05-06-2008
|
 |
|
Caetano Veloso canta em São Paulo |
Caetano acha que Lula deu vexame, aceita pirataria
pela internet e conta como será sua turnê
LUÍS ANTÔNIO GIRON
Aos 61 anos,
Caetano Veloso diz não sentir necessidade de se impor ao mercado nem de
atuar na política. De ótimo humor, recebeu ÉPOCA em sua gravadora,
Natasha Records, no bairro da Gávea, Rio de Janeiro. Em duas horas de
conversa, Caetano falou de tudo. Criticou o governo Lula, analisou o
mercado de entretenimento e questionou a noção de identidade brasileira
que seu amigo Gilberto Gil tem estimulado à frente do Ministério da
Cultura. E, claro, abordou seu tema favorito: a música e a nova turnê
que faz pelo Brasil a partir da quinta-feira 27, em São Paulo. Revelou
que acha a canção americana melhor que a brasileira e confessou
limitações musicais. A nova excursão tem uma peculiaridade na carreira
de 38 anos do compositor: quase todo o repertório é de músicas em
inglês, incluídas no recém-lançado CD A Foreign Sound. A
pré-estréia do show, em 16 de abril, no Carnegie Hall de Nova York, foi
um triunfo. Resta saber a reação da platéia brasileira. O compositor e
seis músicos vão percorrer nove capitais. Em cada cidade, juntam-se ao
grupo orquestras de cordas locais. Caetano e banda ensaiaram na semana
passada no estúdio de Gil, no sopé da Favela da Rocinha. Introduziram no
espetáculo títulos como os sambas 'Não Tem Tradução' (Noel Rosa) e
'Manhã de Carnaval' (Luís Bonfá), mais a inédita 'Diferentemente'. Em
outubro, a turnê corre México, Estados Unidos e Europa.
|
CAETANO VELOSO |
|
Mirian Fichtner/ÉPOCA
|
 |
Nascimento
Santo Amaro, Bahia, em 7/8/1942
Frases
'Quando não estou cantando, acho o mundo chato'; 'Se o
Brasil precisa tanto da minha presença, pobre Brasil'
Turnê A Foreign Sound
São Paulo, 27 a 30/5 e 3 a 6/6; Salvador, 18 a 20/6; Curitiba,
23/6; Porto Alegre, 26 e 27/6; Belo Horizonte, 2 a 4/7; Rio, 15
a 17/7; Brasília, 23 e 24/7; Goiânia, 25/7; Recife, 30 e 31/7
|
ÉPOCA - Pelos ataques à crítica durante sua carreira,
parece que você não é um crítico frustrado.
Caetano Veloso - Não sou, porque dialogo e entro em competição
com a crítica. Sempre atuei criticamente, desde os tempos da revista que
o Glauber Rocha editava. Isso não é desprezo pelos jornalistas, como
alguns pensam. Ao contrário, respeito a boa crítica. Gosto de propor
discussão de idéias, cada vez mais difícil nos jornais. O problema é
que, para vocês, jornalistas, o pior é sempre o melhor. Trabalho com
atitude explícita. Nada fica sem resposta.
ÉPOCA - Você adora dizer frases bombásticas para horrorizar os
jornalistas e criar polêmica...
Caetano - Diga aí alguma para eu me defender.
ÉPOCA - Em 1998, por exemplo, você ganhou o título de doutor
honoris causa pela Universidade da Bahia, fez questão de receber a
honraria no Carnaval, em cima de um trio elétrico. E declarou: 'A partir de
agora, quando eu rebolar, é um doutor que estará rebolando!'. Não é uma
provocação à universidade?
Caetano - Essa frase não passou de uma auto-ironia porque achei
engraçado virar doutor. Dizem que faço tudo para aparecer. Não é isso. Gosto
de contrariar ondas de opinião que ocorrem vez ou outra. Lembro de
jornalistas de São Paulo mancomunados com intelectuais da USP querendo impor
opinião. Aí respondo com agressividade, mas não é nada ofensivo. É picada de
quem está de bom humor. Vejo os jornalistas no Brasil defendendo o rock
contra a axé music, e aí vou contra. No cinema também: os velhos críticos
atuam como porta-vozes de filmes tipo Cronicamente Inviável, do
Sérgio Bianchi, que achei muito ruim. Tudo isso é provinciano. É coisa de um
Brasil subordinado culturalmente.
