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O artesão dos sons

05-06-2008

Tavares da Gaita

   

Dono de uma obra original, Tavares da Gaita é uma unanimidade local, mas amarga a falta de patrocínios

Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO

   O lavador de roupas, no fundo de uma casa simples, dá suporte a uma tábua que abriga as ferramentas: serrotes para cano PVC, paus e apitos entre outros objetos recicláveis. Dali vão saindo os novos instrumentos que serão batizados por nomes pouco convencionais: pau-pandeiro reco-reco, acoquê, maraca apito, e outros que de tão novos ainda não foram nomeados. Tavares da Gaita é pego de surpresa pela reportagem do DIARIO, mas em qualquer dia que chegássemos lá, ele estaria na mesma rotina criativa. Dando graças a Deus por estar vivendo uma fase de saúde estável, ele passa o dia em pé, defronte a esse lavador, criando peças que depois serão guardadas em caixotes de papelão, num minúsculo quartinho, no canto do mesmo quintal. Poderão ficar lá para sempre ou, de repente, serem compradas por algum músico, pesquisador ou admirador de sua arte, que sempre estão passando pela sua casa.

   Poderíamos ir mais longe, mas Caruaru e depois Alto do Moura - onde os descendentes dos mais famosos mestres do artesanato ajudam a manter e a expandir a cultura do lugar - foram as últimas paradas de nossa viagem, em busca dos mestres da Cultura Popular de Pernambuco. A idéia era encerrar esta série de reportagens iniciada no domingo com um dos maiores patrimônios vivos de Pernambuco. Tavares da Gaita engole a indignação e chega a se emocionar ao falar da falta de apoio para sua produção. No ano passado, gravou o CD Sanfonas de Boca com o bluseiro carioca Jeferson Gonçalves, mas continua a esperar pelo patrocínio que irá viabilizar a prensagem e outras etapas de pós-produção do disco.

  No ano passado, foi o homenageado do São João de Caruaru, cidade que, na sua opinião, deve muito ao seu nome. Mágoas à parte, Tavares não se deixa abater pelas doenças, que muitas vezes o impedem de trabalhar. Segue com suas criações, atividade que exerce desde 1982, quando desistiu de procurar nas lojas uma percussão diferente. "Procurava um instrumento que desse mais de um som, então prometi a mim mesmo que iria fazer", conta. Não foi difícil pois, antesde ser seduzido pela música, foi marceneiro, sapateiro e alfaiate. Promessa cumprida e mantida, hoje Tavares tem uma coleção de mais de 200 instrumentos de percussão.

  Assim como a música que extrai da gaita, as criações são personalíssimas. Num instrumento sem escalas, ele é capaz de executar Asa Branca ou Vassourinhas. O dom, segundo ele, vem do mestre maior, e olha para o céu. "Um maestro um dia me perguntou como eu podia fazer isso", orgulha-se Tavares, que busca na natureza os sons que irá reproduzir: no apito reproduz o canto do galo de campina ou de um sabiá. Na gaita, como um exímio jazzista da cultura popular, ele cria, de improviso, xotes, valsas, boleros, frevos, o que pedir. Um livro com mais de 1500 assinaturas e declarações - deixadas pelos que vão conhecer Tavares em sua casa - é a prova do interesse que sua obra, música e artesanato, provoca nas pessoas. Deixamos também por escrito nosso apreço e subimos para o Alto do Moura, localidade onde outros nomes também pedem por registros estratégicos.

(© Pernambuco.com)


Mercado de produção ainda emergente

   Promover a cultura popular hoje em Pernambuco, Estado onde tais manifestações apesar de numerosas não encontram políticas de apoio, é tarefa para uma minoria. Os que se aventuram a transformar folclore em produto e renda podem ser rotulados de duas maneiras. Na primeira categoria estão os inexperientes e ingênuos. Trabalham por amor à causa, sem remuneração na maioria dos casos. São parte do próprio grupo, um integrante mais capacitado, com maior poder de articulação, amigo ou parente. Cuidam da agenda de apresentações, da captação de verbas para patrocínio, divulgação de espetáculos na mídia, etc.

   Um caso que ilustra bem a situação acontece com o grupo Coco Raízes de Arcoverde. Formado por duas tradicionais famílias do município sertanejo de Arcoverde, os Gomes e os Calixto, o Coco Raízes encantou a população do Estado com sua rítmica peculiar, que mescla o coco de roda do litoral com as batidas indígenas do toré. O resultado é um coco de trupe, suingado, colorido e vibrante.

   O coco está no seu segundo disco, intitulado Godê Pavão. Selos da Inglaterra e Portugal querem lançar o CD no exterior, mas o grupo ainda está envolvido com um sério problema, resultado de ingenuidade, no 1º contrato para o primeiro CD, Raízes de Arcoverde. Esgotado nas lojas, o disco não pode ser prensado outra vez até que o grupo pague para ter novamente o direito sobre a gravação. "Isso mostra o quanto ainda é difícil tratar com empresas e produtores que trabalham com a cultura popular. Estamos saindo do vermelho, criamos um site na Internet, revimos cachês e temos muitos shows pela frente", resume Leo Antunes, que "dá uma força" na produção do Coco Raízes.

   No segundo grupo de produtores da cultura popular estão as pessoas que vêm se formando à medida que as próprias manifestações se projetam no Estado. "A cultura popular está se inserindo no mercado de produção, são dez anos de batalha", avalia o produtor Afonso Oliveira, que virou um especialista na área. Sua produtora recentemente aprovou pelo programa Petrobras Cultura oprojeto Toques e Trocas, através do qual pretende estruturar grupos populares da Paraíba, Alagoas e Pernambuco.

   Não se pode esquecer também que dezenas de artistas locais estão conseguindo estabilidade e projeção naquilo que fazem. Selma do Coco já viajou a trabalho duas vezes para os Estados Unidos; mestre Afonso, do Leão Coroado, acaba de chegar de mais uma série de oficinas no Rio de Janeiro; o maracatu Nação Porto Rico está no segundo CD e este mês faz turnê na Europa; mestre Salustiano agora tem sua própria casa de shows, na cidade Tabajara. Entre outros exemplos bem sucedidos. Então um mercado promissor está se formando, à base de autoprodução, alta produção e ainda à custa de muitos aproveitadores.

(© Pernambuco.com)

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