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Pra forrozar

05-06-2008

Santanna: “Levou oito anos para a minha música chegar no Recife”

Áudio
» Asa Branca (Dominguinhos, Sivuca e Oswaldinho)
» Arenga (Maciel Melo)
» Já Faz Tempo Que Não Lhe Vejo (Trio Nordestino)
» Conselho A Um Filho Adulto (Paulinho Leite)
» Pé-de-Saudade (Marinês)
Texto
» Confira o site de São João do JC OnLine. Aqui!
 

   Nesta segunda parte de uma série de três reportagens sobre o forró, e a enxurrada de novos CDs do gênero visando as festas juninas (ficaram de fora bandas híbridas de forró eletrônico), são destacados alguns dos lançamentos mais importantes. Confira ainda entrevista com o lendário Coroné, integrante, há quase 50 anos, do Trio Nordestino.

JOSÉ TELES

   “Mulheres! Vocês são os portões do corpo e são os portões da alma.” A frase do poeta norte-americano Walt Whitman está no site de Santanna O Cantador, um cearense, de Juazeiro, ex-bancário, estudioso das tradições nordestinas, que, a partir do CD Xote Pé de Serra, em 2002, virou um dos maiores vendedores de discos da região. Santanna O Cantador acaba de lançar mais um CD, Forró do Bem-Querer (Atração Fonográfica), cuja vendagem, ele conta, cruzou a barreira das 50 mil cópias.

   “Levou oito anos para a minha música chegar no Recife”, diz Santanna, que atribui parte do sucesso ao fato de fazer o que considera ser um trabalho verdadeiro: “Faço forró como se fazia no começo, sem instrumento eletrônico. Não uso guitarra, baixo, bateria”, jacta-se, de um purismo com o qual o próprio Luiz Gonzaga deixou de preocupar-se desde 1972. “Tem um negócio no meu trabalho que é difícil conseguir. Ele agrada a todas as classes sociais, todos os níveis intelectuais, e todos os sexos, até o que chamam de terceiro sexo”, comenta sem falsa modéstia.

   Faltou acrescentar um repertório bem escolhido, equilibrado entre canções novas e forrós antigos (seus dois maiores sucessos até agora foram Ana Maria, gravada nos anos 70 pelos Três do Nordeste, e Tamborete de forró, lançada por Luiz Gonzaga em 1983). Forró do Bem-Querer abre com Daquele jeito, originalmente de Gonzagão (com Luiz Ramalho), no álbum Sangue Nordestino (1973). A inovação mesmo está na utilização de três sanfonas, uma delas pilotada por Camarão, do alto de meio século de experiência com o instrumento.

   Maciel Melo está no primeiro time do forró atual no Nordeste. Dê Cá Um Cheiro é o CD que ele lançou na semana passada. Sozinho, com parceiros (Edgar Mão Branca, Cláudio Almeida, Luiz Homero, Anchieta Dali), a música de Maciel Melo, no forró de hoje, é a que apresenta mais ligações atávicas em suas letras. O amor também faz parte de suas canções, mas com uma abordagem mais terra-a-terra, mais Zé Dantas. Neste álbum, ele, curiosamente, canta O ciúme, de Caetano Veloso, garantindo que a gravou não como um desabafo amoroso, e sim para homenagear Petrolina (onde está morando). O próximo trabalho de Maciel Melo será a gravação de um DVD.

   Na terceira edição do projeto Forroboxote, Xico Bezerra decidiu convocar apenas mulheres para interpretar suas composições (com parceiros, a maioria). Mulheres Cantadeiras de Uma Nação Chamada Nordeste junta um time que vai da lendária Marinês, primeira mulher a cair no forró, a Amelinha, Chiquinha Gonzaga, Bia Marinho, Maria Dapaz. Em cada uma das 16 faixas do CD, há uma cantora capaz de traduzir a linguagem do forró. A música é de boa qualidade, e o ubíquo Dominguinhos dá uma canja na faixa de Irah Caldeira.