ÉPOCA - Desde a tropicália, você distribui opiniões. Você se
considera intelectual?
Caetano - Concordo com o que dizia o José Guilherme Merquior, que sou
um subintelectual de miolo mole. Atuo e adoro expor meu pensamento, mas
talvez seja um vício geracional. Pertenço a uma geração que fazia isso, se
manifestando no teatro, na música, na TV. Era uma obrigação e um direito ter
postura sobre a realidade política. Agora, as mesmas pessoas que inventaram
esse hábito o ridicularizam. Nos anos de censura os artistas e os
jornalistas agiram em bloco em nome da luta política. Era às vezes ridículo,
porque todo o mundo tinha de 'se posicionar'. Até mesmo aquelas atrizes
iniciantes, que não sabiam nada, precisavam falar alguma coisa. Aí
começou-se a ficar cético a respeito disso. Sou uma pessoa da área de
entretenimento que dá suas opiniões.
| 'O Brasil foi salvo pelo gongo. O pessoal do Lula
tem de pensar melhor. Tem coisa que não se faz. Já mandei embora
jornalista da minha sala. Mas querer expulsar o sujeito do país pega
mal!' |
ÉPOCA - Você é um animal político?
Caetano - Não gosto de política, ela não me atrai. Não sei por que,
mas gosto de arte, música, poesia, cinema. Adoro frescura e vivo no mundo
das idéias. Política é um negócio chato, de uma gente que não tem a ver com
meu temperamento. Não sou preparado, acho difícil entender de política. Leio
dedicadamente artigos de jornal, exceto os do José Sarney.
ÉPOCA - Como você viu a crise provocada pelo artigo de Larry
Rohter, do New York Times - jornal que você já atacou?
Caetano - Sou colega do Lula nesse assunto. Com o NYT,
aconteceu comigo anos atrás uma coisa parecida com o que fizeram com o
presidente. O correspondente agiu de forma irresponsável, pensando que podia
falar qualquer coisa porque o Brasil é um país do Terceiro Mundo. Sou contra
os correspondentes do NYT no Brasil que faltem com o respeito. Um
deles escreveu que eu e o Gil íamos a festas vestidos de mulher porque
queríamos alardear nossa bissexualidade. Mandei uma carta ao jornal, que não
foi publicada. Aí fui danado da vida ao programa do Jô para chiar. Aquilo
foi uma leviandade. Nunca fui presidente da República. O Lula nunca apareceu
bêbado em público e o álcool jamais prejudicou sua atuação. Mas acho
inadmissível o que o Lula e o núcleo duro do governo tentaram fazer com
Rohter. Lula criou com o episódio um mico planetário para o Brasil. Ainda
bem que Márcio Thomaz Bastos achou uma saída para a situação. O pessoal do
Lula tem de pensar melhor. Desta vez o Brasil foi salvo pelo gongo. Tem
coisa que não se faz. Já mandei embora jornalista da minha sala. Mas querer
expulsar o sujeito do país pega mal!
ÉPOCA - Como você analisa o governo Lula?
Caetano - Vi muita gente se decepcionar, mas não é o meu caso. Eu não
tinha esperanças de que o governo do PT viesse a ser firme. Quase não votei
no Lula. Meu candidato era o Ciro Gomes. Mas aí o Ciro se retirou e fiquei
sem candidato, e resolvi votar no Lula porque pensei assim: Lula tem de
chegar à Presidência, a gente tem de conhecer essa experiência, ele merece
por tudo o que fez. Espero que ele consiga passar os quatro anos à frente do
governo e passe a faixa de presidente ao sucessor no melhor rito
democrático.
ÉPOCA - Você teme que ele não consiga passar a faixa?
Caetano - O PT não é a salvação. Há uma esquizofrenia neste governo:
o Delfim apóia os economistas do PT e criticava os inventores do Plano Real.
O Palocci vem com uma conversa que não tem nada a ver com as promessas de
campanha do PT. Quando assumiu o governo, o partido quis se apossar de todas
as áreas da máquina estatal. O PT não é republicano nem democrático e
confunde Estado com partido. A esquizofrenia do governo se expressa em
certas atitudes. O Ministério da Economia compõe com o mercado, enquanto o
da Reforma Agrária se alinha com o MST. Tudo para que o PT não saia nunca
mais do poder.
| Fotos: Mirian Fichtner/ÉPOCA |
 |
|
'Com a internet, perdemos
o controle sobre a veiculação de música. Não sou empresário, não sou nem
mesmo capitalista. Só não posso cuspir no prato em que comi. Existe uma
crise, mas eu não estou nem aí' |
ÉPOCA - Como você viu o expurgo dos membros rebeldes do PT?
