enterro do Cachorro. Mas eu transportei para o teatro. Evidente que modifiquei, porque estava fazendo outra arte. Assim como Leandro já tinha modificado, porque a história vem do século 5.

Qual manifestação popular você considera a mais identificada com o Brasil?

Impossível falar. Todas elas são importantíssimas. E não são opostas, são complementares. A importância de um folheto de cordel é a mesma de um cavalo-marinho, de um auto de guerreiros. Elas se interpenetram e se influenciam.

Há alguma que você, pessoalmente, acredita que sintetize o espírito brasileiro?

A gente pode dizer até que gosta de alguma especialmente, que se identifica mais. Mas não que a literatura seja mais importante que a música, ou vice-versa. Agora, se você mandasse eu escolher, escolheria o folheto de cordel. Não que o considere mais importante. Mas o folheto tem fundidos nele três tipos de arte: poesia; artes plásticas na capa, a xilogravura; e a música, porque é cantado, acompanhado por viola ou rabeca.

Quem você considera o maior cordelista brasileiro?

Dos mortos, Leandro Gomes de Barros. Dos vivos, Francisco Salles Areda. Sem dúvida.

Você se interessa pelas manifestações musicais pernambucanas?

Gosto muito do maracatu rural. Enquanto o maracatu nação é uma manifestação quase exclusivamente herdeira da cultura negra, o bumba-meu-boi da ibérica, os caboclinhos da indígena, o maracatu rural tem fundidas essas três raízes da cultura brasileira.

Antonio Nóbrega defende que cultura popular não é folclore. O que acha da diferenciação?

A palavra folclore é muito antipática, inclusive tem um sentido pejorativo. Ele tem razão. Não gosto quando aplicam em relação à minha obra por dois motivos. Primeiro, porque não gosto desse espírito com que é pronunciada a palavra folk lore. E em segundo lugar, porque está errado. Nem toda arte popular é folclore. Um verso de Francisco Salles Areda, por exemplo, é literatura popular, mas não é folclore. Um espetáculo como o bumba-meu-boi é. Eu não gosto da palavra, mas, se for para usar, que use certo. A obra folclórica é anônima, ou o autor foi esquecido. E, além disso, tem contribuições da coletividade ao longo de anos em um mesmo espaço. O bumba-meu-boi encenado em Paulista é de um jeito, em Muribeca é de outro. Tem um núcleo que é comum, que é herdado da tradição popular, mas cada grupo recria à sua maneira. Dizer que uma peça minha é folclore, além de ser antipático, é um absurdo.

Você se considera otimista em relação ao futuro do País?

Estou perfeitamente consciente da distância entre meus sonhos – e o de todos nós – e a realidade. Sou um escritor que vê o mundo através de emblemas. Acho que o dever de todos nós, escritores brasileiros, é colocar, mesmo que a realidade seja dura e cruenta, um sonho mais belo e alto que possa mover o povo. Porque se perdermos até a esperança, não há caminho para nós.

(© Almanaque Brasil)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia