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O chique do sertão

05-06-2008

Eduardo Bagnoli

Pedra do Ingá, no Cariri: a beleza do Nordeste não é feita só de praias

   As praias do Nordeste há muito se tornaram um destino favorito de brasileiros em férias. A novidade é que se começa agora a explorar na região outro tipo de turismo, levando visitantes a um punhado de atrações encravadas no agreste. Que ninguém se assuste: não é preciso dormir em barracas ou andar várias horas com a mochila nas costas para percorrer roteiros ainda pouco conhecidos como o sertão do Cariri, na Paraíba, o Vale do Catimbau, em Pernambuco, e o Lago de Xingó, em Sergipe. As excursões, que em geral duram uma semana, são organizadas por agências de viagens locais ou nacionais, a hospedagem é feita em hotéis com os requisitos básicos de conforto e as refeições, baseadas na culinária local, são caprichadas. "É um ecoturismo light", define a paulistana Cristina Cestari, que conheceu o Cariri com um grupo que incluía pessoas de 30 a 65 anos. "As caminhadas são leves e as paisagens, lindas", ela relata.

   Um dos primeiros a organizar excursões ao sertão paraibano de forma sistemática foi o geólogo Eduardo Bagnoli, no fim dos anos 90. Empolgado com as imponentes formações rochosas em meio à vegetação de caatinga, ele criou uma pequena agência e começou a levar turistas, a partir de Natal, no Estado vizinho do Rio Grande do Norte, para conhecer as pedras do Capacete e do Ingá e o Lajedo do Pai Mateus, uma elevação rochosa de 1 quilômetro de comprimento cujo formato lembra uma imensa tigela invertida e sobre a qual estão dispostos cerca de 100 imensos blocos de granito. Levados por guias locais, os turistas podem conhecer a paisagem da caatinga, com seus facheiros (espécie de cactos) que atingem mais de 12 metros de altura, além de outras plantas nativas, como quixabeiras, mulungus e mandacarus. Os visitantes aprendem como seria sobreviver num ambiente inóspito obtendo água e alimentos das plantas. Dependendo da quantidade de chuva, formam-se pequenas piscinas naturais junto às pedras. Com sorte, podem-se observar grupos de sagüis.

   Ainda no roteiro paraibano, na cidade de Areia fica o Museu da Rapadura, que exibe a história do ciclo econômico da cana-de-açúcar. Na região, os turistas se hospedam num hotel-fazenda com piscina e ar-condicionado nos quartos. Lá é preparado o bode no buraco, um cabrito ensopado em panela de ferro e colocado sobre brasas depositadas sob o chão. "Dos cerca de 2.000 turistas que já levei ao Cariri, mais de 90% são estrangeiros, principalmente europeus", diz Bagnoli, que hoje mantém um acordo com a operadora de viagens da TAM. O pacote de sete noites, incluindo três dias no sertão paraibano e quatro no litoral potiguar, em Natal e na Praia da Pipa, custa 2.998 reais (partindo de São Paulo).

   Outra opção para quem quer conhecer a caatinga é o roteiro chamado de Sertão Pernambucano. Dura cinco noites, passa por cachoeiras, pelo Pico do Papagaio – o ponto mais alto de Pernambuco, com 1.200 metros de altura, que é escalado em parte por uma trilha – e pelo local onde nasceu Lampião. Em Serra Talhada, visita-se o Museu do Cangaço, com fotografias, objetos e documentos sobre o tema. À noite, os turistas assistem a apresentações de um grupo de xaxado e de um trio de forró. No último dia, a atração é o passeio pelo Vale do Catimbau, um parque arqueológico com grutas, cavernas, inscrições rupestres e cemitérios indígenas. A partir do Recife, custa 1.595 reais por pessoa.

   Partindo-se de Aracaju, há um pacote que inclui passeios na região de Canindé de São Francisco, onde fica o Lago de Xingó. O lago resultou da construção de uma usina hidrelétrica que inundou uma área de 65 quilômetros quadrados. O ponto alto do programa é um passeio de escuna ou catamarã pelos cânions de até 50 metros de altura formados pelas águas do Rio São Francisco. Outras atrações da região são o Museu de Arqueologia de Xingó, que conta a história da ocupação da região há 9 000 anos, e o Parque Temático da Caatinga, com trilhas ecológicas que permitem conhecer a flora e a fauna do sertão. O pacote de sete noites, partindo de São Paulo, sai por 978 reais. "As pessoas sempre querem conhecer lugares novos", diz Cleyton Armelin, diretor comercial da agência de viagens CVC. "Por isso, criamos uma gerência comercial específica para buscar novos destinos dentro do Brasil", ele completa. Quem quiser se aventurar, que prepare o chapéu de couro e o gibão.

(© Revista VEJA)

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