Caetano - Um exagero. É outra prova da esquizofrenia do governo. Essa
atitude dura não é sintoma de capacidade política. É preciso desconfiar de
um partido que praticamente expulsa o Fernando Gabeira poucos meses depois
de subir ao poder.
ÉPOCA - Você disse que falta experimentalismo no Executivo.
Existe algum pensamento politicamente arrojado para o país?
Caetano - Mangabeira Unger apresenta uma alternativa crítica, uma
sugestão concreta do caminho a trilhar. Diz que o Brasil tem todos os
recursos materiais e espirituais para ser mais inventivo. Ensina que existe
um caminho alternativo para inserir o Brasil na economia mundial sem a
política petista de se curvar às exigências do FMI. O pensamento do
Mangabeira faz eco àquilo que penso sobre como resolver os problemas sociais
internos, como o salário mínimo e o abismo social, e a política externa.
Mangabeira é um dos raros pensadores do Brasil.
ÉPOCA - Como você vê a política educacional de Lula?
Caetano - Sou a favor da compensação dos negros. É preciso confrontar
a questão de raça com a social, porque a gente observa que a maioria dos
negros pertence às classes mais baixas. É positivo dar acesso a eles à
educação, e agora aos alunos da rede pública ao terceiro grau. Tenho lido só
críticas tecnicistas sobre o assunto. É preciso criar um sistema de
acompanhamento para verificar se as medidas compensatórias serão
implementadas corretamente.
ÉPOCA - Monitorar não é difícil?
Caetano - Graças a Deus, no Brasil todo o mundo tem sangue negro ou,
pelo menos, aprendeu a valorizar isso. Esse é um tesouro do Brasil.
ÉPOCA - Você tem gostado de Gilberto Gil no Ministério da
Cultura?
Caetano - Gil trouxe visibilidade a um ministério que nunca teve
importância. Quando ele ia assumir, eu lhe disse: você corre o risco de ser
o Lula do Lula. Gil tem um imenso valor simbólico no mundo.
ÉPOCA - O Ministério da Cultura criou uma secretaria para
promoção da identidade nacional. Não é curioso isso acontecer sob a gestão
de um antigo tropicalista?
Caetano - Pois é, a tropicália enfrentou a questão da identidade e
tratou de superá-la. Desde então, mudaram os pontos de referência. Parece
difícil um ministério que tem Gil no comando sair por aí em busca de
identidade. Hoje esse tipo de idéia só tem dois defensores de plantão: o
José Ramos Tinhorão e o Ariano Suassuna. O Tinhorão criou argumentos
sofisticados sobre o tema, mas é medíocre em suas sugestões artísticas. O
Suassuna é o gênio que escreveu O Auto da Compadecida e A Pedra do
Reino, mas assume o papel de um palhaço pela obrigação de manter uma
posição que acha sagrada. Ele promove a xenofobia fazendo a gente rir. O
MinC não deveria defender essas posições pró-xenófobas.
ÉPOCA - Seu novo CD é um dos campeões mundiais de download
ilegal. Como você encara o problema?
Caetano - Claro que isso é lesivo aos direitos autorais do artista. O
fato é que perdemos o controle sobre a veiculação de música. Não sou
empresário, não sou nem mesmo capitalista. Mas não posso cuspir no prato em
que comi. Existe uma crise na indústria da música, mas eu não estou nem aí.
Houve uma hipertrofia do mercado musical desde a explosão do sucesso dos
Beatles nos anos 60. Desde então, a indústria musical moveu fábulas de
dinheiro, produziu muita música ruim e muito crítico de música escrevendo
nos jornais. Talvez haja razão para haver a retração no mercado. Só não
posso deixar de reparar que coisas boas surgiram do comercialismo, como o
rock e a axé music. O rock mudou o mundo. A axé music nasceu da ambição
descarada, e hoje virou força popular. Não tenho por que chorar.
ÉPOCA - A música popular ainda é uma missão ou virou business?
Caetano - Quando entrei nesse negócio, pensava em ser 100% puro e que
sairia dele com as mãos limpas. Minha turma - Dori Caymmi, Edu Lobo, Chico
Buarque e Paulinho da Viola - foi abençoada por pertencer à segunda geração
da bossa nova. João Gilberto, o fundador da BN, nos legou a dignidade,
colocando a música num patamar artístico muito alto. A gente nunca pensou
nessa história de jabá. Quando ele apareceu, a gente se sentiu regredir aos
anos 50. Não posso mudar na minha idade. Continuo vendo a música do ponto de
vista artístico. A música do Brasil é forte. E continua sendo importante
para mim e para o mundo, não importando a reprodutibilidade técnica.
ÉPOCA - Por que você cultua João Gilberto, sem cantar e tocar
como ele?
Caetano - João é o maior artista da música popular, caso extremo de
comprometimento com a perfeição. Ele é mais e menos que uma influência. Ele
me influenciou de uma forma definitiva e seria assim se eu tivesse virado
professor de Filosofia. Desde que ouvi suas gravações lá em Santo Amaro,
João me deu um norte estético. Depois me levou a escutar Chet Baker. Tentei
imitá-lo na formulação de acordes e no canto. Mas parou aí. Eu dizer que
João é uma influência musical minha seria como um escritor que lança um
romance e declara que suas influências são Kafka, Proust e Dostoiévski. Não
tenho competência para ser influenciado por João Gilberto.
|
|
'Eu sei que arrisco a
respeitabilidade com o novo disco. Ele depõe contra mim. É um trabalho
esquisito e apareceu com atraso. Eu deveria tê-lo gravado há dez anos,
antes de Rod Stewart ter feito os dois dele' |
ÉPOCA - Você diferencia sua música da dos 'bregas' que você
grava. Não é excesso de modéstia?
Caetano - Minha competência musical é limitada. Não posso ser
comparado com a musicalidade de Djavan, Edu, Paulinho da Viola e até de
Chico. Sou um compositor que canta às vezes. Meu violão não tem nível
profissional. Isso não impediu que eu compusesse algumas canções relevantes
que viraram standards. Algumas saíram boas, melhores do que eu imaginava. No
início da carreira, as gravadoras não aceitavam gravar o meu violão,
considerado amador. Aí fui para Londres, lá eles gostaram do meu jeito, e
quando voltei ao Brasil os produtores já aceitavam que eu gravasse. Quando
comecei, eu atuava na periferia da música e contribuía com idéias sonoras.
Eu queria ser pintor. Depois, fazer cinema. Não é preciso ter talento para
ser cineasta, apenas vocação.
ÉPOCA - Você se sentiu feliz ao dirigir Cinema Falado?
Caetano - Adorei me envolver com as filmagens e com a equipe. Mas me
apavorei com os problemas extrafílmicos, como distribuição e contratos. O
filme foi bem recebido pela crítica em 1986, ao contrário do que escrevem
hoje. Falaram mal só três diretoras mulheres, o Arthur Omar - gostei do
livro de fotografias dele - e o Caio Túlio Costa, que escreveu algo terrível
no caderno de variedades da Folha de S.Paulo, num tempo em que o
jornal ainda agitava a cultura. Os críticos adoraram o filme porque ele traz
cenas de pura crítica. Tem uma seqüência amorosa em que o rapaz fala uma
crítica completa para a parceira.
ÉPOCA - E projetos de longas-metragens?
Caetano - Quero voltar a filmar quando for possível. Queria fazer um
filme que se passasse em Salvador e mostrasse a vida lá.
ÉPOCA - Não está na hora de voltar a fazer música?
Caetano - Estou compondo. Na temporada no Baretto em São Paulo fiz
uma música - 'Diferentemente'. Pensei nela correndo, minutos antes do show.
Os músicos aprovaram a estrutura. Vou cantá-la na turnê.
ÉPOCA - Você foi bem recebido pelo público americano na estréia
do show. Mas, para o público brasileiro, não é estranho um ídolo nacional
apresentar repertório americano?
Caetano - No Brasil é mais fácil. Vendi aqui 1,2 milhão de discos com
Prenda Minha - porque tinha a música do Peninha e canções conhecidas.
Não tenho feito esse sucesso todo cantando em outras línguas. Fina
Estampa foi recebido sem entusiasmo pelo público mais caloroso do mundo
- o portenho. Não parei o trânsito no México nem em Miami. A Foreign
Sound não vai fazer sucesso nos países de língua inglesa, nem tenho
intenção de impor meu nome nos Estados Unidos.
ÉPOCA - Como você define o CD e o show A Foreign Sound?
Caetano - Eu sei que estou arriscando minha respeitabilidade com ele.
De certa maneira, o disco depõe contra mim. Eu o chamo de a difficult
easy listening (música comercial difícil). É um trabalho esquisito e
apareceu com atraso. Eu deveria tê-lo gravado dez anos atrás, ou, pelo
menos, antes dos dois CDs do Rod Stewart com standards. Mas, enfim, decidi
lançá-lo porque era uma coisa que eu queria fazer.
ÉPOCA - Você acha que a música americana é melhor que a
brasileira?
Caetano - É, sim. Com o jazz, Cole Porter, Irving Berlinn e Gershwin;
com a soul music e o rock; a música americana tem enorme riqueza, apesar de
Caymmi, Tom Jobim, Chico e Gil. E os americanos têm James Brown. A
influência dele é tamanha que hoje todo o mundo no Brasil se chama Brown:
Mano Brown, Charlie Brown Jr., Carlinhos Brown!
(©
Época)
Biografia do cantor Caetano Veloso
Graziela Salomão
|
Fotos: Reprodução
|
 |
O baiano Caetano Emanuel Viana Telles Veloso nunca imaginou que, saindo
de uma pequena cidade do Recôncavo Baiano, faria tanto sucesso pelo Brasil
afora e seria umas das principais expressões da Música Popular Brasileira.
Mas foi isso o que aconteceu.
Nascido em 07 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, a 73
quilômetros de Salvador, Caetano Veloso, como ficou conhecido por todo o
país, já sabia, desde pequeno, o que queria ser na vida: com pouco mais de 4
anos de idade, o irmão de Maria Bethânia já compunha A Tua Presença
Morena, revelando seus dotes artísticos.
Mas, sua trajetória musical começou, realmente, quando se mudou com a
família para Salvador no início dos anos 60. A capital baiana vivia um
momento de efervescência cultural e Caetano aproveitou sua paixão pela
música e pela bossa nova de João Gilberto e começou a tocar em barzinhos da
cidade. Foi em Salvador, também, que Caetano conheceu o parceiro Gilberto
Gil. Do fruto dessa amizade surgiram composições como No dia em que eu
vim-me embora, Panis et Circenses, São João, Xangô Menino,
Haiti, Cinema Novo, Dada, entre outras.
Nesse período, também, conheceu Gal Costa e Tom Zé, futuros componentes
da Tropicália. Seu primeiro trabalho musical foi uma trilha sonora para a
peça "O Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues. O mesmo diretor, Álvaro
Guimarães, também o convidou para, logo em seguida, compor a trilha de "A
exceção e a regra", de Bertolt Brecht. Esses trabalhos influenciaram,
definitivamente, o futuro de Caetano, fazendo-o decidir pela vida de
cantor-compositor.
A primeira oportunidade como profissional
A carreira profissional de Caetano começou sob a influência da irmã
Bethânia, que foi chamada ao Rio para substituir a cantora Nara Leão no show
"Opinião", sucesso em 1965. A pedido do pai Zezinho Veloso, ele acompanhara
a irmã. No mesmo ano, Bethânia gravou É de Manhã, de Caetano, e a
música marcou sua estréia com um compacto simples. O primeiro disco
"Domingo" veio apenas em 1967, no qual cantava ao lado de Gal Costa.
Momentos difíceis do país
O Brasil vivia momentos de repressão por parte do governo militar. Com a
liberdade de expressão proibida, os artistas tentavam, a todo custo, quebrar
as barreiras da censura. Caetano era um dos revoltados com a situação pela
qual passava o país. Junto com Gil, lançou o movimento cultural
Tropicalista na tentativa de expressar seu inconformismo. Através do
deboche, da irreverência e da improvisação, o tropicalismo revoluciona a
MPB, utilizando-se de elementos estrangeiros fundidos com a cultura
brasileira (a filosofia antropofágica do modernista Oswald de Andrade) e
baseando-se na contracultura. O movimento foi lançado no Festival de MPB da
TV Record, em 1967, com as músicas Alegria, Alegria, de Caetano, e
Domingo no Parque, de Gil, que se tornaram hinos da juventude da época.
