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O bruxo de Curitiba

05-06-2008

Hermeto Paschoal

   Aos 67 anos, transbordando de alegria e esperança, Hermeto Paschoal, quer retornar a Londres na próxima semana para surpreender os ingleses com sua inesgotável criatividade musical.

   Hermeto vive um momento especial de produção intelectual. Entre suas realizações está a composição de uma sinfonia para ser apresentada ao ar livre, pela Orquestra Sinfônica do Teatro Amazonas, em Manaus, em junho.

   Hermeto é o futuro, os sons, os ritmos e a espontaneidade. Com sua música peculiar, natural, verdadeira, que nasce de suas raízes nordestinas e brasileiras, dos rios e passarinhos, ganha os corações e mentes de um público cada vez mais internacional.

   O alagoano de Lagoa da Canoa, que nasceu agricultor, traz o erudito para o popular. Põe em prática a descoberta dos sons e ritmos que nos cercam, inclusive no dia a dia e as experiências que são desenvolvidas nas melhores academias de música contemporânea.

   Um iluminado, como se os deuses lhe tivessem dado o poder de transitar
entre a musicalidade da natureza e do homem. Criou uma nova linguagem,
resultante destes dois mundos. A música tradicional, também, se transforma
em suas composições e absorve a ansiedade daqueles que prevêem o futuro da
música universal.

   A alegria e disposição de Hermeto, que o fez trocar São Paulo por
Curitiba, é a cantora lírica gaúcha Aline Paula Nilson, nome artístico de
Aline Morena. "Hoje estou na minha terceira adolescência. Estava indo
tocar nos Estados Unidos, quando apareceu Aline. Ela tem a cabeça igual a
minha. Já compus diversas músicas de viola caipira, especialmente para
ela", disse Hermeto Paschoal.

   Os dois se conheceram em um show em Londrina, no Paraná, e nunca mais se
separaram. Aline, gaúcha de Erechim, estudava a obra de Hermeto no
Conservatório Musical de Curitiba. "Eu tinha ido ao encontro da música, na
verdade encontrei mais do que a música: meu amor e a música juntos", disse
Aline. Ela hoje participa dos shows no Brasil e no exterior.

   Hermeto Paschoal, volta a tocar com a Big Bend - banda de 25 músicos
formada apenas de saxofone e trompete - no dia 3 de maio, no "Cheltenham
International Jazz Festival" da capital inglesa. Depois, a banda toca no
"Norfolk and Norwich Festival 2004", em dois outros espetáculos. As
maiores expectativas do músico são dois workshops na "Royal Academy of
Music in London".

   Na última vez que andou por lá, um jornal de Londres publicou matéria
sobre o seu espetáculo com o seguinte título: "Hermeto Paschoal - o show
da década". O músico pergunta: "Se fosse um jogo de tênis, com um
brasileiro, estaria em todas as páginas dos jornais daqui. Agora, eu não
vou procurar jornalistas para dizer o que estou fazendo", disse.

   Hermeto começou sua carreira com 15 anos tocando sanfona, mas é nos anos
60, no grupo "Quarteto Novo", composto por Heraldo do Monte, Airton
Moreira e Theo de Barros, e mais Geraldo Vandré, que ele consolida uma
carreira, que hoje reúne uma obra com mais de 4 mil composições. Em 1973,
lança seu primeiro disco - "Música Livre de Hermeto Paschoal". Nesta fase,
que se estende por 10 anos, Hermeto sofre de dores terríveis no estômago e
fígado, conseqüência de uma esquistossomose não diagnosticada.

   Em 1977, grava seu segundo trabalho - "Slave Mass" - já nos Estados
Unidos, uma vez que no Brasil não permitiam usar animais em estúdio,
indispensável no disco. Em Los Angeles, pode gravar "Slave Mass" com dois
porcos: um produzia o som do agudo e outro do grave.

