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05-06-2008
SCHNEIDER CARPEGGIANI No clássico de Dante, A Divina Comédia, a trama segue uma trajetória ascendente: do inferno ao paraíso. Na Divina Comédia da Fama - coletânea de crônicas e historietas sobre ‘Darlenes’ e aspirantes a celebrities em geral, de Xico Sá, o roteiro é inverso: do purgatório, com breve passagem pelo céu e descida rápida ao fundo do poço. O assunto que é sério, porque espelha a grande paranóia desse início de milênio (ou seja: ser star!), ganha toques de humor nas mãos do jornalista, e um humor que às vezes é ácido, e até triste. Nesta entrevista para o JC, o autor fala como foi sua descida ao universo dos ‘quero ser famoso’, nestes tempos de reality shows, celebridades-miojo e em que a Ilha de Caras é o troféu máximo.
XICO SÁ – Além do tema da fama ter sido tratado fartamente por Dante, a estrutura da sua comédia é perfeita para uma paródia dos tempos modernos. O poeta italiano já advertia: “queima a vida e a desperdiça aquele que vive sem a fama.” Certamente não se referia às celebridades vagabundas de hoje, e, sim, aos célebres por notório saber, como ele mesmo. JC - Seu livro anterior foi uma coletânea de artigos a partir do seu site, O Carapuceiro, que trata com humor questões envolvendo o ‘masculino’. Neste, você vem discutindo o universo das celebridades. O que lhe despertou para o tema? XS – O novo livro nasceu de uma conversa entre a artista plástica Pinky Wainer e Isa Pessôa, editora da Objetiva. Elas estavam em um salão repleto de celebridades e tiveram o estalo, há dois anos e meio. Aí me desafiaram a fazer uma crônica de costumes, à moda antiga, como o próprio padre Lopes Gama (jornal O Carapuceiro) sobre o tema. Comecei a pesquisa, as investigações, freqüentei a mundanidade e voltei com o livro pronto. O livro mistura de Machado de Assis, que tem um ótimo conto sobre o assunto - O homem célebre – a Tati Quebra-Barraco, a funkeira que tem uma frase emblemática e radicalmente pop, capaz de sintetizar tudo que acontece hoje: “Sou feia, mas tô na moda”. JC - Você acha que as pessoas já tomaram consciência da paranóia que é hoje, em dia, querer ser famoso? XS - A fama, com essa vulgaridade que temos hoje, é uma espécie de droga, é o crack ou a cocaína dos novos tempos. Andy Warhol falou que no futuro todos teríamos 15 minutos de fama, a coisa radicalizou, acho que os 15 minutos estão reduzidos a quatro, cinco, chegamos à era da celebridade-miojo, aquela que se faz e desaparece no tempo do cozimento de uma dessas iguarias pré-prontas. Mas acho, sim, que muita gente já se deu conta de que a paranóia de ser famoso é uma desgraça, leva ao inferno, como na minha comédia. JC - A novela das oito da Globo, Celebridade, promove algum tipo de diálogo com seu livro? XS - O livro coincidiu com a novela por conta dos meus seguidos atrasos na entrega do texto à editora, mas foi encomendado muito antes. Nada contra a coincidência, claro. Gilberto Braga é o Balzac de Ipanema, é o tampa de crush no gênero, mas pegou apenas o aspecto suburbano das Darlenes da vida, não pôde ser auto-irônico, não satirizou o próprio mundo das novelas, que são verdadeiras fábricas de celebridades. A TV Globo não se permitiu a auto-ironia, justo a emissora que é responsável por grande parte dos dejetos televisivos, espécie de lixão da Muribeca eletrônico, com todo o respeito ao famoso lixão. Meu livro é uma crônica mais abrangente, pega desde as tiradas do filósofo Mathias Aires, autor do primeiro livro sobre o tema no Brasil - Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens, do século 18 – ao comportamento dos moderninhos (os ultra-hype-fashion, como diz a Érika Palomino) da noite paulistana. JC - Como a ‘divina comédia da fama’ respinga no mundo dos jornalistas. É comum você encontrar profissionais que querem ser