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Maracatus incorporam lógica de mercado

05-06-2008

Alcione Ferreira

Caboblo de Lançca, do Maracatu Rural

Valorização do folguedo exige a profissionalização dos grupos, que administram privações e temem descaracterização

Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO

   Nazaré da Mata, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, é o celeiro dos maracatus rurais, grupos em sua maioria integrados por agricultores da cana-de-acúcar. Identificar os mestres mais importantes é tarefa injusta. Os que se destacam, portanto, o fazem por seu poder de articulação. Os comandantes das sambadas (versos improvisados puxados pelos mestres que, na ocasião de um encontro entre dois grupos, transformam-se em pé-de-parede, ou seja, desafio) estão cada vez mais conscientes de que é preciso profissionalizar-se. O maracatu rural tornou-se o símbolo da cultura popular pernambucana mais explorado nos últimos anos. A valorização da sua imagem, se por um lado não condiz com a situação de privação por que passam seus integrantes, por outro é a chance para quem souber aproveitar o momento.

   É assim que sobressaem os mestres, independente de serem eles os mais antigos ou maiores dententores da informação sobre o folguedo. Manoel Carlos, 36 anos, é o Barachinha, mestre do Estrela Brilhante.Ele inspirou-se no mestre João Paulo, também de Nazaré, e hoje é tido como um dos mestres mais inteligentes da sacada de versos. Sua voz, diz o povo, não é muito bonita, mas para ele o que importa nesse caso é o talento. "É um dom ser mestre, o mais importante é ter coragem", defende Barachinha. Outro que convence pelos versos é o mestre Antônio Roberto, o poeta. Ficou sendo chamado assim justamente por ter vindo da cantoria de viola. "O mote do repentista realmente tem a ver, só muda o ritmo, mas a poesia é a mesma", diz Poeta.

  O talento de Barachinha estende-se ainda para a capacidade de confeccionar as golas, chapéus e lanças dos caboclos. Nas fases de pouca apresentação, é com a gola que ele incrementa sua renda. Ele, no entanto, é um dos que vivem melhor. Isto graças a parceria com o músico recifense Siba Veloso, que está tendo um papel importante na revitalização dos maracatus da Zona da Mata. Siba, que também é mestre do Estrela Brilhante, convidou Barachinha para integrar o grupo Fuloresta do Samba, baseado nos ritmosdaquela região, que virou CD e até hoje realiza shows em diversas capitais do País.

   HERANÇA - O menino que aos quatro anos já acompanhava o pai, caboclo do Leão Formoso, nas sambadas, hoje está mais conhecido. Defende que para mudar a situação dos maracatus é preciso patrocínio. "Esse maracatu daqui, se o dono pudesse, me dava uma usina, mas viver de maracatu ninguém consegue, por isso toda minha tese é em cima das empresas", argumenta.

   O dono do Estrela Brilhante Severino Luiz de França, o seu Trigueiro, afirma que graças ao poder do povo e à ajuda dos amigos o maracatu vai para as ruas todos os anos. Aposentado, ele consegue juntar de R$ 4 a 5 mil todos os anos para promover as reformas que o maracatu precisa. Mesmo com as dificuldades, não pensa em parar. "Quando eu morrer, o mestre toma conta", diz, olhando para Barachinh. "Hoje, estamos abrindo mão da tradição por conta da beleza, eu mesmo me incluo nisso", diz ele, que assume não fazer parte de cultos religiosos, praticados pela maioria dos caboclosantes de saírem às ruas.

   Barachinha critica também a forma como alguns maracatus estão se apresentando. "Preocupam-se com a beleza das fantasias, mas muitos não usam mais o Mateus, a Catita ( Catirina é figura do cavalo-marinho; no maracatu rural, é Catita) e a burra", denuncia. Também exemplifica com a figura do arreia-mar (índio), que no passado era modesto e brincava com cabaças do mato na cintura. "Hoje, muitos usam até botas", diz.

   Até mesmo o comportamento dos mestres está diferente. Antes, o desafio nas sambadas podia durar uma noite inteira. Os mestres não desistiam facilmente, o que daria vitória ao outro. "Hoje em dia já sabemos que um vai ter que sair às duas da manhã", reclama. Tais transformações são provocadas pela necessidade que os grupos têm de estarem no mercado da cultura, presentes em mais de um evento na mesma noite, e ainda tornando-se cada vez mais vistosos. O que pode acontecer? "É o maracatu perder a graça", imagina.

