05-06-2008
João Pimentel
Ao subir no palco do Canecão para o
show de lançamento do seu disco “Faz uma loucura por mim”, na noite de
quinta-feira (a temporada continua até o próximo domingo), Alcione, muito
bem assessorada por sua banda repleta de sopros e com uma percussão
vigorosa, deu o seu recado em “Primo do jazz”, parceria primorosa de Nei
Lopes com o talentoso Magno Souza, pandeirista do Quinteto em Branco e
Preto. Em frases como “Meu samba é isso/ é afro-mestiço” e “Comendo pelas
beiradas/ quem pensa que ele morreu não sabe de nada”, ela cantou,
acompanhada de bailarinos ensaiados por Carlinhos de Jesus e a imagem de
Louis Armstrong ao fundo, a proximidade da música negra brasileira e da
americana.
E nada melhor do que essa música para
abrir um show da cantora. Alcione incomoda muito os puristas do samba, que
vêem nela um talento nato para o estilo com que sempre flertou. E realmente
ela é brilhante ao interpretar sambas como “Retalhos de cetim”, de Benito de
Paula; “A que mais deixa saudade”, de Serginho Meriti, autor de “Deixa a
vida me levar”; “Razão e nostalgia”, de Ivone Lara e Bruno Castro; e “É o
amor”, de Sombrinha, Sombra e Rubens Gordinho. Mas o seu talento não se
prende a um estilo. Como raríssimas cantoras no Brasil, Alcione pode cantar
de tudo.
O ecletismo de seu show repleto de
sambas, canções e boleros e que culmina com um pot-pourri de marchas do
carnaval do Maranhão também se refletia na platéia. De Glória Perez a
Jamelão, passando por Mart’nália, Emílio Santiago, Viviane Araújo, Ana
Carolina e Jorge Aragão, a noite de estréia, com a casa abarrotada, refletia
o bom momento da cantora, que voltou a vender bem (120 mil cópias do novo CD
e 30 mil DVDs do disco ao vivo) e a tocar nas rádios.
Mas é no palco que se percebe por
que, mesmo que por tanto tempo alijada das rádios, ela permanece com um
público fiel, que acompanha em coro todas as canções. Com um timbre
especial, afinadíssima, e voz de uma firmeza impressionante, Alcione agrada
a todos os gostos e faz com que até as músicas de apelo popular se tornem
mais palatáveis.
Outro detalhe fundamental para a
atuação da cantora é a banda, na verdade uma miniorquestra que a acompanha.
Os 15 músicos são de primeira e dão o suporte necessário para Alcione.
Um dos momentos mais emocionantes é a
homenagem a Elis Regina, na canção “Sentimental eu fico”, de Renato
Teixeira. Alcione, antes de cantar, lembra de uma passagem em São Paulo,
quando Zuza Homem de Mello cumpriu a promessa de promover um encontro entre
as duas. Era a época do show “Falso brilhante” e Elis não sabia se viria ao
Rio por não ter com quem deixar os filhos.
— Eu quase me ofereci para ser babá —
brincou Alcione. — Imagina a Maria Rita sendo ninada com “Sufoco” e o Pedro
Mariano com “Não deixe o samba morrer”.
Dando uma olhada no roteiro,
percebe-se que Alcione não está nem aí para rótulos. Ela canta sucessos como
“Faz uma loucura por mim”, “O pior é que eu gosto” e “Enquanto houver
saudade”, passa pelos já citados sambas e surpreende cantando “Beyond the
sea”, de Charles Trenet e Jack Lawrence. Linda também é a canção do mineiro
Vander Lee, “Mais um barco”.
O final é apoteótico, com uma
seqüência das marchinhas maranhenses de tirar o fôlego. Enfim, é a apoteose
de uma grande cantora, no auge da sua forma vocal, e que se dá ao direito de
passear por todos os caminhos que a sua intuição mandar.
(© O Globo)
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