a própria notícia? XS - A nossa galáxia de Gutenberg está cheia de gente metida, é uma profissão onde a egotrip aflora e abunda a todo instante. Comete-se todos os pecados dantescos, a soberba, a luxúria, a inveja... Sem se falar na gula durante as bocas-livres e o jabaculê propriamente dito. Por lidar com famosos de todos os gêneros, de artistas a jogadores de futebol, passando por bandidos famosos, os jornalistas muitas vezes se confundem e pegam, por osmose, fama e a arrogância das celebridades. JC - Quem é sua ‘celebridade tablóide brasileira’ favorita e por que? XS - Falo no livro do poder que a bunda tem, como metonímia nacional por excelência, em celebrizar e manter muita gente na roda da mídia. Por isso minha preferida é a Rita Cadilac, a nossa bunda de maior longevidade, está na ciranda da fama desde o Cassino do Chacrinha. Manteve-se tanto como símbolo da tara da poeira, que a adora, como no mundinho cult, que a festeja. (© JC Online) UM BREVE GLOSSÁRIO DA FAMA, POR XICO SÁ Área Vip - Curralzinho que separa os normais e os anônimos dos famosos.Arrancar o filme - Da máquina do fotógrafo. Apelo ortodoxo de um artista em momento que se acha invadido na sua privacidade. Babado - Expressão surgida da prosódia gay e propagada na imprensa pela colunista Erika Palomino, autora do livro Babado Forte (1999). De uso variado: “rolou o maior babado” (maior festa), “babado fortíssimo” (superlativo para um acontecimento badalado ou uma grande fofoca), “qual é o babado” (qual é o problema) etc. Antigamente, o mesmo vocábulo pertencia a um célebre ditado popular: “você pensa que babado é bico? babado não é bico não” (você está muito enganado, confundindo as coisas). Botox - Uma rápida injeção que possibilita uma esticada na pele ou breve reforma nos lábios. No universo dos famosos, esse milagre-relâmpago é tão comum como ir ao dentista. Celebridade-miojo - Diz-se daquelas criaturas que obtêm a fama pelo mesmo tempo de cozimento de tal iguaria, metade dos 15 minutos previstos por Andy Warhol. Dar para as fontes - É dessa forma grosseira e moralista que se trata o envolvimento amoroso ou simplesmente sexual entre jornalistas que cobrem o circo dos célebres e os artistas. Muitas vezes é do interesse de ambas as partes. Cada um tira o seu proveito. “Estarei te ligando” - Típica frase do mundinho dos quase-famosos. É a praga do gerúndio espalhada a partir das secretárias de estrelas ou das próprias beldades. Pague com a mesma retórica: “estarei te atendendo”. The Face - Revista chique inglesa. Referência para os famosos, principalmente do mundo fashion e da música. Fausto - Mito de. Aquele que vende a alma ao diabo ou a Mefistófeles, como no drama escrito em 1790 pelo escritor alemão Goethe, para obter a glória em vida. Fusion food - Mania de Nova adotada sem cerimônias pelos descolados dessas plagas. Todo famoso metido a fino adora. É aquela cozinha que mistura uma coisinha da Tailândia ali, com um arrozinho selvagem acolá, uma massinha mais adiante... Hi-lo - Resultado das abreviaturas de high (alto) e low (baixo). Conceito fashion dos anos 00. É a mistura de peças que aparentemente não combinavam ou não batiam com as convenções da moda. Vestido longo com tênis, entendeu? É por aí, fique à vontade. Low profile - Discreto, na sua, reservado. Na faixa - Festas com tudo de graça, boca-livre, normalmente atrai hordas de penetras. Rúcula - Nenhuma verdura é tão amada e idolatrada, principalmente pelas gazelas célebres, como esta. Sociedade do espetáculo - Livro fundamental do pensador francês Guy Debord para entender como tudo virou um grande circo, cenário apropriado para a comédia da fama hoje na ordem do dia. Paparazzi - O termo vem do filme A Doce Vida de Federico Fellini, no qual os fotógrafos eram tratados assim. (© JC Online)
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