(© Pernambuco.com)


Patrimônio Imaterial sob ameaça
 

   A falta de uma política específica para o folclore (o que aliás, não é um problema que atinge somente essa esfera da cultura) faz com que os lucros auferidos com a utilização dos signos da cultura popular nunca sejam revertidos de forma justa em benefício de seus autores. A proteção desses bens, chamados imateriais, é preocupante há mais de meio século, quando foi criada a Comissão Nacional do Folclore, ligada à UNESCO. Depois, com a criação das Comissões Estaduais de Folclore, criou-se a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, que tem passado por várias estruturas jurídicas na administração direta dos Ministérios da Educação e da Cultura, e depois, na FUNARTE, hoje denominada Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, cuja sede está no Rio de Janeiro.

  Segundo o pesquisador pernambucano Roberto Benjamim, presidente do Conselho Estadual e Federal do Folclore Brasileiro, somente nos períodos em que a administração da FUNARTE buscou o apoio das Comissões Estaduais do Folclore, pôde assegurar uma atividade realmente de âmbito nacional, da qual resultaram as séries de publicações Folclore Brasileiro e Cadernos do Folclore, além de 38 discos de documentos sonoros referentes a diversos Estados. Sucessivas recomendações da Unesco, a respeito da problemática da proteção aos bens imateriais, não tiveram repercussão na esfera de decisão do Poder Público Brasileiro.

   "Os órgão de governo têm tido atuação bastante limitada a nível federal, tanto em quantidade de ações, quanto em relação à dimensão espacial, que tem sido extremamente restrita. Ao nível de Estados e municípios, as ações são quase sempre paternalistas ou clientelistas, quando não há omissão", diz Benjamim. Segundo ele, a proteção do Patrimônio Imaterial preocupa a Unesco e a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, cuja sede fica na Suíça. A constituição de 1988 prevê a proteção aos bens culturais materiais e imateriais nos artigos 215 e 216, mas como são auto-aplicáveis, dependem de regulamentação.

   A presidência da República baixou decreto em 4 de agosto de 2000, instituindo o registro de bens imateriais. De lá para cá, nem 10 bens imateriais foram registrados em todo País, o que seria somente um primeiro passo para assegurar a manutenção propriamente dita desses bens, a partir da seguridade de sua base física. Em Pernambuco também há uma lei que visa assegurar os direitos dos detentores dos bens imateriais, é a Lei do Patrimônio Vivo, que está em fase de regulamentação mas, ao que parece, não será regulamentada posto que sugere critérios considerados absurdos pelos que fazem a cultura popular. Um deles, é que os mestres comprovem estar há mais de 20 anos na atividade.

   Ou seja, na prática, tais leis que poderiam criar mecanismos de proteção em relação aos abusos cometidos - entre eles a apropriação da criação popular por autores eruditos e de massa - ainda não funcionam. "Eles vivem no abandono, sendo explorados, sobre diversas formas e não merecem isso. A lei em si não seria suficiente, mas seria preciso também um trabalho de conscientizaçãoda sociedade sobre o direito destes artistas", finaliza Roberto Benjamim.

(© Pernambuco.com)


Riqueza musical da Mata Norte

   Talvez ainda esteja muito longe do maracatu rural perder a graça, como profetiza Barachinha. É mais provável que do interesse das pessoas surja algo mais produtivo. Essa é a crença do músico Siba Veloso, que depois de ter morado em São Paulo com o grupo Mestre Ambrósio, decidiu se mudar para Nazaré da Mata, para estreitar sua relação com as pessoas e com a música do maracatu. Hoje, Siba é um mestre e também o maior articulador do maracatu rural. "O interesse exterior pelos maracatus tem importância grande, mas é também conseqüência de uma articulação de dentro para fora, os maracatus se organizaram, estão mais bonitos, menos violentos, se comunicando melhor com o público", avalia.

   No mês passado, entre os projetos de patrocínio aprovados pela Petrobrás, estava o Poetas da Mata Norte, assinado por Siba, e que vai resultar na gravação de seis CDs com a obra dos mestres de maracatu e ciranda mais importantes da região. Siba quer formar duplas para cada CD e traçar uma visão ampla e profunda das tradições. "As pessoas ainda conhecem mais o lado plástico, estético, muito pouco sobre a música e a poesia", diz ele.

   "Até hoje quase não existem momentos para a poesia do maracatu ser ouvida. Geralmente, há um microfone para o terno, no chão, outra para o cara cantar, no palco, isso distancia o público", explica o compositor. Na função em que está hoje, dividido entre a produção musical e o mercado, Siba tem autoridade para dizer que é preciso um pensamento novo na área cultural. Enquanto não chega, a ordem é agir por conta própria. "Temos que nos articular individualmente, a saída é por aí, se for pensar mais fundo mesmo, a solução mesmo está na divisão de renda", reflete.

(© Pernambuco.com)

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