|
Manoel Marques
 |
|
Ariano Suassuna |
A casa fica em Casa Forte, no Recife que escolheu aos dez anos. Do
portão se vê uma pequena multidão. Câmeras posicionadas, microfones, gente
espiando. Um entra-e-sai sem fim. O assessor explica que há anos o paraibano
pretende terminar novo romance. Naquela correria, não é possível. Resolveu
deixar a cidade. Só volta para alguns compromissos. Naquela tarde não eram
poucos. Um documentário, um trabalho de universidade, além de visitas
inesperadas e da entrevista para a edição comemorativa de cinco anos do
ALMANAQUE BRASIL. Mas ele não demonstra cansaço. Enquanto chuva e tarde caem
sobre o Recife, assobia uma melodia e se volta para o entrevistador:
“Conhece?” Esse é Ariano Suassuna, autor de obras-primas como a peça O
Auto da Compadecida (1955) e o romance A Pedra do Reino
(1971). “Um escritor de emblemas”, cuja obra não se limita aos textos. Homem
de idéias e ideais, defensor entusiasmado da riqueza da cultura popular. E
para os que vacilam em relação aos rumos do Brasil, dispara:
“SE PERDERMOS
ATÉ ESPERANÇA,
NÃO HÁ CAMINHO PARA NÓS”
Na infância você lia almanaques, o Lunário
Perpétuo?
Assim que me alfabetizei, comecei a ler de tudo. E lia muito os almanaques,
o Lunário. Gostava muito de um almanaque português, o Almanaque
Bertrand. Prestei minha homenagem a ele em meu romance A Pedra do
Reino. Toda a “cultura” de Quaderna, o personagem principal, é
fundamentada no que ele chama de Almanaque Luso-Brasileiro. No fim
é uma máscara, um disfarce da cultura luso-brasileira.
Uma coisa que me entusiasma muito no almanaque é que ele se volta à figura
do humanista. Nesse mundo técnico, de especializações, o que me encanta é
que ele tem uma visão geral. Há charge, caricatura, anedota, informação
histórica, conto literário, charadas, enigmas. Quando menino, gostava muito
de decifrar as cartas enigmáticas, inclusive as dos almanaques modestos que
chegavam ao sertão. Tinha o Almanaque da Salsaparrilha, do
Doutor Ayer. E também o do Biotônico Fontoura, onde travei
conhecimento com Monteiro Lobato.
Eram leituras que me encantaram profundamente na adolescência, e ainda hoje
encantam. Tanto assim que mantive coluna na Ilustrada, da Folha de S.
Paulo, chamada Almanaque Armorial. Em princípio, eu escrevia no
primeiro caderno. Depois, como queria dar uma feição mais literária à minha
colaboração, me transferiram para a Ilustrada. Foi aí que botei o título
Almanaque Armorial, que já tinha usado aqui em Pernambuco num jornal que se
extinguiu.
E os almanaques sertanejos?
Eles eram feitos pelos chamados “profetas sertanejos”. Às vezes eram
cantadores, às vezes não; às vezes traziam gravura, às vezes não. Entrei em
contato com eles logo menino. São herdeiros diretos do Lunário Perpétuo.
Muitas das informações que eles publicavam eram obtidas do Lunário,
que era uma espécie de almanaque maior, uma grande referência.
Até hoje existe um, publicado todo ano por José Costa Leite. Ele é
paraibano, mas, como eu, mora em Pernambuco, só que em Condado. É gravador e
poeta popular. Até bem pouco tempo existia o famoso João Ferreira, cujo
almanaque era muito esperado pelos sertanejos para começar a plantar. Era um
instrumento de trabalho.
No sertão todos liam?
Os almanaques, por natureza, não eram elitistas. Eram leituras para a
maioria. Num país em que o público ledor é pequeno, eles eram os livros de
maior leitura, porque permitiam acesso, eram populares. Você veja, no Brasil
o escritor muito conhecido, que vende como Jorge Amado, por exemplo, quando
muito chega a 70 mil exemplares. Isso num país de 170 milhões de habitantes.
É muito pouco.
Você acompanha as publicações da imprensa?
Eu leio muito, mas só literatura. As revistas me dão até um pouco de agonia
na cabeça. Não gosto muito, não. A maioria é de uma frivolidade muito
grande, não me interessam. Tenho horror ao chamado “gosto médio”. Prefiro o
mau gosto ao gosto médio. E a maioria das revistas é feita buscando esse
maldito gosto médio.
Quando surgiu seu interesse pela literatura?
Foi muito cedo. Tive a boa sorte de encontrar algo que não era comum. É
incomum hoje, quanto mais naquela época. Meu pai tinha uma biblioteca muito
boa, de maneira que eu comecei logo a ler. Além disso, de uma família de
nove filhos, eu era o oitavo do geral e o último dos homens. Meus irmãos
mais velhos, que já estavam estudando no Recife, levavam livros para o
sertão da Paraíba, onde eu morava. Comecei a ler esses livros. Eram livros
de aventura, romances policiais. Lia tudo, devorava.
Tinha alguma preferência?
Gostava dos livros de aventura, como Scaramouche, de Rafael
Sabatini. Esse livro foi profundamente importante para mim, e ainda hoje é.
De modo geral, gosto mais de reler do que ler. E esse livro leio várias
vezes, ainda hoje, com 76 anos.
Por que gosta tanto dele?
Uma coisa que me encanta é que uma das partes mais importantes da ação
ocorre com uma companhia ambulante de teatro, o que, por motivos óbvios,
representa um grande campo para mim.
Quando você começou a escrever?
Aos 12 anos. Me tornei um grande leitor, e por isso comecei a admirar os
escritores, a querer me tornar um deles. Meu primeiro conto era horroroso.
Era uma história de crime e sangue. Era horrível, de uma violência enorme.
Como era a história?
Veja você, só depois percebi por que tinha escrito aquela história. Em 1932
os paulistas, que desde 1930 vinham quebrando as cristas com Getúlio Vargas,
fizeram um levante. E Getúlio convocou policiais e voluntários do Brasil
todo para reprimi-lo. Um oficial da polícia paraibana que estava em Taperoá
foi solicitado. Quando voltou, soube que havia sido traído pela mulher. Na
manhã seguinte, pediu a ela para fazer um café. Quando estava na beira do
fogão, ele deu um tiro em sua nuca. Essa foi a primeira pessoa que vi morta.
Minha mãe proibiu que a gente fosse, mas fui escondido. Fiquei muito
impressionado. Me arrependi muito de ter desobedecido.
Sua mãe estava certa...
Pois é, naquela noite quase não dormi. Mas acho que, apesar de não fazer
isso conscientemente, acabei me baseando nessa história para escrever o
conto.
E era mesmo ruim?
Era. Mas você vê como a crítica literária se engana? Dei o conto para minha
irmã, dois anos mais velha do que eu, e ela disse: “Isso tá bom demais. Não
foi você que fez, não.” Já aí comecei a ser incompreendido pela crítica. Era
péssimo, mas ela achou que era tão bom que eu não poderia ter escrito.
Depois comecei a escrever poesia, e não parei mais.
Na adolescência você já tinha pretensão de ser
escritor profissional?
Isso foi surgindo aos poucos. Tinha dez anos quando vim estudar no
Recife. No colégio interno tinha uma revistinha em que escrevi algumas
coisas. Publicar mesmo em jornal só aos 18 anos, em 1945. Um professor de
Geografia corrigiu uma prova que fiz e descobriu que tinha vocação
literária. Pediu para que eu trouxesse um poema. Eu levei e ele pediu
emprestado, sem dizer pra quê. Aí levou para o Jornal do Commercio,
que publicou. Tive uma alegria enorme quando chegou o domingo e o poema
estava no jornal.
Mas, Ariano, esta história está meio esquisita.
Como é que um professor de Geografia descobre através de uma prova que você
tinha vocação literária?
Eu era estudioso, era muito bom aluno. Agora, realmente, nessa
prova eu não estava muito bem informado. A prova era sobre o relevo
brasileiro. E, como não sabia muito, danei-me a fazer divagações literárias.
Falei do Planalto Central, do Rio Amazonas, das coisas mais óbvias. E então
comparei com as esculturas do Aleijadinho e citei uns versos de Drummond que
sabia decorado: Esse mulato de gênio / Lavou na pedra-sabão / Todos os
nossos pecados. Quando ele foi entregar as provas, deixou a minha por
último, e disse: “Fiquei com essa, pois de Geografia ela tem muito pouco,
mas essa pessoa que escreveu tem vocação literária. Quem é o autor?” Então
me identifiquei.
E recebeu uma nota boa?
Sim, ele botou uma nota boa. Me virei com a literatura. Na verdade, me valia
muito da literatura para fazer minhas provas. E sempre obtinha êxito.
Seu interesse pela cultura popular surgiu nessa
época?
Repare bem, muito menino vi duas coisas que me impressionaram
muito. Uma foi a primeira cantoria. Vi dois cantadores lá em Taperoá. Tinha
uns oito, nove anos. Um deles era um dos maiores cantadores que já existiram
no Nordeste, Antonio Marinho. Meu irmão Lucas me levou para ouvi-lo. À certa
altura, Marinho parou o improviso e cantou um folheto que sabia decorado.
Meu primeiro contato com a poesia popular foi nessa noite. Lembro que me
impressionei profundamente com o folheto. Além do mais, ele tinha dons de
ator. Tocava a viola, cantava o folheto e com a cara representava a ação.
E a segunda experiência?