   Em Nova York, conhece o grande trompetista americano Miles Davis. Embora
não fale inglês, Hermeto travou, mesmo assim, grandes embates teóricos com
Davis, tendo Aírton Moreira como tradutor. "Davis, modéstia à parte, teria
que aprender um pouco mais para chegar onde eu estava", disse Paschoal.
Hoje, o Brasil é o País de maior musicalidade do mundo e "o Jazz dos
Estados Unidos está pedindo penico", brinca o músico. A seguir, o papo de
Hermeto com o caderno "Fim de Semana":

Gazeta Mercantil - Você trouxe para a prática a música erudita
contemporânea, que é a experiência com os sons e ritmos.

Hermeto Paschoal - Creio que sim. Quando aprendi teoria, a minha cabeça
já estava pronta. Conheço a teoria, mas tudo que faço é intuitivo. Não
premedito. Aprendi teoria musical depois dos 40 anos. Hoje, escrevo para
qualquer tipo de sinfônica, como a peça de uma hora de música para a
Orquestra Sinfônica do Amazônas. O primeiro movimento da sinfonia eu abri
com os violinos - que são como passarinhos - uma vez que será tocado às 6
horas da manhã, em um espaço aberto, junto à natureza. A sinfonia será um
diálogo com a natureza, com os passarinhos e outros animais.

Gazeta Mercantil - E a música brasileira, como anda?

Individualmente há grandes músicos. Uma meninada nova tocando bem. Tem
mais quantidade e qualidade do que antigamente. Só que, o desejo de ficar
rico, faz muitos deles tocar música brega e começam ganhando mais do que
eu.

Gazeta Mercantil - Qual sua relação com o dinheiro?

Se eu pudesse matar o dinheiro me tornaria um criminoso. É o câncer do
mundo.

Gazeta Mercantil - Como você administrou seus problemas de saúde?

Eu tinha esquistossomose (infeção no intestino e no fígado) e no Brasil
não havia cura. Quando fui aos Estados Unidos em 1974, conheci Miles
Davis, que me ajudou a curar a doença. Quando tocava na boate Stardust, em
São Paulo, achavam que eu tinha problema no duodeno e a vesícula
preguiçosa. Em Nova York, descobriram que, na verdade, era
esquistossomose e lá tinha cura.   Fiquei 10 anos com a doença. Às vezes,
a dor era tão forte que precisava tomar morfina. A Ilsa, minha ex-esposa
que está lá no céu, é que ia buscar a morfina, porque precisava de receita
médica.

Gazeta Mercantil - A doença atrapalhou sua produção musical?

Às vezes, quando estava tocando órgão no Stardust tinha, que sair no meio
do show para ir ao pronto-socorro. Foram dez anos em que produzi mais do
que agora, em meio ao sofrimento da doença. A raiva pode ajudar quando
você tem a convicção de que vai conseguir o que almeja.

Gazeta Mercantil - Nesta época, você fez o primeiro disco - "Música Livre
de Hermeto Paschoal".

Sim, e o disco seguinte, "Slave Mass", foi gravado nos Estados Unidos,
uma vez que era proibido levar animais aos estúdios daqui. Um fazendeiro
do Texas levou seus suínos à gravadora. Airton Moreira ficou no estúdio
com os animais, e eu na técnica para dizer qual dos porcos ele deveria
mexer: "Airton mexe no grave. Agora, no agudo".

Gazeta Mercantil - E como foi a sua relação com o trompetista Miles
Davis?

Profissional e muito espiritual. Eu notava que os músicos de lá não se
relacionavam muito com ele, por inveja, por ser considerado o maior
trompetista americano. O Aírton e a Flora Purim trabalhavam para Davis,
fazendo arranjos. Davis pediu a Aírton para me levar à casa dele. Aírton
ficou preocupado por eu não falar inglês. Eu disse, Aírton não se
preocupe: ele (Davis) sabe que nossa conversa é espiritual, que é pau a
pau no campo musical. Ele, modéstia à parte, teria que aprender um pouco
mais para chegar onde eu estava. Quando cheguei na casa dele, me
perguntou: você tem ouvido absoluto? É que quando toco trompete, toco em
si bemol, e nas nossas escolas aqui, ensinam para ficar com a nota na
cabeça para sempre lembrar. Eu disse que não precisava que tocasse a nota.
Apenas indique a nota que deseja sem que eu precise ouvir nada. Ele olhou
para o Aírton e disse: isso não pode. Aí eu dei o si bemol. E disse a ele:
vê se sobe devagar a escada, se não você vai tocar desafinado lá em cima.
Aí, me batizou de Albino Louco.

Gazeta Mercantil - E como vem essa sua intuição musical?

Teoria não é música. Música não se aprende, você se alfabetiza
musicalmente. Se for para a escola sem tocar nenhum instrumento você é um
robô. Qualquer cara sem dom musical pode tocar música por teoria. Em Porto
Alegre, quase me mataram, por dizer que a sinfônica não tinha mais que dez
músicos de verdade. Fiz milhares de composições, mas só tenho umas 100
músicas gravadas. "Bebê" (hoje um clássico da música universal que foi
gravado em 1973), é bem tocado.

Gazeta Mercantil - E o chorinho?

Eu tocava muito chorinho. Agora o chorinho está como o bem-te-vi, muito
judiado.

Gazeta Mercantil - Como você vê o apoio oficial à música ?

Deveria ser criado o Ministério da Música para cuidar de todos os
aspectos que envolvem o trabalho musical. O Gil (Gilberto Gil, ministro da
Cultura), pela inteligência, poderia fazer muita coisa, mas pelo que
conheço do Gil ele vai mandar axé para o mundo inteiro. E não tá com nada
o axé. O Gil é um talento, mas se fosse escolher alguém para ministro da
Música, seria Arthur da Távola, valorizando a música regional. A Rede
Globo, por exemplo, procurou nivelar o País musicalmente. É um desastre
para o País. A Globo faz o que quer, uma música de consumo e cheia de
rótulos. Graças a Deus, os jovens não estão aceitando.

Gazeta Mercantil - Você sente um pouco de abandono oficial em relação ao
seu trabalho?

Não, não. Se não tiverem cuidado, eu vou abandonar muita coisa. Estou
feliz. Eu não queria estar em um lugar cheio de coisas em volta. Agora, eu
vejo gente querendo fazer um show em teatros do governo, onde cobram R$ 5
mil para um espetáculo. Isso é uma injustiça, pois estamos no País mais
musical do mundo.

Gazeta Mercantil - Os Estados Unidos não são mais evoluídos na música?

Os Estados Unidos já tiveram sua fase boa, mas já era. O jazz está
pedindo penico lá desde 70. Eles passaram a importar gente de outros
lugares do mundo. Agora está acontecendo o seguinte: eu sou musicalmente,
um cidadão do mundo. Eu estive lá. O cara que me copiar, eu reclamo. Eu
sou um pintor da música. Não quero que ninguém mexa nos meus quadros.
Quero que se influenciem com eles e mostrem que são criativos. Não fico
feliz em ver alguém me imitando. Gosto que as pessoas sintam meu trabalho
e tenham o seu.

Gazeta Mercantil - Qual a sua visão do Brasil, para aonde estamos
indo?

Hoje está todo mundo duro e sumido, mas as pessoas estudam mais, a
cultura melhorou. Fico admirado quando vejo uma maioria de jovens no
auditório. Vou para o Japão tocar para 10 mil pessoas, a maioria jovens. É
a música do Brasil, lá fora, fazendo a cabeça dos jovens. Quando fui tocar
na Bélgica me disseram: olha, o pessoal aqui é muito frio e vai pouca
gente. Eu disse: olha, estou com 250 volts e lá estavam mais de 1,2 mil
pessoas. Em Berlim, compus - em duas semanas - uma sinfonia falando da
tristeza do povo Alemão, que foi um sucesso de público. Quero inovar cada
vez mais, para não ser visto como músico do passado. É como se as pessoas
das gerações futuras dissessem: "Que pena que não vivi aquela época."
Creio que por uma ou duas gerações há uma trabalho feito e eu posso viajar
para o céu amanhã.

(Ivanir José Bortot e Guego Favetti - músico paranaense)

(© Gazeta Mercantil)

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