Notícias
A insistência no xote romântico

05-06-2008

Genival Lacerda

Áudio
» Amazan - Metendo a Peia
» Amazan - Andar de Camelo
» Petrúcio Amorim - Boi de Piranha
» Petrúcio Amorim - Quem afia a faca sabe para que serve o fio
» Petrúcio Amorim - Deus do Barro
» Josildo Sá - Bê a Bá
» Josildo Sá - Camaleão
» Josildo Sá - Forró no Sertão
» Alcymar Monteiro - Na Fazenda de Vovô
» Alcymar Monteiro - Vaquejada da Bahia
» Alcymar Monteiro - Boca de forno
» Genival Lacerda - Tá beleza
» Genival Lacerda - O Pensador
» Genival Lacerda - Não fale mal do meu Sertão

Do veterano Genival Lacerda passando pelo arrasta-pé de butique do Forroçacana, a oferta de discos de forró nunca esteve tão generosa

JOSÉ TELES

   Nunca se lançou tanto disco de forró como este ano. São dezenas de títulos, de nomes conhecidos como Petrúcio Amorim, Alcymar Monteiro, Genival Lacerda, de forrozeiros que tentam entrar para o clube dos grandes, como Josildo Sá, Gláucio Costa, de ainda desconhecidos como o Leninho e o Sexteto Boca de Caieira. Sem esquecer os forrozeiros de butique do Forroçacana.

   A maioria cita Luiz Gonzaga como se o Rei do Baião fosse uma espécie de santo padroeiro, poucos no entanto se valem da variedade de tema e ritmos que pontuam a obra de Gonzagão. Grande parte dos lançamentos tem o amor como matéria-prima. Petrúcio Amorim, um dos responsável pela renovação do forró nos anos 80 (que se diz influenciado por Chico Buarque e Roberto Carlos), em Deus do Barro, presta uma homenagem ao Mestre Vitalino, e se ocupa menos do romantismo do que no disco anterior. O forte do CD são as boas melodias. Petrúcio Amorim, assim como Maciel Melo (que também está lançando disco novo) é um competente artífice de melodias. Em Aboios e Vaqueiros, Alcymar Monteiro continua investindo no filão da vaquejada, dividindo aboios, vaneirões, com xotes. Este disco está mais dentro do espírito do forró, com participações de Arlindo dos Oito Baixos, Silvério Pessoa e Joquinha Gonzaga.

   Amazan faz forró “moderno”, e apela para o duplo sentido explícito, e humor de gosto duvidoso. Viciado em Mulher (Polymusic), o CD deste ano, começa com um forró cujo refrão é “Vou meter-lhe a peia”. Em Andar de camelo, assim descreve o animal: “Tem cara de veado e requebra no andar/ Se deita pra eu descer/ Se deita pra eu montar”. Pode parecer apelação, mas em relação a outros forrozeiros, Amazan até pega leve.

   Gláucio Costa, em Trilha Nordestina (Pantera Negra) bate e rebate na tecla do xote romântico. Felizmente abre espaço para forrós antigos. Canta O rela bucho, de Elino Julião, Fulô da fuloresta, de João Silva e Geraldo Nunes, e Sabiá na seca, de Zé Marcolino (cuja voz se escuta no início). O disco tem alguns forrós feitos à moda antiga, dos quais o melhor é Chamego da Marieta. Também da nova geração é Josildo Sá, que lança o segundo CD, Coreto (independente), cujas músicas foram compostas quase todas em parceria com Anchieta Dali. Josildo não insiste nesta história de pé-de-serra. Bê a bá, a segunda faixa, traz algumas inovações na introdução, pouco comuns ao forró. Camaleão tem a mesma levada de Frevo mulher, e Zé Ramalho. Uma das melhores faixas do disco é Forró no Sertão, um baião.

   Leninho e o Sexteto Boca de Caieira, é um septeto. Seu CD, Aconteceu (independente) incorre na mesmice do xote romântico. Humberto Teixeira e Zé Dantas também compunham música falando de amor, mas com imagens tão ricas que se tornaram expressões populares. Os forrozeiros de hoje apelam para rimas ricas e redundantes. Lenino e Sexteto Boca de Caeira podem até animar bem um forrobodó, mas não vão além da repetição de uma fórmula.