Em 1968, no auge do movimento, Caetano lançou o álbum Tropicália, junto com
Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé.
A parceria com Gilberto Gil estendeu-se da música e foi parar na vida dos
dois artistas. O choque de idéias com a ditadura militar ocasionou a prisão
dos dois, em São Paulo, e impôs o exílio na Inglaterra, em 1968. Entretanto,
a barreira geográfica não impediu que os protestos continuassem e, de
Londres, Caetano enviou artigos para o jornal O Pasquim e músicas para
diversos intérpretes como Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Erasmo e
Roberto Carlos.
A volta para o Brasil
Em 1972, Caetano retornou ao Brasil e passou por um momento de alta
criatividade. Até o final dos anos 70, muitos sucessos como Tigresa,
Leãozinho, Odara e Sampa foram lançados. O encontro com
os antigos companheiros Gal, Bethânia e Gil resultou, em 1976, na formação
do grupo Doces Bárbaros. O show excursionou por São Paulo e outras dez
cidades brasileiras, revivendo antigos sucessos, e resultando na gravação de
um LP. Em 1993, a parceria com Gilberto Gil foi retomada e juntos lançaram o
disco "Tropicália 2".
Multimídia, Caetano também se arriscou em outras formas de arte. Em 1986
comandou, ao lado de Chico Buarque, o programa de televisão da Rede Globo
"Chico & Caetano", onde cantavam e traziam convidados. Essa experiência na
televisão ajudou a quebrar a imagem de que os dois músicos não se davam bem.
No cinema, ele dirigiu o filme O Cinema Falado e, como escritor, sua
estréia foi Verdade Tropical, no qual faz um relato pessoal sobre os
principais aspectos e acontecimentos relacionados ao movimento tropicalista.
A ousadia continua sendo uma marca registrada de Caetano. Prova disso é o
seu mais recente lançamento, o CD "A Foreign Sound" com regravações de
músicas americanas.
|
CURIOSIDADES
|
Caetano foi casado com a atriz Dedé Veloso e, desde 1986, vive com a
carioca Paula Lavigne. Tem três filhos: Moreno (de seu primeiro
casamento), Zeca e Tom.
Caetano foi o primeiro brasileiro a se apresentar na entrega do Oscar
cantando a música Tonada de Luna Llena, que faz parte da trilha
sonora de A Flor do Meu segredo, do amigo espanhol Pedro
Almodóvar.
O nome de seu filme O Cinema Falado remete ao primeiro verso de
um samba de Noel Rosa
Conquistou o Grammy na categoria World Music, em 2000, com o disco
"Livro"
O nome de Bethânia foi escolhido pelo próprio Caetano pois, quando ela
nasceu, fez sucesso uma música de Nelson Gonçalves chamada Maria
Betânia (de Capiba) |
(©
Época)
Discografia de Caetano Veloso


1967 - Domingo
1968 - Caetano Veloso
1969 - Tropicália
1969 - Caetano Veloso
1969 - Barra 69 - Caetano e Gil ao Vivo
1971 - Caetano Veloso
1972 - Transa
1972 - Caetano e Chico Juntos ao Vivo
1973 - Araçá Azul
1974 - Temporada de Verão ao Vivo na Bahia
1975 - Jóia
1975 - Qualquer Coisa
1976 - Doces Bárbaros
1977 - Bicho
1977 - Muitos Carnavais
1978 - Muito - Dentro da Estrela Azulada
1978 - Maria Bethânia e Caetano Veloso ao Vivo
1979 - Cinema Transcendental
1981 - Outras Palavras
1981 - Brasil
1982 - Cores, Nomes
1983 - Uns
1984 - Velô
1986 - Totalmente Demais
1986 - Caetano Veloso
1987 - Caetano Veloso
1989 - Estrangeiro
1991 - Circuladô
1992 - Circuladô ao Vivo
1993 - Tropicália 2
1994 - Fina Estampa
1994 - Fina Estampa ao Vivo
1996 - Tieta do Agreste
1997 - Livro
1999 - Prenda Minha
1999 - Omaggio a Federico e Giulieta ao Vivo
2000 - Noites do Norte
2001 - Noites do Norte ao Vivo
2002 - Eu Não Peço Desculpa
2002 - Todo Caetano (caixa com 40 cd's)
2004 - A Foreign Sound
Filme
O Cinema Falado (1986)
Livro
Verdade Tropical (1997)
(©
Época)
|