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Em busca de novas trilhas

05-06-2008

Paulo Rafael: Baile Perfumado

   
Infográfico
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Crescimento do mercado nacional de cinema abre mais espaço para músicos pernambucanos, que chegam a realizar trilhas sonoras até para filmes internacionais

GEISA AGRICIO

   Além dos momentos sob os holofotes, em cima do palco, ou no instante da audição de seus discos, músicos pernambucanos despontam na arte de encantar grandes platéias também em outras vertentes. A sonoridade local ganha espaço também na forma de trilhas sonoras, que graças ao desenvolvimento do cinema e também das artes cênicas, oferece um novo leque para os profissionais da música.

   Um dos mais antigos pernambucanos no ramo, Naná Vasconcelos já trabalhou em diversos filmes nacionais e internacionais (entre norte-americanos, italianos e franceses), chegando a produzir obras para um longa de Susan Seidelnan, diretora do pop-ano-80 Procura-se Susan Desperadamente, estrelado por Madonna.

   Sua primeira experiência foi em 1969, em Pindorama, de Arnaldo Jabor. Depois de conviver um ano ao lado de Glauber Rocha, nos EUA, o mestre do cinema novo fez questão de colocar uma música sua no filme A Idade da Terra. Entre outras empreitadas, assinou a trilha de longas como O Primeiro Dia (1998), de Walter Salles, e Memórias do Sertão (1997), de José Araújo – para quem atualmente prepara as músicas de As Tentações de São Sebastião. Recentemente, finalizou a trilha do filme Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, que em breve será lançado nos cinemas.

   Outro expert do ramo é o DJ Dolores, que em abril recebeu a Calunga, no Cine PE – Festival do Audiovisual, pela trilha do curta The Lastnote.com, de Léo Falcão. Dolores tem vários prêmios por seu trabalho nos bastidores. Assinou as trilhas dos longas O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (Paulo Caldas e Marcelo Luna, 2000), com Garnizé, e Narradores de Javé (2003), de Eliane Caffé.

   Paulo Rafael realizou, em 1997, uma das mais bem-conceituadas trilhas essencialmente pernambucanas. O Baile Perfumado (Paulo Caldas e Lírio Ferreira) expressou em imagens o florescer da estética mangue, trazendo composições de Chico Science, Fred Zero Quatro e Siba.

   Lúcio Maia, que participou do Baile, ao lado de Chico, anos depois assinou a trilha de Amarelo Manga (2003), de Cláudio Assis, em parceria com Jorge Du Peixe. A trilha virou disco, sendo um caso raro na cinematografia nacional, em que uma trilha sonora cinematográfica ganhou o mercado fonográfico.

   Outro trabalho memorável foi o que o SaGrama realizou em 1999, em O Auto da Compadecida, de Guel Arraes. A trilha agradou público e crítica, e o grupo, até então conhecido apenas no Recife, ganhou notoriedade nacional.

   Fábio Trummer, Ortinho e Karina Buhr (Orange de Itamaracá), ou Bernardo Chopinho e João Cello (curta Copo de Leite) são outros nomes que despontam entre os produtores que assumem trilhas para a tela grande.

(© JC Online)


Venda não acompanha a qualidade

Mesmo sendo o Auto da Compadecida sucesso de bilheteria, a trilha sonora do filme vendeu apenas cinco mil cópias, pouco se comparado aos números estrangeiros

   O amadurecimento paulatino do Recife como um pólo de produção audiovisual favoreceu a efervescência profissional da música produzida para cinema e vídeo. Graças a projetos públicos, como os das leis de incentivo, o crescimento do cinema passou a ‘bancar’ produções de qualidade na cena musical.

   João Cello, que já participou das trilhas de Amarelo Manga, de Cláudio Assis, e Veja Essa Canção, de Cacá Diegues, além de assinar com Bernardo Chopinho a trilha do curta pernambucano Copo de Leite, de William Cubits, acredita que “somos agraciados por estar presenciando o amadurecimento de uma cena em que várias artes comungam”.

   Na última década, a consolidação da imagem do Recife como um centro fomentador de talentos musicais provocou o interesse de cineastas, locais e de outros Estados, em convidar músicos pernambucanos para atuar em suas produções. “Só aqui no Nordeste se encontra um caleidoscópio musical com uma variedade tão grande de criações sonoras, graças a uma bagagem cultural miscigenada. Por isso, os músicos daqui dão ‘panos para as mangas’ para os cineastas”, explica Naná Vasconcelos.

   Fábio Trummer, que depois de algumas participações em cinema ao lado da Orquestra Santa Massa, comanda com Karina Buhr e Ortinho a trilha do longa Orange de Itamaracá, de Franklin Júnior, também avalia o crescimento da participação dos pernambucanos em trilhas sonoras. Para ele, o fato deve-se à versatilidade dos músicos, que procuram explorar novos caminhos.

   Os músicos mostram-se ávidos por acumular experiência em outros contextos culturais e artísticos. Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi, que estreou assinando ao lado de Lúcio Maia a direção musical do curta-metragem Texas Hotel, de Cláudio Assis (obra que deu origem ao longa Amarelo Manga), comenta que o mais interessante do trabalho foi a liberdade que tiveram. “Tanto que o disco que foi lançado não tem exatamente o mesmo conteúdo que compõe o filme. Foi muito válido poder retratar, em composições, o tom das imagens, principalmente quando se trata de representar o seu lugar, como é o Recife para a gente, com os maneirismos a que estamos habituados”.

