05-06-2008
 |
|
Fábio Coelho, Leonardo, Américo Barreto e Auricéia Fraga
em Viúva Porém Honesta, de Nelson Rodrigues,
numa montagem do Vivencial Diversiones. |
Herança do mais polêmico grupo
teatral pernambucano se mantém viva na produção artística do Recife
Rodrigo Dourado
Especial para o DIARIO
Mosteiro de
São Bento, Olinda, 1974. Diversos jovens ligados à Pastoral da Arquidiocese
de Olinda e Recife se reúnem para celebrar o sucesso de suas atividades nas
paróquias da cidade histórica. Nasce, então, o espetáculo Vivencial I,
colagem de textos de Jean Genet, Bertolt Brecht e do noticiário da Imprensa,
primeira célula subversiva do que viria a ser o Grupo Vivencial Diversiones.
O espetáculo causa enorme furor e acaba sendo proibido pelo abade. Os jovens
levam sua montagem para o Teatro do Bonsucesso e lá alcançam inesperada
projeção. A montagem desperta o interesse de boa parte da intelectualidade
marginal recifense e permanece dois meses em cartaz.
Desde aquele 25 de maio, 30 anos se passaram.
Mas a herança do Vivencial Diversiones se mantém viva na produção artística
da cidade. A partir de Vivencial I, surgiu o mais polêmico grupo teatral
pernambucano. Pelas mãos de Guilherme Coelho, ex-seminarista e diretor da
maioria dos espetáculos, a trupe acabou se tornando uma trincheira da
marginalidade,abarcando toda sorte de excluídos.
O estilo colagem predominou nas primeiras
montagens. Genesíaco, Conversa de Botequim, Madalena em Linha Reta, Auto de
Natal, O Pássaro Encantado na Gruta do Ubajara e Vivencial II tilizavam o
noticiário como material dramatúrgico por excelência. Mas, para além da
colagem, o que o Vivencial fez foi imprimir ao palco pernambucano feições
pós-modernas, traduzindo teatralmente o fragmentário do nosso tempo.
O Vivencial foi, na verdade, uma
manifestação tardia do tropicalismo. Graças a um forte intercâmbio com
Jormad Muniz de Britto, grande porta-voz da movimentação tropicalista no
Recife. Esse namoro, no entanto, lhe rendeu um inimigo: o Armorial. Assim,
mais que um espaço de experimentação tropicalista, o Vivencial se tornou uma
trincheira na guerra contra Ariano Suassuna e seu projeto artístico.
Com as montagens de Sobrados e
Mocambos (1976) e Viúva, porém Honesta (1977) o grupo conseguiu levantar
capital para adquirir uma casa de espetáculos no Complexo de Salgadinho, em
Olinda. A aquisição permitiu uma melhoria nas produções, graças à presença
de um público cativo. Repúblicas Independentes, Darling (1978), As Criadas
(1979), Notícias Tropicais (1980), All Star Tapuias (1980) e Os Filhos de
Maria Sociedade (1982) são montagens que já estrearam no Café-teatro.
Pelo Café-teatro passaram inúmeros ícones da
cultura brasileira: Gilberto Gil, João Silvério Trevisan, entre outros, e
grandes nomes da cultura local, como Alceu Valença, Luís Maurício
Carvalheira e uma série de artistas de teatro.
A aquisição da sede e sua transformação num
espaço da moda permitiram também que o grupo ganhasse projeção nacional. A
montagem de Repúblicas Independentes, Darling, viajou pelo Brasil através do
Circuito Mambembão/Mambembinho.
(©
Pernambuco.com)
Uma escola para o transformismo
Viveca. É assim
que carinhosamente se chamavam os integrantes gays do Vivencial Diversiones.
O termo, utilizado até hoje pelos mais saudosistas, reflete um dos aspectos
mais marcantes da produção do grupo: o transformismo. Graças à sua
orientação plural, o Vivencial tornou-se um reduto de homossexuais, fazendo
escola no Recife.
Na década de 90, a montagem de Cinderela, a
Estória que sua Mãe não Contou (Trupe do Barulho) foi considerada legítima
herdeira do Vivencial por muitos que ali identificavam a estética do grupo
olindense e, especialmente, por ser o texto de autoria de um ex-integrante
do Vivencial: Henrique Celibi. Mas é preciso notar que o "desbunde" e a
estética gay estão associados ao Vivencial já em sua última fase, quando da
tentativa de Américo Barreto de reacender sua chama.
O "boom" gay dentro do Vivencial inicia-se com
a abertura do Café-teatro. Lá as apresentações tinham horários
diferenciados. Às 20h, aconteciam os espetáculos do grupo. Às 23h, os shows
musicais. À meia-noite artistasrecitavam poemas e faziam apresentações ao
improviso. Por volta das 2h ou 3h da madrugada, os transformistas
comandavam.
Bonecas falando para o Mundo (espetáculo
em duas versões) e diversos números individuais encantavam e divertiam a
platéia, com performances de Lou Island, Severina Xique-Xique, Luciana
Luciene e Paulete Gorda, entre outras, dublando e interpretando ícones da
MPB e do show business. O diálogo com o universo noturno dos transformistas
foi contaminando gradualmente as montagens, até que o "desbunde" se
instalasse.