   Dominguinhos está com mais outros dois mestres, Sivuca e Oswaldinho, no CD Cada um Belisca um Pouco (Biscoito Fino). Um disco que dispensa comentários, pelo talento exacerbado da trinca (como se não bastassse, tocam com feras como João Lyra, Mingo Araújo, e Durval). Impecável e obrigatório, até porque não é todo dia que estes três gravam um álbum juntos. A ortodoxia do pé de serra não é com Paulinho Leite, no terceiro CD, Fagulhas do Forró (produzido por Anchieta Dali). Sua música segue a linha que levou Jorge de Altinho ao sucesso no final dos anos 70. Forrós acelerados, emoldurados por sax, trompete, e trombone. Entre forrobodós, Paulinho Leite abre espaço para cantar um clássico do repertório do Sertão, Conselho a um filho adulto, do repentista Sebastião Dias.

(© JC Online)


Trio Nordestino é uma lenda que continua viva graças à persistência do baiano Coroné

   O trio Nordestino é uma instituição do forró cuja trajetória vem de 1956, com a primeira formação, composta por Dominguinhos, Zito Borborema e Miudinho. A idéia da criação do Trio Nordestino foi de Helena Gonzaga, mulher de Gonzagão, e empresária do grupo. “Quando Dominguinhos e Zito Borborema seguiram carreira solo, liguei da Bahia para ela e Luiz Gonzaga e pedi autorização para usar o nome”, conta Evaldo dos Santos Lima, o Coroné, lembrando que já tocavam em Salvador, com outro nome, Azeitona e seus Vaqueiros.

   A autorização foi concedida e o “novo” Trio Nordestino voltou à estrada, em 1958, com Coroné, no zabumba, Cobrinha, no triângulo, e Lindú, na sanfona e voz, inspirando a criação de dezenas de trios semelhantes: “Às vezes eu tenho até arrependimento de a gente ter adotado o nome, porque é só juntar um sanfoneiro, um zabumbeiro e um cara no triângulo e chamam logo de Trio Nordestino”, comenta Coroné.

   O sucesso do trio, no entanto, limitava-se ao Nordeste e aos emigrantes nordestinos do Rio e São Paulo. Em 1970, finalmente, o grupo conseguiu ser escutado no País inteiro com o megasucesso Procurando tu (de Antonio Barros, que desencadearia a moda do forró de duplo sentido). Naquele ano, só perderam em vendagens para um Roberto Carlos no auge.

   Coroné é o único remanescente da segunda formação do trio (Lindú morreu em 1982 e Cobrinha em 1994): “Eu quis desistir da carreira, mas recebi muito incentivo dos amigos para que continuasse com o trio”, revela Coroné. Atualmente, o grupo é integrado por Luiz Mário, voz e triângulo (ele é filho de Lindú), Beto Souza, sanfona, e Coroné, zabumba.

   O grupo acaba de lançar o CD Baú do Trio Nordestino 2 com Convidados (Indie), comemorando 45 anos. Com exceção de duas faixas (divididas com o Falamansa e Bezerra da Silva), o repertório é de antigos sucessos (Na emenda, Tinguilingue, Atira no bicho).

   O mais conhecido trio pé-de-serra não se limita à sanfona, zabumba e triângulo. É acompanhado também por cavaquinho, violão de 7 cordas. gaita, e é produzido pelo guitarrista Paulo Rafael: “Quem começou com este negócio de pé-de-serra foi o pessoal da PUC (Pontifícia Universidade Católica), no Rio, quando o forró virou moda entre os universitários. Sei que no meio de tudo isto tem é muito aproveitador que, no tempo em que o forró estava em baixa, cantava outros estilos”, dispara Coroné. “Agora tem até um tal de Forró Love, esses grupos de teclado nada têm a ver com o forró, mas tudo bem. O que sei é que o forró é a minha cachaça, meu tudo”.

(© JC Online)

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