   MERCADO – A boa fase do cinema local, e a profusão de músicos daqui em trilhas sonoras, dá origem a uma nova gama de possibilidades experimentais para os profissionais, mas a comercialização desse produto ainda é pequena, se comparada a produtos internacionais.

   Baile Perfumado, O Auto da Compadecida e Amarelo Manga fazem parte das pouquíssimas trilhas originais lançadas em CD. Sérgio Campello, do Grupo Sagrama, conta que mesmo com toda a divulgação que teve o filme O Auto da Compadecida, a trilha lançada vendeu apenas cinco mil cópias.

   “Existe um mercado de consumidores de trilhas, filmes como os de Tarantino fazem sucesso por aqui, falta apenas que seja propagada a idéia de que bons filmes nacionais também trazem ótimas trilhas”, comenta Du Peixe.

   E Naná finaliza, “falta visão de mercado, Pernambuco precisa tornar comercializável o que produz e gerar valor. Se essa cena que presenciamos agora estivesse se passando na Bahia, já estava sendo uma nova moda em todo o País, vendendo muito, é uma questão de capacidade logística”. (G.A.)

(© JC Online)


Teatro é campo que atrai olhar dos músicos

   Assim como no cinema, a composição inspirada em cenas e personagens cativa músicos também no campo da criação teatral. Longe dos shows, eles se dedicam a trilhas de espetáculos, num processo diferenciado.

   “No cinema, o mais comum é sonorizar a imagem, colocar uma identidade musical baseada em cenas já gravadas. No teatro, há um construção contínua, a trilha pode ir mudando de acordo com a evolução do espetáculo, com o andamento dos ensaios”, conta Sérgio Campello, do SaGrama, que atualmente participa da direção musical do projeto luso-brasileiro Quem Tem, Tem Medo, dirigido pelo português Júnior Sampaio. Com o SaGrama, Campello participou da realização de duas trilhas, especialmente criadas para o palco, numa integração singular: tanto em A Ver Estrelas, de João Falcão, e Fernando e Isaura, de Carlos Carvalho, o grupo apresentava-se ao vivo no espetáculo.

   Fábio Trummer, que assina as trilhas sonoras da Escambo Companhia de Criação, já participou dos espetáculos A História do Zoológico e Noturno. “É muito legal, por acreditar no grupo, acompanhar o processo de delineamento do espetáculo, dando à trilha a cara que funciona melhor para o que eles necessitam”, comenta.

   O pernambucano Kiko Klaus passou a se dedicar exclusivamente a trilhas teatrais como forma de especialização. Atualmente, integra a Companhia Primeiro Ato, de Minas Gerais. Outro que pretende diversificar, passando do cinema para o teatro, é João Cello. Para sua estréia, já idealiza as composições para a próxima montagem do Companhia Trapiá de Dança.

   Outros nomes ilustres também já se dedicaram a esse trabalho. DJ Dolores, por exemplo, assinou com a Orchestra Santa Massa a trilha de A Máquina, de João Falcão. Entre outras obras, deu o tom a Por um Amor no Recife, de Carlos Bartolomeu, Mãe Gentil, de Ivaldo Bertazzo e, mais recentemente, o espetáculo de dança 7 Solos for 11 Scenes Falling Through, de Peter Michael Dietz, pelo projeto Transatlântico. (G.A.)

(© JC Online)


Narradores de Javé emplaca Dolores em ótima coletânea

   A direção musical no longa-metragem Narradores de Javé, de Eliane Caffé, rendeu ao DJ Dolores, ainda quando estava à frente do projeto Orquestra Santa Massa, a participação numa importante coletânea internacional que compila trilhas sonoras do cinema contemporâneo.

   A série Musique & Cinéma du Monde, do selo francês MK2 Music, com distribuição da Warner Music France, traz no CD dedicado à América Latina a faixa Narradores, de Dolores.

   O álbum é um arremate de pérolas que embalaram películas na telona. Entre os nomes brasileiros, constam gravações de Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Instituto, Marcos Suzano, além de relíquias de Walter Alfaiate, da Velha Guarda da Mangueira, Cartola.

   A compilação primorosa traz entre seus momentos especiais a latinidade de Lucrécia, cantando a Cuba La noche de la iguana, o esplendor da belíssima E minha!, de Uakti, para a trilha de Lavoura Arcaica, O amor daqui de casa ou a ‘fossa rasgada’ com arranjos modernos Estrada do Sol, de Perla.

   Além de Narradores de Javé, participam da seleção trilhas dos longas brasileiros Cidade de Deus e Domésticas (Fernando Meirelles), Dona Linhares, Me and You (Andrucha Waddington), Moro no Brasil (Mika Kaurismaki), Janela da Alma (Walter Carvalho e João Jardim), Lavoura Arcaica (Luiz Fernado Carvalho), Madame Satã (Karin Aïnouz), Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzki), O Homem do Ano (José Henrique Fonseca), Ópera do Maladro (Ruy Guerra), Copacabana (Carla Camurati) e O Invasor (Beto Brant).

   Apesar da maciça participação nacional, o filme infelizmente não tem distribuição prevista para o Brasil. Mas deixa o alerta de que o que se produz para o cinema é passível de render outros produtos culturais. As trilhas sonoras podem ser inspirações de coletâneas nacionais também.

   Fora das telas, o DJ Dolores participa de outra coletânea internacional, que também não chegará ao Brasil: a Awards for World Music, organizada pela BBC Radio, lançada na Inglaterra. O Álbum duplo traz a faixa Santa Massa chegou!!! (G.A.)

(© JC Online)

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