Américo Barreto é o grande responsável por
essa fase. Ele já havia montado As Criadas, com três homens representando
personagens femininas. Também chegou a abrir em Natal, e Belém, filiais do
café-teatro (Henrique Celibi fez o mesmo em Fortaleza). Com seu retorno, a
casa foi reaberta seguindo essa orientação. Ao lado de Fábio Costa, Celibi e
Pernalonga, ele montou Rola Skate (1981), Nós Mulheres (1981) e a Revista
Oba Nana ... Fruta do Meio (1982), utilizando a figura do homossexual como
personagem-central das produções.
A focalização dessa figura era um processo
que já havia acontecido com a revista, gênero que trabalha com a tipificação
("O Malandro", "O Caipira", etc.), umas das influências do Vivencial. A
figura da "Mulata" revisteira foi sendo substituída pela do transformista,
como no show Les Girls (1965), no Rio de Janeiro, que lançou a famosa atriz
Rogéria. Não é de surpreender, portanto, que o mesmo acontecesse no
Vivencial. Mas sua temática francamente homoerótica também estava associada
à produção de grupos como o Teatro do Ridículo, nos EUA, e Dzi Croquettes,
no Brasil.
Logo, é interessante observar o quanto o
transformismo exercitado dentro do Vivencial se manifesta ainda hoje na
noite e no tablado recifense. Vale registrar a bela homenagem que está sendo
feita pelo espetáculo Angu de Sangue (Teatro Hermilo Borba Filho), no qual é
exibido um vídeo intitulado Perna. Nele, mostra-se a trágica história da
Viveca (Pernalonga) assassinada por um assaltante em 2000 e que teve o
socorro negado por ser soropositivo. Percebe-se que a influência do
Vivencial está presente em todo o espetáculo, confirmando a idéia de que o
grupo é um divisor de águas no teatro pernambucano.
(©
Pernambuco.com)
Entrevista - Guilherme Coelho
DP - Como era o clima do início do Vivencial?
Guilherme Coelho - O movimento teatral em Pernambuco sempre foi muito
efervescente, principalmente comparado com outras capitais brasileiras,
ontem e hoje. Em 1974 era bastante diversificado, mas não o suficiente para
que o Vivencial marcasse e fizesse a diferença entre tantos bem comportados
grupos de teatro, que iam do TUCAP ao TAP passando pelas bucólicas
periferias, o Vivencial se fazia o avesso do avesso do avesso.
DP - O que existia de tão subversivo que fez o abade proibir as
apresentações?
Guilherme - Era um manifesto que tratava de dar respostas aos
condicionamentos culturais e assim atacava todos os tótens e tabus vigentes.
E para isso lançava mão de textos proibidos e censurados. O Abade não sabia
de que se tratava, permitiu que estreasse no galpão do colégio, mas no
terceiro espetáculo não foi mais possível e a temporada foi para o Teatro do
Bonsucesso. A intelectualidade de plantão soube e se encarregou de divulgar
e mostrar que havia algo depodre no reino da Dinamarca e que quebrava o bom
comportamento a assepsia da cena pernambucana.
DP - O que você pretendia ao juntar os jovens excluídos em suas encenações?
Guilherme - Os jovens excluídos só vieram depois. No início eram jovens
das mais diferentes classes sociais que gravitavam nos movimentos de
evangelização dos paróquias de Olinda, e como todo jovem, loucos para dizer
e fazer algo. O grupo sempre primou pela diversidade social, formal, sexual
e religiosa. Quando o grupo se instalou nas cavalariças do Barão de
Tacaruna, hoje Salgadinho-Ponte Preta, é que se ampliou e trouxe os
profissionais da noite para o glamour da ribalta, dando qualificação e
visibilidade a um talento que so o submundo tinha chance de privar.
DP - Suas montagens pulsantes estavam baseadas em quê?
Guilherme - O que se respirava era
subversão. O Brasil estava sob o AI5 e só os malucos tinham coragem de
desequilibrar e fazer guerrilha urbana de pintas, o pulsar vinha dos gritos
presos na garganta e daí o grupo se apropriava de qualquer texto que pudesse
oferecer uma leitura que desconstruísse o cotidiano e através de metáforas
atacava tudo e todos...
DP - Como era materializado o antagonismo entre o Vivencial e o Movimento
Armorial?
Guilherme - Amin Steple arregimentava o Bloco Carnavalesco Armorial Siri
na Lata e só em ouvir falar que o bloco ia sair os vivenciais todos
aderiram... Como costumávamos não deixar nada sem resposta, era o movimento
Armorial lançar algo, nós já fazíamos a réplica e tréplica. Mas isso não só
ao Armorial, mas a todas as manifestações da cultura oficial, que sempre deu
panos para as mangas a quem deseja inclusive fazer humor... Eu
particularmente acho o movimento Armorial um luxo, mas tudo que é avante e
que empunha bandeira recebe flechadas e cada um sabe a dor e a delicia de
ser o que é...
(©
Pernambuco.com)