Foi quando um primo me levou para ver, no mercado de Taperoá, num dia de
feira, um espetáculo de mamulengo, o teatro popular de bonecos. Me deixou
deliciado. Pra você ter idéia da importância que isso representou para mim,
a peça apresentava um personagem negro chamado Benedito. Ele era valente,
dava surra na polícia. Em 1930 passei por uma experiência muito ruim. Minha
família foi perseguida. Tinha uma antipatia danada da polícia. Quando vi o
herói negro dar uma surra neles, fiquei morrendo de alegria. Se você ler uma
peça minha chamada A Pena e a Lei, verá que o primeiro ato é
encenado como uma peça de mamulengo, e o personagem principal é um negro
chamado Benedito.
Como a cultura popular se tornou objeto de
trabalho?
Foi muito importante a leitura dos livros de um pesquisador
cearense, hoje injustamente esquecido, chamado Leonardo Motta. Ele foi um
dos pioneiros em recolher os versos dos cantadores, os folhetos, as
histórias populares. E ele era amigo pessoal de meu pai, a quem dedicou um
de seus livros. Na biblioteca de papai encontrei sua obra. A essa altura os
livros já tinham se tornado sagrados para mim. Quando vi aqueles cantadores
serem objetos de livro, percebi que eles eram mais importantes do que eu
pensava. Isso me chamou a atenção para a importância, inclusive literária,
do romanceiro popular do Nordeste.
Você se preocupa com os rumos da cultura popular
frente ao interesse crescente da mídia?
O interesse não é problema. O ruim é quando há deturpação. A
modificação é inerente à arte popular, que é profundamente dinâmica. Os
estudiosos do chamado folk lore é que estão preocupados com isso.
Digamos que um deles tenha registrado um cavalo-marinho na década de 1950.
Aí ele volta em 2004, vê o mesmo espetáculo, na mesma região, e fica
espantado: “Tá deturpado.” Não. Isso faz parte da característica dessas
manifestações. Elas mudam continuamente. E muitas vezes passam de uma
manifestação para outra. Por exemplo, peguei O Auto da Compadecida
de um folheto de um grande poeta popular, Leandro Gomes de Barros. Ele se
chamava O Enterro do Cachorro. Mas eu transportei para o teatro.
Evidente que modifiquei, porque estava fazendo outra arte. Assim como
Leandro já tinha modificado, porque a história vem do século 5.
Qual manifestação popular você considera a mais
identificada com o Brasil?
Impossível falar. Todas elas são importantíssimas. E não são
opostas, são complementares. A importância de um folheto de cordel é a mesma
de um cavalo-marinho, de um auto de guerreiros. Elas se interpenetram e se
influenciam.
Há alguma que você, pessoalmente, acredita que
sintetize o espírito brasileiro?
A gente pode dizer até que gosta de alguma especialmente, que se
identifica mais. Mas não que a literatura seja mais importante que a música,
ou vice-versa. Agora, se você mandasse eu escolher, escolheria o folheto de
cordel. Não que o considere mais importante. Mas o folheto tem fundidos nele
três tipos de arte: poesia; artes plásticas na capa, a xilogravura; e a
música, porque é cantado, acompanhado por viola ou rabeca.
Quem você considera o maior cordelista
brasileiro?
Dos mortos, Leandro Gomes de Barros. Dos vivos, Francisco Salles Areda. Sem
dúvida.
Você se interessa pelas manifestações musicais
pernambucanas?
Gosto muito do maracatu rural. Enquanto o maracatu nação é uma
manifestação quase exclusivamente herdeira da cultura negra, o bumba-meu-boi
da ibérica, os caboclinhos da indígena, o maracatu rural tem fundidas essas
três raízes da cultura brasileira.
Antonio Nóbrega defende que cultura popular não
é folclore. O que acha da diferenciação?
A palavra folclore é muito antipática, inclusive tem um sentido
pejorativo. Ele tem razão. Não gosto quando aplicam em relação à minha obra
por dois motivos. Primeiro, porque não gosto desse espírito com que é
pronunciada a palavra folk lore. E em segundo lugar, porque está
errado. Nem toda arte popular é folclore. Um verso de Francisco Salles
Areda, por exemplo, é literatura popular, mas não é folclore. Um espetáculo
como o bumba-meu-boi é. Eu não gosto da palavra, mas, se for para usar, que
use certo. A obra folclórica é anônima, ou o autor foi esquecido. E, além
disso, tem contribuições da coletividade ao longo de anos em um mesmo
espaço. O bumba-meu-boi encenado em Paulista é de um jeito, em Muribeca é de
outro. Tem um núcleo que é comum, que é herdado da tradição popular, mas
cada grupo recria à sua maneira. Dizer que uma peça minha é folclore, além
de ser antipático, é um absurdo.
Você se considera otimista em relação ao
futuro do País?
Estou perfeitamente consciente da distância entre meus sonhos – e o
de todos nós – e a realidade. Sou um escritor que vê o mundo através de
emblemas. Acho que o dever de todos nós, escritores brasileiros, é colocar,
mesmo que a realidade seja dura e cruenta, um sonho mais belo e alto que
possa mover o povo. Porque se perdermos até a esperança, não há caminho para
nós.
(©
Almanaque Brasil)