   Fórmula também é o que emprega o Forroçacana, um dos vários grupos surgidos na onda do tal forró universitário (ou de butique). Os Maiores Sucessos do São João (Indie Records) parece aquelas armações fonográficas, em que uma orquestra de nome ficíticio faz um disco só com músicas manjadas e dançáveis. O repertório passeia por clássicos juninos, o que até seria uma boa idéia, se mais na frente, o grupo não quebrasse o conceito do disco, misturando Chegou a hora da fogueira, Noites brasileiras, Isto é lá com Santo Antônio, com Morena Tropicana ou Só quero um xodó.

(© JC Online)


Genival Lacerda não se rende ao popularesco e canta forró do bom

   Genival Lacerda é mais conhecido pelas músicas de duplo sentido, pela comicidade de suas apresentações, nas quais a barriga proeminente é parte intrínseca do show. Mas ele tem no seu matolão muito mais do que sucessos como Rock do jegue, Severina Xique-Xique ou Radinho de Pilhas. Aos 73 anos, 53 de carreira, o paraibano, de Campina Grande, Genival Lacerda é um dos poucos remanescentes da geração de forrozeiros surgida logo depois que Luiz Gonzaga fez o País inteiro dançar o baião.

   “Comecei em progamas de calouros, em 1948, com Marinês. Teve uma vez que nós dois tiramos o primeiro lugar, ela ficou de me dar depois minha parte do prêmio. Só sei que até hoje ela me deve 50 mil réis", relembra, brincando, Lacerda, hoje morando em Piedade, Jaboatão: “Já morei no Recife, no Rio, depois voltei para Campina Grande, e estou aqui novamente há dez anos”. Foi no Recife, na antiga Rozenblit, que ele estreou em disco, no início dos anos 60, mas já escolado dos forrobodós e gafieiras de Campina Grande, e já na escola do fraseado sincopado, que aprendeu com Jackson do Pandeiro, (eram concunhados).

   Durante anos era apresentado nos palcos como “O Senador do Rojão”. Senador pela coincidência do sobrenome com o do então famoso político carioca Carlos Lacerda. Com talento para o cômico, Genival Lacerda chegou a apresentar na extinta TV Continental, no Rio, uma dupla com Luís Queiroga (humorista e dos maiores compositores da história do forró): “Era num programa que Luiz Gonzaga apresentava, fazíamos os personagens Cazuza e seu Barbalho”.

   Embora com uma sólida carreira no Nordeste, Genival Lacerda só chegou ao sucesso nacional com o xote Severina Xique-Xique, de João Gonçalves. O forró de duplo sentido sempre existiu desde o Cheirinho da Carolina ou Peba na pimenta, mas foi Lacerda que o tornou uma tendência. Sem querer, criando uma legião de copiadores, que, não raro, extrapolavam o duplo sentido, e explicitavam o que deveria ficar subentendido.

   “Acabou-se o forró como os grandes forrozeiros faziam. Não há mais um Luiz Wanderley, um Jackson, um Jacinto. Modificaram o forró, fizeram dele um enlatado, só se fala agora de amor. O público aceita porque não conhece outra coisa. Essas bandas que ficam cantando essas letras com rapariga tomaram conta das vaquejadas. Uma fez sucesso e apareceram mais de mil cantando sem ter voz, uma coisa ligeira, sem graça”, dispara.

   Elogios vão para a festa de forró de Aracaju, segundo ele, a única que prestigia o forró autêntico, e para uns poucos forrozeiros em atividade: os veteranos João silva, João Gonçalves e mais Flávio José, Petrúcio Amorim, e Maciel Melo. Com um disco novo, Genival Lacerda O Pensador, lançado por um selo paulista, com canjas de Flávio José, Dominguinhos, e mais o herdeiro Genival Lacerda Filho, Seu Vavá (como também é chamado) vai de duplo sentido em apenas uma faixa, nas demais faz forró como antigamente. Não se limita ao xote, nem canta obviedades românticas, nem por isso deixa de cantar o amor, mas com uma brejeirice hoje rara no forró (”Faz tempo que não vejo/No quintal um beija-flor/Faz tempo que não vejo os zoinho do meu amor”, de Sete léguas). Genival até gravou um baião (hoje, ritmo em extinção). Meu orgulho é ser vaqueiro (de Teo Azevedo). (J.T.)

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia